Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Capítulo 6 - 1952 Transcendência Descendente

Capítulo 6

 

1952

 

Transcendência Descendente

ALDOUS HUXLEY

 

Num epílogo para Os demônios de Loudun, seu relato Aistórico de histeria em massa e exorcismo num convento francês no século XVII, Huxley apoiou-se nas idéias de Philippe de Felice apresentadas em Foules en délire, ecstases collectives (Multidões em delírio, êxtases coletivos), de que havia três tipos de autotranscendência: descendente, ascendente e horizontal. O uso de drogas, a sexualidade elementar e o envenenamento em massa eram caminhos no sentido da primeira categoria. Os métodos químicos de autotranscendência davam, na melhor das hipóteses, uma revelação momentânea, a um custo considerável. Depois de tomar mescalina, no entanto, ele escreveu (a Osmond) sobre sua crença em que essa droga “pode ser usada para suscitar a autotranscendência horizontal que acontece dentro de grupos com um propósito consciente [... ] de modo que se torne uma transcendência ascendente [...]”.

 

Sem uma compreensão do desejo profundo que têm os seres humanos de se autotranscenderem, da relutância natural que experimentam em tomar o caminho duro e difícil da ascensão espiritual, e da conseqüente procura doe uma falsa libertação, ou em torno de um aspecto de sua personalidade, não poderemos entender a época em que vivemos ou mesmo a História em geral, a vida como foi vivida no passado e como o é em nossos dias. Por esta razão, proponho discutirmos alguns dos mais comuns sucedâneos da Graça, nos quais e através dos quais homens e mulheres têm tentado escapar da torturante consciência de serem apenas eles mesmos.

Atualmente, na França, existe um comerciante de bebidas alcoólicas para cada cem habitantes. Nos Estados Unidos, há provavelmente pelo menos um milhão de alcoólatras inveterados, além de um número bem maior de beberrões contumazes, cuja doença ainda não se tornou fatal. Quanto ao que se refere ao consumo de inebriantes no passado, não temos dados estatísticos precisos. Na Europa Ocidental, entre os celtas e os teutões, durante toda a Idade Média e o início da época moderna, o consumo do álcool era talvez maior do que é hoje. Enquanto tornamos chá, café ou soda, nossos ancestrais se refrescavam com vinho, cerveja, hidromel e, séculos depois, com gim, brandy e “usquebaugh”. Beber água regularmente era uma penitência imposta aos malfeitores, ou então, considerada pelos religiosos, juntamente com o vegetarianismo ocasional, como uma mortificação muito severa. Não tomar inebriantes era uma excentricidade bastante marcante, a ponto de despertar comentários e apelidos depreciativos. Daí tais sobrenomes como o italiano Bevilacqua, o francês Boileau e o inglês Drinkwater.

O álcool é apenas uma das muitas drogas utilizadas pelos seres humanos como meio de libertação para o eu insulado. Entre os narcóticos naturais, estimulantes e alucinatórios, não existe um cujas propriedades não sejam conhecidas desde tempos imemoriais. Pesquisas modernas nos deram um bom número de novos sintéticos, mas no que se refere aos venenos naturais, simplesmente desenvolveram-se métodos mais aperfeiçoados de extração, concentração e nova composição dos elementos já existentes. Do ópio ao curare, do cânhamo indiano à cocaína da Andes e ao fungo siberiano, todas as plantas, arbustos e fungos capazes de quando ingeridos entorpecer, excitar ou provocar visões, já tinham sido descobertos e utilizados de forma sistemática. O fato é significativamente estranho; pois parece provar que sempre e em todos os lugares os seres humanos sentiram a precariedade absoluta de suas existências pessoais, a miséria de serem apenas o seu ser insulado e não outra coisa maior, alguma coisa, nas palavras de Wordsworth, “far more deeply interfused”.' Explorando o mundo à sua volta, o homem primitivo “experimentou todas as coisas que o cercavam e se fixou no bem”. No que se refere à autopreservação, o bem era cada fruto e folha comestíveis, cada semente, raiz e noz salubres. Mas em outro contexto – o da insatisfação pessoal e do desejo de autotranscendência – o bem era tudo contido na natureza por meio do que a consciência individual pudesse ser transformada. As mudanças provocadas pelas drogas podem ser manifestamente para pior, podem causar mal-estar no momento e vício no futuro, assim como degeneração e morte prematura. Nada disso importa. Só o que interessa é a consciência, pelo menos por alguns momentos, por uma ou duas horas que seja, de ser alguém, ou na maioria dos, casos, outra coisa que não o ser insulado. “Eu vivo, ou por outra, não eu, mas o vinho, o ópio, a mescalina e o haxixe vivem em mim.” Atravessar os limites do eu insulado representa uma tal libertação que mesmo quando a autotranscendência é obtida por meio de náuseas que levam ao delírio, de paralisias que levam à alucinação e ao estado de coma, a experiência com drogas foi sempre considerada pelos primitivos, e mesmo pelos civilizados, como intrinsecamente divina. êxtases através do uso de inebriantes constituem ainda uma parte essencial da religião de muitos africanos, sul-americanos e polinésios. Foi também outrora, o que fica provado em documentos que se conservaram, parte não menos essencial da religião dos celtas, teutões, gregos, povos do Oriente Médio e dos conquistadores arianos da índia. A idéia não se reduz a que a “cerveja justifica melhor que Milton os objetivos de Deus em relação aos homens”. A cerveja é o deus. Entre os celtas, Sabazios era o nome divino que se dava à alie-nação sentida quando sob os efeitos da cerveja. Mais ao sul, Dionísio era, entre outras coisas, a concretização sobrenatural e dos efeitos psicofísicos provocados pelo excesso de vinho. Na mitologia dos vedas, Indra era o deus de um entorpecente chamado soma, hoje em dia desconhecido. Herói exterminador de dragões, Indra era a projeção aumentada sobre o céu do estranho e glorioso não-eu experimentado pelo intoxicado. Identificado com a droga, ele se torna, como Soma-Indra, a fonte da imortalidade, o mediador entre o humano e o divino.

Nos dias de hoje, a cerveja e os demais tóxicos, atalhos para a autotranscendência, não são mais adorados como deuses. Houve uma mudança na teoria, mas não na prática; pois muitos milhões de homens e mulheres civilizados continuam a prestar sua devoção, não ao Espírito libertador e transfigurador, mas ao álcool, ao haxixe, ao ópio e seus derivados, aos barbitúricos e outros produtos sintéticos acrescentados ao velho catálogo de venenos capazes de provocar a autotranscendência. Em cada caso, é claro, o que parece um deus é na verdade um demônio, o que simula liberação é de fato escravidão. A autotranscendência é invariavelmente descendente, no sentido do sub-humano, da degradação pessoal. [... ì

Até que ponto e em que circunstâncias é possível a um homem usar o caminho descendente para atingir a auto-transcendência espiritual? À. primeira vista, tudo parece indicar que o caminho para baixo jamais terá a oportunidade de ser o caminho para cima. Mas no domínio da existência os problemas não são tão simples como são no nosso bonito e bem organizado mundo das palavras. Na vida real um movimento descendente pode algumas vezes se tornar o início de um ascendente. Quando a concha do ego é partida e começa a surgir uma consciência subliminar e fisiológica do “não-eu” sob nossa personalidade aparente, acontece algumas vezes que captamos um lampejo, rápido mas apocalíptico, daquele “Não-eu”, que é o Fundamento de todo o nosso ser. Enquanto permanecemos isolados em nossa identidade não temos consciência dos diversos não-eus aos quais estamos ligados – o não-eu orgânico, o não-eu subconsciente, o não-eu coletivo do meio psíquico no qual nossos pensamentos e sentimentos possuem sua vida, e o imanente e transcendente não-eu do Espírito. Qualquer fuga, mesmo através de um caminho descendente, para fora da individualidade insulada, torna possível uma percepção ao menos momentânea do não-eu em cada nível, incluindo o mais elevado. William James, em suas Variedades da experiência religiosa, dá exemplos de “revelações anestésicas” que se seguem a inalações de gás hilariante. Teofanias semelhantes são algumas vezes experimentadas por alcoólatras, e existem talvez momentos durante a intoxicação produzida por quase qualquer tipo de droga, quando a percepção de um não-eu superior ao eu em processo de desintegração torna-se possível por um breve lapso de tempo. Mas esses momentâneos surtos de revelação custam muito caro. Para os viciados em drogas, o momento de percepção espiritual (se surge realmente) cede bem cedo lugar a um estupor sub-humano, exaltação ou alucinação, seguidas por terríveis ressacas, e a longo prazo, por um enfraquecimento permanente e fatal da saúde física e mental. Uma vez ou outra uma única “revelação anestésica” pode agir, como qualquer outra manifestação da divindade, no sentido de estimular quem a experimenta a um esforço de autotransformação e autotranscendência ascendente. Mas pelo fato de tal coisa poder eventualmente acontecer não se justifica o emprego de métodos químicos de autotranscendência. Esse é um caminho descendente, e a maioria dos que o tornam atingirá um estado de degradação, onde períodos de êxtase sub-humano serão alternados,'por períodos de individualidade consciente tão miserável que qualquer fuga, mesmo que seja para o suicídio lento do vício das, drogas, será preferível.

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*Muito mais profundamente entrelaçada. (N. da T.)

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**No original, Otherness : Não-eu, Não-identidade. (N. da T.)

***Benjamin Blood criou o termo “revelação anestésica” em 1874.