Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 34 - 1961 Explorando as Fronteiras da Mente
Capítulo 34
1961
Explorando as Fronteiras da Mente
ALDOUS HUXLEY
Este artigo para o Fate Magazine descreve as impressões de Huxley durante um verão no estrangeiro em 1961, quando ele participou de um Congresso de Parapsicologia em Saint-Paul-de-Vence, encontrou-se com o médico italiano de Turim que praticava o método chinês da acupuntura, visitou o Dr. e Sra. Albert Hofmann nos subúrbios de Zurique, e depois voou para o Congresso de Psicologia Aplicada em Copenhagen. Ele concluiu com um tom político, trazendo à tona seu pacifismo positivo de uma vida inteira. Uma tradução francesa desse artigo apareceu em Planète. Tanto a revista norte-americana quanto a francesa são publicadas em grande parte para um público preocupado com o oculto, que encontrou em Huxley, se não um paladino, pelo menos um aliado extremamente competente.
Menos de duas horas de tempo de vôo separa o Báltico do mundo do Mediterrâneo. Em milhas e minutos, as distâncias entre meus vários portos de parada são bem pequenas; mas em qualquer medida mental elas são enormes. Entre a psicoterapia pós-freudiana e a acupuntura chinesa pré-hipocrática existe um grande abismo.
A telepatia parece nada ter a ver com a psicologia industrial e a medida de Q.I. A experiência visionária induzida pelos sintéticos que alteram a mente, do Dr. Hofmann, está realmente bem distante do tipo de pensamento que resultou num trabalho sobre “O Efeito do Meprobamato e do Sulfato Dextro-Anfetamínico nos Tempos de Reação de Pacientes Normais, Não-Hospitalizados, a Palavra Neutras e Proibidas”. E tudo isto está a uma enorme distância daquela suprema “liberação do conhecido'’ sobre o qual Krishnamurti fala. Apesar disso, todos esses universo incomensuráveis coexistem dentro do crânio humano Real ou potencialmente, eles são todos nossos universos. “Que obra é um homem!”
O congresso em Saint-Paul-de-Vence foi organizado pela Fundação de Parapsicologia, cujo presidente é essa competente, sensível e infatigável instigadora da pesquisa psíquica, a Sra. Eileen Garrett. Havia quatro psiquiatras, italianos e suíços, um endocrinologista parisiense e outro médico francês especializado em medicina psicossomática, um eminente neurologista inglês, o Dr. Grey Walter, e um jovem parapsicólogo americano, ativamente engajado em pesquisa e experimentação.
Foram lidos vários trabalhos – sobre casos de rapport apa-rentemente telepáticos entre médico e paciente em psicoterapia; sobre a produção de hipnose à distância por meios telepáticos; sobre uma série de experiências que pareciam demonstrar que os sonhos de uma pessoa adormecida podem ser afetados telepaticamente; e sobre outra série, na qual um instrumento chamado pletismógrafo foi usado para registrar as mudanças do corpo ocorrendo, a nível inconsciente, em resposta a estímulos telepaticamente recebidos. Esses relatórios de pesquisa na Suíça e na América foram precedidos pelo trabalho levado a cabo na Rússia há 25 anos, mas só recentemente publicado, discutido abertamente e recomeçado.
O objetivo da pesquisa soviética era descobrir se a P.E.S. é um fato e, caso seja, se ela pode ser explicada em termos de física, como um produto de alguma espécie de radiação eletromagnética. Pessoas sensitivas, presas em cápsulas de chumbo e imersas em banheiras de mercúrio, tiveram desempenhos significativamente bons. Os experimentadores foram forçados a concluir – e nos dias de Stalin a conclusão era extremamente embaraçosa – que a telepatia ocorre e não é uma forma de rádio.
Que é que se faz sobre informações que não se prestam a ser explicadas em termos de teorias aceitas na época? Há duas gerações, William James comentou que na maioria dos casos a pessoa agarra-se à sua teoria e faz o possível para ignorar a informação perturbadora. A idéia de Herbert Spencer de uma tragédia (nas palavras de T. H. Huxley) era: uma bela generalização assassinada por um fato horrível.
A alma escolástica de Spencer continua em marcha, e a tendência a preferir a generalização alta e santificada às informações baixas, estranhas e presumidas ainda é encontrada até nos círculos científicos mais respeitáveis. Em termos de teorias correntemente aceitas, os fatos da parapsicologia “não fazem sentido”. Que é que se pode fazer? Deveríamos fechar os olhos na esperança de que, se não olharmos para eles, eles vão desaparecer e nos deixar em paz? Ou deveríamos aceitá-los?
Aceitá-los por enquanto como anomalias inexplicáveis, enquanto fazemos o possível para modificar as teorias correntes de tal modo que elas “salvem as aparências” – todas as aparências, inclusive aquelas que agora parecem fora do âmbito de explicação. A Sociedade de Pesquisa Psíquica foi fundada em 1882, e aqueles que escolheram a segunda dessas duas abordagens possíveis aos fenômenos-psi estão ainda esperando uma teoria capaz de salvar todas as aparências, do atômico ao extra-sensorial. De William James a C. D. Broad e H. H. Price em nossos dias, uma sucessão de filósofos preocupados com os fenômenos-psi fez insinuações de modos pelos quais as aparências podem ser salvas, mas suas sugestões nunca foram elevadas ao nível de uma teoria testável, e os fatos da parapsicologia permanecem, depois de 80 anos de estudo sistemático, tão estranhos e inexplicáveis quanto sempre foram.
De Saint-Paul e o mundo extremamente anômalo da parapsicologia, viajei para Turim, onde minha esposa e eu passamos uma noite memorável conversando com o Dr. Quaglia Senta so-bre sua experiência no universo ainda um tanto anômalo da acupuntura. Os missionários jesuítas foram os primeiros europeus a in-formar sobre esse curioso ramo da medicina chinesa. Mas foi só em 1928 que um relatório completo e acurado sobre a acupuntura chegou ao Ocidente. Nesse ano Soulié de Morant voltou da China e publicou seu primeiro tratado sobre o assunto.
Hoje em dia, várias centenas de médicos europeus (e um único clínico inglês) combinam a ciência e arte da medicina ocidental com a antiga ciência e arte da acupuntura. Congressos Internacionais de Acupuntura estão sendo realizados (o último foi na Universidade de Clermont Ferrand), e relata-se que médicos soviéticos estão agora tomando um grande interesse pelo assunto.
É obviamente incrível que uma agulha enfiada na superfície exterior da perna, um pouco abaixo do joelho, afete o funciona-mento do fígado. Se nossa principal preocupação é salvar, não as aparências, mas nossa teoria, estaremos tentados a ignorar os fatos empiricamente estabelecidos e afastar as alegações dos acupunturistas como mera superstição e charlatanismo. Não pode ser verdade porque, dentro de nosso atual quadro de referências, não faz sentido.
Para os chineses, pelo contrário, pode fazer perfeitamente sentido. No organismo normalmente saudável, eles afirmam, há uma contínua circulação de energia. A doença é ao mesmo tempo uma causa e um resultado de um distúrbio dessa circulação. Os órgãos vitais podem sofrer de deficiência ou de excesso dessa força vital. A acupuntura redirige e normaliza o fluxo de energia.
Isto é possível porque, empiricamente, os membros, o tronco e a cabeça são percorridos por “meridianos” invisíveis, de alguma forma relacionados aos vários órgãos do corpo. Nesses meridianos estão localizados pontos especialmente sensíveis. Uma agulha inserida num desses pontos vai afetar o funcionamento do órgão ligado ao meridiano onde fica o ponto. Ferroando um certo número de pontos cuidadosamente escolhidos, o acupunturista experiente restabelece a circulação normal de energia e traz o paciente de volta à saúde.
Mais uma vez somos tentados a dar de ombros e dizer que isso não faz sentido. Mas ao ler sobre os acontecimentos do mais recente Congresso de Acupuntura, descobrimos que os experimentadores conseguiram, por meio de delicados instrumentos de medição elétrica, traçar o curso dos meridianos chineses, e que quando um ponto estratégico é ferroado com uma agulha relativamente longa, podem ser registradas mudanças no estado elétrico. Assim, talvez, afinal de contas, as estranhas aparências da acupuntura vão acabar sendo salvas até mesmo por nossas teorias.
Enquanto isso, permanece o fato de, que existem sintomas patológicos nos quais os velhos métodos chineses funcionam muito bem. Entre esses sintomas patológicos (e isto, em nosso contexto presente, é particularmente interessante) estão vários estados mentais indesejáveis – certos tipos de depressão e ansiedade, por exemplo – que, estando presumivelmente ligados a distúrbios orgânicos, desaparecem logo que é restaurada a circulação normal da energia. Resultados que vários anos no sofá do analista não conseguiram produzir podem ser obtidos, em alguns casos, por duas ou três picadas de uma agulha de prata.
E isto me traz à conversa nos subúrbios de Zurique, com o Dr. e a Sra. Albert Hofmann. Nós, seres humanos, na frase de Andrew Marvell, somos “anfíbios racionais”, habitando simultaneamente um mundo-da-alma e um mundo de experiência pessoal, um mundo de noções abstratas e generalizações e um mundo de acontecimentos únicos. O Dr. Hofmann é um eminente químico, cujo trabalho mais recente e espetacular tem sido feito nessa estranha fronteira entre os dois mundos, onde a menor das mudanças bioquímicas produz enormes e revolucionárias mudanças na mente.
Os sintéticos do Dr. Hofmann são novos; mas os problemas éticos, filosóficos e religiosos que eles levantam tão dramaticamente são muito antigos. É um fato facilmente observável que a cerveja (juntamente com o chá, o café, a aspirina, as vitaminas e um certo número de energizantes e tranqüilizantes psí-quicos) faz “mais do que Milton pode fazer/Para justificar ao homem os caminhos de Deus” – um fato que algumas pessoas acham deprimente e humilhante, enquanto que outras acham consolador e um tanto divertido. Até que ponto nossos pensamentos, nossas crenças e ações são produto de nosso físico e tempera-mento herdado, e das flutuações, em resposta a acontecimentos internos e externos, da química de nosso corpo? Até que ponto é válida uma filosofia baseada no estado de espírito (digamos, a convicção do pecado) que pode ser radicalmente modificada pela picada de uma agulha ou uma pequena dose diária de Ritalin? E essas experiências provocadas pelas drogas alteradoras da mente, fisicamente inofensivas, do Dr. Hofmann – experiências de um mundo transfigurado até um ponto de beleza inimaginável, carregado de significado intrínseco e manifestando, apesar do sofrimento e da morte, uma essencial e (não há outra palavra) divina Perfeição? Sim, e elas? As opiniões diferem.
Para a maioria daqueles a quem as experiências foram concedidas, o valor delas é evidente por si mesmo. Segundo o Dr. Zehner, autor de Mysticism, sacred and profane (Misticismo, sagrado e profano), sua indução deliberada é considerada imoral. A isso responde seu colega, o Professor Price: “Fale por si só!”.
Price concordaria com William James em que, se a pessoa pode conseguir a façanha sem se prejudicar ou a outros, a indução a estados anormais de consciência é salutar e esclarecedora. E há muito tempo, defendendo William James contra aqueles que o acusavam de fazer experiências com o óxido nitroso, Bergson destacou que a substância química não era a causa das notáveis experiências metafísicas de James, meramente sua ocasião. As mesmas experiências poderiam ter sido proporcionadas por meios puramente psicológicos, pela mortificação e pelos exercícios usados pelos místicos e visionários de todas as tradições religiosas, por qualquer método, na verdade, capaz de alterar os estados da mente ou modificar a química do corpo de tal forma a diminuir a barreira que separa o mundo fabricado por nossas percepções, pensamentos e sentimentos cotidianos, biologicamente úteis e socialmente condicionados, dos mundos estranhos e no entanto subjetivamente (e talvez até mesmo objetivamente) não menos reais, revelados quando o modo de consciência é mudado do utilitário para o estético ou espiritual.
Espiritual... Para ouvidos sensíveis, cônscios de sua proximidade à tagarelice beata, esta é quase uma palavra feia. No entanto, que outra palavra podemos usar em certos contextos? Lendo Meister Eckhart, por exemplo, ou ouvindo Krishnamurti, como fizemos em Gstaad, somos forçados a reconhecer que “espiritual” pode ser mot juste. “Eu lhes mostro a tristeza e o fim da tristeza.”
Todos os grandes mestres da vida espiritual (esta palavra de novo!) têm sido ao mesmo tempo profundamente pessimistas e quase infinitamente otimistas. Se certas condições forem cumpri-.das, os seres humanos poderão deixar de se comportar como as criaturas patéticas ou deploráveis que eles erradamente pensam que são, e ser o que de fato sempre foram, se apenas tivessem dado a si mesmos uma oportunidade de saber disso – iluminados, liberados, “divinizados em Deus”. Mas é avassaladoramente improvável que mais do que uns poucos de nós chegue a cumprir essas condições. Muitos são os chamados, mas poucos são escolhidos; pois muito poucos chegam a escolher serem escolhidos.
O término da dor é algo possível, mas a continuação da dor é algo certo. Tudo o que os mestres da vida espiritual podem fazer é lembrar-nos de quem somos de fato e dos meios pelos quais podemos chegar a reconhecer nossa identidade – a meditação, no sentido de uma consciência completa e abrangente a cada instante, e os corolários de tal meditação, ser correto e, a partir de ser correto, a ação correta espontânea.
Da França, da Itália e da Suíça, e da distante P.E.S., da experiência visionária, ainda mais distante, e do esclarecimento mais distante de todos, voamos para Copenhagen e o Congresso Internacional de Psicologia Aplicada. O que é Psicologia Aplicada? Ou devíamos fazer ao contrário e perguntar o que não é Psicologia Aplicada? Resposta: muito pouco, pelo menos no que se refere ao comportamento individual no nível (estatisticamente falando) normal. Esse amplo assunto foi discutido em Copenhagen por 1.300 delegados, que ouviram duzentos ou trezentos trabalhos sobre todos os temas concebíveis, desde “O Desenho Figurativo como Expressão de Auto-Estima” até “Pesquisa Social no Artico”.
O mundo está cheio de tantas coisas, e as universidades estão tão cheias de vários psicólogos, que não posso fazer justiça a tudo o que foi lido e falado em Copenhagen. Portanto, vou me limitar à questão mais importante de todas, e à qual as respostas propostas foram as menos satisfatórias. A psicologia pode contribuir para o abrandamento de tensões internacionais, para a solução de conflitos, para a manutenção da paz?
Na conferência com que o Professor Osgood abriu o congresso, 1 e nos trabalhos lidos no simpósio do dia seguinte, havia muitas sugestões sensatas e humanas. Ouvia-se com aprovação, mas ao mesmo tempo com uma dúvida obsedante.
Seriam aceitas as sugestões sensatas e humanas? No atual contexto histórico, no clima ideológico reinante, elas poderiam ser aceitas? E embora seja obviamente verdadeiro que, nas palavras do Dr. Baumgarten-Tramer, exista uma urgente Notwen-digkeit der Bildung einer Psychologie fur Politiker (Necessidade de uma educação de Psicologia para políticos), é provável que as poucas vintenas de políticos, generais e tecnologistas, a cuja mercê os restantes 29 bilhões da raça humana agora se encontram, vão consentir em ir novamente para a escola e aprender essa psicologia para estadistas que é tão indispensavelmente necessário formular e ensinar? Esses poucos homens imensamente poderosos, a cuja mercê está agora toda a raça humana, são eles próprios prisioneiros hipnotizados de tradições políticas e filosóficas que, tendo sua origem em idolatria nacionalista e dogmatismo ideológico, no passado sempre levaram à guerra.
O indivíduo neurótico é uma pessoa que reage aos desafios do presente em termos do passado obsessivamente relembrado. Enquanto que suas política são ditadas por velhas opiniões errôneas fossilizadas em formas de dogmas, todas as sociedades exibem os sintomas de neurose coletiva, e os poucos homens poderosos em cujas garras (como Gulliver na garra do macaco brobdingnagiano) a humanidade agora se contorce com impotência, são eles próprios vítimas da alienação de sua sociedade da realidade presente.
Nos tempos antigos, quando o ritmo de mudança tecnológica e demográfica era lento, as sociedades podiam se dar ao luxo de suas neuroses coletivas. Hoje em dia, o comportamento político ditado por lembranças obsessivas do passado (em outras palavras, pelas tradições veneráveis que perderam seu sentido, e par idéias velhas, tolas ou até mesmo diabólicas elevadas ao nível de princípios fundamentais e canonizadas como dogmas) será fatalmente inadequado.
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1 Osgood, C. E. “Towards international behavior appropriate to a
nuclear age” (Em direção a um comportamento internacional adequado à era nuclear). In Pspchology and Intenational Affairs, Proceedings of the XIV International Congress of Applied Psychology, v. 1, págs. 109-182. Copenhagen, Munksgaard, 1962.
E a cura para essa fatal inadequação do comportamento político atual não pode ser encontrada apenas na psicologia aplicada. O problema é imensamente complexo e, se pretendemos resolvê-lo algum dia, ele deve ser atacado simultaneamente em muitas frentes – na frente semântica (pois é um caso de linguagem mal usada e crenças não examinadas) ; na frente organizacional (pois isso envolve o fato brutal do poder e os problemas de :seu controle) ; na frente filosófica (pois nosso comportamento político é até certo ponto influenciado por nossa opinião da natureza humana) ; na frente biológica (pois .sob os problemas políticos jazem os problemas da população em crescimento acelerado e a má distribuição de recursos).
Um ataque coordenado em todas essas frentes vai ser difícil de montar e ainda mais difícil de sustentar. O tempo não está do nosso lado. Dados os fatos da inércia social e individual, poderemos fazer o que tem de ser feito no breve e minguado inter-valo de tempo que a História moderna (a história da profunda mudança tecno1ógica e demográfica, com todas as suas conseqüências sociais) nos permitirá? Ac nível internacional é possível o término de pelo menos alguns de nossos sofrimentos coletivos. Quão provável isso é? Todas as nações e seus dirigentes são chamados. Antes que seja tarde demais, eles escolherão ser escolhidos?