Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Primeira Parte - Precognicão

PRIMEIRA PARTE

 

PRECOGNICÃO

Capítulo 1

 

1931

 

Um Tratado Sobre Drogas

ALDOUS HUXLEY

 

Phantastica, o histórico estudo das drogas psicoativas usadas em todo o mundo, surgiu em língua inglesa em 1931. Nesse mesmo ano – ou em Londres, onde sua primeira peça The world of light (O mundo da luz) foi produzida, ou na Riviera Francesa, onde ele estava escrevendo Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley descobriu esse "tesouro de aparência pouco promissora” e leu-o “do início ao fim com interesse crescente e apaixonado". Parece provável que o tratado de Lewin tenha servido para apresentar Huxley à história das drogas e seus efeitos, embora 22 anos se passassem antes que ele fizesse a primeira experiência ele mesmo, com mescalina – e pagou tributo a Lewin na primeira linha do livro resultante dessa experiência. (Não há provas que apóiem a afirmação de Francis King de que Aleister Crowley apresentou Huxley à mescalina nos anos 20.) O primeiro texto impresso de Huxley sobre o uso de drogas toca em temas aos quais ele retornaria várias vezes em seu trabalho posterior: o difundido uso de drogas, sua importância em cerimônia religiosas, a predileção do homem por escapadas ocasionais do mundo cotidiano, o problema da dependência, o fracasso da repressão e as drogas do futuro.

 

Outro Dia descobri, empoeirado e esquecido em uma das prateleiras mais altas da livraria local, um maciço exemplar da obra de um farmacologista alemão. O preço não era alto; paguei e levei para casa aquele tesouro de aparência pouco promissora.

Era um volume grosso e denso, e, de certo modo, um modelo do que não deveria ser o estilo literário. Um livro realmente ilegível. No entanto, li-o do início ao fim com interesse crescente e apaixonado. Pois esse livro era uma espécie de enciclopédia de drogas. O ópio e seus derivados modeinos, a morfina e a heroína; a cocaína e o peiote mexicano; o haxixe da Índia e do Oriente Próximo; o agárico da Sibéria; o kawa da Polinésia; o betel das índias Orientais; o agora universal álcool; o éter, o cloral, o veronal do Ocidente contemporâneo – nada faltava. Quando cheguei à última página, eu sabia alguma coisa sobre a história, a distribuição geográfica, o modo de preparo e os efeitos fisiológicos e psicológicos de todos os venenos deliciosos por meio dos quais os homens têm construído, em meio a um mundo inamistoso, seus fugazes e precários paraísos.

A história do uso de drogas constitui um dos mais curiosos e também, parece-me, um dos mais significativos capítulos da história natural dos seres humanos. Em todos os lugares e em todos os tempos, homens e mulheres procuraram, e encontraram devidamente, os meios de tirar férias da realidade de suas existências geralmente enfadonhas e com freqüência extremamente desagradáveis. Férias fora do tempo, fora do espaço, na eternidade do sono ou do êxtase, no céu ou no limbo da fantasia quimérica. “Qualquer lugar, qualquer lugar fora do mundo.”

É significativo que o uso de drogas desempenhe um papel importante em quase todas as religiões primitivas. Os persas e, antes deles, os gregos e provavelmente os antigos hindus usavam o álcool para produzir o êxtase religioso; os mexicanos alcançavam visões beatíficas comendo um cacto venenoso; um cogumelo enchia os xamãs da Sibéria de entusiasmo, e dava-lhes o dom de falar línguas. E assim por diante. Os exercícios devocionais dos místicos mais recentes são todos idealizados para produzir os miraculosos efeitos da droga por meios meramente psicológicos. Quantos dos conceitos atuais de eternidade, de paraíso, de estados supranaturais, são originalmente derivados das experiências de pessoas que se drogam?

O homem primitivo explorou os caminhos farmacológicos para fugir do mundo com uma perfeição realmente espantosa.

Nossos ancestrais não deixaram por descobrir quase nenhumestimulante, alucinante ou estupefaciente naturais. A necessidade é a mãe da invenção; o homem primitivo, como o seu descendente civilizado, sentia uma necessidade tão premente de escapar à realidade de vez em quando, que a invenção das drogas lhe foi quase forçada.

Todas as drogas existentes são traiçoeiras e maléficas. O paraíso aonde levam suas vítimas logo se torna um inferno de doença e degradação moral. Elas matam, primeiramente, a alma, e depois, em poucos anos, o corpo. Qual é o remédio? “Re-pressão”, respondem em coro todos os governos contemporâneos. Mas os resultados da repressão não são animadores. Homens e mulheres sentem uma necessidade tão premente de tirar férias da realidade de vez em quando, que farão quase qualquer coisa para encontrar os meios para a fuga. A única justificativa para a repressão seria o seu sucesso; mas isso não acontece e, segundo a ordem natural das coisas, não pode acontecer. O modo de impedir que as pessoas bebam álcool demais, ou se tornem viciadas em morfina ou cocaína, é dar-lhes um sucedâneo eficiente porém saudável para esses venenos deliciosos e (no atual mundo imperfeito) necessários. O homem que inventar tal substância será considerado um dos. maiores benfeitores dessa humanidade sofredora.