Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 19 - 1956 Cartas
Capítulo 19
1956
Cartas
Para Huxley esse foi um ano vitalmente energético e criativo. Ele tornou a casar-se, mudou-se para uma nova casa, viajou e fez conferências; Céu e inferno foi publicado e a A ilha iniciado. Ele fez duas experiências com psicodélicos em 1956. A primeira ocasião foi com Gerald Heard e dois pesquisadores médicos, durante a qual ele e Heard receberam um novo tranqüilizante chamado Frenquel para inverter os eleitos de uma dose forte de mescalina. Huxley comparou a “sobriedade” temporá-ria resultante com a Queda, e correu a reler O paraíso perdido. Mais tarde, ele e Laura Archera Huxley participaram de uma sessão de LSD em doses pequenas, para determinar o poder da hipnose na rememoração psicodiélica.
As cartas escritas nesse período ao Dr. Osmond discutem a estrutura de A ilha e uma série de drogas: o soma dos antigos arianos, os cogumelos mexicanos da psilocibina, a ayahuasca (yagé) da América do Sul. O quadro da pesquisa com sintéticos pricodélicos em Los Angeles (então o centro de três experiências nos Estados Unidos) é bastante sombrio. Sua "correspondência vinda de lunáticos” reforça sua convicção de que a pesquisa psicodélica deveria ser conduzida “na relativa privacidade das publicações eruditas”. A criação do ter-no “psicodélico” e a escolha de Huxley, são discutidos numa carta famosa, e em outra que acabou de vir à luz. Em duas eloqüentes cartas escritas a mulheres ele exprimiu sua profundíssima especulação espiritual-filosófica sobre as novas drogas. Planos para uma comédia musical baseada em Admirável mundo novo estimularam uma explosão lírica preservada numa das cartas seguintes.
AO DR. HOWARD FABING‘ [SMITH 736]
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740 North Kings Road, Los Angeles 46, CaL 20 de janeiro de 1956.
Caro Howard,
Espero que sua estada em Monterey tenha sido agradável e produtiva e que você esteja agora em casa. Sua visita foi um acontecimento memorável, e eu estou gratíssimo – e também, você sabe, está Gerald – pelas experiências que você tornou possíveis e pelas oportunidades de discuti-Ias e avaliá-las. Se e quando eu fizer minha viagem para o Oriente, espero repetir a experiência e renovar as discussões.
Enquanto isso, andei pensando sobre um dos assuntos em que tocamos em nossa conversa do domingo de manhã – o uso da hipnose juntamente com a mescalina ou o LSD. Parece-me que a hipnose poderia mostrar-se muito útil de três maneiras. Primeiro, para preparar a pessoa para tomar a droga. Colocá-la em transe leve e conversar com ela sobre o que ela provavelmente vai sentir – frisando que não havia o que temer. O que normalmente chamamos “realidade” é meramente essa fatia do fato total que nosso equipamento biológico, nossa herança linguística (ver Benjamin Whorf) e nossas convenções sociais de pensa-mento e sentimento permitem que nós apreendamos. (As idéias contidas no clássico livro de [J.J.] Von Uexkull sobre Umwelt-lehre ou “ambientologia” são fundamentais nesse contexto.) O ouriço-do-mar e o cachorro – cada um tem seu universo, e cada um dos universos é muito diferente dos outros. O universo biologicamente, socialmente e lingüisticamente condicionado do homem é muito mais rico que o dos outros animais, mar ainda assim é apenas uma pequena fatia do melão. A mescalina e o LSD permitem-nos cortar outro tipo de fatia – uma fatia que não é muito útil a nós, criaturas que temos que sobreviver e competir, mas pode ser extremamente útil para nós como criaturas ,capazes e desejosas de compreender. Em termos simples, idéias desse tipo poderiam ser passadas para a pessoa sob hipnose, antes que ela tome a droga. Isso deveria impedir que ela entrasse em pânico por causa da simples estranheza da experiência.
Em segundo lagar, seria interessante ver o que poderia ser feito com a hipnose enquanto a pessoa está sob a influência da droga. Para começar, será que uma pessoa mescalinizada é hipnotizável? Se assim for, será que sugestões hipnóticas podem dirigir suas recém-encontradas capacidades visionárias para canais específicos – por exemplo, ao reino das lembranças da infância enterradas, ou a áreas específicas de pensamento e imagens? Podemos sugerir-lhe, por exemplo, que ela veja um episódio de As mil e uma noites, ou do Evangelho, ou no reino dos símbolos arquetípicos ou da mitologia?
Finalmente, seria interessante hipnotizar a pessoa depois que ela voltasse da mescalina, tentando fazê-la reexperimentar o que viveu sob a mescalina, mas sem a ajuda da droga. Isso, parece-me, deveria ser iniciado enquanto os efeitos da droga estão passando. Tentar prolongar e reavivar a experiência por meio da sugestão. Ao mesmo tempo dar uma sugestão pós-hipnótica no sentido de que não haverá dificuldade em recapturar a experiência inteira, em datas posteriores. Repetir a experiência nos dias seguintes e ver se a hipnose pode estabelecer não apenas uma lembrança da experiência com mescalina, mas uma rememoração total ou até mesmo uma nova experiência da mesma espécie.
Se isso parecer funcionar, dar sugestões pós-hipnóticas de que a pessoa poderá entrar no estado visionário quando quiser, sob auto-sugestão. Essa rememoração vívida e reativação da experiência visionária pode ser impossível. Por outro lado, pode não ser. Mas tenho certeza de que vale a pena tentar a experiência e em várias pessoas, pois há uma diferença enorme, nesse campo, entre as capacidades de diferentes pessoas. Sei experimentalmente que algumas pessoas entram no mundo visionário sob hipnose. Minha esposa, por' exemplo, entrava num mundo que tinha a mesma espécie de luminosidade e de significado que o mundo da mescalina, onde havia vastas paisagens, sendo a maioria de desertos, e uma grande variedade de personagens. Seria interessante descobrir se, como resultado de, uma vez aberta a porta por meios químicos, pessoas normalmente incapazes de entrar no “outro mundo” espontaneamente ou através de hipnose achariam possível dispensar a chave química e alcançar o destino mescalínico simplesmente por meios psicológicos (o que quer que essa frase possa significar!).
Por favor dê lembranças minhas ao Dr. P. e a Bobby Brown, em quem penso com muita afeição.
Do seu,
Aldous Huxley
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* Texto da cópia de carbono, corrigida a mão, enviada por Huxley a Osmond. Fabing é um médico de Cincinnati que ajudou a desenvolver o tranqüilizante Frenquel – ver a carta seguinte.
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 737]
740 North Kings Road, Los Angeles 46, Cal.
21 de janeiro de 1956
Meu CARO Humphry,
Muito obrigado por sua carta, espero que o inverno saskatchewano esteja se tornando um pouco menos rude. Certamente o inverno parece estar bastante forte em toda parte – um vento intenso aqui, chuvas desastrosas no noroeste do Pacífico, frio assustador no Meio-Oeste e nos estados do leste, e também na Europa. Talvez nossas brincadeiras com a bomba-H tenham algo a ver com isso – nuvens de poeira inoportunas causando precipitação e formação de nuvens de modos inesperados. Mais ignorantes daquilo de que temos mais certeza (nossa essência vítrea), como macacos zangados nós fazemos nossos truques fantásticos não apenas sob os céus, mas dentro deles.
E, por falar em essências vítreas, Gerald e eu passamos por outra experiência com mescalina, na semana passada. Desta vez com o Dr. Howard Fabing, de Cincinnati – um homem muito simpático, de mente aberta e inteligente – juntamente com outro doutorado em Medicina e uma jovem farmacologista, a Dra. Barbara Brown, principal responsável pelo desenvolvimento do Frenquel. Fabing queria experimentar o efeito do Frenquel em nós, para saber nossas impressões sobre um corte na experiência de mescalina por esse novo tranqüilizante. Ele nos deu 500 mg de mescalina de uma qualidade especial, preparada especialmente para ele por um químico da Universidade da Antióquia. Os efeitos foram fortes. Muita visão com os olhos fechados – embora nunca coerente ou de longo fôlego, apenas geometrias animadas modulando-se ou prestes a modular-se para formas arquitetônicas. O sentido de tempo foi alterado muito profundamente, e houve uma experiência de – literalmente falando – uma vida inteira de beleza, ser e amor. Fabing deu-nos maciças doses intravenosas de Frenquel mais ou menos duas horas depois da ingestão da mescalina. Os efeitos se fizeram notar dentro de quinze minutos. Foi uma experiência triste, como aquela descrita por Emily Brontë:
Oh, terrível é o corte – intensa a agonia –
Quando o ouvido começa a ouvir e o olho começa a ver, (ver e ouvir como um ego à parte, encapsulado)
Quando o pulso começa a latejar, o cérebro a pensar outra vez,
(pensar discursiva e biologicamente, utilitariamente)
A alma a sentir a carne, e a carne a sentir a corrente.
Foi uma experiência da Queda, tornada ainda mais triste pelo fato de que o egoísmo que retornava vinha acompanhado de tonteiras e perturbações físicas gerais parecidas com as de uma pessoa bêbada. (De repente me ocorre como é curioso que o Adão e a Eva de Milton se sentissem bêbados depois de comer a fruta! Tenho que procurar esse trecho no Paraíso perdido). Essa desequilibrada experiência da Queda durou uns quarenta e cinco minutos, aí nós dois voltamos para a condição mescalinizada. Evidentemente o Frenquel por via intravenosa é rapidamente excretado. Depois que ele é afastado, a mescalina reemerge de seu esconderijo no fígado. Fabing agora está convencido de que, para ser efetivo, o Frenquel deveria ser dado em pequenas doses repetidas em intervalos curtos, não em uma única dose grande. Tanto Gerald quanto eu continuamos a sentir os efeitos até bem tarde da noite (tornamos o negócio às três da tarde). Mais ou menos as seis ou seis e meia eu me levantei e saí para a varanda contígua à porta da frente. Na parede da casa, entre as janelas da ampla sala de estar, existem duas silhuetas a carvão, ainda levemente visíveis, feitas por meu cunhado, Joep Nicolas, há quatro ou cinco anos, do meu perfil e do de Maria – silhuetas traçadas acompanhando as sombras jogadas pelo sol poente. Não vi realmente essas silhuetas, pois a luz era muito fraca. Mas de repente pensei nelas e fui dominado por uma intensa tristeza. Não sei por quanto tempo chorei, mas devo ter descarregado um grande acúmulo de lágrimas não derramadas. Foi algo doloroso mas muito necessário.
Estou anexando a cópia da carta que vou mandar para Fabing sobre possíveis experiências com a hipnose, antes, durante e depois da administração da mescalina. Espero que ele faça as experiências – e espero que você também as faça; pois pode haver possibilidades importantes nesse terreno.
Lembranças a Jane.
Com carinho, Aldous
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 7‘f0]
740 North Kings Road, Los Angeles 46, Cal. 14 de março de 1956
Meu CARO Humphry,
Obrigado por sua carta simpática e interessantíssima. Acho que você tem razão sobre os indígenas.’ O soma, na Índia, só era ingerido pelos sacerdotes – e era uma droga perigosa, da qual muita gente morria. Os devotos de Dionísio embebedavam-se em conjunto – mas o álcool não é um elixir, apenas um embriaga-mento. Atrevo-me. a dizer que alguns dos tomadores tropicais de drogas alteradoras da mente podem ter descoberto independente-mente o método indígena, mas onde se pode descobrir isso? E, de qualquer maneira, são remotos demais e primitivos demais para ter muita importância para nós. Os comedores de cogumelo no sul do México, de Gordon Wasson, evidentemente usavam um elixir em grupos pequenos, dirigidos por um sacerdote ou uma sacerdotisa. Sua narrativa‘ de sua própria experiência com os cogumelos num grupo desses é muito interessante. Os sintomas parecem ter sido quase idênticos aos do peiote – inclusive o vômito. Ele ficou enormemente impressionado pelo ritual todo – e quando um sócio da J. P. Morgan fica impressionado por esse tipo de coisa, deve ser mesmo bem impressionante! Espero que você descubra mais coisas sobre sua Igreja Nativa Norte-americana em Saskatchewan. Tendo um convite permanente, de alguns peiotistas indígenas em Ponca City, no Oklahoma, para participar de uma de suas reuniões, mas não pude aceitar até agora devido à tirania do espaço e do tempo.
Fiz três artigos para o Sunday Times sobre "Admirável mundo novo revisitado” – um sobre o futuro, do ponto de vista do demógrafo, um sobre a relevância da situação política do AMN para o futuro imediato, e o terceiro sobre o soma (tipo-AMN), sua importância para o atual consumo em massa de “Pílulas da Felicidade” (Miltown-Equanil), e seu significado social, ético e psicológico. Espero enfronhar-me neste problema quando começar minha projetada fantasia sobre uma sociedade imaginária, cujo propósito único é fazer com que seus membros realizem suas potencialidades mais altas. Vou localizar a fábula, não no futuro, mas numa ilha, hipotética, no oceano Indico, não longe das Andamãs, e habitada por pessoas que descendem de colonizadores budistas vindas do continente, e assim conhecem tudo sobre o Tantra (o que não acontece comigo – mas pode-se sempre aprender um pouco e fingir um pouco!). Para construir uma ponte entre eles e nós, vou postular um inglês que fez fortuna do modo mais cínico nos últimos dias da Companhia das Índias Orientais, que veio explorar a ilha e ficou porque viu, numa espécie de conversão psico1ógica, que aquele povo sabia a maioria das respostas. Ele fica, organiza uma espécie de escola de sabedoria ocidental-oriental e está à mão, já idoso, quando outro inglês aporta lá. Sua história é a de um jovem educado num lar evangélico, como conseqüência sucumbindo à loucura, indo para um hospício (andei lendo Zilboorg e outros livros para ter o gostinho total do horror dos hospícios na era vitoriana), fica curado devido à chegada ao hospício de um superintendente razoável e humano, como o Dr. Conolly, é mandado para uma viagem de saúde e acaba na ilha, onde o homem mais velho toma-o pela mão, reeduca-o para uma visão sacramental do sexo e de outras funções naturais, faz com que passe por uma iniciação, com um elixir local fazendo um papel importante na cerimônia, etc., etc. Quando ele finalmente volta para a Inglaterra, está realmente sadio e completamente desenvolvido como ser humano – tanto que ele logo se vê novamente confinado a um hospício por seus parentes subdesenvolvidos e perturbados. Enquanto isso, é claro, a ilha é atropelada por uma das forças coloniais, e toda a sua sabedoria é automaticamente destruída – como foi o caso, com um resultado menor, quando a Inglaterra arruinou a ordem social em Burma – principalmente apresentando, com as melhores intenções possíveis, um sistema coerente de lei em vez do não-sistema de arbitragem local por chefes-sem-autoridade, logicamente indefensável mas psicologicamente bem-sucedido. Essa estrutura talvez permita uma exposição completa do que deveria ser, do que talvez pudesse ser, e do que tem sido e realmente é...
A fetuosamerde, Aldous
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* Indígenas : Osmond tinha percebido que a Igreja Nativa da Améri-ca do Norte (que ele conheceu como Faisão Vermelho, em Sask.), tinha uma religião notável, e possivelmente única, uma vez que seus ritos eram efetuados como uma atividade de pequenos grupos, dispen-sando um sacerdote, usando um elixir e conseguindo uma experiência compartilhada por toda a congregação. [Nota de Smith.] Ver também : a apresentação de Osmond para Tke witnesses, (As testemunhas), de Thomas Hennell (1967), p. xlii.
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** Rufia, muehrooms add kistory (Rússia, cogumelos e história) (1967), embora Huxley pudesse estar se referindo ao relatório de Wasson publicado na revista Life.
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 744]
740 North Kings Road, Los Angeles 46, Cal.
30 de março de 1956
Caro Humphry, .
Obrigado por sua carta, que vou responder sucintamente, pois espero conversar bastante com você em Nova Iorque dentro de pouco tempo. Sobre um nome para essas drogas – que problema! Procurei em Liddell e Scott e descobri que há um verbo phaneroein, “tornar visível ou manifesto”, e um adjetivo phane-rós, que significa “manifesto, à vista, evidente”. A palavra é usada em botânica – fanerograma como antônimo de criptograma.
“Psicodético”' eu não entendi ainda muito bem. É uma analogia com geodético, geodésia? Se assim for, significaria divisor da mente, como geodésia significa divisão da terra, de ge e daiein. Essas drogas poderiam ser chamadas psicófanos? Ou drogas faneropsíquicas? Ou que tal fanerotímicas? Thymos significa alma, em seu uso inicial, e é o equivalente ao latim animus. A palavra é eufônica e fácil de se pronunciar; além disso, tem seus paren-tes no jargão da psicologia – por exemplo, ciclotímico. De maneira geral acho que isso é melhor do que psicófanos ou faneropsíquicos.
Espero estar voando para o leste no dia dez ou onze, e vou avisá-lo antes disso onde vamos ficar – possivelmente não em hotel, mas num apartamento emprestado.
Do seu, Aldous
Fanerótimo – substantivo. Fanerotímico – adjetivo.
Para fazer este mundo trivial sublime se tornar,
Basta meio grama de fanerótimo tomar.
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Osmond tinha mencionado psicodélicoe como um novo nome para drogas que alteram a mente, para substituir o termo psicotomiméticos. Huxley ao que parece leu erradamente a palavra, como “psicodéticos”, daí o engano. Osmond respondeu :
“Para um mergulho no Inferno ou um voar angélico,
Tome uma pitada de psicodélico.”
Huxley ainda dessa vez não aprendeu a ortografia da palavra, que ele escrevia “psychodelie”. [Nota de Smith]. Huxley invariavelmente usa “psycPeodelic” em lugar de “psyckedelic”, pois ele e outros achavam que este último era incorreto. No entanto, o primeiro fere um critério de Osmond, a saber, que o termo fosse “não-contaminado por outras associações”.
Em uma carta para o Dr. Al Shulgin em 1969, Osmond forneceu uma variante para a estrofe em colaboração:
“Para este mundo trivial sublime se tornar, Basta meio grama de fanerótimo tomar.
Para um mergulho no Inferno ou um voar angélico, Você precisa de uma pitada de psicodélico.”
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 747]
740 North Kings Road, Los Ángeles 46, Cal.
29 de junho de 1956
Caro Humphry
Sentimos muito a sua falta em nossa pequena conferência, e acho que você, se estivesse lá, ficaria bastante estimulado e interessado pelo relatório de Puharich sobre os efeitos de jaulas e da liberação na atmosfera delas de íons carregados positiva ou negativa-mente. Se o trabalho dele for confirmado, de agora em diante haverá um método pelo qual (até agora só em sensitivos) as faculdades psi podem ser elevadas ao máximo improvável simplesmente apertando um botão. Tendo estabelecido um ambiente eletrônico padrão, Puharich vai tentar agora, sistematicamente, o efeito de várias drogas, vários odores, estímulos sonoros, etc., na faculdade psi. Deverá ser uma exploração muito proveitosa.
Al [Hubbard] também estava em grande forma. Seus métodos de exposição são um pouco confusos, mas imagino que ele e seu grupo tenham agora uma montanha de material escrito sobre seus casos – material que vai mostrar como funciona a outra linha de experimentação. Pois evidentemente temos que prosseguir nas duas linhas – a científicapura, analítica, de Puharich, tentando fator após fator num ambiente padronizado, e a linha do naturalista, psicó1ogo e terapeuta, que usa a droga para curar e esclarecer, e no processo, se ele for bom observador e tiver o raciocínio claro, descobre novos fatos sobre o organismo psicofísico.
Aqui, em Los Angeles, nenhuma dessas linhas de pesquisa está sendo seguida.
Temos um ou dois médicos ministrando a droga e compilando casos clínicos de experiências particulares, um ou dois trabalhando com neuróticos ou psicóticos com a ajuda da droga, e nenhum pesquisador analítico. Além disso, não vejo a possibilidade de criar um grupo como o que Al tem agora em Vancouver – porque não temos nenhum Al, isto é, ninguém com a necessária posição financeira (o homem de negócios, por definição, jamais faz algo antiamericano), os contatos necessários com a igreja e o estado, e o relacionamento com uma área sensível da ciência, que lhe permite conseguir suprimentos, da droga. Além disso, nem Gerald [Heard] nem eu podemos afirmar sermos boas cobaias. Pois não temos visões com os olhos fechados, não mostramos sinais de psi e parecemos interessados demais no “conhecimento obscuro” da Unidade para querermos ser incomodados com qualquer outra coisa. Assim sendo, parece que o trabalho científico e o trabalho terapêutico terão que ser realizados em outro lugar.
Agora, vamos às datas e temporadas. Quando é que é melhor para você vir a Vancouver durante o mês de agosto? Posso adaptar meus planos aos seus. Assim, por favor, avise-me a data que lhe convier melhor, e vou fazer meus planos de acordo. Não sei exatamente qual vai ser meu papel nessa performance – com certeza o do questionador mais ou menos inteligente, que pergunta ao especialista tudo sobre o assunto.
Afetuosamente, Aldous
A VICTORIA OCAMPOS* [SMITH 750]
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3276 Deronda Drive, Los Angeles 28, Cal. 19 de julho de 1956
Cara Victoria,
[... ] Fico muito contente que você tenha gostado do meu livrinho [Céu e inferno]. Como é estranho que nós todos carreguemos conosco por aí esse enorme universo de visão e daquilo que está além da visão, e no entanto somos geralmente inconscientes desse fato! Como poderemos aprender a passar à vontade de um mundo de consciência para outros? A mescalina e o ácido lisérgico vão abrir a porta; mas não é bom depender exclusivamente desses produtos químicos, embora eles pareçam ser mais ou menos completamente inofensivos. Tornei mescalina umas seis vezes, e fui levado para além do reino das visões, para o reino do que os místicos chamam “conhecimento obscuro” – um vislumbre da natureza das coisas, acompanhado pela descoberta de que, apesar da dor e da tragédia, o universo é perfeito, em outras palavras, que Deus é Amor. As palavras são embaraçosamente tolas e, no nível da consciência mediana, falsas. Mas quando estamos no nível mais alto, elas parecem significar o Fato primordial, do qual a consciência agora faz parte. A arte suprema da vida seria a arte de passar, à vontade, do conhecimento obscuro para o conhecimento conceitualizado, utilitário, do estético para o místico; e ser capaz de todo o tempo, nas palavras do mestre Zen, descobrir o não-particular que existe nos particulares, estar cônscio do não-pensamento que existe no pensamento – o absoluto nas relações, o infinito nas coisas finitas, o eterno no tempo. O problema é: como aprender esta arte suprema da vida?
Nós nos mudamos para uma nova casa, no alto dos montes, e tudo está ainda confuso. Tudo de bom, minha querida Victoria.
Do sempre seu, afetuosamente, Aldous
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* Uma velha amiga argentina, diretora editorial da conceituada revista literária Sur.
AO DR. HUMPHRT OSMOND [sMITH 751]
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3276 Deronda Drive, Los Angeles 28, Cal. 22 de julho de 1956
Caro Humphry,
Nossas cartas se cruzaram, sendo a sua extraviada na ponta de cá pelo fato de que estávamos entre duas casas, morando em uma e recebendo a correspondência na outra. Gostaria que nossos lazeres pudessem ter coincidido. Não tenho lazer algum agora, e além de nenhum lazer tenho um sentimento muito ruim a . respeito de TV, particularmente em relação a esse campo. Minha correspondência vinda de lunáticos já está muito mais copiosa do que eu gostaria – há poucos dias recebi uma carta da ilha Maurícia, de um cavalheiro que foi para lá há vinte anos para conseguir a iluminação e, segundo ele próprio, escreveu agora o livro mais extraordinário da história do mundo, e será que pode-ria por favor escrever uma introdução e assegurar-lhe sociedade no Instituto de Estudos Avançados em Ciências Sociais, da Fundação Ford, ou, se isso não for possível, um emprego num jornal americano! Para não falar do cavalheiro de Chicago que descobriu a Verdade Absoluta e manda cartas e telegramas sobre isso para o Presidente Eisenhcrwer e Bertrand Russell; nem do dermatologista mexicano que acha que a mescalina pode ser boa para o eczema, e será que posso contar para ele onde encontrar a droga, e nem do rapaz de Yorkshire que comeu um botão de peiote fornecido por um amigo que cultivava cactos e durante três dias ouviu todas as músicas um tom acima do que devia ter sido (um fenômeno bastante interessante, incidentalmente, e que pode valer a pena ser testado com temas musicais. Laura acha que não chega a aumentar o tom, pelo que lhe diz respeito; simplesmente faz com que ele soe como música tocada com mais verve e perfeição e energia do que normalmente – algo que tende a nos fazer pensar que a música está sendo tocada em tom um tanto agudo).
Como você diz em sua carta, ainda sabemos muito pouco sobre os psicodélicos, e, até que saibamos bastante mais, acho que o assunto devia ser discutido, e as investigações descritas, na relativa privacidade das publicações eruditas, na obscuridade decente de livros e artigos moderadamente intelectualizados. O que quer que se diga no ar está destinado a ser mal compreendido; pois as pessoas tiram do discurso impresso ou ouvido aquilo que estão predispostas a ouvir e ler, não o que está lá. Tudo o que a TV pode fazer é aumentar em milhares o número de pessoas que compreendem mal – e ao mesmo tempo ampliar a extensão dos mal-entendidos por não fornecer um texto objetivo que os voluntariamente ignorantes possam ser obrigados a consultar. Littera scripta manet, volat irrevocabile verbum.
Nos intervalos de atividades como escrever artigos para o Esquire e fazer correções na peça, estou trabalhando um pouco minha fantasia – escrevendo os primeiros capítulos da infância do herói num ambiente no início da era vitoriana, e ruminando os problemas que vão surgir quando ele parte para a ilha hipotética no oceano indico, para onde seu tio foi como cirurgião do rajá local (vou fazer com que ele emule o Dr. [James] Esdaile e lancete tumores de elefantíase em transe hipnótico) e adotou uma espécie de filosofia e práxis tântrica, destinada a ajudar pessoas a realizar suas capacidades em potencial e a dar-lhes um certo controle de seu destino, primariamente através do controle do sistema nervoso autônomo e da alma vegetativa, além de acesso ao Atmã-Brama. Espero poder fazer isto com algum sucesso.
Lembranças minhas a Jane e aos Hubbard.
Do sempre seu, afetuosamente, Aldous
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 756]
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3276 Deronda Drive,
Los Angeles 28, Cal. 23 de setembro de 1956
Meu CARO Humphry,
Sua ótima carta de dois dias atrás fez-me vestir as roupas de um penitente; pois andei negligenciando gravemente o assunto de escrever. Meu irmão acabou de partir, depois de ter ficado aqui, com a mulher dele, durante quinze dias; e fazer coisas com ele, alem de um monte de trabalho, me deixou extremamente ocupado, de modo que a correspondência teve que ser acumulada a uma altura enorme e ameaça me engolfar completamente.
Enquanto Julian estava aqui, fomos ver, na UCLA, os ratos e gatos e macacos com elétrodos enfiados em várias áreas do cérebro. Eles pressionam uma pequena alavanca que lhes dá um choque elétrico leve e curto – e a experiência, em certas posições do elétrodo, é evidentemente tão extasiantemente maravilhosa que eles continuam, com uma média de oito mil auto-estímulos por hora, até caírem de exaustão, falta de alimento e sono. Obviamente estamos chegando bem perto de reproduzir o paraíso muçulmano, onde cada orgasmo dura seiscentos anos.
Nossa última experiência com LSD em conjunção com a hipnose – sendo a intenção hipnotizar os participantes e dar-lhes sugestões pós-hipnóticas no sentido de que eles fossem capazes de reproduzir a experiência do LSD a uma certa palavra de ordem – não deu muito certo, no que diz respeito ao método hipnótico. Pode ser que as sugestões, para darem certo, precisem ser repetidas em várias ocasiões. Ou pode ser, é claro, que os efeitos da substância química não sejam reproduzidos por meios psicológicos, pelo menos na maioria dos casos. O que estava me interessando na experiência era o fato de que quinze microgramas de LSD foram suficientes para produzir em mim virtualmente o efeito total da dose padrão, enquanto que com Laura, vinte e cinco microgramas mostraram ser muito eficazes. Pode ser que o hipnotismo preliminar tenha sido um fator para maximizar o efeito do produto químico.
Há poucos dias recebi uma comunicação interessante de um homem que costumava comerciar nas selvas do alto Amazonas, no sopé dos Andes, e agora ensina arte num ginásio da Califórnia. Ele fez uma descrição completa de uma droga que os índias chamam de Ayahuasca,' derivada de uma mistura de plantas locais, e que só faz efeito em doses grandes – a pessoa tem que engolir mais de um litro de um líquido de gosto ruim. O resultado é algo muito parecido com a experiência do peiote, com as visões tomando formas predominantemente vegetais ou de formas vegetais, de modo que os nativos a usam numa espécie de culto à natureza, juntamente com a diagnosticação paranormal e o conhecimento da composição de drogas curativas. O sujeito pe-diu-me que lhe enviasse de volta o trabalho, mas eu lhe pedi que mandasse uma cópia para você, juntamente com qualquer informação botânica que ele possa ter.
É bom saber que você pode vir à Califórnia mais para o fim deste outono. Laura e eu vamos ficar em Nova Iorque de 16 de outubro até 1º de novembro, mais ou menos (com possíveis viagens de dois ou três dias). Tenho que fazer um discurso num banquete da Academia de Ciências de Nova Iorque, que vai fazer num congresso sobre tranqüilizantes. Vou falar sobre a história da tensão e os métodos de alívio encontrados por diversas culturas do passado. Há alguma chance de você poder estar em N.I. nessa data?
A situação da peça ainda está no status quo – de Liagre, o -produtor, esperando notícias da Deborah Kerr. (....) Enquanto isso, adiei o trabalho em minha história fantástica para embarcar numa adaptação para comédia musical do Admirável Mundo Novo. O primeiro ato está pronto, e parece bem animado. Depois de terminar com o negócio da Academia de Ciências de Nova Iorque, eu vou passar para a Reserva dos Selvagens. Se tudo sair bem e eu conseguir encontrar alguém competente para fazer a música – como Leonard Bernstein –, os resultados podem ser excelentes.
Lembranças para vocês dois.
A fetuosamente, Aldous
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* Bannisteriopsis caapi, também chamada yagé,
A MATTHEW E ELLEN HUXLEY’ [SMITH 757]
3276 Deronda Drive, Los Angeles 28, Cal.
30 de setembro de 1956
... Julian e Juliette passaram duas semanas aqui, e nós vimos a paisagem científica aqui, em Caltech, em La Jolla e no Zoo de San Diego. Nos intervalos, ando trabalhando em três projetos – meu costumeiro artigo para a Esquire, meu discurso sobre a história da tensão para a Academia de Ciências de Nova Iorque, e uma versão em comédia musical do Admirável Mundo Novo – pois todos me dizem que a ficção científica jamais pode dar certo no palco como peça séria, mas que será aceita quando o meio deixa de ser realístico e utiliza música e letras. Terminei o primeiro ato – reescrevendo totalmente o material produzido pelo Sr.(...), o adaptador inicial e ainda co-proprietário dos direitos. Mas antes pouco do que nada, e eu espero que, se o outro ato sair tão satisfatório quanto o primeiro, eu possa conseguir algo que vai dar certo. Estou tendo que modificar o original, já que a história terá que ser contada em forma tão abreviada – sessenta páginas de roteiro, ao passo que para uma peça normal são cento e vinte. Mas a poda vai ser um impressionante aperfeiçoamento...
Aqui está!
Epsilons (cantando)
Nada de mamãe, nada de papai;
Não somos sortudos, não somos felizes?
Todo o mundo é ah! tão feliz,
Todo o mundo é feliz agora!
Fartura de sexo, mas sem casamento;
Nada de carrinho de bebê para empurrar; Ninguém mais tem que mudar fraldas – Não somos sortudos, não somos felizes? Todo o mundo é feliz agora.
Drogas no chá e drogas no jantar,
Festa a noite inteira, e amor, e risadas;
Sem remorso, sem ressaca,
Onde está o pecado, e quem pode pecar?
Todo o mundo é feliz agora.
Muita comida e tempo para beber
Alguns coquetéis – não mais pensar,
NAO MAIS PENSAR, NAO MAIS PENSAR!
Todo o mundo é feliz agora.
A fetuosamente, Aldous
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* Filho e nora de Huxley.
A. SRA. ELLEN HUXLEY [SMITH 761]
3276 Deronda Drive,
Los Angeles 28, Cal. 20 de novembro de 1965
Querida Ellen:
Obrigado por sua fascinante narrativa da experiência com mescalina. Humphry esteve aqui e nós conversamos um pouco sobre o acontecimento – mas senti que foi com uma certa reserva, como se alguma coisa tivesse acontecido, no que dizia respeito a ele, que ele não queria discutir com muita liberdade. Será que você sentiu o que eu senti tão fortemente nas ocasiões recentes em que tornei a substância – um avassalador sentimento de gratidão, um desejo de agradecer à Ordem das Coisas pelo privilégio daquela experiência, e também pelo privilégio – pois a gente sente que tem que ser', apesar de tudo – de viver em um corpo humano neste planeta especial? E há também o intenso sentimento de compaixão por aqueles que, por qualquer razão, impossibilitam a si mesmos de chegar a qualquer lugar próximo da realidade revelada pela droga – a realidade que está sempre lá para aqueles que estão no estado de espírito certo para percebê-la. Compaixão pelas pessoas que são rigidamente boas ou intelectuais em demasia, que vivem no mundo caseiro de seu próprio sistema ético e social, de suas próprias noções favoritas sobre que é que; e compaixão, no outro ex-tremo da escala, por aqueles que se cegam por excessivo egoísmo, pelo álcool e festas e TV. Uma parte da compaixão e uma parte da gratidão permanecem, mesmo depois de terminada a experiência. Nunca mais se é a mesma pessoa outra vez...
A fetuosamente, Aldous
A. SRA. ELLEN HUXLEY [SMITH 763]
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3276 Deronda Drive, Hollywood, 28, Cal. 6 de dezembro de 1956
Querida Ellen:
Obrigado por sua carta. Sim, como é estranha também essa sensação da desimportância da morte, juntamente com a sensação da suprema importância da vida. As únicas pessoas que não tiram coisa alguma do LSD ou da mescalina são os psicanalistas. Há dois experimentadores aqui que deram a substância a alguns freudianos. Nenhum deles sentiu alguma coisa positiva – a não ser um deles, que disse que quando foi ao banheiro sentiu que “suas excreções cheiravam mais forte e mais doce”. O corpo de Sig Freud jaz criando limo na cova, mas sua alma, ou seu ânus, continua marchando.
Estou enviando um cheque para você comprar presentes de Natal para todos, de acordo com os gostos. É muito mais fácil que remeter pacotes e, espero, vai satisfazer a todos.
Muito amor para todos vocês.
A fetuosamente, Aldous