Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Capítulo 13 - 1955 A Mescalina e o "Outro Mundo”

Capítulo 13

 

1955

 

A Mescalina e o "Outro Mundo”

ALDOUS HUXLEY

 

No primeiro simpósio norte-americano sobre substâncias psicodélicas, Huxley foi a única pessoa fora do campo da Medicina presente entre “os rapazes do Choque Elétrico, os cloropromazineiros e as 57 Variedades de Psicoterapeutas” (como ele escreveu para Humphry Osmond.). Seu discurso, como era de se esperar, foi o único que tratou da experiência com drogas em pessoas ”relativamente sãs”, em vez de pessoas mentalmente perturbadas. Idéias que ele iria desenvolver em O céu e o inferno – a importância do acesso aos “Antípodas da mente”, a experiência visionaria por meio da hipnose; alucinógenos, o “transporte” de objetos tais como pedras preciosas, as qualidades mágicas que governam esses estados – são desenvolvidas principalmente através de referências literárias e artísticas.

 

Meu OBJETIVO esta noite é discutir as experiências com mescalina, não as dos neuróticos, mas as daqueles que, como eu, são relativamente sãos. Descrições clássicas dessa experiência foram dadas, há muitos anos, por Weir Mitchell e Havelock Ellis, cujos relatos combinam muito bem com o meu próprio e o de todos os experimentadores que conheço pessoalmente. Essas experiências clássicas com a mescalina diferem, sob muitos aspectos, das que foram discutidas hoje aqui. Quase todas as que foram discutidas hoje são coloridas pelo medo e pela ansiedade. Além disso, nelas abundam referências às memórias pessoais e a experiências traumáticas da infância do indivíduo que tomou a droga. Como é diferente da experiência clássica com a mescalina! Nela, a característica mais notável, enfaticamente mencionada por todos que passaram por ela, é sua profunda impersonalidade. A experiência clássica com mescalina não é de acontecimentos relembrados consciente ou inconscientemente, ela não se ocupa de antigos traumas e não é, na maioria dos casos, afetada por temores e ansiedades. 5 como se aqueles que estejam passando por ela tivessem sido transportados pela mescalina para uma região longínqua e impessoal da mente.

Vamos usar uma metáfora geográfica e comparar a vida pessoal do ego com o Velho Mundo. Partimos do Velho Mundo, atravessamos um oceano e nos encontramos no mundo do subconsciente pessoal, com sua flora e fauna de repressões, conflitos, lembranças traumáticas e coisas assim. Viajando mais, chegamos a uma espécie de Extremo Oriente, habitada por arquétipos jungianos e pelas matérias-primas da mitologia humana. Além dessa região há um grande Oceano Pacífico. Levados através dele nas asas da mescalina ou do ácido lisérgico-dietilamido, alcançamos o que pode ser chamado de as Antípodas da mente. Nesse equivalente psicológico da Austrália descobrimos os equivalentes aos cangurus e ornitorrincos de bico de pato – uma multidão de animais extremamente improváveis, que mesmo assim existem e podem ser observados.

Ora, o problema é: como podemos visitar as áreas longínquas da mente, onde vivem essas criaturas? Algumas pessoas, está claro, podem ir até lá espontaneamente e mais ou menos quando desejam. Alguns poucos desses viajantes eram grandes artistas, que conseguiam não somente visitar as Antípodas mas também narrar o que viram em palavras ou em quadros. Muito mais numerosos são aqueles que estiveram nas Antípodas, viram seus estranhos habitantes, mas são incapazes de exprimir apropriadamente o que contemplaram. No momento presente eles relutam até mesmo em dar uma expressão imprópria à sua experiência. O clima mental de nossa era não é favorável a visionários. Aqueles que tiveram tais experiências espontâneas e são suficientemente tolos para falar sobre elas, são encarados com suspeita e aconselham-nos a procurar um psiquiatra. No passado, experiências desse tipo eram consideradas importantes, e aqueles que as tinham eram respeitados. Essa é uma das razões (embora talvez não a única razão) pela qual antigamente havia visionários em número tão maior que hoje.

Aqueles que não conseguem visitar as Antípodas da mente por sua pr6pria vontade (e são a maioria) têm que encontrar um método artificial de transporte. Um método que funciona em determinada quantidade de casos é a hipnose. Há pessoas que, sob hipnose moderadamente profunda, entram no estado visionário.

Mais garantidos em seu efeito são os assim chamados alucinógenos, a mescalina e o LSD. Pessoalmente nunca tomei LSD, portanto só posso falar por experiência própria da mescalina. A messalina nos transporta sem sofrimento – pois quase não há aquela náusea horrível que se segue a ingestão do peiote, e não há ressaca às Antípodas da mente, onde encontramos uma fauna e uma flora notavelmente diferentes da fauna e flora do familiar Velho Mundo da consciência pessoal. Mas, assim como os marsupiais, embora improváveis, não são de modo algum fenômenos ao acaso ou anárquicos, o mesmo acontece com os habitantes das Antípodas da mente. Eles se ajustam às leis de sua própria existência, podem ser classificados e sua estranheza possui uma certa regularidade de padrão. Como [Heinrich] Kluver1 assinalou em seu livro sobre o peiote, as experiências visionárias, embora variando de um indivíduo para outro, não deixam de pertencer a uma única e mesma família. Experiências clássicas com mescalina mostram certas características bem marcadas.

A mais notável dessas características comuns é a experiência da luz. Há uma grande intensificação de luz; essa intensificação é sentida tanto com os olhos fechados quanto abertos. A luz parece preternaturalmente intensa em tudo o que é visto com o olho voltado para dentro. Parece também preternaturalmente forte no mundo exterior.

Com essa intensificação da luz há uma tremenda intensificação das cores, e isso acontece tanto no mundo exterior como no mundo interior.

Finalmente, há uma intensificação do que posso chamar significado intrínseco. Aquilo que é visto, com os olhos fechados ou abertos, é sentido como tendo um significado profundo. Um símbolo representa outra coisa, e esse representar outra coisa é o seu significado. Mas as coisas significativas vistas na experiência com mescalina não são símbolos. Não representam outra coisa, não significam coisa alguma além de si mesmas. O significado de cada coisa é idêntico a seu ser. Ele significa que ele é. De um modo paradoxal, mas inteiramente claro e evidente para aqueles que experimentaram essa intensificação do significado intrínseco das coisas, o relativo se torna absoluto, e o transiente se torna particularmente universal e eterno.

* Mescal: a planta ‘divina’ e seus efeitos psicológicos (Londres, 1928; Chicago, 1966).

Luz intensificada, cor intensificada e significado intensificado não existem isolados. Eles são inerentes aos objetos. E também aqui as experiências daqueles que tornaram um alucinógeno estando em bom estado de saúde mental e física e com um nível apropriado de preparação filosófica, parecem seguir um padrão bastante regular. Quando estão de olhos fechados, a experiência visionária começa com o aparecimento no campo visual de geometrias vivas e animadas. Essas formas abstratas e tridimensionais são intensamente iluminadas e brilhantemente coloridas. Depois de algum tempo elas tendem a tomar a aparência de objetos concrtos, tais como tapetes de estampado muito colorido, ou mosaicos, ou entalhes. Esses, por sua vez, modulam-se em construções ricas e elaboradas, em paisagens de extraordinária beleza. Nem as.construções, nem as paisagens permanecem estáticas, mas mudam continuamente. Em nenhuma de suas metamorfoses eles se parecem com uma construção qualquer ou uma paisagem vista pelo indivíduo em seu estado normal e lembrado do passado próximo ou distante. Essas coisas são todas novas. O indivíduo não as recorda ou inventa; ele as descobre, “lá fora”, no equivalente psicológico de uma região geográfica até então inexplorada.

Em meio a essas paisagens e entre essas arquiteturas animadas vagam estranhas figuras, às vezes seres humanos (ou até mesmo o que parecem ser seres sobre-humanos), às vezes animais ou monstros fabulosos. Dando uma descrição direta em prosa do que ele costumava ver em suar visões espontâneas, William Blake relata que com freqüência via seres aos quais deu o nome de Querubins. Esses seres tinham trinta e cinco metros de altura e não se ocupavam em coisa alguma que pudesse ser considerada simbólica ou dramática (essa é uma característica dos personagens de visões). Neste aspecto os habitantes das Antípodas da mente diferem das figuras que habitam o mundo arquetípico de Jung, pois nada têm a ver, nem com a história pessoal do visionário, nem mesmo com os problemas ancestrais da raça humana. Literalmente, são os habitantes do “Outro Mundo”.

Isto me traz a um ponto muito interessante e, acredito, muito significativo. A experiência visionária, seja espontânea ou produzida por drogas, hipnose ou qualquer outro meio, tem uma semelhança notável com o "Outro Mundo” descrito em várias tradições de religião e folclore. Em toda cultura a moradia dos deuses e das almas felizes é um país de extraordinária beleza, bri1hando de cores, banhado em luz intensa. Nesse país são vistas construções de magnificência indescritível, e seus habitantes são criaturas fabulosas, como os serafins de seis asas da tradição hebraica, ou como os touros alados, os homens com cabeça de falcão, os leões com cabeças humanas, os personagens com vários braços ou com cabeças de elefante da mitologia egípcia, babilônica e indiana. Entre essas criaturas fabulosas movimentam-se anjos e espíritos sobre-humanos, que jamais fazem coisa alguma além de apenas gozar da visão beatífica.

As roupas dos habitantes, as construções e até mesmo muitos traços da paisagem no “Outro Mundo” são revestidos com pedras preciosas. É interessante notar que o mesmo acontece no mundo interior encontrado sob a mescalina ou em visões espontâneas. Weir Mitchell e muitos dos outros experimentadores que deixaram um relato de sua experiência com mescalina registram uma profusão de jóias vivas. Essas jóias que, nas palavras de Mitchell, parecem cachos de frutas transparentes, brilhando com fulgor interno, estão incrustadas nas construções, nas montanhas, nas margens dos rios, nas árvores. Faz-nos lembrar, ao lermos essas descrições de experiências com a mescalina, do que é dito do outro mundo nas diversas literaturas religiosas deste mundo. Ezequiel fala “das pedras de fogo” que são encontradas no éden. No Livro da Revelação, a Nova Jerusalém é uma cidade de pedras preciosas e de uma substância que para nossos ancestrais devia parecer tão maravilhosa quanto as pedras preciosas – o vidro. A muralha da Nova Jerusalém é de “ouro como vidro” – isto é, uma substância transparente e luminosa que tem a cor do ouro. O vidro ressurge nas mitologias celtas e teutônicas da Europa Oriental. A terra dos mortos, entre os teutões, é uma montanha de vidro, e entre os celtas era uma ilha de vidro com pavilhões de vidro.

Nos paraísos hindus e budistas abundam, como na Nova Jerusalém, as pedras preciosas; e o mesmo acontece na ilha mágica que, na mitologia japonesa, iguala-se a Avalon e às Ilhas dos Bem-Aventurados.

Entre os povos primitivos, que não conheciam o vidro e não tinham acesso a pedras preciosas, o paraíso é enfeitado com flores luminosas. Essas flores mágicas desempenham um papel importante no Outro Mundo de pessoas mais evoluídas. Faz-nos lembrar do lótus da mitologia hindu e budista, a, rosa e o lírio da tradição cristã.

Pode-se objetar que o paraíso é tão-somente “uma confusão no céu” e que a razão pela qual todos os paraísos são enfeitados com pedras preciosas é precisamente sua preciosidade aqui na terra. Mas por que as pedras são consideradas preciosas? Que foi que induziu os homens a gastar enormes quantidades de tempo, trabalho e dinheiro para encontrar e cortar cascalhos coloridos? Em termos de qualquer espécie de filosofia utilitária, û fato é inteiramente inexplicável. Minha opinião é de que é preciso procurar uma explicação para a preciosidade das pedras preciosas em primeiro lugar nos fatos de experiência visionária. Objetos como pedras preciosas, brilhantes, luminosos, reluzindo com cor e significado preternatural, existem nas Antípodas da mente, são vistas por visionários e todos os que as contemplam sentem que elas têm um significado enorme. No mundo objetivo, as coisas que mais se parecem com esses objetos visionários luminosos são as pedras preciosas. Elas são consideradas preciosas porque lembram aos seres humanos o Outro Mundo nas Antípodas da mente – o Outro Mundo do qual os visionários estão inteiramente cônscios, e pessoas normais são obscuramente cônscias e, por assim dizer, subterraneamente conscientes. Há uma espécie de beleza mágica que nós chamamos “arrebatadora”. O adjetivo é bem escolhido; pois é positivamente verdade que certos espetáculos realmente arrebatam a mente do espectador – arrebataram-na para fora do mundo cotidiano da experiência comum, conceitualizada, para dentro do mágico Outro Mundo da consciência não-verbal, visionária.

As flores são quase tão arrebatadoras quanto as pedras preciosas, e eu estaria inclinado a atribuir a paixão quase universal pelas flores, o uso quase universal de flores em ritos religiosos, ao fato de que elas lembram aos homens e mulheres o que está sempre ali, preternaturalmente brilhante, colorido e significante, no fundo de suas mentes.

Não terei tempo de falar sobre a relação entre a experiência visionária e certas formas de arte. É suficiente dizer que a relação é real, e que o poder quase mágico exercido por certas abras de arte nasce do fato de que elas nos lembram, conscientemente ou, com mais freqüência, inconscientemente, esse Outro Mundo, no qual o visionário natural pode penetrar à vontade, e ao qual o resto de nós só tem acesso através da influência da hipnose ou de uma droga como a mescalina e o LSD.