Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Segunda Parte - Experiência Psicodélica e Visionária
SEGUNDA PARTE
EXPERIÊNCIA PSICODÉLICA E VISIONÁRIA
Capítulo 7
1953
Cartas
O Dr. Humphry Osmond era um psiquiatra pesquisador que estudava a relação entre a experiência com mescalina e a esquizofrenia, na Universidade de Saskatchewan, quando ele e Huxley encontraram-se pela primeira vez. O convite de Huxley ao Dr. Osmond e sua expectativa de tomar mescafina estão documentados nas cartas a seguir.
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 623]
740 N. Kings Rd., Los Angeles 46, Cal. 10 de abril de 1953
Caro Dr. Osmond,
Obrigado por sua interessante carta e pelo artigo que a acompanhava, e pelas coisas tão simpáticas e compreensivas que o senhor fala de meu livro Os demônios*. Parece que a hipótese de trabalho mais satisfatória sobre a mente humana tem que seguir, até certo ponto, o modelo bergsoniano, no qual o cérebro, com seu eu normal associado, age como um mecanismo utilitário para limitar e selecionar o enorme mundo de consciência possível, e para canalizar experiências em canais biologicamente lucrativos. Doenças, mescalina, choque emocional, experiência estética e iluminação mística, todos têm o poder, cada um de um modo diferente e em graus variáveis, de inibir as funções do eu normal e sua atividade comum do cérebro, permitindo assim que o “outro mundo” invada a consciência. O problema básico da educação é como aproveitar da melhor maneira possível ambos os mundos – o mundo de utilidade bio1ógica e bom senso, e o mundo de experiência ilimitada sub-jacente a ele. Suspeito que a solução completa para o problema só pode chegar àqueles que aprenderam a se estabelecer no terceiro e definitivo mundo do “espírito”, o mundo que subentende e interpenetra ambos os outros mundos. Mas além dessa solução definitiva, pode haver soluções parciais, por meio das quais a criança que cresce pode ser ensinada a preservar seus “indícios de imortalidade” na vida adulta. Sob o sistema atual, a grande maioria dos indivíduos perde, durante a educação, toda a abertura para a inspiração, toda a capacidade de estar consciente de outras coisas além das enumeradas no catálogo da Sears-Roebuck que constitui o mundo convencionalmente “real”. Este não é o preço necessário e inevitável exigido para a sobrevivência biológica e a eficiência civilizada, e isso fica demonstrado pela existência dos poucos homens e mulheres que mantêm seu contato com o outro mundo, mesmo enquanto cuidam de seus afazeres neste aqui. Seria demais esperar que possa ser criado algum dia um sistema de educação que dará resultados, em termos de desenvolvimento humano, proporcionais ao tempo, ao dinheiro, ä energia e à dedicação empregados? Em tal sistema de educação pode ser que a mescalina ou outra substância química qualquer seja usada, tornando possível que os jovem “provem e vejam” o que aprenderam em segunda mão, ou diretamente, mas num nível mais baixo de intensidade, nos textos religiosos, ou nas obras de poetas, pintores e músicos.
Espero firmemente que possa haver uma oportunidade de encontrá-lo durante o Congresso Psiquiátrico em maio. Uma das criaturas mais estranhas que o senhor vai encontrar no congresso será um amigo nosso, o Dr. (... ), que é talvez o maior virtuose vivo em hipnose. (Aliás, pelo menos para algumas pessoas um transe hipnótico profundo é o que leva ao outro mundo – um meio menos notável do que o da mescalina, visto que as experiências são inteiramente voltadas para dentro e não se associam a percepções sensoriais e ao caráter das coisas e pessoas “lá fora”, mas mesmo assim definitivamente um caminho.) Se o senhor Vier para o congresso, podemos fornecer cama e banheiro – mas infelizmente as acomodaçôes são exíguas demais para mais de uma pessoa. O senhor terá liberdade de ir e vir como melhor lhe convier, e sempre haverá algo para comer – embora possa ser um tanto precário nos dias em que não temos cozinheira. De qualquer maneira, fico esperando ansioso a oportunidade de vê-la e de discutir com mais vagar alguns dos problemas levantados em sua carta e nos artigos do Dr. Smythies e nos seus próprios.
Cordialmente,
Aldous Huxley
*Os demômios de Loudun. (Trad. bras. : Porto Alegre, Globo, 1982)
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 624]
740 N. Kings Rd., L A 46, Cal. 19 de abril de 1953
Caro Dr. Osmond,
Ótimo! Vamos esperá-lo no dia 3. Gostaria de sugerir que o senhor pegasse o ônibus da companhia aérea para o Hollywood Roosevelt Hotel, onde poderemos ir buscá-la – ou onde é fácil pegar um táxi. Ir ao aeroporto tornou-se tamanho pesadelo, com o aumento do tráfego, que minha esposa, que dirige o carro, implora a todos que cheguem até o Roosevelt – o que fica mais rápido para o viajante assim como para quem vai encontrá-lo.
Hoffmann La Roche disse a meu jovem amigo médico que precisam mandar buscar na Suíça um suprimento de mescalina – de modo que podem se passar semanas antes que ele chegue. Enquanto isso, o senhor tem alguma coisa à mão? Se tem, espero que possa trazer um pouco, pois estou ansioso para fazer a experiência e ficaria particularmente feliz em levá-la a cabo sob a supervisão de um estudioso experiente como o senhor.
Muito cordialmente,
Aldous Huxley