Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 2 - 1931 Procura-se Um Novo Prazer
Capítulo 2
1931
Procura-se Um Novo Prazer
ALDOUS HUXLEY
Morando na Riviera Francesa e observando os costumes de uma sociedade hedonista para a qual o álcool e a Cocaína eram as drogas escolhidas, Huxley, neste curto ensaio – uma pausa na criação de Admirável Mundo Novo – assume um tom de irônico gracejo ao descrever uma “droga celestial, que transfigura o mundo” que cientistas do futuro poderiam criar. A sensação mais próxima à experiência da droga é a emoção da velocidade – não significando, é claro, uma reação tipo anfetamínica, mas, literalmente, a rapidez.
A CIÊNCIA do século XIX descobriu a técnica da descoberta, e nossa era é, por conseqüência, a era da,s invenções. Sim, a era das invenções – e no entanto ninguém conseguiu inventar um novo prazer.
Foi durante uma visita recente à região que os anúncios das agências de viagem descrevem como o reino particular do prazer – a Riviera Francesa – Que esse fato curioso e um tanto deprimente primeiro me chamou a atenção. Da fronteira italiana até as montanhas de Esteres sessenta e cinco quilômetros da costa do Mediterrâneo foram transformados numa enorme “estação de prazer”. Ou, para ser' mais preciso, foram trans-formados num enorme subúrbio – O subúrbio de toda a Europa as Américas, pontilhado aqui e ali de núcleos urbanos, tais como Mentone, Nice, Antibes, cannes. Os franceses têm o dom da elegância, mas têm também o dom da feiúra. Não há subúrbios tão horríveis quanto os que rodeiam as cidades francesas. O grande banlieue mediterraneo na Riviera não é uma exceção à regra. A caótica miséria dessa comprida favela burguesa é, felizmente, única. As cidades são imensamente superiores, é claro, a seus respectivos subúrbios. Uma certa grandiosidade agradável e absurdamente antiquada e enfeitada adorna Monte Cario; Nice é grande, clara e alegre; Cannes, gravemente pomposa e como se consciente de sua cara elegância. E todas elas estão equipadas com um esmeradíssimo e caríssimo aparato para dar prazer a seus hóspedes.
Foi enquanto eu me divertia, ou tentava me divertir, em meio a esse aparato, que cheguei à minha deprimente conclusão sobre a ausência de novos prazeres. A idéia, lembro-me, ocorreu-me numa melancólica noite de inverno, quando eu saía do Restaurant des Ambassadeurs em Cannes para um desses ventos fortes, meio alpinos e meio marinhos, que em certos dias trans-formam a Croisette e a Promenade des Anglais em imitações extremamente realísticas do Morro dos Ventos Uivantes. Percebi de repente que, no que se referia aos prazeres, não estávamos melhores que os romanos ou os egípcios. Galileu e Newton, Faraday e Clerk Maxwell tinham vivido, no que se referia aos prazeres, em vão. As grandes multinacionais que controlam as modernas indústrias de prazer nada nos podem oferecer que seja essencialmente diferente das diversões que os cônsules ofereciam à plebe romana ou que os alcoviteiros de Trimalquião podiam preparar para o prazer dos ricos entediados e exaustos, na época de Nero.* E isso é verdade, apesar dos filmes, dos espetáculos, do rádio, do gramofone e de todo o mecanismo moderno destinado a divertir a humanidade. É verdade que esses instrumentos são todos essencialmente modernos; antes nada disso existia. Mas por serem as máquinas modernas não significa que a diversão que elas reproduzem e irradiam também seja moderna. Não é. Tudo o que essas máquinas novas fazem é tornar acessível a um público maior o drama, a pantomima e a música que, desde tempos imemoriais, divertiam o lazer da humanidade.
Essas diversões mecanicamente reproduzidas são baratas, portanto não são encorajadas em estações de prazer como as da Riviera, que existem com o objetivo único de fazer os viajantes gastarem o máximo de dinheiro num mínimo espaço de tempo. Nesses lugares, o drama, a pantomima e a música são portanto proporcionados na forma original, como eram proporcionados a nossos ancestrais, sem a interposição de um intermediário mecânico. Os outros prazeres dessas estações não são menos tradicionais. Comer e beber demais; observar bailarinas e acrobatas seminuas ou inteiramente despidas, na esperança de estimular o apetite sexual exaurido; dançar; jogar e observar o jogo, de preferência jogos sangrentos e ferozes; matar animais esses sempre foram os esportes dos ricos e, quando tinham oportunidade, também dos pobres. Não menos tradicional é essa outra estranha diversão tão característica da Riviera – o jogo de apostas. Apostar deve ser pelo menos tão antigo quanto o dinheiro; mais antigo, eu imagino – tão antigo quanto a própria natureza humana, ou pelo menos tão antigo quanto o tédio, tão antigo quanto a ânsia por excitações artificiais e emoções fictícias.
Oficialmente isso encerra a lista de prazeres proporcionados pelas indústrias de diversões da Riviera. Mas não se pode esquecer que, para aqueles que podem pagar por eles, todos os prazeres estão situados, por assim dizer, num certo campo emocional – no complexo de prazer/dor do esnobismo. O fato de poder comprar ingressos para as diversões “exclusivas” (o que geralmente significa “onerosas”) dá considerável satisfação à maioria das pessoas. Elas gostam de pensar no rebanho pobre e vulgar lá fora, exatamente como, segundo Tertuliano e outros Pais da Igreja, os Abençoados gostam de olhar os balcões do Céu para as contorções dos Amaldiçoados no fosso lá embaixo.
Gostam de sentir, com um certo orgulho, que estão sentados entre os eleitos, ou que elas mesmas são pessoas eleitas, cujos nomes figuram nas colunas sociais do Daily Mail continental ou da edição parisiense do New York Herald. É verdade que o esnobismo é com freqüência a causa de grande sofrimento. Mas é também causa de prazeres extraordinários. Esses prazeres, repito, são liberalmente proporcionados em todos os lugares e constituem uma espécie de pano de fundo para todos os outros prazeres.
Ora, todos esses prazeres das estações de prazeres, inclusive os do esnobismo, são imemorialmente antigos – no máximo, variações de temas tradicionais. Vivemos na era das invenções, mas os descobridores profissionais não foram capazes de pensar num modo inteiramente novo de estimular agradavelmente nossos sentidos ou evocar reações emocionais agradáveis.
Isso, porém, continuei refletindo enquanto abria caminho através do vento contrário na Croisette, isso não é, afinal, tão Surpreendente. Nossa estrutura fisiológica permanece em grande parte a mesma de dez mil anos atrás. É verdade que tem havido mudanças consideráveis em nossa forma de consciência; em tempo algum, é óbvio, todas as potencialidades da psique humana são realizadas simultaneamente; a História é, entre outras coisas, o registro de sucessivas atualizações, negligências e reatualizações em outro contexto de conjuntos diferentes dessas quase inumeráveis potencialidades. Mas apesar dessas mudanças (a que se costuma chamar, erroneamente, de evolução psíquica), os simples sentimentos instintivos aos quais, assim como aos sentidos, os fornecedores de prazer fazem seu apelo, permaneceram notavelmente estáveis. A tarefa dos mercadores de prazer é proporcionar uma espécie de Máximo Denominador Comum de diversão que deverá satisfazer grande número de homens e mulheres, independentemente de suas idiossincrasias psicológicas. Tal diversão, é óbvio, tem que ser muito pouco especializada. Seu apelo deve ser às mais simples das características humanas gerais – aos alicerces fisiológicos e psicológicos da personalidade, e não à personalidade em si. Ora, o número de apelos que podem ser feitos ao que eu poderia chamar de Grandes Impersonalidades comuns a todos os seres humanos é estritamente limitado – tão estritamente limitado que, como se viu, nossos inventores não foram capazes até agora de descobrir outros novos. (Existe um exemplo duvidoso de um novo prazer; mais tarde falarei dele.) Ainda nos contentamos com os prazeres que encantaram nossos ancestrais na Idade do Bronze. (Aliás, há boas razões para considerarmos nossas diversões intrinsecamente inferiores às da Idade do Bronze. Os prazeres modernos são inteiramente seculares e sem a menor importância cósmica; enquanto que as diversões da Idade do Bronze eram na maioria ritos religiosos, e os que delas participavam sentiam-nas repletas de significados importantes.)
Pelo que posso ver, o único prazer novo possível seria derivado da invenção de uma nova droga – de um sucedâneo mais eficiente e menos maléfico do álcool e da cocaína. Se eu fosse multimilionário, financiaria um grupo de pesquisadores para procurar o intoxicante ideal. Se pudéssemos cheirar ou engolir algo que pudesse, durante cinco ou seis horas por dia, abolir nossa solidão como indivíduos, harmonizarnos com nossos semelhantes numa cálida exaltação de afeição e fazer a vida em todos os seus aspectos parecer não apenas digna de ser vivida, mas divinamente bela e importante, e se essa droga celestial, que trans-figura o mundo, fosse de um tipo que pudéssemos acordar no dia seguinte de cabeça leve e físico ileso – então, parece-me, todos os nossos problemas (e não apenas o único pequenino problema de se descobrir um novo prazer) ficariam inteiramente resolvidos e a Terra se tornaria o paraíso.
A coisa mais próxima de uma nova droga como essa – e como é infinitainente distante do intoxicante ideal! – é a droga da velocidade. A velocidade, parece-me, proporciona o único prazer genuinamente moderno. É verdade que os homens sempre gostarám dá velocidade; mas seu prazer vinha sendo limitado, até tempos recentes, pela capacidade do cavalo, cuja velocidade máxima nâo vai muito além de quarenta e cinco quilômetros por hora. Ora, quarenta e cinco quilômetros por hora a cavalo parece muito mais rápido do que oitenta quilômetros por hora num trem ou cento e cinqüenta num avião. O trem é grande e estável demais, o avião fica muito longe de elementos estacionários para dar aos passageiros uma sensação de velocidade muito intensa. O automóvel é suficientemente pequeno e suficiente-mente próximo do solo para conseguir competir, como um fornecedor de velocidade inebriante, com o cavalo a galope. Os efeitos inebriantes da velocidade são sentidos, a.cavalo, a mais ou menos trinta quilômetros por hora, e num carro mais ou menos aos noventa e cinco. Quando o carro ultrapassa os cento e quinze quilômetros, começa-se a sentir uma sensação sem precedentes – uma sensação que homem nenhum nos dias do cavalo chegou a sentir. Ela cresce em intensidade quando cresce a velocidade. Eu mesmo nunca passei muito de cento e trinta quilômetros por hora num carro; mas aqueles que beberam uma infusão mais forte desse estranho tóxico dizem-me que novas maravilhas aguardam quem quer que tenha a oportunidade de passar da marca dos cento e cinqüenta quilômetros. Em que ponto o prazer se transforma em dor, não sei. De qualquer maneira, muito antes de serem alcançadas as fantásticas cifras de Daytona. Trezentos e vinte quilômetros por hora deve ser pura tortura.
Mas nisso, é claro, a velocidade é como todos os outros prazeres; levados ao excesso, eles se tornam seus opostos. Cada prazer particular tem seu sofrimento particular que lhe corresponde – dor, tédio ou nojo. A desvantagem de demasiado prazer de velocidade deve ser, imagino, uma horrível mistura de intenso mal-estar físico e medo intenso. Não; se é preciso procurar os excessos, provavelmente será mais sensato ser antiquado e contentar-se em comer demais.
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*Referência ao famoso banquete de Trimalquião, episódio-chave do Satíricon de Petrônio.
(N. do Editor)