Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 3 - 1932 Soma
Capítulo 3
1932
Soma
ALDOUS HUXLEY
Em seu romance futurístico Admirável Mundo Novo, uma suposta “droga perfeita” é desenvolvida comercialmente, e extensamente vendida. Huxley chamou-a soma, comp a mais antiga droga registrada, citada nas antigas escrituras hindus, o Rigveda, onde ela é considerada uma bebida inebriante: “Uma beberagem alcoólica muito forte .. [...] obtida da fermentação de uma planta e venerada como a própria planta”, (Lewin, Phantastica, p. 161). É. G. Wasson mais tarde tentou demonstrar que a infusão d.e. soma empregava o cogumelo psicoativo Amanita muscaria. Numa entrevista em 1960, Huxley descreveu o soma de seu romance como “uma droga imaginária”, sem qualquer semelhança com a mescalina ou o LSD.”, “com três efeitos diferentes: eufórico, alucinógeno ou sedativo – uma combinação impossível”.
– Agora temos o Estado Mundial. E as comemorações do Dia de Ford, os Cantos Comunitários, os Ofícios de Solidariedade à Ford! Como eu os odeio!”, pensava Bernard Marx.
– Havia uma coisa chamada Céu; entretanto, eles bebiam quantidades enormes de álcool.
“Tal como carne, como um pedaço de carne.”
– Havia uma coisa chamada alma e uma coisa chamada imortalidade.
– Pergunte a Henry onde o comprou.
– Mas eles tornavam morfina e cocaína.
“E, o que é ainda pior, ela própria se considera uma carne."
– Dois mil farmacologistas e bioquímicos foram subvencionados pelo Estado no ano 178 D.F.
– Ele está mesmo com ar sombrio – disse o Predestinador Adjunto, apontando para Bernard Marx.
– Seis anos depois, era fabricado comercialmente. A droga perfeita.
Vamos mexer com ele.
– Eufórico, narcótico, agradavelmente alucinatório.
Sombrio, Marx, sombrio. – A palmada no ombro sobressaltou-o, fê-la erguer os olhos. Era aquele animal de Henry Foster. – Você precisa é de um grama de soma.
– Todas as vantagens do Cristianismo e do álcool; nenhum dos seus inconvenientes.
"Ford! Tenho vontade de matá-lo!” Mas limitou-se a dizer: – Não, obrigado – e a afastar o tubo de comprimidos que lhe ofereciam.
– Podem proporcionar a si mesmos uma fuga da realidade sempre que o desejarem, e retornar a ela sem a menor dor de cabeça e nem sombras de mitologia.
– Tome – insistiu Henry Foster. – Tome.
– A estabilidade estava praticamente assegurada.
– Com um centimetro cúbico se curam dez sentimentos lúgubres – disse o Predestinador Adjunto, citando um aforismo comum da sabedoria hipnopédica.
– Faltava apenas vencer a velhice.
– Ora, não me amolem! – gritou Bernard Marx. – Upa!
– Os hormônios gonadais, a transfusão de sangue jovem, os sais de magnésio...
– E lembre-se que um grama vale mais que o “ora” que se clama...
Os dois saíram rindo.
– Todos os estigmas fisiológicos da velhice foram suprimidos. E com eles, naturalmente...
– Não se esqueça de falar-lhe no cinto malthusiano – disse Fanny.
– Com eles, todas as peculiaridades mentais do velho. O caráter permanece constante por toda a vida.
– ...duas voltas de Golfe-Obstáculo antes do anoitecer.
Tenho de ir correndo.
– No trabalho, nas diversões – aos sessenta anos, nossas forças e nossos gostos são o que eram aos dezessete. Os velhos nos tristes dias de outrora, renunciavam, aposentavam-se, dedicavam-se à religião, passavam o tempo lendo e pensando – pensando!
“Idiotas, porcos!” dizia Bernard Marx consigo mesmo, caminhando em direção ao elevador.
– Atualmente, tal é o progresso, os velhos trabalham, os velhos copulam, os velhos não têm um instante, um momento de ócio para furtar ao prazer, nem um minuto para se sentarem a pensar – ou se, alguma vez, por um acaso infeliz, um abismo de tempo se abrir na substância sólida de suas distrações, sempre haverá o soma, o delicioso soma, meio grama para um descanso de meio-dia, um grama para um fim de semana, dois gramas para uma excursão ao esplêndido Oriente, três para uma sombria eternidade na Lua; de onde, ao retornarem, se encontrarão na outra margem do abismo, em segurança na terra firme das distrações e do trabalho cotidiano, correndo de um cinema sensível a outro, de uma mulher pneumática a outra, de um campo de Golfe Electromagnético a... [...]
O grupo estava agora completo, o círculo de solidariedade estava perfeito e sem falhas. Um homem, uma mulher, um homem – num anel de alternância sem fim ao redor da mesa. Eram doze, prontos a se reunirem em um, esperando aproximarem-se, fundirem-se, perderem em um ser maior suas doze identidades distintas.
O Presidente levantou-se, fez o sinal do T e, ligando a música sintética, desencadeou o suave, infatigável rufar de tambores e um coro de instrumentos – de quase-sopro e supercordas – que repetiram expressivamente, muitas e muitas vezes, a melodia breve e absedante do Primeiro Cântico de Solidariedade. Outra vez, mais outra – e não era o ouvido que percebia o ritmo marte-lado, era o diafragma; o gemido e o clangor daquelas harmonias reiteradas obsedavam, não o espírito, mas as entranhas, criando uma ardente compaixão.
O Presidente fez de novo o sinal do T e sentou-se. A cerimônia tinha começado. Os comprimidos de soma consagrados foram colocados no centro da mesa. A taça da amizade, cheia de refresco de morango com soma, foi passada de mão em mãe e, com a fórmula “Bebo ao meu aniquilamento”, levada doze vezes aos lábios. Depois, com o acompanhamento da orquestra sintética, cantaram o Primeiro Cântico de Solidariedade.
Nós somos doze, ó Ford; em tuas mãos reunidos Como as gotas que caem no Ribeiro Social; Ah! Faz com que corramos destemidos Como teu Calhambeque sem rival!
Doze estrofes anelantes. Depois, a taça da amizade passou. novamente de mão em mão. “Bebo ao Ser Maior”, tal era a fórmula. Todos beberam. Infatigavelmente, a música continuava. a se fazer ouvir. Os tambores rufavam. Os sons plangentes e atroadores das harmonias eram uma obsessão nas entranhas enternecidas. Cantaram o Segundo Cântico de Solidariedade:
Vem, Amigo Social, ó Ser Supremo e Forte, ó Aniquilador dos Doze em Um, gigante! Todos morrer queremos, porque a morte É desta vida o mais sublime instante!
Novamente, doze estrofes. A essa altura, o soma já começara a atuar. Os olhos brilhavam, as faces estavam coradas, a luz ìnterior da benevolência universal irradiava-se de cada rosto, em sorrisos felizes e amistosos. O próprio Bernard sentiu-se um pouco enternecido. Quando Morgana Rothschild se virou e lhe dirigiu um sorriso radiante, ele fez o que pôde para retribuí-lo. Mas a sobrancelha, aquela escura duas-em-uma, continuava ali; Bernard não podia deixar de vê-la – por mais esforços que fizesse, não podia. O enternecimento ainda não fora bastante longe. Se ele estivesse sentado entre Fifi e Joana, quem sabe... Pela terceira vez, a taça da amizade circulou. “Bebo à iminência de Sua Vinda”, disse Morgana Rothschild, a quem tocava a vez de dar começo ao rito circular. Sua voz era forte, exultante. Ela passou a taça a Bernard. “Bebo à iminência de Sua Vinda”, repetiu ele, com um esforço sincero para sentir que a Vinda era iminente; mas aquela sobrancelha continuava a obcecá-lo, e a Vinda, para ele, era horrivelmente remota. Bebeu e passou a taça a Clara Deterding. “Será outro fracasso, eu sei”, disse consigo mesmo, mas continuou a fazer o possível para ostentar um sorriso radiante.
A taça da amizade completara o seu circuito. Erguendo a mão, o Presidente fez um sinal; o coro entoou o Terceiro Cântico da Solidariedade.
Senti que vem a vós o Grande Ser dos dias!
Alegrai-vos com a sorte ideal que ele vos deu!
Fundi-vos ao cantar das melodias,
Porque enfim eu sou vós e vós sois eu.