Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 14 - 1955 Cartas
Capítulo 14
1955
Cartas
Nesse ano Huxley tomou mescalina duas vezes. A primeira ocasião foi em companhia de seu velho amigo, o escritor inglês Gerald Heard, e o magnata do urânio Capitão Albert M. Hubbard. “Como eu estava num grupo", escreveu Huxley, “a experiência teve um conteúdo humano que a experiência anterior, solitária, com sua qualidade do Outro Mundo e sua intensificação da experiência estética, não possuiu”. A segunda sessão de mescalina, dirigida por Laura Archera, foi inteiramente espiritual, trazendo “Á consciência direta, total [...] do Amor como o fato cósmico primário e fundamental”. Entre essas sessões ocorreu a marte de sua andada Maria, com quem ele se casara em 1919. Maria tinha tomado mescalina e ololiuqui, tinha tido experiências visionáírias sob hipnose e revelações místicas no deserto. Ela e Aldous tinham msistido D. H. Lawrence em sua morte em 1930. Durante as últimas horas de Maria, Aldous leu para ela o Bardo Thodol do Livro Tibetano dos Mortos.
A maior parte do ensaio Céu e inferno foi escrita em 1955. O ano terminou com a primeira experiência de Huxley com LSD, novamente em companhia de Heard e Hubbard. Aldous tomou uma dm' pequena, mas a experiência foi altamente significativa: enquanto escutava Bach, ele compreendeu “a Perfeição essencial do universo [...] a reconciliação dos opostos [...] a natureza nirvânica do Samsara”. Experimentou também um gás psicoativo composto de dióxido de .carbono e oxigênio (carbogênio). Outra faceta do caráter de Huxley nos é revelada em sua tentativa de solicitar ajuda para uma pessoa presa por posse de peiote.
A ROGER E ALICE GODEL [SMITH 676]
74O Narth Kings Road, Los Angeles 46, Cal. 10 de janeiro de 1955
Meus caros Roger e Alice,
[...] Tenho trabalhado muito – terminei um romance curto,* que vai ser publicado em abril ou maio, e um volume de ensaios inclusive aquele sobre experiência visionária e o Outro Mundo, que vocês viram na primavera passada, e que foi bastante aumentado para poder incluir uma discussão sobre a arte visionária.
E, por falar em visões, tornei mescalina ontem, pela segunda vez. Essa experiência não foi menos impressionante do que a primeira – mas inteiramente diferente; pois, como eu estava em grupo, com outras três pessoas, a experiência teve um conteúdo humano, que a experiência anterior, solitária, com sua qualidade de Outro Mundo e sua intensificação da experiência estética, não possuiu. Durante cinco horas recebi uma série de ilustrações luminosas do provérbio cristão: “Não julgueis para não serdes julgados”, e do provérbio budista “Colocar o que você gosta contra o que você não gosta, é esta a doença da mente”. Incidentalmente, alguns progressos notáveis vêm tendo lugar no campo da mescalina. Um grupo de psicólogos e assistentes sociais em Vancouver e Seattle desenvolveu técnicas para usar a mescalina terapeuticamente. Ela age de modo oposto à narcossíntese. Quando é feito um tratamento psicológico sob barbitúricos, o ego fica entorpecido e se torna possível chegar a uma parte do conteúdo do subconsciente pessoal. Mas com a mescalina a consciência não diminui, ela aumenta enormemente, mostra-se à vista e toda a escala da psique, até os mais altos níveis superconscientes. O primeiro tratamento é negativo em sua natureza, e o segundo é positivo. E os resultados nos casos até agora tratados (ainda são bem poucos) têm sido espetaculares. Delinqüentes juvenis têm sido inteiramente transformados numa única sessão, e a metanoia persistiu. Enquanto isso um considerável número de pessoas de formação universitária ou homens de negócios tornaram a droga – e todos, sem exceção, declararam-na a experiência mais importante de suas vidas, e descobriram que, especialmente quando ela é tomada em grupo, a mescalina traz uma profunda e perene mudança de pontos de vista. Há alguns projetos de uma comissão mista – médicos, psicólogos, filósofos, assistentes sociais – ser criada para estudar o assunto. Sendo a pessoa cujo livro foi em grande parte responsável pelo grande aumento no interesse pela mescalina, espero participar do trabalho dessa comissão.
Os diálogos já apareceram?‘ E em que vocês estão trabalhando agora? (Como se seu trabalho no hospital não fosse trabalho de verdade!) E como vai a família de Alice? E os Hellous?
Espero que 1955 seja um ano frutífero para vocês dois, e também muito feliz.
Do sempre seu, querida Alice, e do sempre seu também, querido Roger,
Aldous
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* O gênio e a deusa Céu e inferno.
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 678]
740 North Kings Rd, Los Angeles 46, Cal. 12 de janeiro de 1955
Caro Humphry,
Foi bom ouvir sua voz4 com tanta clareza através dos espaços intermediários. Seu simpático capitão tentou uma nova experiência – mescalinização em grupo. Funcionou muito bem para Gerald Heard e para mim, e muito pouco para (........), que recebeu uma dose pequena (200 mg, e nós, 300 mg) e que teve uma resistência subconsciente de enorme força, e um tanto mal para Hubbard, que tentou dirigir o grupo do modo que ele tinha dirigido outros grupos em Vancouver, onde a droga funcionou como um mecanismo para fazer emergir culpas e traumas enterrados, permitindo que as pessoas vivam melhor consigo mesmas. Gerald e eu fugimos dele e fomos para outro lugar – mas não para os distantes Outros Mundos das experiências anteriores. Em ambos os casos, embora de maneiras diferentes, foi uma experiência transcendental dentro deste mundo e com referências humanas. Espero escrever algo sobre minha experiência, e remeter-lhe uma cópia a seu tempo. Enquanto isso, estou esperando que o gentil capitão, cujas conexões com o urânio parecem ser-vir de passaporte para as esferas mais altas do governo, do empresariado e do clero, e que está prestes a embarcar para Nova Iorque, onde espero que ele revolucione as Nações Unidas, leve Nelson Rockefeller para. um passeio até o Céu e volte com milhões de dólares. Como nós, literatos e profissionais, somos crianças ingênuas! O Grande Mundo às vezes necessita de seus ser-viços, e diverte-se um pouquinho com o meu, mas toda a sua atenção e deferência vai para o Urânio e as Altas Finanças. Assim, que sorte extraordinária que esse representante desses Poderes Superiores (a) tenha-se tornado tão apaixonadamente interessado pela mescalina e (b) seja uma pessoa tão boa.
Incluo uma carta da França, que perdi e acabei de recuperar das profundezas do bolso de um paletó. Pedi a essa senhora farmacológica para remeter-lhe diretamente uma cópia de sua tese. Pode ser de algum interesse. [...]
Do seu, Aldous
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* Un compagnon de Socrate; dialogue sur l’expérienoe libératrice, de Godel (Paris, 1966).
Huxley tinha telefonado para Osmond, ao que parece para obter sua aprovação antes de participar da experiência. Maria Huxley, num cartão-postal de 11 de janeiro, escreveu a Osmond : “Provavelmente eu devia saber que eles sabem quem é o patrâo – ou Sumo Sacerdote ( • .......), como queira. Mas fiquei muito aliviada ao saber que eles tinham-lhe telefonado.” O Capitão Albert M. Hubbard mantinha um centro de pesquisas sobre drogas em Vancouver. A “senhora farmacológiea” era Madame Steiner, de Paris. [Nota de Smith].
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 679]
740 North Kings Road, Los Angeles 46, Cal 16 de janeiro de 1'955
Meu Card Humphry,
Obrigado :por sua carta e pelo roteiro da conferência, de que gostei muito mesmo. Tudo o que posso sugerir em matéria de modificações é o acréscimo de uma ou duas linhas, indicando, um pouco mais especificamente do que você o faz, o que pode ser esperado da pesquisa sistemática com a méscalina e com substâncias similares. Seria de se esperar, por exemplo, que talvez se possa jogar uma nova luz sobre o funcionamento dos vislumbres arústicos e científicos, e talvez se possa conseguir algum controle sobre o processo, em caso contrário gratuito e fortuito, da inspiração. Poder-se-ia esperar também que surgisse uma luz a respeito dos problemas da parapsicologia. E também a respeito dos da filosofia e da religião.
Gerald e eu tivemos outro dia com Al Hubbard, lá em Long Beach. Ele forneceu a nós dois um suprimento de uma mistura de dióxido de carbono e oxigênio’. Eu já experimentei essa substância antes, sem muito efeito. Mas suspeito que não foi ministrada corretamente, e talvez possa haver, afinal de contas, alguma coisa a aprender por meio desse método simples e inofensivo. ô próprio Hubbard jura que funciona. [...)
Do seu, Aldous
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* O carbogênio (mistura de sete partes de oxigênio e três partes de dióxido de carbono) tem sido usado como agente psicoterapêutico ; seus efeitos são discutidos num apêndice de Céu e inferno.
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 713]
Newcomb House, Clapboard Hill Rd., Guilford, Conn. 26 de julho de 1'955
Caro Humprhy,
Devo-lhe duas longas cartas. Não tenho desculpa, a não ser que venho tentando atualizar as pilhas de correspondência e terminar a série de apêndices que serão publicados com o ensaio sobre "Experiência Visionária e Arte Visionária”, quando ele sair em janeiro próximo.‘ A data final do editor é 10 de agosto; assim, tenho que trabalhar bastante. Fiz um dos apêndices sobre arte visionária popular – por exemplo, fogos de artifício, espetáculos, peças teatrais, shows de lanterna mágica (muito importantes no passado) e determinados aspectos do cinema. Um assunto curioso e interessante. Um dos fatos notáveis é a íntima dependência dessas artes da tecnologia. Por exemplo, o progresso na iluminação artificial desde 1750 – velas de espermacete, os queimadores de Argand para lâmpadas a ó1eo, luz de gás, luz de cálcio de 1825 em diante, refletores parabólicos depois de 1790, luz elétrica depois da década de 80 – aumentou imensamente o poder mágico dos espetáculos e das peças teatrais. A coroação de Elisabete II foi melhor que qualquer outra coisa no passado, por causa dos holofotes. Pôde também ser preservada em filme – enquanto que todos os espetáculos anteriores eram shows efêmeros e só podiam esperar “viver mais um dia na lembrança dos espectadores”. Os organizadores das mascaradas do tempo do rei Jaime I da Inglaterra tinham a desvantagem de uma iluminação faltosa. As lanternas mágicas são muito interesantes. O fato de ter sido chamada de “mágica” a invenção de Kircher, e de que o nome foi universalmente aceito, é altamente significativo. A luz intensa mais a cor transparente é igual a visão. E você já percebeu que a palavra “fantasmagoria” foi criada em 1802 pelos inventares de uma lanterna mágica nova e aperfeiçoada, que se movia para a frente e para trás sobre rodas, atrás de uma tela semitransparente, e podia projetar imagens de vários tamanhos, que eram mantidas em foco por um mecanismo de focalização automático? Não posso deixar de acreditar que muitas das características da imaginação romântica foram derivadas do espetáculo de lanterna mágica com suas “visões que desapareciam gradualmente” (produzidas por duas lanternas com imagens convergentes e obturadores que podiam ser mantidos fechados ou abertos em correspondência um com o outro), suas “fantasmagorias”, seus slides cromotrópicos (produzindo padrões animados em três dimensões, bem parecidos com os da mescalina). Vemos vislumbres do espetáculo de lan-terna mágica em Shelley e, sob outro aspecto, em Keats, em Fuseli e John Martin. E, por falar em lanternas – já lhe contei que meu amigo o Dr. [L. S.] Cholden’ descobriu que o estroboscópio aumenta os efeitos da mescalina, assim como Al Hubbard? Suas próprias visões geométricas transformaram-se, sob a lâmpada a piscar, em paisagens japonesas. Como isso se insere na teoria de que os efeitos estroboscópicos resultam da interferência de dois ritmos, o da lâmpada e o das ondas do cérebro, não posso imaginar. De qualquer maneira, quais são afinal as correlações neurológicas entre as experiências com mescalina e com LSD? E se são formados padrões neurológicos, como presumivelmente devem ser, eles poderão ser reativados por um elétrodo em forma de sonda, assim como [Wilder] Penfield reativa séries de lembranças, dando origem a uma recordação completa e vívida?
Também fiz aniversário, exatamente nesse dia.
Com que rapidez o Tempo, o sutil ladrão da idade, Roubou em sua asa meu sexagésimo-primeiro ano!
Com todo o carinho. Aldous
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* Céu e inferno.
** O psicanalista que dirigiu o simpósio sobre mescalina e LSD em Atlantic City em 12 de maio, e morreu tragicamente num acidente de automóvel.
SRA. EILEEN J. GARRETT [SMITH 717]
Guilford, Conn. 27 de agosto de 1955
Minha Cara Eileen,
[...] Passei alguns dias, no início deste mês, em Glen Cove, na estranha comunidade reunida por Puharich – Alice [Bouverie] e a Sra. P. [uharich] comportando-se uma com a outra de um modo conspicuamente amigável; Elinor Bond, fazendo adivinhações telepáticas notavelmente bem, mas sem produzir coisa alguma de interesse ou valor na sessão mediúnica que ela me pro-porcionou; Frances Farrely, com sua máguina de diagnosticar – que os testes de Puharich demonstraram ser apenas um instrumento, como uma bola de cristal, para concentrar faculdades extrasensoriais; Harry, o escultor holandês, que entra em transe em gaiolas Faraday e produz escrita automática em hieróglifo egípcios; Narodny, o homem-barata, que está preparando experiências para testar os efeitos da telepatia humana nos insetos. Foi tudo muito animado e divertido – e, eu realmente acho, promissor; pois, apesar de tudo o que se possa dizer contra Puharich, ele é certamente muito inteligente, extremamente culto e altamente empreendedor. Sua meta é reproduzir, por modernos métodos farmacológicos, eletrônicos e físicos, as condições usadas pelos xamãs para entrar num estado de clarividência itinerante e então, se conseguir, mandar pessoas para explorarem sistematicamente o “Outro Mundo”. Isso parece ser uma nova abordagem do problema da sobrevivência situado junto com muitos outros problemas, tão válida quanto qualquer outra, e pode produzir resultados interessantes. Enquanto isso, para a imensa satisfação de todos, eles encontraram espécimes de Amanita mus-caria crescendo lá mesmo na propriedade – tendo recebido instruções para encontrá-los através da tábua de ouija, enquanto tentavam entrar em contato com a curandeira do Sr. [Gordon] Wasson, que mo mesmo momento estava sob um transe de cogumelo, no México. Isso é ainda mais impressionante porque as publicações da sociedade de micologia da Nova Inglaterra registram apenas um caso anterior de descobrimento de Amanita no Maine. Em Glen Cove eles agora descobriram oito lindos espécimes no mesmo lugar. Os efeitos, quando um pedaço do tamanho da cabeça de um alfinete é esfregado por alguns segundos no couro cabeludo, são alarmantemente fortes, e obviamente vai ser necessária uma grande quantidade de experiências cuidadosas para determinar a dose de cogumelo apropriada para ativar a psique.
Vou para Nova Iorque na segunda-feira, e vou ficar com Anita Loos e conversar com meu diretor e produtor sobre minha peça [O gênio e a deusa], depois vou de avião para Los Angeles na quinta-feira. Ellen e Matthew mandam lembranças.
Com todo carinho, Aldous