Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Capitulo 16 - 1955 CARTAS

Capitulo 16

 

1955

 

CARTAS

 

AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMIITH 724]

 

74O North Kings Road, Los Angeles 46, Cal. 24 de outubro de 1955

 

Caro Humphry,

Acho que não vamos nos encontrar em Nova Iorque, a não ser talvez em sua volta da Europa. Não espero ir para o leste antes dos últimos dias de dezembro – e talvez mais tarde; nunca se sabe, quando se trata de teatro. Quanto tempo você pretende ficar na Suíça e na Inglaterra? Seria uma coisa ótima se nossas trajetórias se cruzassem em seu caminho de volta.

Tive outra experiência muito extraordinária com mescalina, outro dia.' Depois de ler um relato de um dos pacientes de Al – um jovem engenheiro canadense que tinha recuperado toda espécie de material traumático enterrado e cronicamente debilitante, sob o LSD, resolveu isso tudo com as ab-reações apropriadas e teve, como brinde, uma visão beatífica, de modo que toda a vida dele transformou-se da noite para a dia – depois de ler isso, resolvi que devia ser interessante descobrir por que tanta coisa da minha infância está escondida de mim, de tal forma que não consigo me lembrar de grandes períodos do início de minha vida. Assim, dispus-me a uma sessão com uma mulher que tem uma grande experiência em despertar recordações e lidar com as ab-reações por métodos dianéticos – que em muitos casos produzem mesmo resultados benéficos, apesar de tudo o que pode ser dito contra os teóricos da dianética e muitos de seus praticantes. Tornei metade do conteúdo de uma cápsula de 400 mg às dez e a outra metade mais ou menos uns quarenta minutos depois, e os efeitos começaram a ficar fortes mais ou menos uma hora e meia depois da primeira dose. Houve poucas visões de olhos fechados, como foi o caso durante minha experiência sob seus auspícios, mas muitas transfigurações do mundo exterior. Foram tentados métodos dianéticos, de acordo com o que foi descrito no relato do paciente de Al; mas não houve absoluta-mente lembrança alguma. Em vez disso, houve algo de importância incomparavelmente maior; pois o que chegou através da porta fechada foi a percepção – não o conhecimento, pois não foi verbal nem abstrato – mas a consciência direta e total, vinda de dentro, por assim dizer, do Amor como fato cósmico primário e fundamental. As palavras, é claro, possuem uma espécie de indecência e necessariamente soam falsas, parecem disparates. Mas o fato permanece. (Foi o mesmo fato, evidentemente, que os indígenas descobrem em suas cerimônias com o peiote.) Eu era esse fato; ou talvez fosse mais acurado dizer que esse fato ocupava o espaço onde eu estivera. O resultado foi que eu não me senti separado do mundo humano, como na primeira experiência. Eu estava intensamente cônscia dele, mas do ponto de vista do fato vivo, cósmico e primordial do Amor. E as coisas que tinham ocupado inteiramente minha atenção na primeira ocasião eu percebia agora serem tentações – tentações a fugir da realidade central para dentro de Nirvanas falsos, ou pelo menos imperfeitos e parciais, de beleza e mero conhecimento. Conversei muito sobre essas tentações; comentei no esclarecimento que essa percepção trazia sobre a lenda de Santo Antônio, sobre a declaração Zen de que para um Bodhisattva, o Samadhi do Vazio, o Nirvana longe do mundo, longe do amor, da compaixão e de seres sensíveis, é tão terrível quanto as dores do inferno. E lembro-me de ter citado o comentário de Pascal de que venerar a verdade sem caridade é idolatria, pois a verdade é apenas ídolo de Deus, ao qual não temos o direito de venerar. E claro que a mesma coisa é verdade em relação à beleza. (Na verdade, a trindade platônica do bom, do verdadeiro e do belo é uma expressão imperfeita dos fatos. Bom implica ruim e assim perpetua o dualismo. O Amor reconcilia todos os opostos e é a Unidade.)

Falei muito também, para meu próprio esclarecimento posterior, sobre objetos e sujeitos. Como é fácil eu repetia, transformar o que quer que se olhasse, mesmo um rosto humano, num objeto puro – um objeto de beleza imensamente mágica, de estranheza, de intensidade de ser, de pura existência! Você se lembra daquele relato de Blake de ver um rebanho de carneiros num canto de um campo, e como ele se.aproximou e de repente viu que os carneiros eram peças de uma escultura belíssima? Esta é uma boa descrição do processo de objetificação. O uma espécie de efeito da cabeça de Górgona – olha-se para uma coisa apenas com a intenção de ver verdade e beleza, e ela se transforma em pedra – pedra viva, mutante, luminosa, mas ainda assim pedra, ainda assim escultura. Amor desobjetifica a coisa ou pessoa percebida. Ao mesmo tempo ele dessubjetifica aquele que percebe, que não vê mais o mundo exterior com desejo ou aversão, não julga mais automática e irrevogavelmente, não é mais um ego emocionalmente carregado, mas descobre ser um elemento na realidade dada, que não é um negócio de objetos e sujeitos, mas uma unidade cósmica de amor. A idéia do esforço constante, meu e de outras pessoas, de impor uma objetividade e uma subjetividade ao fato cósmico, criando assim grandes sofrimentos para todos os envolvidos, encheu-me por um instante de intensa tristeza. Mas isso também, eu percebi, era uma tentação à subjetividade num nível mais alto, numa escala maior.

Folheei alguns livros de pintura, e impressionei-me especial-mente por um retrato de corpo inteiro, da autoria de Boucher, de uma dama em trajes de gala na época de Luís XV. Parecia o mais perfeito exemplo de objetificação. A função do costureiro é transformar as mulheres em objetos – objetos para os homens e objetos para si mesmas. Olhando para o objeto em que elas foram transformadas pelo modista e por suas próprias necessidades bovarísticas de ser outra coisa que não o que realmente eram, as mulheres se tornavam sujeitos satisfeitos e insatisfeitos consigo mesmos, ronronando de tranqüila alegria ou contorcendo-se de autopiedade ou rosnando e arranhando porque alguém blasfemou contra o objeto que é seu ídolo e assim ofendeu o sujeito que venera o objeto. E evidentemente a mesma coisa é verdadeira em relação aos homens – só que aconteceu que não havia pintura alguma de vestuário de gala masculino para lembrar-me desse fato.

Folheei também um volume de fotografias de nus – muitos deles bastante cheios de truques, pedaços de corpos tomados de ângulos estranhos e sob condições de luz também estranhas. Novamente, objetos. A concupiscência é a relação sexual com um objeto para o benefício de um sujeito – que pode também achar agradável, como uma espécie de brinde, as manifestações de agrado subjetivo que emanam do objeto. O amor desobjetifica e dessubjetifica, substitui um frenesi crescendo até o desespero pela impossibilidade da posse total dos objetos, que é a meta errônea do sujeito, pelo fato primordial da unidade e pela consciência da imanência mútua.

Entre os subprodutos desse estado de ser, o fato dado do amor era uma espécie de compreensão intuitiva das outras pessoas, um “discernimento de espíritos”, na linguagem da espiritualidade cristã. Encontrei-me dizendo coisas sobre a minha operadora dianética que eu não sabia mas que, quando eu as dizia, eram verdade. O que, suponho, é o que se esperaria se se estivesse manifestando o fato primordial da unidade através do amor e do conhecimento da imanência mútua.

Outra coisa que me lembro de ter dito foi que agora eu compreendia acontecimentos até então incompreensíveis, como São Francisco beijar o leproso. Explicações em termos de perversão masoquista, etc., são ridículas. Esse tipo de coisa é apenas o transbordamento de um fato cósmico grande demais para o receptáculo, por assim dizer, moldado pelo ego subjetivo em suas relações de toda a vida com objetos e ainda não completamente dissolvidas, de modo que o fato novo encontra-se confinado pelos velhos hábitos restritivos, com o resultado de que ele esquenta demais, por assim dizer, sob a pressão, e tem que ser expresso por meios que, embora não particularmente desejáveis, são inteiramente compreensíveis e até mesmo, nesse contexto particular, lógicos.

Outra coisa que me lembro de ter dito e sentido era que eu achava que não ia me importar de morrer; pois morrer devia ser como essa passagem do conhecido (constituído por hábitos de toda a vida de existência de sujeito/objeto) para o fato cósmico desconhecido.

Não conservei a intensidade de minha experiência do estado de amor, mas alguma coisa certamente permanece, e espero não me permitir eclipsá-la sucumbindo aos velhos hábitos indesejáveis. Espero e acho que pela consciência do que se está fazendo a cada momento, pode-se ser capaz de permanecer fora da luz própria de cada um.

O que emerge como conclusão geral é a confirmação do fato de que a mescalina abre genuinamente a porta, e que tudo, inclusive o Desconhecido em sua forma mais pura e abrangente, pode atravessá-la. Depois da teofania, fica a cargo do indivíduo momentaneamente iluminado “cooperar com a graça” – não tanta pela vontade quanto pela consciência.

 

Com o carinho de Aldous

 

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* Esta é a sessão que se acha relatada no capítulo “Ignorado na Escuridão”, do livro de Laura Huxley Este momento intemporal.

 

AO DR. HUMPHRY OSMOND

 

740 North Kings Road, Los Angeles 46, Cal. 29 de outubro de 1955

Caro 'Humphry,

 

Como é estranho nossas cartas terem se cruzado! Estou muito interessado em ouvir os detalhes de sua experiência conjunta e em repetir o método com Gerald e Al, quando este último vier a Los Angeles. Por minha própria experiência não acho que seja necessário que alguém faça alguma coisa para manter a consciência da mescalina num nível alto – ela permanece ali por si mesma, o tempo todo, pelo que me diz respeito. Um diretor ou mestre-de-cerimônias seria útil, pelo que entendo, apenas se você quiser manter a consciência longe do nível mais alto, apenas se você quiser dirigi-la para outros canais laterais, por assim dizer, dirigi-la para áreas “psíquicas” como a telepatia, etc., ou para uma consciência de arquétipos (se é que eles existem, o que às vezes duvido!) de sombras, animas ou animus, conforme o caso (todos eles, pelo que me diz respeito pessoalmente, entidades inteiramente hipotéticas e “pickwickianas”). É claro que é perfeitamente válido e desejável fazer-se tais experiências, contanto, é claro, que as pessoas se lembrem dos avisos dos místicos, as únicas pessoas que sabem alguma coisa sobre o assunto. Primeiro, que embora milagres aconteçam, é claro, eles são graças gratuitas, não graças redentoras, e não têm qualquer importância definitiva, ou pelo menos não têm maior importância do que qualquer outra coisa – sendo tudo, naturalmente, infinitamente importante, se a pessoa o aborda da maneira certa. Segundo, que os siddhis, ou poderes incomuns, são fascinantes e, sendo fascinantes, são perigosos para qualquer pessoa interessada em suas liberações, pois podem transformar-se em impedimentos que confundem, se a pessoa prestar demasiada atenção a eles. Por mais rica e compensadora que seja, uma expedição para as áreas laterais da rota direta para a Luz Clara jamais deve ser tratada idolatricamente, como se tivesse atingido a meta definitiva. Minha opinião é que seria importante interromper a experiência de vez em quando e permitir que os participantes fossem, por sua própria conta, em direção à Luz Clara. Mas talvez seja psicologicamente impossível alternar experimentação e visão mística; pois, tendo umas vezes chegado à compreensão do fato primordial da unidade no Amor, quem quereria voltar para a experimentação no nível psíquico? Assim, será melhor terminar a experiência com uma ascensão, não-dirigida, em direção à consciência superior desconhecida. Desse modo não haverá necessidade de interromper a experiência do que é supremamente importante para cada participante, para levá-lo de volta a experiências de valor inferior e ambíguo. Minha opinião é que a abertura da porta pela mescalina ou o LSD é uma oportunidade preciosa demais, um privilégio alto demais para ser negligenciado por causa da experimentação. Tem que haver experimentação, é claro, mas seria errado se não houvesse algo mais. Há um ponto em que o dirigente tem que parar de dirigir e deixar que ele próprio e os outros participantes façam o que quiserem, ou melhor, o que a Quantidade Desconhecida que tomou seus lugares quiser fazer. A direção só pode vir apenas, ou principalmente, de memórias especulativas acumuladas de experiências anteriores, do conhecido conceitualmente; mas a consciência mística mais alta só surge quando se está livre do conhecido, quando não há meta em vista, por mais intrinsecamente excelente que seja, mas sim abertura pura. O serviço a Deus é a perfeita liberdade e, inversamente, a perfeita liberdade é o serviço a Deus – e onde há um dirigente com um propósito científico ou mesmo ético, não pode existir a perfeita liberdade. Na prática, eu diria, isso significa que, pelo menos durante a última uma hora da abertura causada pela meschina, o dirigente devia colocar-se de lado e deixar que as quantidades desconhecidas de cada participante façam o que quiserem. Se quiserem dizer coisas uns aos outros, ótimo. Se não quiserem, ótimo também, O conselho de François de Sales* a Madame de Chantal, a respeito de “exercícios espirituais”, foi de não fazer coisa alguma, mas simplesmente esperar. Estou convencido de que toda experiência devia terminar ou (se se julgar melhor) devia ser interrompida, por um período de simples espera, sem direção vinda de fora, nem de dentro. Se não fizermos isso, estaremos, eu sinto, cometendo uma espécie de pecado contra o Espírito Santo. Vamos dar à Quantidade Desconhecidíssima pelo menos uma hora de nossa abertura. As três ou quatro horas restantes podem ir para experimentações dirigidas.

E agora deixe-me pedir-lhe um favor. Há nesta cidade um infeliz (não o conheço pessoalmente, mas ele é amigo de um amigo) que vem usando peiote em si mesmo e em outras pessoas que querem explorar as regiões mais remotas de suas consciências, livrar-se de traumas e entender o significado da caridade cristã. Ele é, ao que parece, um camarada honesto e de valor; mas, sem querer, ele cometeu um crime. Pois no estado da Califórnia é crime a posse do peiote, e esse homem mandou buscar uma certa quantidade de um horto no Texas, onde o peiote é legal. Ele vai ter que se declarar culpado, pois não há dúvida de que cometeu um crime. Mas enquanto isso ele pode fazer uma declaração de que o peiote não é realmente uma droga perigosa. Ele já tem algumas indicações bibliográficas e eu lhe forneci outras. Será que você pode, sem muito trabalho, fornecer outras indicações, de natureza médica, antropológica e psicológica? Eu ficaria muito grato se você me mandasse quaisquer indicações bibliográficas que conheça, de modo que eu possa passá-las a esse pobre coitado que está sujeito, pela lei, a ser mandado para San Quentin por cinco anos, mas que pode, se as testemunhas que atestem sua boa conduta forem boas (e elas o são), e se provas fornecidas por especialistas puderem ser organizadas para mostrar que a droga não é perigosa, sair com uma multa e uma suspensão condicional da pena.

Lembranças minhas à família.

 

Carinhosamente. Aldous

 

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* Ou seja, São Francisco de Sales. (N. da T ).

AO DR. HUMPHRY OSMOND

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740 North Kings Rd.

Lav Angeles 46, Cal. 23 de dezembro de 1955

 

Meu CARO Humphry,

Fiquei muito feliz ao receber sua carta longa, boa, interessantíssima. Você realmente conseguiu fazer um número impressionante de coisas em muito pouco tempo.

Tivemos nossa experiência com LSD na semana passada, com Al, Gerard e eu tomando 75 microgramas e (.......... ) tomando umas trinta. Achei a substância mais potente do ponto de vista físico do que a mescalina – por exemplo, produziu a sensação de frio intenso, como se a pessoa estivesse em estado de choque, que Maria teve com a dose inteira de mescalina. Os efeitos psicológicos, no meu caso, foram idênticos aos da mescalina, e eu' tive a mesma espécie de experiência que tive na ocasião anterior' – transfiguração do mundo exterior, e a compreensão, através de uma percepção que incluía o homem inteiro, que o Amor é a Unidade, e que é por isso que Atmã é idêntico a Brama, e por que, apesar de tudo, o universo é perfeito. Não tive visões com os olhos fechados – ainda menos do que tive nas primeiras vezes com a mescalina, quando as geometrias animadas eram altamente organizadas e, em certos momentos, muito bonitas e significativas (embora, em outros, triviais). Dessa vez até mesmo os padrões eram mal organizados, e nada havia que correspondesse ao que Al e (.......... ) e seu amigo piloto (não é este o nome dele?) descreveram. Evidentemente, se a pessoa não é um visualizador congênito ou habitual, não tem visões interiores sob a mescalina ou o LSD – apenas transfiguração exterior. (Gerald também não teve visões. Não tive oportunidade de discutir em detalhes com ele a natureza de sua experiência, mas por certo visões com os olhos fechados não fizeram parte dela.) Dessa vez foi diferente. Tocamos a Suíte em si menor de Bach e a Oferenda musical, e a experiência foi avassaladora. Em comparação, outras músicas (por exemplo, Palestrina e Byrd) pareciam insatisfatórias. Bach foi uma revelação.

O tempo das obras não mudou; no entanto, elas continuavam por séculos, e eram uma manifestação, no plano da arte, de criação perpétua, uma demonstração da necessidade da morte e a evidência da imortalidade por si mesma, uma expressão da perfeição essencial do universo – pois a música estava muito além da tragédia, mas incluía a morte e o sofrimento com tudo mais na divina imparcialidade que é a Unidade, que é Amor, que é Ser ou Istigkeit. Quem foi Johann Sebastian? Certamente não o velho cavalheiro com dezesseis filhos num abafado ambiente protestante. Foi mais uma enorme manifestação do Outro – mas o Outro canalizado, controlado, tornado disponível através da intervenção do intelecto, dos sentidos e das emoções. Todos nós, eu acho, sentimos Bach do mesmo modo. Pode-se imaginar um ritual ou iniciação, no qual um grupo inteiro de pessoas é transportado para o Outro Mundo por um dos elixires, sentam elas juntas escutando, digamos, a Suíte em si menor, e são assim levadas a uma compreensão direta e sem mediador da natureza divina. (Um dos outros discos que tentamos foi de música tradicional bizaritina – a versão grega do canto gregoriano. Pelo menos para mim aquilo pareceu meramente grotesco. A voz única balindo suas aleluias e Kyries parecia a voz de um adulador gigantesco fazendo reverências diante de um Luís XIV consideravelmente ampliado. Só a polifonia, e a polifonia altamente organizada (estruturalmente organizada e não simplesmente textualmente organizada, como em Palestrina) pode dar a idéia da natureza da realidade, que é a multiplicidade na unidade, a reconciliação dos opostos, a não-dualidade da diversidade, a natureza nirvânica do Samsara, o Amor que é a ponte entre o objetivo e o subjetivo, o bem e o mal, a morte e a vida.) Nessa ocasião não tive nenhuma consciência psi espontânea, e nossa tentativa de induzir psi deliberadamente pareceu, depois de alguns minutos, tão artificial e falsa que nós desistimos. Al relatou consciência psi dos outros no grupo, e Gerald exibiu a mesma espécie de discernimento profético de espíritos que caracterizou a primeira experiência dele com mescalina. Não sei se eu pessoalmente serei capaz um dia de fazer experiências psi sob mescalina ou LSD. Certa-mente, se surgirem experiências futuras como essas duas últimas, eu acharia que tais experiências eram apenas infantis e sem sentido. O que suponho que sejam mesmo, para o propósito da Compreensão – embora não totalmente, para o propósito do Conhecimento. Por enquanto deixe-me aconselhar a você, se algum dia você usar mescalina ou LSD em terapia a tentar o .eito da Surte em si menor. Mais do que para qualquer outra coisa, eu acho, vai servir para guiar a mente do paciente (sem palavras, sem qualquer sugestão ou opressão disfarçada por parte de médico ou pastor) ao Fato central, primordial, a compreensão do que é a saúde perfeita durante o tempo da experiência e de que a lembrança dessa compreensão pode servir como antídoto da doença mental no futuro. No entanto, tenho certeza de que seria muito imprudente submeter um paciente à música religiosa sentimental ou até música religiosa boa, se for trágica (pai exemplo, Mozart, ou os Réquiens de Verdi, ou a Missa solemnis de Bethoven). Johann Sebastian Bach é mais seguro porque, afinal, mais fiel à realidade.

Voltando à sua carta. Claro que o efeito estroboscópico não é retinal. Um dos efeitos estroboscópicos experimentados por meu amigo, o Dr. Cholden, foi de que os padrões que ele estava vendo sob o LSD transformavam-se, quando ele se sentava sob o estroboscópio, em paisagens japonesas inefavelmente belas.

Gostaria que o velho Jung não fosse tão fixado em símbolos. O problema dos alemães é que eles sempre se lembram do verso mais tolo de Goethc – “alles Vergaengliche ist nur ein Gleich-nis3”.‘ Nunca se disse mentira maior. Todas as transitoriedades são intemporalmente elas próprias e, sendo elas próprias, são manifestações da Unidade, que está totalmente presente em qualquer particular – se apenas nós pudéssemos enxergá-la. O negócio dos símbolos é uma pista falsa muito suspeita, desviando-o do caminho das Realidades Dadas “lá fora” na mente (exatamente como elas estão lá fora no mundo material, apesar de Berkeley, etc.), e levando-o para a selva sobre a qual ele e seus seguidores escrevem naquele estilo inimitavelmente túrgido e copioso que é a marca registrada dos jungianos.

Parece que a peça está em processo de ser adiada – os produtores fizeram tal confusão que a produção na data do contrato parece agora fora de questão. Como o adiamento vai ser para uma temporada de eleição, que é notoriamente a pior. temporada teatral possível, não estou muito feliz. Mas é o que acontece quando se cai nas garras do pessoal de teatro. É procurar sarna para se coçar e, pode crer, encontrar o que estava prncurando.

Lembranças minhas a Jane e à poetisa. Espero que o ano próximo 1hes traga contentamento, alegria, progresso, compreensão.

Com o carinho de Aldous

 

Tudo que é transitório não passa de uma imagem. (N. da T.)