Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Capítulo 20 - 1956 A História da Tensão

Capítulo 20

 

1956

 

A História da Tensão

ALDOUS HUXLEY

 

O discurso a seguir foi pronunciado em uma conferência na qual a maioria dos trabalhos lidos referiam-se ao novo agente tranqüilizante meprobamata (Miltown). Foi outra ocasião na qual Huxley foi a voz solitária do mundo das letras numa reunião de médicos e cientistas. Sua monografia “refere-se ao uso de certos compostos químicos que produzem certas alterações de consciência e assim permitem uma certa autotranscendência e um alívio tempordrio da tensão”. Não menos que sete entrevistas no rádio e na televisão estavam marcadas para ele quando ele chegou a Nova Iorque para a conferência.

 

O Título deste trabalho é um tanto enganoso, pois estritamente falando, a história da tensão não existe. A tensão é uma forma de doença; e as doenças, como tal, estão fora do campo da história. Não existe, por exemplo, uma dor de estômago medieval, nem uma infecção focal especificamente neolítica, uma nevralgia caracteristicamente vitoriana ou uma epilepsia do New Deal. No que se refere ao paciente, os sintomas de sua doença são uma experiência inteiramente pessoal, uma experiência para a qual a vida pública das nações, os acontecimentos registrados nas manchetes ou discutidos em publicações científicas ou críticas literárias são totalmente estranhos. Política, cultura, a marcha da civilização, todas as maravilhas da natureza, todos os triunfos da arte, da ciência e da tecnologia – essas coisas existem para os sãos, não para os doentes. Os doentes só têm consciência de suas dores e seus sofrimentos particulares, só daquilo que acontece dentro das quatro paredes do quarto. Para eles o universo infinito contraiu-se até um ponto; nada permanece dele a não ser seus próprios corpos sofredores, suas próprias mentes anestesiadas ou atormentadas. A doença como uma experiência real é mais ou menos independente de tempo ou lugar. Consequentemente, não pode haver uma história da doença como experiência; só pode haver uma história da medicina – isto é, uma história das teorias sobre a natureza das doenças e das receitas empregadas em épocas diferentes para seu tratamento, juntamente com uma história dos meios pelos quais sociedades organizadas reagiram aos problemas da doença dentro da comunidade.

Enquanto a tensão, como doença psicossomática, não tem história, pelo menos algumas das causas da tensão são de domínio público e podem ser tema de um estudo histórico. A mesma coisa acontece com os métodos sancionados pelas várias sociedades para a prevenção e o alívio da tensão. O assunto é vasto; meu tempo é curto, e minha ignorância enciclopédica. Assim sendo, não vou tentar discutir todos os fatores históricos associados à tensão, mas vou me limitar àqueles que são mais fáceis e, ao mesmo tempo, mais importantes para os problemas com que hoje nos defrontamos.

Vou começar com o que não vou mencionar. Não vou falar, a não ser, talvez, incidentalmente, sobre as causas históricas da tensão. Isso acarretaria a discussão de dois temas vastos e complexos – a transformação de padrões culturais e a relação que subsiste entre uma dada cultura e os indivíduos educados dentro dela.

Correndo o risco de cair num daqueles Pecados Originais do inte1ecto, hipersimplificação e hiperabstração, vou resumir todo este assunto em uma generalização ampla e abrangente. A tensão, eu diria, surge em pessoas que, por causa de algumas fraquezas congênitas ou adquiridas, são incapazes de lidar com certas situações difíceis. Essas situações difíceis são produzidas pelo conflito – conflito entre os impulsos fundamentais de auto-afirma-mação e sexo por um lado, e o impulso igualmente fundamental de gregarismo por outro lado. O impulso ao gregarismo é cana1izado pela sociedade, sancionado pela tradição e racionalizado em termos de religião e filosofia; daí a intrusão de fatores históricos numa situação que, no nível animal, seria exclusivamente biológica. A doença da tensão parece ter surgido sob todas as condições culturais – em culturas de vergonha assim como em culturas de culpa, em culturas primitivas não menos que em culturas altamente desenvolvidas – e métodos fundamentalmente semelhantes para o alívio da tensão foram desenvolvidos em todas as sociedades das quais temos algum conhecimento. É desses métodos para o alívio da tensão que vou tratar neste trabalho.

Como todas as outras doenças, a tensão tende a estreitar a consciência do paciente até que, em casos extremos, ele só tem consciência de si mesmo. Doenças graves modificam profundamente a personalidade de suas vítimas. Para essa personalidade modificada, a diminuição produzida pela doença logo chega a parecer quase normal, e é aceita como natural. A tensão não é uma doença severa, e aqueles que sofrem de tensão estão suficientemente bem para sentir e sofrer do restritivo egocentrismo imposto a eles por sua desordem psicossomática. São como aquelas almas perdidas cujo castigo é, nas palavras do grande poeta católico Gerard Manley Hopkins, “serem seus eus suados, mas piores”. A vítima da tensão sabe e é agudamente afligida por sua sensação de ser seu eu suado, mas pior. E aqui podemos declarar que mesmo pessoas saudáveis são freqüentemente afligidas pela percepção de que estão condenadas a ser os indivíduos separados, isolados, que elas são tão inescapavelmente. Os neuróticos detestam ser seus eus suados, mas piores. As pessoas normais detestam ser seus eus suados, ponto final. Um dos sintomas mais desagradáveis da tensão é simplesmente a aflição normal de ser um universo-ilha elevado, por assim dizer, a uma força maior. O homem é um egoísta que adora a si próprio, mas um egoísta que freqüentemente sente um intenso desagrado pelo objeto de sua adoração idólatra. Correlacionado com esse desagrado pelo adorado ego, existe em todos os seres humanos uma necessidade de autotranscendência, um desejo de escapar da prisão da personalidade, uma ânsia de tornar-se outra coisa e maior que o Eu tão conhecido, uma suscetibilidade à nostalgia por um mundo superior, ou pelo menos diferente do universo entediante ou doloroso da realidade cotidiana. O.homem religioso tem atribuído esse impulso universal para a autotranscendência a uma ânsia inata e profunda pelo divino. O biólogo vê o assunto de maneira um tanto diferente, e atribui o desejo do homem à autotranscendência aos efeitos de seu gregarismo inato. O indivíduo ânsia por misturar-se ao rebanho, mas ele é egocentrista demais para ser capaz de sustentar a tentativa durante muito tempo. Portanto, ele fica condenado a viver num estado de insatisfação crônica, ansiando constantemente por algo que, na própria natureza das coisas, ele nunca pode ter.

Essas duas explicações não são mutuamente exclusivas, e eu me inclino a achar que ambas são parcialmente corretas. Mas, seja como for, os fatos que elas tentam explicar são fataos genuínos. Há mesmo um impulso de autotranscendência e com ele um desagrado profundo pelo eu isolado, um desagrado que, nas vítimas de tensão, torna-se agudo e doloroso. Em todas as culturas humanas, certos métodos de alcançar uma autotranscendência temporária, e assim aliviar a tensão, tem sido desenvolvidos e sistematicamente empregados. Esses métodos podem ser classificados sob alguns títulos abrangentes. Há os métodos químicos, os métodos musicais e ginásticos, os métodos que dependem da sujeição dos indivíduos isolados à influência de multidões, os vários métodos religiosos e, finalmente, os métodos cujo objetivo é a auto-transcendência mística – as várias iogas e exercícios espirituais de tradições orientais e acidentais. Seriam necessárias várias horas para fazer justiça a todos esses estratagemas, e eu devo me limitar a discutir apenas dois deles, os mais populares e os mais difíceis de se controlar, e que são: o método químico e o que pode ser chamado de método da multidão.

Esta monografia relaciona-se ao uso de certos compostos químicos que produzem certas alterações de consciência e assim permitem uma certa medida de autotranscendência e um alívio temporário da tensão. Essas drogas tranqüilizantes são simples-mente os últimos aditamentos a uma longa lista de produtos químicos que têm sido usados desde tempos imemoriais para alertai a qualidade da consciência, tornando assim possível um certo nível de autotranscendência e um alívio temporário da tensão. Vamos nos lembrar sempre que, enquanto a farmacologia moderna nos deu uma série de novos sintéticos, ela não fez nenhuma descoberta básica no campo das drogas naturais; simplesmente aperfeiçoou os métodos de extração, purificação e combinação. Todos os sedativos, narcóticos, eufóricos, alucinógenos e excitantes que ocorrem naturalmente foram descobertos há milhares de anos, antes da aurora da civilização. Isto é certamente um dos fatos mais estranhos nesse longo catálogo de improbabilidades conhecido como história humana. É evidente que o homem primitivo experimentou todas as raízes, galhos, folhas e flores, todas as sementes, as castanhas, os frutos e os fungos em seu ambiente. A farmacologia é mais velha que a agricultura. Há uma boa razão para crer que até mesmo nos tempos paleolíticos, quando ainda -era caçador e colhedor de comida, a homem matava seus inimigos animais e humanos. com flechas' envenenadas. No final da Idade da Pedra ele se envenenava sistematicamente. A presença de cabeças de papoulas nos lixos das cozinhas dos Habitantes do Lago Suíço mostra quão cedo o homem descobriu em sua História as técnicas de autotranscendência através das drogas. Havia viciados em drogas muito antes de haver fazendeiros.

Deixem-me mencionar aqui um fato de alguma importância. Para aliviar a tensão, um composto químico não precisa ter as características de um tranqüilizante. O álcool, por exemplo, está longe de tranqüilizar, pelo menos nos estágios medianos da intoxicação, e tem aliviado tensões desde que Noé fez sua descoberta que marcou época. A autotranscendência pode ser conseguida tanto com um excitante como com um narcótico ou um alucinógeno. A tensão é aliviada não apenas por drogas contemplativas como o ópio, o peiote, a kawa e a ayahuasca, mas também por intoxicantes de extroversão como o vinho, o haxixe, o soma da antiga Índia. Fisio16gica e socialmente falando, algumas drogas são muito menos danosas que outras, e devem portanto ser preferidas, embora tais considerações puramente utilitárias nunca tenham tido muito peso para a pessoa que toma drogas. Para ela, qualquer coisa que produza uma certa medida de auto-transcendência e liberação parece boa. Contanto que funcione aqui e agora, quem se importa com o que possa acontecer mais tarde?

Em suas Variedades da experiência religiosa, William James diz: “A influência do álcool sobre a humanidade deve-se, inquestionavelmente, a seu poder de estimular as faculdades místicas da natureza humana, geralmente esmagadas pelos frios fatos e secas críticas da hora sóbria. A sobriedade diminui, discrimina e diz não; a embriaguez expande, une e diz sim. É, na verdade, o grande excitante da função Sim do homem. Traz seus devotos da gélida periferia das coisas para o seu âmago radiante. Torna-o, naquele momento, uno com a verdade. Não é por mera perversidade que os homens correm atrás dela. Para os pobres e os iletrados ela toma o lugar de concertos sinfônicos e literatura. É parte do mistério e da tragédia mais profundos da vida que vislumbres de coisas que imediatamente reconhecemos como excelentes sejam concedidas a tantos de nós apenas nos fugazes primeiros estágios do que em sua totalidade é um veneno tão degradante. A consciência embriagada é uma pequena parte da consciência mística, e nossa opinião total sobre ela tem que encontrar seu lugar em nossa opinião do total bem maior.”

Em outro trecho de Variedades James cita a frase de um de seus amigos médicos: “Não há cura para a dipsomania, a não ser a religiomania.” Desse modo um tanto epigramático demais, essas palavras expressam uma verdade que a experiência coletiva dos Alcoólicos Anônimos tem confirmado amplamente. A experiência mística está para a embriaguez na relação do inteiro para a parte, da saúde para a doença. Pois para o alcoólatra, como para o místico, há uma abertura de portas, passando ao largo do que chamei de válvula redutora cerebral, a função normal do cérebro que limita nossos processos mentais a uma consciência, na maior parte do tempo, do que é biologicamente útil. Para ambos há um vislumbre de alguma coisa transcendente ao mundo da experiência cotidiana – aquele mundo estreito e utilitário que nossa consciência centralizada em si mesma seleciona do tesouro infinito das potencialidades cósmicas. O que o bêbado vê nas primeiras fases da intoxicação é imediatamente reconhecido como excelente. O que não é excelente é o método particular para alcançar essa experiência transcendental.

O álcool é uma das drogas alteradoras de consciência mais antigas e certamente a mais usada. Infelizmente ela é pouco eficaz e, ao mesmo tempo, é uma droga perigosa. Há maneiras diferentes e melhores do que embebedar-se para atingir os mesmos resultados intrinsecamente excelentes. Algumas dessas maneiras são químicas, outras são psicológicas. Outras envolvem jejum, insônia voluntária e várias formas de autotortura. Todos esses métodos modificam a química normal do corpo e assim facilitam um caminho que evite a válvula redutora do cérebro e uma fuga temporária à prisão do eu isolado. Um dia, quando a psicologia se tornar uma ciência genuína, todos esses métodos tradicionais de produzir a autotranscendência serão examinados sistematicamente, e seus respectivos méritos e defeitos serão verificados acurada-mente. No presente, temos que nos contentar com o conhecimento fragmentado que agora nos é disponível.

A caracterização feita por William James do álcool como um excitante das faculdades místicas é confirmada de modo impressionante pelo que os próprios místicos dizem de suas experiências extáticas. Na literatura mística do Islã, são empregadas constantemente metáforas derivadas do vinho e do ato de beber vinho. Metáforas exatamente iguais são encontradas nos escritos de alguns dos maiores santos cristãos. Assim, São João da Cruz chama sua alma de la interior bodega de mi Amado – a adega interior de meu Amado. E Santa Teresa de Avila nos diz que ela “vê o centro de nossa alma como uma adega, onde Deus nos admite quando e como Lhe agrada, para nos embebedar com o vinho delicioso de Sua Graça”.

A experiência da autotranscendência e do alívio da tensão, produzida pelo álcool e por outros produtos químicos que alteram a consciência, é tão maravilhosa, tão abençoada e agradável, que os homens acharam bastante natural identificar essas drogas às quais devem sua felicidade momentânea com um ou outro de seus deuses. Disse Karl Marx: “A religião é o ópio do povo”. Seria pelo menos tão verdadeiro dizer que o ópio é a religião do povo. Alguns poucos místicos compararam o estado de êxtase à embriaguez, mas inúmeros bebedores, fumantes, mascadores e cheiradores conseguiram uma forma de liberação extática através do uso de drogas. As qualidades sobrenaturais desse estado mental são projetadas para fora, sobre as drogas que o produziram. Assim sendo, na Grécia o vinho não era apenas consagrado a Dionísio; o vinho era Dionísio. Baco era chamado Theoinos – Vinhodeus – uma única palavra igualando o álcool à divindade, a experiência da embriaguez ao espírito santo. Diz Eurípedes: “Tendo nascido deus, Baco é vertido em libações aos deuses, e através dele, os homens recebem o bem.” Esse bem, segundo os gregos, era de muitas espécies – saúde física, iluminação mental, o dom da profecia, a sensação extática de unidade com a divina verdade. Similarmente, na antiga Índia, o suco da planta soma (qualquer que tenha sido essa planta) não era meramente consagrado a Indra, o deus-herói das batalhas; ele era Indra. E ao mesmo tempo era o alter ego de Indra, um deus em si mesmo. Muitos exemplos semelhantes dessa identificação de uma droga que altera a consciência com um deus qualquer do panteão local poderiam ser citados. Na Sibéria e na América Central várias espécies de cogumelos alucinógenos são encarados como deuses. Os indígenas do sudoeste dos Estados Unidos identificaram o cacto do peiote como divindades nativas e, em anos recentes, com o Espírito Santo da teologia cristã. Nos tempos clássicos, os bárbaros do norte que bebiam licor de malte veneravam sua cerveja sob o nome de Sabazio. A cerveja era também um deus para os povos celtas, como o hidromel parecia divino aos escandinavos e aos teutões. Na AngloSaxônia, a idéia de catástrofe, de pânico, de horror e desastre definitivos é dada por uma palavra cujo significado literal é “a falta de hidromel”. Em quase toda parte o consumo de drogas que alteram a consciência tem sido associado, em algum tempo, com o ritual religioso. Beber, mascar, inalar e cheirar têm sido considerados atos sacramentais, sancionadas pela tradição e racionalizados em termos da teologia predominante. No mundo muçulmano, o álcool era proibido, mas o impulso à autotranscendência não podia ser reprimido, e havia e ainda há lugares no mundo muçulmano em que o consumo de Cannabis indica não só é sancionado pela sociedade, mas foi até transformado numa espécie de rito religioso. Certos autores maometanos vêem no haxixe o equivalente ao pão e vinho sacramentais dos cristãos. Entre os judeus, muitos esforços foram feitos para dar uma sanção religiosa ao vinho. Jeremias fala da “taça da consolação” que era administrada aos aflitos. Amós fala de homens que bebiam vinho na casa de seu Deus. Micah tem algumas palavras ásperas para que aqueles que em seu tempo costumavam profetizar sob a influência do álcool. Isaías denuncia os sacerdotes e profetas que “erraram por causa de bebidas fortes”. Eles erraram, ele diz, “em visão”. Tradicionalmente, Dionísio era o deus da profecia e da inspiração, mas infelizmente as revelações do álcool não são inteiramente confiáveis.

Da autotranscendência por meios químicos, passamos agora à autotranscendência por meios sociais. O indivíduo faz contato direto com a sociedade de dois modos – como membro de um grupo familiar, profissional ou religioso, ou como membro de uma multidão. Um grupo tem uma finalidade e é estruturado; uma multidão é caótica, não serve a uma finalidade particular, e é capaz de qualquer coisa exceto de ação inteligente. Usando uma analogia que não é muito enganosa, podemos dizer que o primeiro é um órgão do corpo político, a segunda é uma espécie de tumor, geralmente benigno, mas às vezes horrivelmente maligno. A maior parte da vida da maioria das pessoas é passada em grupos. A participação em atividades de multidão é um acontecimento relativamente raro. Isso é bom, pois os indivíduos em meio a uma multidão são diferentes, e piores sob todos os aspectos, do que indivíduos isolados ou dentro de grupos organizados e dotados de uma finalidade. Um homem na multidão perde sua identidade pessoal e é por isso, é claro, que ele gosta de estar em multidões. A identidade pessoal é a coisa que ele quer transcender, à qual ele quer escapar. Infelizmente, os membros de uma multidão perdem mais do que suas identidades pessoais; eles perdem também sua capacidade de raciocínio e de escolha moral. Sua sugestionabilidade é elevada ao ponto em que eles deixam de ter opinião ou vontade própria. Eles se tornam muito excitáveis, perdem qualquer senso de responsabilidade individual ou coletiva, ficam sujeitos a ataques súbitos e violentos de ira, entusiasmo e pânico, e tornam-se capazes de perpetrar os atos de violência mais monstruosos e gratuitos – geralmente contra outros, mas às vezes contra si mesmos. Em uma palavra, um homem na multidão comporta-se como se tivesse engolido uma dose enorme de um intoxicante poderoso. Ele é vítima do que pode ser chamado envenenamento de massa. Como o álcool, o envenenamento de massa é uma droga ativa e extrovertida. Ela altera a qualidade da consciência individual na direção do frenesi, e torna possível um alto nível de autotranscendência descendente. O indivíduo embriagado pela massa escapa do eu isolado para uma espécie de irracionalidade.

Desde o princípio, os homens fizeram seu trabalho e levaram a cabo a importante tarefa de viver em grupos com finalidades. As multidões lhe proporcionam as férias psicológicas. Seu ali-mento principal tem sido derivado do grupo; o veneno da massa tem sido sua droga deliciosa. A religião sancionou e racionalizou em toda parte a intoxicação por envenenamento de massa, assim como sancionou e racionalizou o uso de agentes químicos que alteram a consciência. A declaração de Alfred North Whitehead, de que a “religião é o que o indivíduo faz com sua solidão”, só é verdadeira se resolvermos definir a religião como algo que, do ponto de vista .histórico, ela nunca foi, exceto para uma pequena minoria. E a mesma coisa aplicar-se-ia a uma definição de religião em termos do que o indivíduo faz com sua experiência de estar num grupo pequeno e dedicado como os Quakers ou como “dois ou três reunidos em meu nome”, de que Cristo falou no Evangelho. A espiritualidade de pequenos grupos é uma forma muito elevada de religião, mas não é a única, ou a mais comum – é simplesmente a melhor. É bastante significativo o fato de Cristo ter prometido estar presente num grupo de dois ou três. Ele nunca prometeu estar presente numa multidão. Onde dois ou três milhares, ou duas ou três dezenas de milhares de pessoas estão reunidas, a presença que há é de uma espécie muito diferente e muito pouco crítica. No entanto, atividades de massa, como os congressos religiosos e as perseguições, são sancionadas e até mesmo ativamente encorajadas por líderes religiosos hoje em dia, assim como o eram no passado pagão. A razão é simples. A maioria das pessoas acha mais fácil atingir a autotranscendência e o alívio da tensão numa multidão do que em um grupo pequeno, ou sozinhas. Esses envenenamentos de massa em nome da religião não são particularmente benéficos; eles simplesmente proporcionam breves férias da autoconsciência isolada.

A história dos esforços do homem para encontrar a auto-transcendência na multidão é longa e, apesar de todas as suas peculiaridades, suas estranhas aberrações, é profundamente monótona. Das festas dos índios americanos à dança dos aborígines australianos à mais recente explosão de rock ‘n roll, as manifestações de envenenamento de massa exibem as mesmas características subumanas. No mínimo esses desempenhos são apenas grotescos em sua sub-humanidade; no máximo são grotescos e horríveis. Pensamos, por exemplo, nos festivais da deusa síria, durante os quais, sob a enlouquecedora influência do envenenamento de massa e de sugestão sacerdotal, os homens castravam a si próprios e as mulheres laceravam os seios. Pensamos no menadismo grego, com seu despedaçamento de vítimas vivas. Pensamos nas saturnais romanas. Pensamos em todas as explosões de embriaguez de massa durante a Idade Média – as cruzadas infantis, as orgias periódicas de flagelações coletivas, e aquelas estranhas manias de dança na qual a autotranscendência através de envenenamento de massa combinava-se com a autotranscen-dência através da música repetitiva. Pensamos nos loucos festivais de fé, as correrias frenéticas daqueles que acreditavam que o fim do mundo estava próximo, o frenesi de iconoclastia em nome de Deus, da destruição sem senado pela causa do bem. Isso já é bastante ruim, mas há algo muito pior – a intoxicação de massa que é explorada pelo atiçador das multidões para seus próprios fins religiosos ou políticos.

Na primavera de 1954, estando eu em Ismailia, no Canal de Suez, fui levado por meus anfitriões ao cinema local. O filme estava atraindo multidões extraordinárias, era Júlio César falado em inglês, mas com legendas árabes. Os espectadores prestavam uma atenção total, os olhos presos à tela. Por que razão, eu me indagava, esses árabes do século vinte estariam tão apaixonada-mente interessados na narrativa, por um inglês do século XVI, de acontecimentos que tinham tido lugar em Roma no século I a.C.? E de repente era óbvio. César, Bruto, Antônio, todos aqueles políticos classe A lutando pelo poder e, nesse processo, adulando cinicamente e explorando uma turba proletária que eles desprezavam mas sem a qual não podiam passar, eram figuras inteiramente familiares e contemporâneas à platéia egípcia. O que tinha acontecido em Roma logo antes e logo depois do assassinato de César era muito parecido com o que vinha acontecendo semanas antes no Cairo, quando Naguib caiu, tornou a subir em triunfo e mais uma vez foi derrubado por um rival que sabia como jogar com as paixões da multidão, como fazer uso de seu entusiasmo bêbado e sua violência bêbada para seus próprios propósitos. Vendo a peça de Shakespeare, os espectadores de Ismailia encontraram-se vendo um relatório sem censura do último coup d’état.

Evidentemente, o maior virtuoso na arte de explorar os sintomas de envenenamento de massa foi Adolf Hitler. Os nazistas fizeram seu trabalho com perfeição científica. Todos os recursos da moderna tecnologia foram mobilizados para reduzir o maior número possível de pessoas ao mais baixo estado possível de autotranscendência descendente. Fonógrafos repetiam slogans. Altofalantes vertiam a música vibrante e fortemente ritmada cuja repetição enlouquece as pessoas. Aparelhos de som escondidos produziam vibrações subsônicas no ritmo crítico e mobilizante de quatorze ciclos por segundo. Métodos de transporte modernos eram usados para reunir milhares de fiéis sob holofotes em enormes estádios, e a voz do arqui-hipnotizador era irradiada por rádio para outros milhões.

“Alegria era naquela aurora estar vivo”. Assim descreveu Wordsworth sua experiência de envenenamento de massa nos primeiros e felizes meses da Revolução Francesa. Em nossa época, milhões de homens e mulheres, milhões de rapazes e moças entusiasmados têm tido experiências semelhantes. Para os membros assim envenenados das turbas que são usados para fazer revoluções e apoiar um poder ditatorial, a própria aurora do nazismo, do comunismo, parece alegre. Infelizmente, as auroras são seguidas por dias e noites laboriosos e com freqüência desagradáveis. Nas horas finais da hist6ria revolucionária, a alegria costuma mostrar-se conspícua por sua ausência. Na momento do amanhecer, no entanto, ninguém jamais pensa no que provavelmente acontecerá à tarde. Como alcoó1atras e viciados em morfina, as vítimas de envenenamento de massa só estão interessadas em liberar a autotranscendência aqui e agora. “Depois de mim o dilúvio”, eis o seu lema. E, certamente, o dilúvio chega com pontualidade.

Da história da tensão, vamos passar, concluindo, para o presente e o futuro. está claro, eu acho, que o problema da tensão só estará completamente resolvido quando tivermos uma sociedade perfeita – isto é, nunca. Enquanto isso, é sempre possível encontrar soluções parciais e paliativos temporários. Vamos considerar algumas providências práticas que seria fácil tomar.

Em primeiro lugar, poderíamos incorporar ao nosso atual sistema de educação profundamente insatisfatório e decepcionante alguns cursos simples sobre a arte de controlar o sistema nervoso autônomo e a mente subconsciente. Como as coisas são agora, nós ensinamos às crianças os princípios da boa saúde, boa moral e bons pensamentos, mas não lhes ensinamos a agir de acordo com esses princípios. Nós insistimos para que façam boas resoluções, mas nada fazemos para ajudá-las a colocar essas re-soluções em prática. Uma das principais fontes de tensão é a consciência dolorosa de termos fracassado miseravelmente em fazer o que tínhamos que fazer. Se toda criança recebesse um treinamento do que Hornell Hart chamou de autocondicionamento, ajudaríamos mais o decoro geral e os bons sentimentos do que todos os sermões já pregados.

O passo seguinte a ser tomado tem caráter profilático. Os seres humanos anseiam pela autotranscendência, e embriagar-se com veneno de massa é um dos métodos mais eficazes para tirar férias do ego isolado e das cargas de responsabilidade. Enquanto eles se dedicam à intoxicação de massa em jogos de futebol e carnavais, em congressos religiosos e nos comícios de partidos políticos democraticamente organizados, nenhum mal é feito. Mas não podemos nos esquecer que os enfeitiçadores, os agitadores da multidão, os Hitlers em potencial, estão sempre conosco. Não podemos nos esquecer jamais que é muito fácil para tais homens transformar uma orgia inocente em um instrumento de destruição, em uma força selvagem e irracional dirigida para a derrubada da liberdade. Para impedi-los de explorar a intoxicação de massa visando a seus próprios objetivos sinistros, temos que estar perpetuamente em guarda. Parece duvidoso que um mundo habitado por Hitlers em potencial por um lado, e viciados em veneno de massa por outro lado, possa algum dia ser tornado completa-mente seguro para a racionabdade e o decoro, mas pelo menos podemos tentar torná-lo um pouco mais seguro do que ele é atualmente. Por exemplo, podemos dar às nossas crianças lições sobre os elementos de semântica geral. Podemos contar-lhes sobre os atrozes perigos do pecado intelectual. Podemos fazê-las arrepiar-se, recitando-lhes as conseqüências desastrosas, para m sociedades e para os indivíduos, da supersimplificação, supergeneralização e da superabstração dos agitadores de massa. Podemos lembrá-las de viver no momento atual e pensar concreta e realisticamente, em termos de fatos observáveis. Podemos desvendar os segredos absurdos e vergonhosos da propaganda, e ilustrar nossas conferências com exemplos tirados da história da política, da religião e da indústria de propaganda. Um treinamento como esse seria eficaz? Talvez sim – ou talvez não. O veneno de massa é um intoxicante poderoso. Uma vez metidos em uma multidão, mesmo homens sensatos e direitos estão aptos a perder a razão e aceitar todas as sugestões, por mais disparatadas ou imorais, que lhes sejam dadas. Tudo o que podemos esperar conseguir é tornar mais difícil o trabalho do agitador de massa.

A terceira providência que devemos tomar será, na verdade, tomada, queiramos ou não. Uma vez que tenham sido plantadas as sementes da ciência, elas tendem a brotar e desenvolver-se de modo autônomo, segundo a lei de seus próprios seres, não segundo as leis de nossos seres. A farmacologia entrou agora num período de rápido crescimento, e parece bem certo que nos próximos anos serão descobertos vários métodos novos de alterar a qualidade da consciência. No que diz respeito ao ser humano, essas descobertas serão mais importantes, mais genuinamente revolucionárias, do que as recentes descobertas no campo da física nuclear e sua aplicação em usos pacíficos. Se ela não nos destruir, a energia nuclear vai nos dar apenas mais do que nós já temos – energia barata, com seu corolário de mais aparelhos, projetos de irrigação mais amplos e transporte mais eficiente. Vai nos dar essas coisas a um preço muito alto – uma elevação na quantidade de radiação nociva, com seus corolários de mutações maléficas e um estrago permanente no código genérico humano. Mas os farmacologistas vão nos dar algo que a maioria rios seres humanos nunca teve antes. Se queremos alegria, paz e 'bondade, eles vão nos dar bondade, paz e alegria. Se queremos 'beleza, eles vão transfigurar o mundo exterior para nós e abrir-nos a porta para visões de riqueza e significação inimagináveis. Se nosso desejo é de vida eterna, eles vão nos dar algo próximo a isso – eternidades de experiência agradável, miraculosamente concentradas em uma única hora. Vão conceder esses dons sem exigir o preço terrível que, no passado, os homens tiveram de pagar para recorrer com demasiada freqüência a drogas que alternam a consciência, como a heroína ou a cocaína, ou mesmo o velho recurso do álcool. Já temos à nossa disposição alucinógenos e tranqüilizantes cujo preço fisiológico é impressionantemente baixo, e parece haver fortes razões para crer que os alteradores de consciência e os liberadores de tensão do futuro farão seu trabalho de modo ainda mais eficiente e a um custo ainda menor para o indivíduo. Os seres humanos serão capazes de atingir sem esforço o que no passado só podia ser atingido com dificuldade, por meio de autocontrole e exercícios espirituais. Será que isso vai ser uma coisa boa para os indivíduos e para as sociedades?

Ou vai ser uma coisa ruim? Essas são perguntas para as quais eu não tenho resposta. E devo acrescentar que ninguém mais a tem. Os esboços dessas respostas podem começar a aparecer na pr6xima geração. Enquanto isso, tudo o que se pode prever com um certo grau de certeza é que será necessário reconsiderar e reavaliar muitas de nossas opiniões tradicionais a respeito de ética e de religião, e muitos de nossos conceitos atuais sobre a natureza da mente, no contexto da revolução farmacológica. Será extremamente perturbador, mas será também enormemente divertido.