Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Capítulo 24 - 1958 Drogas que Moldam As Mentes dos Homens

Capítulo 24

 

1958

 

Drogas que Moldam As Mentes dos Homens

ALDOUS HUXLEY

 

O Saturday Evening Post encomendou o artigo que se segue, e Huxley aproveitou a oportunidade para expressar algumas de suas opiniões revolucionárias para uma platéia gigantesca. Ele acreditava que o alcoolismo e outras formas de dependência a drogas eram uma conseqüência de anseios de autotranscendência, tanto quanto a teologia mística, os exercícios espirituais e a ioga. A maneira como a sociedade trata esse fenômeno – proibição seletiva, por meio de impostos, ou repressão total – tem feito com que “milhões de místicos em potencial se tornem viciados”. Mas aqui Huxley é mais otimista do que em “Admirável mundo novo revisitado”, indicando a “inteligência intensificada" e a evolução espiritual por indução química. Comentando a predominância de experiências religiosas em sessões de peiote e LSD, ele previu o reflorescimento da religião – a Viagem para o Oriente, na expressão de Hesse – que sacudiu a sociedade ocidental uma década mais tarde, quando os psicodélicos e as técnicas espirituais hindus e budistas tornaram-se acessíveis a uma grande parte da juventude. Mas o uso social, descuidado, de substâncias psicodélicas, com freqüência adulteradas, teria assustado e certamente entristecido Huxley.

Este ensaio representa a homenagem de Huxley a William James, o grande psicólogo e filósofo norte-americano, que experimentou duas drogas que alteram a mente: o peiote e o óxido nitroso.

 

No curso da História, muito mais pessoas morreram de bebida e drogas do que pela religião ou pelo país. A necessidade de álcool etílico e de opiatos tem sido mais forte, nesses milhões, do que o amor a Deus, ao lar, aos filhos; até à vida. Seu grito não era por liberdade ou morte; era pela morte precedida de escravidão. Há aqui um paradoxo, e um mistério. Por que tais multidões de homens e mulheres estariam tão prontos para se sacrificarem por uma causa tão completamente desesperada, e de muitas formas tão dolorosas e tão profundamente humilhantes?

Para este enigma não há, naturalmente, uma resposta simples ou única. Os seres humanos são criaturas imensamente complicadas, vivendo simultaneamente em meia dúzia d mundos diferentes. Cada indivíduo é único e, sob vários aspectos, diferente de todos os outros membros da espécie. Nenhum de nossos motivos é isento de alguma mistura, nenhum de nossos atos pode ser atribuído a uma fonte única e, em qualquer grupo que desejemos estudar, os padrões de comportamento que são perceptivelmente similares podem ser o resultado de muitas constelações de causas dissemelhantes.

Assim, existem alguns alcoólatras que parecem ter sido bioquimicamente predestinados ao alcoolismo. (Entre os ratos, como demonstrou o Prof. Roger Williams, da Universidade do Texas, alguns são bêbados natos, outros nascem abstêmios e nunca se aproximam de bebida.) Outros alcoólatras são predestinados, não por algum defeito herdado em seu funcionamento bioquímico, mas por suas reações neuróticas a acontecimentos tristes durante a infância e adolescência. Além disso, outros tornam o caminho do suicídio lento como resultado de mera imitação e bom companheirismo, porque conseguem uma tal “excelente adaptação a seu grupo” – um processo que, se acontece do grupo ser criminoso, idiota ou simplesmente ignorante, só pode trazer desastres para o indivíduo bem adaptado. Também não podemos esquecer essa vasta espécie de viciados que se voltaram para as drogas ou a bebida para escapar da dor física. Vamos nos lembrar que a aspirina é uma invenção muito recente. Até o final da era vitoriana, “a dormideira e a mandrágora”, juntamente com o meimendro negro e o álcool etílico, eram os únicos sedativos disponíveis ao homem civilizado. Dor de dente, artrite e nevralgia podiam, e freqüentemente o faziam, levar homens e mulheres à dependência do ópio.

De Quincey, por exemplo, recorreu primeiro ao ópio 1 para aliviar “cruciantes dores reumáticas na cabeça”. Ele engolia sua dormideira e, uma hora depois, “Que ressurreição das mais baixas profundezas do espírito interior! Que apocalipse!” E não se tratava apenas de não sentir mais dor. “Esse efeito negativo era engolido pela imensidão daqueles efeitos positivos que se abriam à minha frente, no abismo de divino deleite assim subitamente revelado... Ali estava o segredo da felicidade, sobre o qual os filósofos discutiram durante tantas eras, repentinamente descoberto.”

“Ressurreição, apocalipse, deleite divino, felicidade...” As palavras de De Quincey nos levam ao próprio âmago de nosso mistério paradoxal. O problema da dependência à droga e da bebida em excesso não é apenas uma questão de química e psicopatologia, de alívio da dor e de conformação com uma sociedade ruim. É também um problema metafísico – um problema, poder-se-ia quase dizer, de teologia. Em Variedades da experiência religiosa (1902), William James mencionou esses aspectos metafísicos da dependência:

 

1 Confessions of an English opium-eater (Confissões de um comedor .de ópio inglês) de De Quincey (Londres, 1822) foi e primeiro caso de confissão e estudo da dependência de droga na literatura.

 

“A influência do álcool sobre a humanidade deve-se, inquestionavelmente, a seu poder de estimular as faculdades místicas na natureza humana, normalmente esmagadas pelos frios fatos e secas críticas da hora sóbria. A sobriedade diminui, discrimina e diz não. A embriaguez expande, une e diz sim. É, na verdade, o grande excitante da função Sim no homem. Tira seu devoto da gélida periferia das coisas para o seu âmago radiante. Torna-o, naquele momento, uno com a verdade. Não é por mera perversidade que os homens correm atrás dela. Para o pobre e o iletrado, ela toma o lugar de concertos sinfônicos e da literatura, e é parte do mistério e da tragédia mais profundos da vida que -vislumbres de coisas que imediatamente reconhecemos como excelentes sejam concedidos a tantos de nós apenas nos primeiros estágios do que em sua totalidade é um veneno tão degradante. A consciência embriagada é uma pequena parte da consciência mística, e nossa opinião total sobre ela tem que encontrar seu lugar em nossa opinião do total muito maior.”

William James não foi o primeiro a detectar uma semelhança entre a embriaguez e os estados místicos e pré-místicos. No dia de Pentecostes, havia pessoas que explicavam o estranho comportamento dos discípulos dizendo: “Estes homens estão cheios de vinho novo.”

Pedro logo esclareceu: “Estes não estão bêbados, como supondes, pois esta é apenas a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel. E acontecerá que nos últimos dias, disse Deus, vou derramar meu Espírito sobre toda a carne.”

E não é apenas pelas “secas críticas da hora sóbria” que o estado de intoxicação-de-Deus tem sido comparado à embriagues. Em seus esforços para exprimir o inexprimível, os grandes místicos fizeram a mesma coisa. Assim, Santa Teresa de Avila nos diz que ela “vê o centro de nossa alma como uma adega, no qual Deus nos admite como e quando Lhe agrada, para nos intoxicar com o delicioso vinho de Sua Graça.”

Toda religião plenamente desenvolvida existe simultaneamente em vários níveis diferentes. Ela existe como um conjunto de conceitos abstratos sobre o mundo e seu governo. Existe como um conjunto de ritos e sacramentos, como um método tradicional de manipular os símbolos, por meio do qual são expressas crenças sobre a ordem cósmica. Existe como os sentimentos de amor, medo e devoção evocados por essa manipulação de símbolos.

E finalmente ela existe como um tipo especial de sensação ou intuição – uma sensação da unidade de todas as coisas em seu princípio divino, uma constatação de que (para usar a linguagem da teologia hindu) “vós sois Aquilo”, uma experiência mística do que parece ser, por evidência própria, a união com Deus.

A consciência normal é um estado de espírito muito útil e, na maioria das ocasiões, indispensável; mas não é, de modo algum, a única forma de consciência, nem a melhor em todas as circunstãncias. Enquanto transcende seu eu comum e seu modo de consciência comum, o místico é capaz de aumentar sua visão, olhar mais profundamente no inimaginável milagre da existência.

A experiência mística é duplamente valiosa; é valiosa porque dá a quem a experimenta uma compreensão melhor de si mesmo e do mundo, e porque pode ajudá-lo a levar uma vida menos egocêntrica e mais criativa.

No inferno, como escreveu um grande poeta religioso, o castigo dos perdidos é ser “seus eus suados, mas piores”. Na terra nós não somos piores do que somos, somos apenas nossos eus suados, ponto final.

Ah, isto já é bastante ruim. Nós nos amamos ao ponto da idolatria, mas nós também nos detestamos intensamente – nós nos achamos indizivelmente enfadonhos. Relacionado a esse de-sagrado para com nossos eus idolatradamente venerados, há em todos nós um desejo, às vezes latente, às vezes consciente e apaixonadamente exprimido, de escapar da prisão de nossa individualidade, um impulso para a autotranscendência. É a esse impulso que devemos a teologia mística, os exercícios espirituais e a ioga – a ele, também, devemos o alcoolismo e a dependência a drogas.

A farmacologia moderna tem produzido uma grande quantidade de novos sintéticos, mas no campo das drogas alteradoras da mente que são encontradas na natureza ela não fez descobertas radicais. Todos os sedativos, estimulantes e produtores de visões, dicais. Todos os sedativos, estimulantes e produtores de visões, promotores de felicidade e despertadores de consciência cósmica, todos eles botânicos, foram descobertos há milhares de anos, antes da aurora da História.

Em muitas sociedades, em vários níveis de civilização, foram feitas tentativas para fundir a intoxicação pela droga com a intoxicação-por-Deus. Na Grécia antiga, por exemplo, o álcool etílico tinha seu lugar na religião estabelecida. Dionísio, ou Baco, como era chamado com frequência, era uma verdadeira divin-dade. Seus devotos dirigiam-se a ele como Lusias, “Libertador”, ou como Theoinos, “Vinho de Deus”. Este último une o suco da uva fermentada e o sobrenatural numa única experiência pentecostal. Eurípides escreve: “Nascido deus, Baco é vertido como libação aos deuses, e através dele os homens recebem o bem.” Infelizmente eles também recebiam o mal. A experiência agradável de autotranscendência que o álcool torna possível tem que ser paga, e o preço é exorbitantemente alto.

A proibição completa de todas as drogas químicas que alteram a mente pode ser decretada, mas não pode ser levada a efeito, e tende a criar mais problemas do que pode remediar. Mais insatisfatório ainda tem sido o método de completa tolerância e disponibilidade irrestrita. Na Inglaterra, durante os primeiros anos do século XVIII, o gim, barato e não sujeito a impostos – “bêbado por um centavo, morto de bêbado por dois centavos” – ameaçava a sociedade com sua completa desmoralização. Um século mais tarde, o ópio, na forma de láudano, reconciliava as vítimas da Revolução Industrial com o mundo – mas a um custo aterrorizante em termos de dependência, doença e morte prematura. Hoje em dia, a maioria das sociedades civilizadas segue um curso entre os dois extremos de proibição total e tolerância total. Certas drogas que alteram a mente, tais como o álcool, são permitidas e tornadas acessíveis ao público mediante o pagamento de um imposto muito alto, que tende a restringir seu consumo. Outras drogas que alteram a mente não são obtidas a não ser sob ordens médicas – ou ilegalmente, de um traficante d drogas. Dessa maneira o problema é mantido dentro de limites controláveis. Com toda certeza não é resolvido. Em sua busca sem fim da autotranscendência, milhões de místicos potenciais tornam-se dependentes, cometem vários milhares de crimes e envolvem-se com centenas de milhares de acidentes evitáveis.

Será que temos que continuar indefinidamente desta maneira triste? Até poucos anos atrás, a resposta a tal pergunta teria sido um pesaroso "Temos, sim”. Hoje em dia, graças aos ressentes desenvolvimentos da bioquímica e da farmacologia, temos uma alternativa que pode funcionar. Vemos que breve poderá ser possível fazermos algo melhor em matéria de autotranscendência química do que temos feito tão ineptamente nos últimos setenta ou oitenta séculos.

É possível que uma droga poderosa seja inteiramente inofensiva? Talvez não. Mas o custo fisiológico pode por certo ser reduzido ao ponto de se tornar negligenciável. Há alguns poderosos alteradores da mente que fazem seu trabalho sem danificar o organismo psicofísico de quem os toma e sem incitar a pessoa a comportar-se como um criminoso ou um lunático. A bioquímica e a farmacologia estão começando a seguir este caminho. Dentro de poucos anos haverá no mercado, provavelmente, dúzias de alteradores da mente poderosos mas – sob o aspecto fisiológico e social – muito baratos.

Diante do que já temos em matéria de drogas fortes mas quase inofensivas; diante, acima de tudo, do que inegavelmente breve teremos – devíamos começar imediatamente a pensar seriamente no problema dos novos alteradores da mente. Como deveriam ser usados? Como pode ocorrer abuso? Será que os seres humanos ficarão melhores e mais felizes por causa de sua descoberta? Ou piores, e mais infelizes?

O problema tem que ser examinado sob vários pontos de vista. É ao mesmo tempo uma questão para bioquímicos e médicos, para psicólogos e antropólogos sociais, para legisladores e funcionários da lei. E, finalmente, é uma questão ética e uma questão religiosa. Mais cedo ou mais tarde – e quanto mais cedo, melhor – os vários especialistas envolvidos terão que se reunir, discutir e então decidir, à luz do melhor testemunho disponível e da mais imaginativa visão do futuro, o que deveria ser feito. Enquanto isso, vamos dar uma olhada preliminar neste problema de múltiplas facetas.

No ano passado, os médicos norte-americanos deram 48.000.000 de receitas de drogas tranqüilizantes, muitas das quais foram reutilizadas, provavelmente mais de uma vez. Os tranqüilizantes são os mais conhecidos dos novos e quase inofensivos alteradores da mente. Podem ser usados pela maioria das pessoas, claro que não com impunidade completa, mas a custo fisiológico razoavelmente baixo. Sua enorme popularidade atesta o fato de que muitas pessoas não gostam de seu ambiente nem de “seus eus suados”. Sob tranqüilizantes, o grau de autotranscendência não é muito grande; mas é suficiente para fazer a diferença, em muitos casos, entre a infelicidade e o contentamento.

Na teoria, os tranqüilizantes só deveriam ser dados a pessoas que sofrem de formas bem severas de neurose ou psicose. Na prática, infelizmente, muitos médicos foram levados pela atual moda farmacológica e estão receitando tranqüilizantes a todos. Pode-se dizer que a história da moda na medicina é pelo menos tão grotesca quanto a história da moda nos chapéus das mulheres – pelo menos tão grotesca e, em se tratando de vidas humanas, consideravelmente mais trágica. No caso presente, milhões de pacientes que não têm uma necessidade real de tranqüilizantes receberam pílulas de seus médicos e aprenderam a recorrer a elas em cada apuro, por menor que fosse ele. Isto é uma péssima medicina e, do ponto de vista de quem toma a pílula, de moralidade dúbia e de nenhum sentido.

Há situações em que é justificável que as pessoas saudáveis recorram ao controle químico de emoções negativas. Se você não consegue mesmo manter a tranqüilidade, deixe que um tranqüilizante faça isto por você. Mas não é sensato nem direito que uma pessoa saudável recorra a um alterador de mente químico cada vez que se sente irritada, ou ansiosa ou tensa. Tensão e ansiedade em demasia podem reduzir a eficiência de um homem – mas o mesmo vale para tensão e ansiedade de menos. Há muitas ocasiões em que é inteiramente apropriado sentirmo-nos preocupados, quando um excesso de placidez pode reduzir nossas chances de lidar eficazmente com uma situação espinhosa. Nessas ocasiões, é preferível, sob todos os pontos de vista, a tensão diminuída e dirigida a partir de dentro pelos métodos psicológicos de autocontrole do que a complacência imposta a partir de fora por métodos de controle químico.

E agora vamos estudar o caso – infelizmente, não um caso hipotético – de duas sociedades a competir entre si. Na Sociedade A, os tranqüilizantes são acessíveis por receitas médicas e a um preço um tanto puxado – o que significa, na prática, que seu uso é limitado à minoria rica e influente que fornece a lide-rança dessa sociedade. Essa minoria de cidadãos líderes consome por ano vários bilhões de pírulas que produzem complacência. Na Sociedade B, por outro lado, os tranqüilizantes não são acessíveis com tanta facilidade, e os membros da minoria influente não recorrem, à menor provocação, ao controle químico do que pode ser uma tensão necessária e produtiva. Quais dessas duas sociedades competidoras tem probabilidade de ganhar a corrida? Uma sociedade cujos líderes fazem uso excessivo de xaropes calmantes corre o perigo de ficar na traseira de uma sociedade cujos líderes não sejam supertranquilizados.

Vamos agora estudar outra espécie de droga – ainda por descobrir, mas com certeza logo depois da curva – uma droga capaz de fazer as pessoas sentirem-se felizes em situações em que normalmente sentir-se-iam infelizes. Tal droga seria uma bênção mas uma bênção carregada de graves perigos políticos. Tornando acessível uma euforia química inofensiva, um ditador conseguiria reconciliar uma população inteira com o estado de coisas com o qual seres humanos que se respeitam não podem reconciliar-se. Os déspotas sempre acharam necessário suplementar sua força por meio de propaganda política ou religiosa. Neste sentido a pena é mais poderosa que a espada. Porém mais poderosa que a pena ou a espada é a pílula. Em hospitais psiquiátricos descobriu-se que a restrição química é muito mais eficiente do que a camisa-de-força ou psiquiatria. As ditaduras de amanhã vão privar os homens de sua liberdade, mas vão dar-lhes em troca uma felicidade não menos real, como experiência subjetiva, pelo fato de ser induzida quimicamente. A busca à felicidade é um dos direitos tradicionais do homem; infelizmente, conseguir a felicidade pode mostrar ser incompatível com outro dos direitos do homem – a saber, a liberdade.

No entanto, é bem possível que a farmacologia devolva com uma das mãos o que ela retira com a outra. A euforia provocada quimicamente poderia facilmente tornar-se uma ameaça à liberdade individual; mas o vigor induzido quimicamente e a inteligência intensificada quimicamente poderiam facilmente ser o sustentáculo mais forte da liberdade. A maioria de nós funciona com uns quinze por cento de sua capacidade. Como é que podem' aumentar essa nossa eficiência lamentavelmente baixa?

Existem dois métodos – o educacional e o bioquímico. Podemos pegar adultos e crianças como eles são e dar-lhes um treinamento muito melhor do que estamos lhes dando agora. Ou, por meios bioquímicos apropriados, podemos transformá-los em indivíduos superiores. Se esses indivíduos superiores receberem educação superior, os resultados serão revolucionários. Serão espantosos, mesmo que continuemos a submetê-los aos métodos educacionais falhos em voga atualmente.

Será mesmo possível produzir indivíduos superiores através de meios químicos? Os russos com certeza acreditam nisso. Estão agora a meio caminho de um Plano Quinqüenal para produzir “substâncias farmacológicas que normalizem a atividade nevosa mais elevada e aumentem a capacidade humana de trabalho”. Precursores desses futuros aperfeiçoadores da mente já estão sendo testados. Descobriu-se, por exemplo, que algumas das vitaminas – o ácido nicoúnico e o ácido ascórbico, por exemplo – quando dadas em altas doses produzem um certo aumento na energia psíquica. Uma combinação de duas enzimas – dissulfonato de etileno e trifosfato de adrenosina, que, quando injetados juntos, aumentam o metabolismo do hidrato de carbono no tecido nervoso – pode também vir a ser eficaz.

Nesse ínterim, alega-se a existência de bons resultados para diversos povos sintéticos, estimulantes quase inócuos. Há o iproniazid, que, segundo algumas autoridades, “parece aumentar a quantidade total de energia psíquica”. Infelizmente, o iproniazid tomado em doses elevadas tem efeitos colaterais que em determinados casos pode ser extremamente graves! Outro energizante psíquico é um aminoálcool que, de acordo com a opinião cor-rente, aumenta a produção de acetilcolina do corpo, uma substância de primeira importância no funcionamento do sistema nervoso. Diante do que já se conseguiu, parece bem possível que, dentro de poucos anos, possamos nos erguer por nossos próprios cordões bioquímicos.

Enquanto isso, vamos desejar com fervor todo o sucesso para os russos em seu atual empreendimento farmacológico. A descoberta de uma droga capaz de aumentar a energia psíquica do indivíduo médio, e sua farta distribuição por toda a URSS, provavelmente significaria o final da atual forma de governo na Rússia. A inteligência generalizada e a vivacidade mental são os mais poderosos inimigos da ditadura e ao mesmo tempo as condiçôes básicas da democracia efetiva. Mesmo no Ocidente democrático poderíamos usar um pouco de energização psíquica. Juntas, a educação e a farmacologia podem fazer alguma coisa para contrabalançar os efeitos da deterioração de nosso material biológico para o qual os geneticistas com freqüência chamam a nossa atenção.

Dessas considerações éticas e políticas, vamos passar agora para os problemas estritamente religiosos que serão propostos por alguns dos novos alteradores da mente. Podemos prever a natureza desses problemas futuros ao estudar os efeitos de um alterador de mente natural, que por séculos tem sido usado em cultos religiosos; refiro-me ao cacto do peiote do norte do México e do sudoeste dos Estados Unidos. O peiote contém mescalina – que agora pode ser produzida sinteticamente – e a mescalina, na frase de William James, “estimula as faculdades místicas na natureza humana” com muito mais força e de um modo muito mais esclarecedor do que o álcool e, além do mais, faz isso a um custo fisiológico e social tão baixo que chega a ser negligenciável. O peiote produz a autotranscendência de duas maneiras – ele leva a pessoa que o toma ao Outro Mundo da experiência visionária, e lhe dá uma sensação de solidariedade com seus companheiros de culto, com os seres humanos em geral e com a divina natureza das coisas.

Os efeitos do peiote podem ser duplicados pela mescalina sintética e pelo LSD (ácido lisérgico-dietilamido), um derivado da cravagem do centeio. Eficiente em doses incrivelmente pequenas, o LSD está sendo agora usado experimentalmente por psicoterapeutas na Europa, na América do Sul, no Canadá e nos Estados Unidos. Ele reduz a barreira entre o consciente e o sub-consciente, e permite que o paciente veja com mais profundidade e compreensão os recessos de sua própria mente. O aprofunda-mento do autoconhecimento tem lugar à frente de um pano de fundo de experiência visionária e até mesmo mística.

Quando administrada no tipo certo de ambiente psicológico, esses alteradores da mente químicos tornam possível uma experiência religiosa genuína. Assim, uma pessoa que toma LSD ou mescalina pode subitamente compreender – não apenas intelectualmente mas organicamente, experiencialmente – o significado de afirmações religiosas do calibre de “Deus é amor”, ou “Embora Ele me extermine, ainda assim confio Nele.”

Não é preciso dizer que esta espécie de autotranscendência. temporária não é garantia de um esclarecimento permanente ou. um aperfeiçoamento duradouro de conduta. É uma “graça gratuita”, que nem é necessária nem suficiente para a salvação, mas. que, se usada apropriadamente, pode ser enormemente útil àqueles que a receberam. E isto se aplica a todas as experiências do gênero, sejam as que ocorrem espontaneamente, ou como resultado de engolir uma pílula do alterador químico de mente apropriado, ou depois de fazer um curso de “exercícios espirituais” ou mortificação corporal.

Aqueles que se ofendem pela idéia de que engolir uma pílula pode contribuir para uma experiência genuinamente religiosa deviam lembrar-se que todas as mortificações padronizadas – jejum, insônia voluntária e autoflagelação – inflingidas sobre sì mesmos pelos ascetas de todas as religiões com o propósito de-adquirir mérito são também, como as drogas que alteram a mente, mecanismos poderosos para alterar a química do corpo em geral e do sistema nervoso em particular. Ou pensem nos métodos geralmente conhecidos como exercícios espirituais. As técnicas de respiração ensinadas pelos iogues da índia resultam em prolongadas suspensões da respiração. Essas, por sua vez, resultam no aumento da concentração de dióxido de carbono no sangue; e a conseqüência fisiológica disso é uma alteração na qualidade da consciência. Além disso, as meditações que requerem uma concentração intensa e prolongada numa só idéia ou imagem podem também resultar – por razões neurológicas que não-afirmo entender – numa diminuição no ritmo da respiração e até mesmo em prolongadas suspensões da mesma.

Muitos ascetas e místicos praticaram suas mortificações e exercícios espirituais que alteravam a química vivendo, por períodos maiores ou menores, como eremitas. Ora, a vida de um eremita, como Santo Antônio, é uma vida na qual há pouquíssimos estímulos externos. Porém, como Hebb, John, Lilly e outros psicólogos experimentados demonstraram recentemente em laboratório, uma pessoa num ambiente limitado, que proporciona muito poucos estímulos externos, logo passa por uma mudança. na qualidade de sua consciência e pode transcender ao seu eu normal ao ponto de ouvir vozes ou ter visões, com freqüência extremamente desagradáveis, como tantas das visões de Santo Antônio, mas às vezes beatíficas.

Ao idealista excessivamente exigente parece um tanto chocante que homens e mulheres possam, por meios físicos e químicos, transcenderem a si mesmos de um modo genuinamente espiritual. Mas, afinal, a droga ou o exercício físico não é a causa da experiência espiritual; é apenas sua ocasião.

Escrevendo sobre as experiências de William James com óxido nitroso, Bergson resumiu todo o assunto em algumas frases lúcidas. “A disposição psíquica estava lá, potencialmente, apenas esperando um sinal para expressar-se em ação. Poderia ter sido evocada espiritualmente por um esforço feito em seu próprio nível espiritual. Mas poderia da mesma forma ser provocada materialmente, por uma inibição do que a inibia, pela remoção de um obstáculo; e esse efeito era o efeito inteiramente negativo produzido pela droga.” Onde, por uma razão qualquer, física ou moral, as disposições psicológicas são insatisfatórias, a remoção de obstáculos por uma droga ou por práticas ascéticas resultará numa experiência negativa, mais que positiva. Tal experiência infernal é extremamente desagradável, mas pode ser também extremamente salutar. Há muitas pessoas para quem algumas horas no inferno – o inferno que elas mesmas ajudaram a criar – poderia fazer um enorme bem.

Estimulantes das faculdades místicas, fisiologicamente sem custo, ou quase sem custo, estão surgindo agora, e muitas espécies deles logo estarão no mercado. Podemos ter certeza de que, quando eles se tornarem acessíveis, serão intensamente usados, O impulso à autotranscendência é tão forte e tão geral que não poderá ser diferente. No passado, poucas pessoas tiveram experiências espontâneas de natureza pré-mística ou totalmente mística; menos ainda dispuseram-se a passar pelas disciplinas psicofísicas que preparam um indivíduo isolado para essa espécie de .autotranscendência. Os futuros alteradores da mente, poderosos mas quase sem custo, vão mudar completamente tudo isto. Em vez de raras, as experiências pré-místicas e místicas vão-se tornar comuns. O que era antes o privilégio espiritual de poucos tornar-se-á acessível a muitos. Para os ministros das religiões organizadas do mundo, isto vai fazer surgir vários problemas sem precedentes. Para a maioria das pessoas, a religião sempre foi uma questão de símbolos tradicionais e sua própria reação emocional, intelectual e ética a esses símbolos. Para os homens e mulheres que tiverem uma experiência direta de autotranscendência para o Outro Mundo da mente de visão e união com a natureza das coisas, uma religião de meros símbolos não tem chance de ser muito satisfatória. A leitura atenta de uma página de um livro de culinária, mesmo que otimamente escrito, não substitui o jantar. Nós somos exortados a “provar e ver que o Senhor é bom’.

De uma maneira ou de outra, as autoridades eclesiásticas do mundo terão que entrar em entendimento com os novos alteradores da mente. Podem entrar em entendimento com eles de modo negativo, recusando-se a ter algo a ver com eles. Nesse caso, um fenômeno psicológico, potencialmente de grande valor espiritual, vai manifestar-se fora do âmbito das religiões organizadas. Por outro lado, elas podem escolher entrar em entendimento com os alteradores da mente de um modo positivo – exatamente como, não estou preparado para adivinhar.

Minha opinião é de que, embora possam ser no início algo um tanto embaraçoso, esses novos alteradores da mente tenderão, a longo prazo, a aprofundar a vida espiritual das comunidades nas quais são acessíveis. Esse famoso “renascimento da religião”, sobre o qual tanta gente vem falando há tanto tempo, não surgirá como resultado de grandes congressos evangélicos ou aparições televisionadas de clérigos fotogênicos. Surgirá como resultado de descobertas bioquímicas que tornarão possível que grande número de homens e mulheres atinja uma autotranscendência radical e uma compreensão mais profunda da natureza das coisas. E esse renascimento religioso será ao mesmo tempo uma revolução. De uma atividade que lida principalmente com símbolos, a religião será transformada numa atividade que lida principal-mente com a experiência e a intuição – um misticismo cotidiano sublinhando e d'ando significado a toda a racionalidade cotidiana, todas as tarefas e todos os deveres cotidianos, todas as relações humanas cotidianas.

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As duas fontes da moral e da religião (1935).