Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 36 - 1962 Cartas
Capítulo 36
1962
Cartas
Huxley manteve uma agenda de conferências ainda mais cheia esse ano, apesar da volta do câncer, que requereu pequena cirurgia e mais tratamentos com radiação. Além de suas palestras em universidades, ele falou num congresso sobre hipnose, para físicos em Los Alamos, para a Academia Norte-americana de Artes e Letras e para a Academia Mundial de Artes e Ciência na Bélgica Também encontrou tempo para visitar o Centro Espacial Apollo, em Los Angeles, e seu lar da infância no Surrey, A Sociedade Real de Literatura honrou-o com o título de Companion em Literatura, um título também rece-bido por Churchill, Maugham e Masefield, que na época estavam vivos. A ilha foi publicada; e ele iniciou o que seria seu último livro.
Em suar cartas, Huxley discute a natureza dessa “experiência não-intermediada” com psicodélicos, o uso tântrico do LSD e dos cogumelos, e responde ao Marajá de Caxemira, que, depois de ler A ilha, escreve pergun-tando onde poderia obter drogas psicodélicas. Ele é des-crito por Claire Nicolas White, em Bedford (v. 2, p. 312) como lendo em voz alta um trecho de As portas da percepção para os filhos de sua sobrinha em sua casa de Long Island, enquanto eles "escutavam fascinados, e um deles desenhou seu retrato”.
AO DR. TIMOTHY LEARY [SMI'TH 888]
2533 Hillegass, Berkeley 4, Cal. 11 de fevereiro de 1962
Caro TIM.
Em minha última carta esqueci-me de responder a sua pergunta sobre o Tantra. Há livros enormes sobre esse assunto, da auto-ria de “Arthur Avalon” (Sir John Woodroffe), em que se pode mergulhar com algum proveito. Há também um capítulo sobre isso em Philosophies of India (Filosofias da India), de Heinrich Zimmer. O tratamento inteiramente erudito, numa escala que dá para entendermos, são os vários livros de Mircea Eliade so-bre a Ioga. Consultem-se também Buddhist texts (Textos budistas) de Conze. Pelo que podemos entender, o Tantra parece ser uma estranha mistura de superstição e mágica com filosofia sublime e vislumbres filosóficos agudos. Há uma quantidade sem fim de ritual e palavras mágicas. Mas o ideal básico me parece o ideal mais elevado possível – a iluminação, não fora do mundo (como ocorre com os seguidores do vedantismo e os viciados em Nirvana da Escola Hinayana de Budistas), mas dentro do mundo, através do mundo, por meio dos processos comuns de viver. O Tantra ensina uma ioga do sexo, uma ioga de comer (mesmo comer alimentos proibidos e beber bebidas proibidas). A sacramentalização da vida normal, de modo que cada acontecimento pode-se tornar um meio pelo qual a iluminação possa ser alcançada, é conseguida, essencialmente, através da atenção constante. Essa é a ioga suprema – estar atento, consciente até do inconsciente – em todos os níveis, do fisiológico ao espiritual. Nesse âmbito, consulte-se a lista de 112 exercícios de consciência, extraída de um texto tântrico e impresso no final de Zen flesh, Zen bones (Carne Zen, ossos Zen) [de Paul Reps] (agora em formato de bolso). Toda a “Terapia Gestalt” é antecipada nes-ses exercícios – e a terapia não é apenas para o anormal, é aci-ma de tudo uma terapia para a doença muito mais grave da insen-sibilidade e ignorância que nós chamamos “normalidade” ou “saúde mental”. O LSD e os cogumelos deviam ser usados, me parece, no âmbito dessa idéia básica tântrica da ioga da cons-ciência total, levando à iluminação dentro do mundo da experiência cotidiana – que naturalmente se torna o mundo do milagre, da beleza e do mistério divino, quando a experiência é o que sempre devia ser.
Do seu Aldous.
A REID GARDNER [SMITH 902]
Em Pond Street, 31
Hampstead, N,W. 3 18 de setembro de 1962
Caro Sr. Gardner,
[...] Não sabia que [Robert] Graves tinha escrito sobre a psilocibina, e preciso ler o artigo dele.1 Em experiências com LSD e psilocibina, que se seguiram à experiência com mescalina descrita em As portas da percepção, eu experimentei essa sensação de soli-dariedade afetuosa para com as pessoas à minha volta, e com o universo inteiro – e também a sensação da Perfeição fundamen-tal do mundo, apesar da dor, da morte e da desolação. Essa Perfeição pode ser expressa em palavras ou outros símbolos – mas sua natureza não pode ser transmitida para qualquer pessoa que não tenha passado pela experiência não-intermediada. E essa ex-periência pode ser produzida pelas palavras mesmo mais comoventemente poéticas? Nunca constatei que ela pudesse ser produzida assim – no máximo, apenas preparada assim. (Aliás, a mescalina, o LSD e a psilocibina originani, todos, um estado de coisas em que a verbalização e a conceitualização são, de alguma forma, evitadas por um atalho. Pode-se falar sobre a ex-periência – mas sempre sabendo que “o resto é silêncio”.)
Quando eu voltar para a Califórnia espero receber sua visita
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1 Graves escreveu sobre experiências com drogas psicodélicas em Tlw Atlantic Monthly, e em seu livro Food for centaurs (Alimento para centauros) (1960).
A S.A. MARAJA DR. KARAN SINGH, DE
JAMMU E CAXEMIRA [SMITH 911]
6233 Mulholland Highway, Los Angeles 28, Califórnia 22 de dezembro de 1962
Sua Alteza,
Obrigado por sua amável carta. A ilha é uma espécie de sonho pragmático – uma fantasia com instruções detalhadas e (concebivelmente) práticas para fazer com que a imaginada e desejável harmonização dos vislumbres europeus e hindus se torne fato. Mas infelizmente, apesar desses aspectos pragmáticos, o livro ain-da continua sendo um sonho – bem distante (como com tristeza esclareço nos últimos parágrafos da história) de nossa reali-dade atual. Mas mesmo assim, se não estivéssemos tão ocupados tentando fazer outra coisa qualquer, nós conseguiríamos, acredito, tornar este mundo um lugar apropriado para seres comple-tamente humanos viverem.
Quanto às drogas “psicodélicas” – LSD, mescalina, psilocibina –, o suprimento delas é pequeno, e acessível apenas para pesquisadores. Não tenho idéia se alguma pesquisa nesta área está sendo feita em alguma das universidades indianas. O senhor poderia descobrir, escrevendo para a Sandoz Company, na Basiléia, Suíça (que industrializa o LSD e a psilocibina).
Outra possibilidade: meu amigo, o Dr. Timothy Leary, do Departamento de Psicologia, Universidade de Harvard, Cambridge, Mass., EUA, está dirigindo uma pesquisa em larga es-cala. É possível que ele gostasse de ter uma oportunidade de trabalhar com os psicodélicos em relação a pessoas educadas numa cultura diferente da dele. Se o senhor pudesse colocar uma casa à disposição dele por algumas semanas, ele talvez gostasse de ir à India e fazer essa experiência sócio-psicológica. E se e quando eu voltar a seu país, certamente me lembrarei de seu amável convite.
Aldous Huxley