Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Capítulo 37 - 1962 Moksha

Capítulo 37

 

1962

 

Moksha

ALDOUS HUXLEY

 

O último romance de Hurley – a obra que coroa os seus últimos dez anos – levou cinco anos para ser escrito. Provavelmente pela única vez em sua carreira como es-critor, ele questionou sua capacidade criativa de conse-guir "poetizar e dramatizar o material intelectual e criar uma obra que fosse simultaneamente engraçada, trágica, lírica e profunda” (carta a Matthew Huxley, datada de 20 de agosto de 1959). Pua Osmond (em 22 de ju-nho de 1958) ele descreveu a tarefa como “tentar ima-ginar o que poderia ser feito para criar uma sociedade boa, dedicada a trazer à tona todas as forças e dons la-tentes nos indivíduos. [...]” Ele colocou no livro algumas das técnicas psicoterápicas de Laura. A ilha é dedicado a ela; As portas da percepção foi dedicado a Maria; como comenta Sybille Bedford, esses sâo os únicos livros, entre os quase cinquenta que Huxley publicou, que são dedicados.

Os ilhéus – os palaneses – usam uma droga chamada moksha: uma espécie de psicodélico aperfeiçoado, na forma de um cogumelo amarelo cultivado que crescia nas montanhas. A substância também é chamada “medicina-moksha” e proporciona “a experiência mística total”. Ao contrário do soma de Admirável mundo novo, o moksha não é para escapista uma importante ética dos ilhéus é “prestar atenção”. Em uma cerimônia de rito de passagem na qual a droga é dada à juventude palanesa, o guia revela sua mensagem essencial: “Liberação [...] o término do sofrimento, deixando de ser o que você ignorantemente pensa que é e tornando-se o que você é realmente. Por algum tempo, graças à medicina-moksha, você vai saber o que é ser o que você realmente é, o que na verdade você sempre foi.”

 

O SEXO AQUI É DIFERENTE – insistiu Murugan.

– Por causa da “ioga do amor?” – perguntou Will, lembrando-se do rosto extasiado da pequena enfermeira.

O rapaz concordou.

– Possuem algo que os faz pensar que são completamente felizes e por isso nada mais desejam.

– Mas isto é uma verdadeira bênção!

– Não concordo – disse Murugan com rispidez. – É apenas estúpido e nauseante. Nada de progresso, somente sexo, sexo, sexo! Afora isso, apenas o abominável narcótico que lhes é dado.

– Narcótico? – perguntou Will, atônito. Narcótico num lugar onde Susila declarara não haver viciados? – Que espécie de narcótico? feito de cogumelos venenosos! – Ao dizer isso, se transformou numa verdadeira caricatura da rani, nos momentos em que adquirira os mais vibrantes tons de espiritualidade ultrajada.

– Por acaso não serão desses lindos cogumelos onde os anões costumavam sentar?

– Não. Esses são amarelos. Costumava-se ir colhê-los nas montanhas. Agora, essas “coisas” crescem no “Posto Experimental de Grandes Altitudes”, em canteiros especiais de fungos. É narcótico cultivado cientificamente. Lindo, não?

Uma porta bateu. Ouviu-se o som de vozes e de pisadas que vinham do corredor. O espírito indignado da rani desapareceu abruptamente e Murugan se transformou, mais uma vez, no estudante que, cheio de remorsos, tenta esconder as suas faltas. Num instante, a Ecologia Elementar tomou o lugar da Sears, Roebuck e a pasta cheia e de aspecto suspeito foi para debaixo da mesa. Após um momento, Vijaya entrou na sala. O seu peito. nu e suado pelo trabalho sob o sol do meio-dia, brilhava como bronze oleado. Atrás dele vinha o Dr. Robert. Com o ar de um estudante modelo que foi interrompido nos seus estudos por transgressores do frívolo mundo exterior, Murugan olhou-os. Divertido, Will imediatamente prestou-se com sinceridade ao papel que lhe fora designado.

– Cheguei cedo demais – disse em resposta às desculpas de Vijaya por terem chegado atrasados. – Acabei perturbando os estudos do nosso jovem amigo. Estivemos conversando muito.

– Qual o assunto? – perguntou o Dr. Robert.

– Os mais variados. Repolhos, reis, barcos a motor e abdomes pendulares. Quando vocês entraram, falávamos sobre os cogumelos. Murugan me falava a respeito dos fungos usados aqui como estupefacientes.

– Qual a significação de um nome'? – perguntou o Dr. Robert sorrindo. – Resposta: praticamente tudo. Murugan teve o infortúnio da educação européia e os chama de entorpecentes.

A sua desaprovação vem de um reflexo condicionado, desencadeado por essa palavra sórdida. Nós, pelo contrário, chamamo-lo moksha – o revelador da realidade, a pílula da verdade e da beleza – e sabemos, graças a experiências objetivas, que esses no' mes são merecidos. Mas o nosso jovem amigo não tem o menor conhecimento a respeito dessa droga e não pôde ser ao menos persuadido a experimentá-la, porquanto para ele entorpecente é por definição algo a que nenhuma pessoa decente deve jamais ceder.

– Qual a opinião de V. Majestade? – perguntou Will.

Murugan meneou a cabeça.

– Tudo não é mais que um amontoado de ilusões. Deveria ceder apenas para fazer papel de bobo?

– É. mesmo! Uma vez que você é o único ser humano que no seu estado normal nunca é feito de tolo e nunca tem ilusões a respeito de nada, para que experimentar? – disse Vijaya.

– Não disse isso! – protestou Murugan. – Quis apenas dizer que não desejo nenhum dos seus falsos samadhi.

– Como sabe que são falsos? – perguntou o Dr. Robert.

– Porque a verdade somente chega às pessoas após anos e anos de meditação, tapas e... você bem sabe – se abstendo das mulheres.

– Murugan é um dos Puritanos – explicou Vijaya a Will.

– Ele está insultado pelo fato de que, com apenas quatrocentos miligramas de moksha na sua corrente sanguínea, mesmo os principiantes – sim, mesmo os rapazes e moças que fazem amor – podem perceber num relance como é o mundo dos que foram libertados do cative;ro do próprio ego.

– Porém não é real – insistiu Murugan.

– Não é real! – repetiu o Dr. Robert. – Você poderia dizer que a experiência de sentir-se bem também não é real.

– Você está exagerando uma resposta – observou Will.

Uma experiência pode ser real em relação a algo que se tem den-tro da cabeça, porém estar emcompleto desacordo com qualquer coisa exterior.

– É claro – concordou o Dr. Robert.

– Vocês por acaso sabem o que lhes vai dentro da cabeça após tomarem uma dose do cogumelo?

– Sim. Temos uma vaga idéia.

– E tentamos sempre descobrir mais – ajuntou Vijaya.

– Por exemplo – disse o Dr. Robert. – Descobrimos que as pessoas cujo EEG (eletroencefalograma) não apresenta nenhuma atividade das ondas alfa, quando em repouso, geralmente não reagem significativamente ao moksha. Isso quer dizer que, para cerca de quinze por cento da população, temos de descobrir outro modo de libertação.

– Outra coisa que apenas começamos a compreender é a correlação neurológica dessas experiências – disse Vijaya. – Que acontece no cérebro enquanto se tem uma visão? Que acontece quando se passa do estado pré-místico para o estado verdadeiramente místico?

– Vocês sabem? – perguntou Will.

– Saber é uma palavra cujo significado é muito amplo.

Prefiro dizer que estamos capacitados a fazer algumas suposições razoáveis. Os anjos, as novas Jerusaléns, as Madonas e os futuros Budas são o produto de uma estimulação suscitada nas áreas cerebrais de projeção primária, como por exemplo o córtex visual. Ainda não sabemos de que modo o moksha produz esse tipo de estímulo, mas o que importa é que os produz e que atua, de um modo ou de outro, também de forma incomum sobre as áreas mudas do cérebro, isto é, sobre aquelas que não têm ação específica sobre a percepção, sobre a motilidade e sobre as emoções.

– E qual é a reação dessas áreas? – perguntou Will.

– Comecemos com o modo pelo qual não reagem. Elas não “respondem” com visões nem com alucinações auditivas.

Tampouco “respondem” com manifestações telepáticas, de clarividência ou com qualquer outra proeza parapsicológica. Nada dessas palhaçadas pré-místicas. A “resposta” dessas áreas é a plenitude da experiência mística. Você sabe: “Um é tudo e tudo É um”. A experiência básica com ou sem corolários – compaixão sem limites, mistérios insondáveis e cheios de significação.

– Sem mencionar a alegria, a indizível alegria! – disse o Dr. Robert

– E toda essa turma está estreitamente confinada dentro do cérebro – disse Will. – Sem ter a menor relação com o exterior, exceto com o cogumelo.

– Não é verdade! – interrompeu Murugan. – Era exatamente isso que estava tentando dizer.

– Você está presumindo que o cérebro produz a consciência. No entanto presumo que ele transmite a consciência. Mas nem por isso a minha explicação é mais artificial do que a sua. Como é possível que uma série de acontecimentos pertencentes a uma ordem possam ser experimentados como se pertencessem a outra inteiramente diferente? Ninguém tem a menor idéia e tudo que pode fazer é forjar hipóteses. Filosoficamente falando, uma hipótese é tão boa quanto a outra. Você diz que o moksha afetaas áreas mudas do cérebro, fazendo com que produzam uma série de acontecimentos subjetivos aos quais as pessoas denominaram -“experiência mística”. Eu digo que essa propriedade do moksha abre uma espécie de comporta neurológica, permitindo que um maior volume de Mente (com M maiúsculo) flua para a sua mente (com m minúsculo). Tanto você quanto eu podemos demonstrar a verdade das nossas hipóteses, e mesmo que possa provar que estou errado, você acha que isso faria alguma diferença na prática?

– Pensei que faria uma diferença enorme – disse Will.

– Você gosta de música?

– Mais do que da maioria das coisas.

– Poderia responder-me o que simboliza o “Quinteto em Sol Menor” de Mozart? Será que representa Alá, Tao, a segunda pessoa da Santíssima Trindade ou Atma-Brama?

Will sorriu.

– Mas isso não nos tira os efeitos benéficos do “Quinteto em Sol Menor”. Acontece o mesmo com o tipo de experiência que se obtém seja com o moksha, seja através da oração, do jejum ou dos exercícios espirituais. Mesmo que não se refira a qualquer coisa exterior ainda assim constitui a coisa mais importante que lhe pode acontecer. Ë como a música, porém incomparavelmente maior. E se você estiver preparado para a experiência e se decidir a acompanhá-la, os resultados serão ainda mais terapêuticos e transformadores. Talvez tudo isso se passe dentro do cérebro de cada um. Talvez seja inteiramente particular e não haja conhecimento unificado de nada que vá além da fisiologia de cada indivíduo. Mas que importância tem isso? A verdade é que a experiencia pode abrir os olhos das pessoas, tornando-as abençoadas e transformando-lhes as vidas.

Houve um longo silêncio.

– Deixe que lhe diga algo – recomeçou, voltando-se para Murugan. – É uma coisa sobre a qual não tencionava falar com ninguém. Agora, sinto que talvez tenha um dever a cumprir com o trono, com Pala e com todo o seu povo, e penso que devo lhe falar acerca desta experiência particular. Talvez, assim, venha a ajudá-lo a ter um pouco mais de compreensão com o povo e os costumes do seu país.

Ficando silencioso por um instante, prosseguiu num tom calmo e natural:

– Imagino que você conheça minha esposa.

Com o rosto ainda desviado, Murugan concordou.

– Fiquei pesaroso ao saber que está tão doente – murmurou.

– Agora é apenas uma questão de, no máximo, quatro ou cinco dias – disse o Dr. Robert. – Mas ela se encontra perfeitamente lúcida e consciente sobre tudo que lhe está acontecendo.

Ontem me perguntou se poderíamos tomar o moksha juntos. Nós o tomamos uma ou duas vezes por ano, nesses últimos trinta e sete anos. Desde quando decidimos nos casar. E, agora, tomamos uma vez mais – pela última vez. Isso implicava um risco (devido aos danos que causa ao fígado), porém decidimos que valia a pena corrermos o risco. O resultado veio mostrar que estávamos certos. O moksha – o entorpecente, como você prefere chamálo – quase não causou perturbações. Tudo que lhe aconteceu foi a transformação mental.

Depois que o Dr. Robert se calou, Will percebeu os chiados e o raspar das patas dos ratos engaiolados; olhando nela janela aberta, ouviu a babel da vida tropical e o chamado distante de um pássaro mainá: “Aqui e agora, rapazes. Aqui e agora...”

– Você é como aquele mainá – disse finalmente o Dr. Robert. – Educado para repetir palavras que não entende ou de que não conhece a razão de ser. “Não é real. Não é real.” Porém, se experimentasse aquilo que Lakshmi e eu atravessamos juntos ontem, compreenderia melhor. Saberia que foi muito mais real do que aquilo que você chama de realidade. Mais real do que o que está pensando e sentindo neste momento. Mais real do que o mundo que tem à sua frente. No entanto, tudo que lhe ensinavam a dizer foi: “Não é real. Não é real. Não é real”.

O Dr. Robert pousou afetuosamente a mão no ombro do rapaz.

– Ensinaram-lhe que não passamos de um grupo de viciados em entorpecentes, cheios de autocomiseração, chafurdando em ilusões e falsos samadhis. Ouça Murugan, procure esquecer todas as obscenidades que lhe foram incutidas. Esqueça pelo menos ate o ponto em que lhe seja possível admitir uma simples experiência. Tome quatrocentos miligramas de moksha e descubra, por si, qual o seu efeito. Descubra o que diz sobre a sua própria natureza e a respeito deste estranho mundo onde você terá que viver, aprender, sofrer e finalmente morrer. Sim, mesmo você morrerá um dia – daqui a cinquenta anos? Amanhã? Quem sabe? No entanto acontecerá, e somente um tolo não se prepara para esse dia.

Virando-se para Will, disse:

Gostaria de me acompanhar enquanto tomamos um banho de chuveiro e trocamos de roupa?