Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 25 - 1959 Cartas
Capítulo 25
1959
Cartas
Huxley foi professor-visitante na Universidade da Califórnia em Santa Barbara, onde fazia conferências sobre “A Condição Humana”; o resto de seu tempo de trabalho era dedicado a resolver o complicado problema de um enredo para sua fantasia utópica. A Academia Norte-americana de Artes e Letras honrou-o com seu Prêmio de Mérito em Romance, que antes tinha sido concedido a Ernest Hemingway, Thomas Mann e Theodore Dreiser. Entrevistado por Joe Hyams em This Week Magazine (8 de novembro de 1959), Huxley disse: “O mundo interior é quase tão grande quanto o espaço exterior.” Ao Padre Thomas Merlon ele apresentou uma eloqüente defesa da validade da experiência religiosa produzido por drogas; e o mesmo para Margaret lsherwood, utilizando a expressão “indo além da visão” para descrever suas ultimas sessões. Ele fornece a Osmond exemplos tanto de casos de terapia através do LSD bem-sucedidos quanto “vulgares... profundamente perturbadores”. Embora o LSD não fosse ilegal até 1966, a dificuldade para um leigo consegui-lo em 1959 é evidente e!n seu pedido a Osmond.
AO PADRE THOMAS MERTON [SMITH 808]
3276 Deronda Drive, Los Angeles 28, Cal. 10 de janeiro de 1959
Caro Padre Merton,
Obrigado por sua carta. Os problemas que o senhor levanta são interessantes e difíceis, e sua solução tem que ser buscada no nível prático e factual. Muito trabalho já foi feito sobre a mescalina e o ácido lisérgico, tanto por pesquisadores como por clínicos, usando as drogas terapeuticamente em casos como alcoolismo e neuroses diversas. (Um grupo atualmente trabalhando em alcoolismo na Colúmbia Britânica, incidentalmente, está usando ácido lisérgico dentro de um quadro de referência religioso, especificamente católico, e conseguindo resultados notáveis, principalmente ao fazer os pacientes perceberem que o universo é profundamente diferente do que parecia ser em seus níveis de experiência comuns, condicionados.) Estatisticamente, os resultados de todas essas experiências são mais ou menos os seguintes. Mais ou menos setenta por cento daqueles que tornam a droga têm uma experiência positiva; os outros têm uma experiência negativa, que pode ser real-mente infernal. (Muitos dos estados experimentados pelos padres no deserto eram negativos. Veja os milhares de quadros sobre as tentações de Santo Antônio.) Todos concordam em que a experiência é profundamente significativa.' Encontra-se com muita freqüência, nos relatórios escritos por pessoas depois da experiência, a declaração de que “esta foi a experiência mais maravilhosa que jamais tive” e “Sinto que minha vida não será mais a mesma coisa”. Entre as experiências positivas, uma certa proporção, na primeira ocasião em que tornaram a droga, é puramente estética – transfiguração do mundo exterior de medo que ele i visto como o jovem Wordsworth o viu e mais tarde descreveu em Ode on the intimetions of immortality in childhood (Ode sobre os indícios de imortalidade na infância) ; um universo de beleza in-concebível no qual todas as coisas estão cheias de vida e carregadas de um significada obscuro mas imensamente importante. Aqueles que são congenitamente bons visualizadores tendem a ter visões com os olhos fechados, ou mesmo projetadas sobre a tela do mundo exterior, com os olhos abertos. A natureza dessas visões é freqüentemente paradisíaca e as descrições delas lembram irresistivelmente a descrição de Nova Jerusalém no Apocalipse ou o éden de Ezequiel, ou os vários paraísos de outras religiões. Finalmente, há aqueles cuja experiência parece ser muito mais do que estética, e pode ser rotulada de pré-mística ou até mesmo, eu creio, de mística. Ao longo dos últimos cinco anos tomei mescalina duas vezes e ácido lisérgico três ou quatro vezes. Minha primeira experiência foi principalmente estética. Experiências posteriores foram de outra natureza e ajudaram-me a compreender muitas das declarações obscuras que se encontram nos escritos dos místicos cristãos e orientais. Um indefinível senso de gratidão pelo privilégio de ter nascido neste universo. (“A gratidão é o próprio céu”, diz Blake – e agora sei exatamente do que ele estava falando.) Uma transcendência à relação normal sujeito-objeto. Uma transcendência ao medo da morte. Uma sensação de solidariedade para com o mundo e seu princípio espiritual, e a convicção de que, apesar da dor, do mal e do resto, tudo é de alguma forma perfeito. (Entende-se tais frases como “Sim, embora Ele me extermine, mesmo assim eu confio Nele” e a grande frase, que não posso citar exatamente, de Julian de Norwich.) Finalmente, uma compreensão, não intelectual, mas de um modo total, uma compreensão com o organismo inteiro, da afirmação de que Deus é Amor. As experiências são transientes, é claro; mas a lembrança delas, e as revivescências incipientes que tendem a ocorrer espontaneamente ou durante a meditação continuam a exercer um efeito profundo sobre a mente do indivíduo. Parece não haver prova, na literatura publicada, de que a droga cause vício ou crie uma necessidade de repetição. Há um sentimento – falo por experiência própria e por relatórios orais dados a mim por outros – de que a experiência é tão transcendentalmente importante que não é, em circunstância alguma, uma coisa para ser encarada com leviandade ou para divertimento. (Em alguns aspectos, ela não é divertida; pois causa uma morte temporária do ego, um ir-além.) Aqueles que desejam fazer uso dessa “graça gratuita”, cooperar com ela, tendem a fazer isso, não por meio de repetir a experiência a intervalos freqüentes, mas tentando abrir-se, num estado de passividade alerta, para o “estar/ser” transcendente, para usar a expressão de Eckhart, que eles já conheceram e, de certo modo, foram. Teoricamente, existe o perigo de que as pessoas teriam necessidade de uma repetição constante da experiência provocada quimicamente. Na prática essa necessidade não parece manifestar-se. Uma re-petição por ano, ou a cada seis meses, costuma ser considerado o regime desejável.
Um amigo meu, salvo do alcoolismo durante as últimas fases fatais da doença por uma teofania espontânea que mudou sua vida tão completamente como a de São Paulo foi mudada por sua teofania na estrada para Damasco, tomou ácido lisérgico duas ou três vezes e afirma que sua experiência sob a droga é idêntica à experiência espontânea que mudou sua vida – a única diferença sendo que a experiência espontânea não durou tanto tempo quanto a quimicamente provocada. Obviamente há aqui campo para uma pesquisa séria e respeitosa.
Com meus melhores votos,
Muito cordialmente, Aldous Huxley
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* O Padre Merton escreveu a Huxley em 27 d novembro de 1968, levantando questões sobre a validade da experiência mística produ-zido por drogas e sobre a distinção entre o místico e o estético. e sua carta foi motivada pelo artigo de Huxley “Drogas que Moldam as Mentes dos Homens” publicado no Saturday Evening Post. [Nota de Smith].
A MARGARETE ISHERWOOD [SMITH 818]
3276 Deronda, L. A. 28, Cnf. 12 de agosto de 1959
Cara Margaret,
Obrigado por sua carta. Estou agora quase novo em folha, graças aos céus – escapei providencialmente 2 Quanto à experiência visionária e mística – acho que são diferentes, mas que a primeira pode levar à segunda. Em minha primeira experiência com mescalina tive uma experiência visionária meramente estética: mas desde então, com LSD e novamente com mescalina, eu fui além da visão, às muitas das experiências descritas na literatura oriental e ocidental – a transcendência à relação sujeito-objeto, uma sensação de solidariedade com o mundo inteiro de modo que a pessoa sabe realmente por experiência o que significa “Deus é Amor”: a sensação de que, apesar da morte e do sofrimento, tudo está afinal Perfeito (embora ele m extermine, ainda assim eu confio nele) ; uma sensação de gratidão sem limites por ser privilegiado de habitar este universo. (Blake diz, “A gratidão é o próprio céu” – esta costumava ser uma frase incompreensível: agora eu sei precisamente do que ele estava falando).
[Hugh] Fausset está bastante errado – falando em termos a priori moralistas e não por experiència direta. Esse assunto de drogas e experiência mística foi discutido há anos por Bergson em As duas fontes... a propósito de Wm. James e do gás hilariante. Para muitas pessoas é triste que uma substância química possa ajudar as pessoas a sair de sua própria luz, mas acontece que é um fato. É certo que a experiência é uma “graça gratuita”, nem necessária nem suficiente para a salvação. É necessário um esforço ético e cognitivo se a pessoa pretende adiantar-se de sua experiência de uma só dose para o esclarecimento permanente.
Do seu, Aldous
P.S. Graças gratuitas não são necessárias ou suficientes – mas podem ser muito úteis se decidimos deixar que elas nos ajudem.
P.P.S. O Subud é simplesmente uma técnica para reproduzir o trepidar dos antigos Quakers – uma liberação via músculos. Muito bom em muitos casos.
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2 Apesar de sua visão limitada, Huxley às vezes dava passeios solitários à noite. Num desses ele tropeçou e caiu de um barranco. Feriu-se de modo doloroso, mas não grave. [Nota de Smith.]
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 825]
3276 Deronda Dr., L. A. 28, Ca(. 29 de novembro de 1599
Caro Humphry,
Estou perto do final de minhas conferências em Santa Barbara – mais uma discussão em grupo sobre uma conferência do Centenário de Darwin feita pelo Prof. John Randall, e mais duas conferências minhas. Depois do que, estarei livre para trabalhar no meu livro em tempo integral. Quanto aos planos – fui convidado para ir em fins de março ou abril para Topeka, para ser professor-visitante por algumas semanas na Fundação Menninger. V.ai ser interessante, eu acho, penetrar no sancta sanstorum da psiquiatria norte-americana e dar uma olhada curiosa. O relatórìo de Nathan Kline sobre a psiquiatria soviética, como foi resumido no Time, foi interessante, e sem dúvida, para Menninger et al., perturbador. Você leu o relatório inteiro? Acho que vou escrever para ele e pedir que me mande. Enquanto isso, Laura está trabalhando em sua psicoterapia – com resultados notáveis em muitos casos: pois ela parece ter um conhecimento intuitivo do que fazer a qualquer momento, que técnica usar em cada fase sucessiva do estado de espírito e de sentimento do paciente. Ela teve alguns resultados muito bons com terapia sob LSD em alguns casos onde o método parecia justificável. (Incidentalmente, que pessoas apavorantes existem em sua profissão! Conhecemos dois psiquiatras de Beverly Hills outro dia, que se especializaram em terapia sob LSD a cem dólares a dose – e, realmente, poucas vezes encontrei pessoas de sensibilidade mais baixa, mente mais vulgar! Pensar que gente tornada vulnerável pelo LSD se expõe a tais pessoas é profundamente perturbador. Mas que é que se pode fazer sobre o problema? A psiquiatria é uma arte baseada numa ciência ainda imperfeita – e como em todas as artes, há mais praticantes ruins ou indiferentes do que bons. Como se pode manter de fora os artistas ruins? Artistas ruins não têm importância na pintura ou na literatura – mas têm enorme importância em terapia e educação; pois vidas inteiras e destinos podem ser afetados por suas deficiências. Mas não se encontra um modo prático pelo qual os mal-dotados e os desagradáveis possam ser filtrados e apenas os bem-dotados e bons passassem.) E, por falar em LSD – seria possível você mandar-me meia dúzia de doses? Quero fazer algumas experiências, eu próprio, e Laura gostaria de dar a droga a algumas pessoas para finalizar a terapia delas. Não quero incomodar Sid Cohen com muita freqüência – e não quero ter que pedir a pessoas como (.....) ou (.....) ou (.....), que tem a substância, usam-na mal e a quem desaprovo. Se isto for possível, ficarei gratíssimo. E se não for possível, a quem devo apelar na organização Sandoz?3
Dê meu carinho a Jane e às crianças.
A fetuosamente, Aldus
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3 Sandoz Ltd., de Basel, era a principal distribuidora de LSD e • psilocibina para fins de pesquisa até 1966.