Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 23 - 1958 Cartas
Capítulo 23
1958
Cartas
Huxley viajou e fez conferências no exterior em 1958. O Dr. Albert Hofmann, descobridor do LSD em 1943, tinha acabado de conseguir isolar e identificar o princípio ativo, a psilocibina, no cogumelo sagrado do México, anteriormente apresentado à cultura ocidental por É. G. Wasson e o Professor Roger Heim; sua pesquisa fez com que Huxley se interessasse por essa nova porta para o Outro Mundo. Em cartas a Osmond, Huxley exprimiu seu interesse por uma variedade de experiências: LSD e hipnose, psicodélicos ministrados a artistas e a não-visualizadores, e – profeticamente, haja vista sua própria situação cinco anos depois – administração de LSD a pacientes de câncer à beira da morte. Ele colocou também uma série de linhas-mestras para sessões psicodélicas, e criticou clássicos literários sob a luz do estudo transcendente. Em seu trabalho de escritor, ele voltou a seu romance, "uma espécie de Admirável Mundo Novo às avessas”, ao qual ele chamou de sua “fantasia não-utópica”.
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 787]
3276 Deronda Drive, Los Angeles 28, Cal.
11 de janeiro (1958)
Caro Humphry,
[...] Quanto a um guia para as pessoas que tornam mescalina ou LSD-25 – tenho andado ocupado demais para pensar nisso, mas vou tentar fazê-la dentro em pouco. Acho que a melhor maneira de realizar esse trabalho seria fazer uma série de perguntas. Por exemplo, “Você compreende agora o que Blake queria dizer quando disse ‘A gratidão é o próprio céu’?” “Eckhart definiu Deus em termos operacionais como ‘A negação de todas as negações', qual é a sua opinião sobre isso?” “Que é que a expressão ‘estado de ser’ significa para você quando você olha para o mundo à sua volta?” “Samsara e Nirvana são uma só coisa – o Absoluto está presente em todo acontecimento relativo e particular. A eternidade se manifesta em cada momento do tempo. Como é que você se sente a respeito destes paradoxos?” “Apesar de todas as aparências em contrário, Deus é amor e as coisas são, de alguma maneira, perfeitas. Que acha você?” “Rache a madeira e você vai me encontrar, levante a pedra e eu estarei lá.” “Que milagre é este! Fazer jorrar água e partir madeira. “A menor mosca, como está em Deus é superior ao mais alto anjo como está em si mesmo.” Seria possível juntar várias díízias de perguntas curtas e declarações como estas, para serem submetidas à pessoa durante sua experiência. Se ela se puser a pensar nelas, elas podem atuar como os koans Zen e causar súbitas aberturas para regiões até então nâo vislumbradas. Certamente vale a pena tentar. Se você acha que essa abordagem é boa, vou continuar com o plano.
Mande dizer o que acha da Comissão e se vale a pena uma mudança no estágio atual.
Do seu, Aldous
P.S. Como eu compreendo bem o que você diz sobre escrever! Parece tão fácil, e é tão difícil. E, além das dificuldades normais, tenho que lutar com o problema de não enxergar bem – o que complica muito a tarefa de pesquisa e consulta de anotações. O que, sem dúvida, está Perfeito a longo prazo, mas a curto, que cansaço!
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 788]
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3276 Deronda Dr., Los Angeles 28, Cal. 2 de fevereiro de 1958
CARO HUMPRHY,
Ontem à noite jantamos com (...), e devo dizer que o achei extremamente jovial e menos extravagante que antes; assim, por favor ignore o que eu escrevi sobre ele em minha última carta. Ao mesmo tempo, ainda tenho dúvidas sobre a validade dos métodos dele. A abordagem especificamente ritual pode estar bem em alguns casos, mas com certeza não vai funcionar em todos os casos. Além disso, Laura e eu achamos, enquanto escutávamos (... ) contar o que faz, que ele dá, sabendo ou não, sugestões demais. Novamente, isso pode funcionar em alguns casos – mas decididamente não em todos. Alguma coisa mais permissiva devia ser a regra geral, eu acho. Quanto à reunião projetada, (... ) diz que não vê muito sentido nisso. Gerald não vai estar disponível durante fevereiro. Sidney Cohen1 não tem objeções, mas não sente muito entusiasmo. Quanto a mim, na verdade não sei. De qualquer maneira, sou apenas um espectador, e não um trabalhador nesse campo, e só posso fazer sugestões do lado de fora e no terreno da teoria – como fiz em relação a dar sugestões pós-hipnóticas para que as experiências com LSD fossem revividas por meios puramente psicológicos e quando for desejado (uma sugestão, incidentalmente, que tenho feito a todo mundo nos últimos três anos e que ninguém, que eu saiba, pôs em prática – embora todos digam “Que interessante!”). Se fizermos uma reunião dessa organização altamente pickwikiana, qual (além do prazer e do interesse de encontrar várias pessoas inteligentes interessadas na mesma espécie de coisa) seria o lucro? Provavelmente a reunião valeria a pena pela própria reunião. Será que haveria alguma vantagem ulterior? (... ) diz que você está pensando em montar um Quartel-General em algum lugar. Mas isso significa dinheiro, uma secretária, um diretor. Será que os mesmos resultados não poderiam ser obtidos com mais simplicidade e mais barato, discutindo-se os assuntos em uma reunião, ou por cor-respondência, e dividindo o trabalho entre os vários experimentadores? Sid Cohen tem um projeto interessante que ele espera conseguir que seja financiado – um projeto que testaria a eficácia de doses graduadas de LSD em afetar o desempenho de um grupo de artistas profissionais. Outro projeto importante seria dar droga a um grupo cuidadosamente selecionado, incluindo representantes dos extremos sheldonianos e dos espécimes do meio mais comuns. Ainda outro projeto seria descobrir se as pessoas que pertencem à variedade dos não-visualizadores de Galton chegam .a ter visões sob doses medianas de LSD, se eles podem ter visões sob doses maiores, e se (como (... ) insiste que podem) as visões podem ser induzidas por meio de sugestões apropriadas. Ainda outro projeto – a administração de LSD a casos terminais de câncer, na esperança de que isso tornasse a morte um processo mais espiritual, menos estritamente fisiológico. O Saturday Evening Post pediu-me um artigo sobre as implicações éticas, religiosas e sociais da psicofarmacologia, e certamente farei essas sugestões no .artigo, e quaisquer outras que você ou qualquer outra pessoa neste campo achar que devam ser feitas. Se você resolver vir, poderemos conversar sobre isto. Caso você não venha, eu ficaria grato por quaisquer sugestões epistolares.
Diga-me o que você e Abe [Hoffer] pensam sobre valer a pena fazer a reunião. Não faço muita questão da reunião – mas -por certo gostaria de ver você.
Enquanto isso, ando muito ocupado com meus artigos sobre o destino da liberdade no mundo moderno. O problema é fazer uma coisa leve, mas sem supersimplificar nu deixar muita coisa .de fora.
Do sempre seu, Aldous
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* Psiquiatra de Los Angeles, autor de The beyord withins the LSD story (O além interior ; a história do LSD) (1964) e LSD (1967), e este último com É. Alpert.
AO DR. HUMPHRY OSMO1YD [SMITH 790]
3276 Deronda Drive, Los Angeles 28, Cal.
16 de fevereiro de 1958
Caro Humphry,
[... ] Uma das coisas que deveriam ser lidas para uma pessoa sob o LSD é O Casamento do céu e do inferno, de Blake, inclusive as extraordinárias “Fantasias Memoráveis” que precedem e seguem os “Provérbios do Inferno”. Leia a coisa inteira e veja se não concorda. Tenho certeza de que se isso fosse colocado em fita, descobririam que seria extremamente esclarecedor para a pessoa que tomou a droga. Incidentalmente, em uma das vezes que tornei LSD descobri que ouvir discos de poesias ou de textos religiosos. é bom de várias maneiras. Em primeiro lugar, há a mesma experiência estranha que s tem ao ouvir música – a sensação de que, embora o tempo permaneça inalterado, a música dura anos. A poesia ou os textos religiosos adquirem essa mesma qualidade quase-eterna. Outra coisa interessante – a pessoa parece penetrar o significado interior do que está sendo lido, o significado para ela própria, mais completamente do que em circunstâncias comuns. Assim, a erudita e melancólica resignação de Matthew Arnold, que normalmente aprecio e com que me sinto à vontade, sob o LSD torna-se por demais negativa – de um modo irreal.
Acabo de receber uma carta de [Duncan] BlewetP sugerindo uma data no início de maio para a reunião. E, como alternativa, uma em outubro. Acho que não vou estar aqui em outubro, mas com quase toda a certeza estarei aqui em maio.
Lembranças à família.
Do seu, Aldous
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*Psicólogo canadense, colega do Osmond, Hoffer e Smyrthies na Universidade de Saskatchewan, autor de Frontiers of being (Fronteiras do ser) (1969).
AO DR. ALBERT HOFMANN’ [SMITH 796]
Gran Hotel Bolívar, Lima
3 de agosto de 1958
Caro Sr. Hofmann,
Sua carta de 16 de julho alcançou-me exatamente quando eu estava partindo para a América do Sul, e estou-lhe escrevendo agora do Peru (terra de uma droga transmutadora da mente das mais insatisfatórias e perigosas – a coca – ainda consumida em grandes quantidades pelos índios, principalmente, disseram-me, para conter as dores causadas pela fome, por demais comuns nos altos Andes).
O que o senhor diz sobre a psilocibina me interessa muito, e espero poder ter a oportunidade de aprender mais sobre essa nova porta para o Outro Mundo da mente, enquanto estiver na Europa no próximo outono.
O senhor pretende assistir ao Congresso farmacológico em Roma, em setembro? É possível que eu esteja lá como observa-dor e aprendiz interessado – mas ainda não tenho certeza se vou conseguir... Se não nos encontrarmos em Roma, vou tentar visitá-lo na Suíça.
atenciosamente, Aldous Huxley
Hofmann sintetizou o LSD e foi a primeira pessoa a testar seus efeitos (1948) ; conseguiu isolar e identifica." a psilocibina dos cogumelos sagrados do México (1957), e alcalóides de ácido lisérgico da antiga droga asteca ololiuqui. Ele e Huxley não se conheceram pessoalmente até 1961, pois Huxley faltou ao encontro marcado em Roma.