Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Capítulo 9 - 1953 Cartas

Capítulo 9

 

1953

 

Cartas

 

O seguinte grupo de cartas escritas depois da primeira experiência de Huxley com a mescalina mostra seu considerável entusiasmo (“sem dúvida a experiência mais extraordinária e significativa no lado de cd da Visão Beatífica”) e crescente interesse pelas áreas da parapsicologia, doenças mentais, experiências visionárias e a política da pesquisa de drogas. O longo ensaio citado é, natural-mente, As portas da percepção, que ele escreveu durante os meses de verão depois de fazer pela primeira vez uma longa viagem de automóvel através do oeste dos Estados Unidos.

 

AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 631]

 

740 North Kings Road, Los Angeles 46, Califórnia 21 de junho de 1953

 

Caro Humphry,

Nossa viagem só terminou ontem. Daí o longo atraso em responder a sua carta. Claro que vou conversar com Hutchins sobre seu projeto* quando tiver uma boa oportunidade. Enquanto isso, acho que seria uma boa idéia se você esboçasse em algumas paginas datilogradas a natureza de seu projeto, Mencione a importância potencial de estudos sobre a mescalina de um ponto de vista inteiramente médico*, e depois passe para a importância deles em campos mais generalizados da psicologia, filosofia, teoria do conhecimento. Faça ver que o material disponível ainda é ridiculamente pouco, que são necessários maiores números de casos para determinar como pessoas de físicos e temperamentos diversos reagem à droga. Por exemplo, os visualizadores galtonianos reagem diferentemente dos não-visualizadores? (Acredito que devem. Sou um não-visualizador, e tive muito poucas imagens visuais. Mas muitos dos que tornaram a droga relatam visões.) E também, há alguma diferença marcante entre as reações médias dos cerebrotônicos, viscerotônicos e somasomatotônicos ao extremo? Pessoas com grandes dotes musicais experimentam contra-partidas auditivas das visões e transfigurações do mundo externo experimentadas pelos outros? Gomo são afetados os matemáticos puros e os filósofos profissionais? (Seria interessante experimentar num positivista lógico. Será que ele, como São Tomás de Aquino no final de sua vida, depois de uma experiência de “contemplação inspirada”, diria que toda a sua filosofia era como palha e farelo, recusando-se a continuar com sua intelectualização?) Armado com esse resumo do projeto, e também com meu próprio ensaio sobre o assunto [As portas da percepção] (que promete virar um negócio de grande fôlego, devido ao número de perguntas que ele levanta, e às diferentes espécies de luz que lança em tantos campos diversos), irei a Hutchins e tentarei despertar seu interesse. Acho bem provável que ele queira experimentar ele mesmo a droga; e como há várias pessoas de diferentes idiossincrasias que expressaram, ou certamente vão expressar, o desejo de tentar a experiência, não seria possível que você ou Joho Smythies viesse aqui, mais tarde, por alguns dias, para fazer a pesquisa? As pessoas interessadas poderiam arcar com as despesas da viagem, e as acomodações poderiam ser arranjadas conosco, ou, se for necessário ir a Pasadena para tentar a experiência na Fundação Ford ou nos físicos de Caltech, com Hutehins ou alguém mais. Se você acha viável essa idéia, avise-me, e vou começar a preparar o terreno. Enquanto isso, mande-me o resumo. Quando meu ensaio estiver pronto, vou mandá-lo para você.

Maria e eu desejamos tudo de bom para você e sua família.

Do seu,

Aldous H.

___________

* Projeto : o registro de entrevistas sobre a mescalina com cinqüenta a cem pessoas de capacidade reconhecida em vários campos. Isso foi esboçado por Osmond e seu colega o Dr. Abram Hoffer juntamente com um projeto, já em andamento, de uma pesquisa estritamente farmacológica sobre drogas que afetam a mente. [Nota de Smith]

 

*Ford não trabalha com medicina, mas está interessado pelas humanidades e financiaria o projeto como uma contribuição à filosofia aplicada. Mesmo assim é bom mencionar o lado médico – para fazê-los sentir que estão matando dois coelhos numa só cajadada.

 

A HAROLD RAYMOND’ [SMITH 632]

 

740 North Kings Rd., Los Angeles 46, Cal. 21 de junho de 1953

 

Meu Caro Harol,

Voltamos ontem de uma excursão de três semanas através do nordeste e encontrei sua carta sobre a Penguin. Estou inclinado a concordar com você em que é uma atitude desejável; portanto, vamos decidir ir em frente.

O volume de ensaios no qual venho trabalhando esporadicamente há algum tempo está indo muito bem, e espero ter a coleção toda pronta no outono. Neste momento estou trabalhando no que promete ser um ensaio bem longo sobre uma experiência com mescalina que fiz em maio, quando um jovem psiquiatra inglês extremamente capacitado, agora trabalhando no Canadá com um grupo de jovens médicos e bioquímicos igualmente empreendedores no problema da esquizofrenia, veio passar uns dias conosco. Você provavelmente já leu relatos da experiência com mescalina – por Havelock Ellis, por exemplo, por Weir Mitchell* e muitos outros. É sem dúvida a experiência mais extraordinária e importante disponível aos seres humanos no lado de cá da Visão Beatífica; e abre uma série de problemas filosóficos, lança uma luz intensa e levanta toda espécie de perguntas nos campos da estética, da religião, da teoria do conhecimento. O fato mais extraordinário sobre a mescalina – o princípio ativo do peiote, um cacto usado pelos índios norte-americanos em suas cerimônias religiosas, e agora sintetizado – é que ela é quase inteiramente atóxica. Não há conseqüências físicas desagradáveis, exceto uma ligeira sensação de náusea no princípio, e não há queda na capacidade intelectual, e absolutamente nenhuma res-saca – apenas uma transformação de consicência de modo que a pessoa sabe exatamente o que Blake queria dizer quando afirmou: “Se as portas da percepção fossem purificadas, tudo apareceria como realmente é, infinito e sagrado.” O esquizofrênico às vezes tem essa espécie de consciência; mas como ele começa com medo, e como o fato de não saber quando ou como ele vai emergir dessa condição de consciência modificada tende a aumentar esse medo, suas experiências mais comuns são de um Outro Mundo, não celestial, mas infernal e purgatorial. O que esses jovens no Canadá estão procurando é imensamente ímportante – um elemento bioquímico na causa da esquizofrenia. A mescalina, e a droga recentemente isolada, o ácido lisérgico, que tem o mesmo efeito, são bem próximas, quimicamente falando, da adrenalina. E um dos produtos da decomposição da adrenalina, o adrenocromo, que pode ocorrer dentro do corpo, pode produzir, quando isolado, experiências muito semelhantes às produzidas pela mescalina. Assim, talvez estejam chegando perto da cura ou da prevenção dessa enorme praga moderna. Quem sabe?

Lembranças nossas para vocês dois.

 

Do seu,

Aldous

___________

* O organizador da edição das obras de Huxley na Chatto & Windus.

Ellis e Mitchell: consulte-se o texto extraído de As portas da percepção

 

AO DR. HUMPRHY OSMOND [SMITH 642]

 

740 North Kings Road, Los Ageles 46, Califórnia

 

31 de outubro de 1953

 

Caro Humphry,,

|...] Obrigado pelo exemplar do Macleans. O artigo é interessantíssimo.* O ácido lisérgico sempre produz esses resultados aterrorizantes? Ou você deu uma dose extravagante à sua co-baia? Ou, por outro lado, ele começou com uma neurose branda que foi exagerada além de qualquer reconhecimento? Seja qual for a resposta, permanece o fato inexplicável da natureza das visões. Quem inventa essas coisas extraordinárias? E por que o não-eu que inventa acerta exatamente nesse tipo de coisa? As jóias e as arquiteturas parecem ser quase precisas – um sintoma comum da experiência com mescalina. Pergunto-me se isso tem alguma coisa a ver com as fantasias das Mil e uma noites e outros contos de fadas? Os palácios cheios de jóias são em parte, sem dúvida, realizações de desejos – o oposto da experiência cotidiana. Mas podem ser também verdadeiras choses vues – pormenores da paisagem comum de certo tipo de pessoas. Seria interessante saber se alguma coisa desse tipo pode ser vista por crianças que não sabem coisa alguma sobre jóias, ou por indivíduos primitivos, para quem diamantes, rubis, etc. nada signifiquem. [...]

 

Do seu,

Aldous

_________

* Um artigo de Sidney Katz publicado no Maclean’s Magot