Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Capítulo 15 - 1955 Ignorado na Escuridão

Capítulo 15

 

1955

 

Ignorado na Escuridão

LAURA HUXLEY

 

A experiência de Aldous com mescalina em outubro de 1955 pode ser avaliada tanto pelo relato de Laura Archera – sua futura esposa e dirigente da sessão – e seu próprio relato em uma carta para o Dr. Osmond. A sensível descrição de Laura é reveladora não apenas como uma visão objetiva de Huxley sob a influencia de uma droga psicodélica, mas pelo esclarecimento sobre a função de um dirigente ou acompanhante psicodélico durante uma sessão. Huxley pretendia explorar sua infância – Laura tinha experiência em evocar lembranças e em lidar com as reações catarticas com métodos dianéticos – mas em vez disso ocorreu um exame da natureza do amor na relação entre ele próprio e sua dirigente como “nenhuma separação entre sujeito e objeto”.

O processo criativo graças ao qual Huxley usou suas próprias experiências ao escrever episódios de A ilha é discutido neste relatório. Este momento intemporal também contém uma descrição da primeira experiência psicodélica de Laura e as reações de Huxley a ela, inclusive uma declaração que ela o ouviu repetir várias vezes nos anos seguintes: “Esta droga parece fazer por cada pessoa aquilo de que a pessoa precisa.”

 

Agora, EM 1967, quando LSD tornou-se uma palavra doméstica, percebo como tivemos sorte nós que nos aproximamos do LSD há dez anos, antes que ele tivesse as vibrações demoníacas ou paradisíacas que tem agora – quando ele não tinha ecos de gurus e heróis, médicos e delinqüentes. Entramos na experiência sem saber o que iria acontecer, sem esperar que fosse igual à experiência de alguém na festa de sábado passado, ou como a de Mary Jones, cujos olhos alucinados e assustados me encaram das páginas de uma revista. LSD – essas três letras agora famosas eram dissociadas da exatidão científica e da conformidade beatnik, do paraíso terreno e do amor paternal – e também de mentes fechadas, obscurantismo e preconceitos. A identificação inconsciente com essas idéias, sentimentos e temores inevitavelmente ocorre agora, com conseqüências desastrosas.

Qual foi a minha iniciação ao LSD? Foi muito simples: Aldous pediu-me para fazer-lhe companhia por um dia inteiro, em que ele ia tomar LSD!

– Eu adoraria ficar com você o dia inteiro – respondi. – Há algo que eu deva saber ou fazer?

Aldous sorriu. “Nada. É só ser como você é.” Foi ingenuidade, em vez de sabedoria, que me fez receber tão distraidamente essa declaração?

Cheguei à casa de Aldous mais ou menos às nove horas. Aldous tomou as pílulas e entregou-me um papel onde tinha escrito sua principal meta para aquela sessão. Não posso citar suas palavras exatas – no entanto, sua essência era: “Quero conhecer, e estar constantemente, em estado de amor.”

Fiquei pensando. Para mim, Aldous parecia sempre em estado de amor! No entanto, minha opinião não era importante; só os sentimentos dele e sua busca eram importantes.

Isso foi em outubro de 1955. Exceto pela leitura de As portas da percepção, eu não tinha idéia então do que era uma sessão psicodélica. No entanto, tinha tido cinco anos de experiência em aplicar terapia. A melhor atitude, nessas sessões, é cancelar por aquele período as opiniões pessoais e deixar de lado a tendência de julgar os outros – é só ficar ali, muito atento e livre. Não que esse estado livre seja sempre alcançado ou até mesmo alcançável – mas é uma das metas. Esse estado de atenção seria apropriado, eu pensei, para o dia do LSD.

Os níveis nos quais existimos são provavelmente infinitos – embora haja certos níveis nos quais na vida cotidiana, mais ou menos, nos encontramos. Mas uma pessoa em estado psicodélico está em níveis completamente diferentes. Vi um exemplo disso logo no início de nosso dia de LSD: Aldous estava olhando com muita atenção para meus cabelos e sorrindo aquele sorriso que mais tarde eu reconheci quase todas as vezes em que ele estava em estado psicodélico. Com a voz mais baixa e mais cheia do que o normal, ele disse muito lentamente: “Se você pudesse ver seus cabelos...” E, depois de um longo silêncio: “Você não pode imaginar...”

Nada respondi, mas lembrei-me da tintura que tinha feito aos cabelos na véspera. Aparecia? A cor estava boa? Isso é típico dos diferentes níveis de consciência. Aldous estava olhando para cabelos e vendo neles o próprio mistério e a própria maravilha da vida. Estava num nível cósmico enquanto eu, num nível cosmético, estava preocupada com a nova tintura. Permaneci em silêncio, mas fiquei contente quando ele parou de olhar.

Naquele dia Aldous disse coisas que só comecei a entender mais tarde. No início do dia tentamos entrar naquele período da infância de Aldous do qual ele recordava muito pouco. Nossas tentativas falharam completamente. Logo desisti de tentar, pois percebi que algo grandioso estava acontecendo. Não sabia do que Se tratava, mas sentia que não tinha o direito de perturbar o que estava acontecendo com as costumeiras técnicas de recordação usadas pela psicoterapia. Senti que seria como tentar encantar uma fotografia desbotada de uma grande catedral, estando na própria catedral.

Aquele primeiro dia psicodélico como acompanhante de Aldous fluiu calmo e tranqüilo. Há tanto mistério num dia psicodélico, acontece tanta coisa na pessoa que está fazendo a experiência, que ela não consegue expressar. Nesse dia, como nos muitos outros em que fiz companhia a “viajantes”, fiquei ligeira-mente afetada pela droga, embora não a tenha tomado e nunca o faça quando estou fazendo companhia a alguém. É uma das misteriosas qualidades dessas substâncias químicas. Talvez o hálito de quem tomou LSD contenha algum traço da droga; talvez saia pelos poros da pele. Ou seria um fenômeno devido à hipnose, imaginação, transferência de energia, telepatia? Ou a um processo osmótico ainda inexplicado? Não sei. No entanto, o fato é que alguns acompanhantes mais sensíveis sentem um leve efeito do LSD quando em presença de alguém que tomou a droga. Na gíria isso é chamado “viajar de carona”. É bom que isso aconteça, pois então o acompanhante não fica separado demais do viajante – o acompanhante pode participar, mesmo que minimamente, da viagem. Essa participação natural é básica para um acompanhante de um viajante psicodélico.

Lembro-me da primeira viagem de Aldous come uma coisa redonda e intemporal. Eu não era essa coisa redonda e intemporal; Aldous era. Minha mente superficial ainda trabalhava em seu passo lento, mas eu tinha suficiente consciência da coisa redonda e intemporal para não perturbá-la. No caso de Aldous isso dificilmente seria perturbado, mas, em pessoas não tão preparadas, os sentimentos, a revelação e a reação podem ser de uma natureza diferente. Assim também os estados de consciência. O acompanhante não deveria interferir nesses estados ou julgá-los por palavras, atos ou sentimentos – pois é importante que o viajante aceite todos eles, agradáveis ou terríveis, intelectuais ou emocionais, ou inqualificáveis – e os relacione com sua vida, pois eles são todos diferentes aspectos dele próprio e de sua história.

Como Aldous escreveu ao Dr. Albert Hofmann, o descobridor do LSD, “em A ilha o relato de experiências (psicodélicas) individuais vem de um conhecimento em primeira mão”. Mas naquele dia, e durante muito tempo depois, eu não tinha a menor idéia de que essas experiências serviriam de matéria-prima para a obra de Aldous. Estava tão inteiramente alheia a qualquer coisa relacionada com o processo de escrever que foi uma enorme surpresa encontrar tanto de nossas vidas em A ilha.

Aquele primeiro dia de LSD foi cheio de revelações estéticas. Escutamos o Quarto Concerto de Brandemburgo de Bach:

Era, é claro, o mesmo Quarto Concerto de Brandemburgo, que ele escutara tantas vezes no passado – o mesmo, e no entanto completamente diferente. Esse Allegro – ele o sabia de cor. O que significava que estava na melhor posição possível para perceber que na verdade nunca o tinha ouvido antes. [...] O Allegro revelava-se como um elemento no grande Evento presente, uma manifestação a um passo da felicidade luminosa. O Allegro era a felicidade luminosa; era a compreensão, sem conhecimento, de tudo apreendido através de um item qualquer de conhecimento; era uma consciência indistinta decomposta em notas e frases, e ainda assim ela mesma abrangendo tudo. E evidentemente tudo aqui não pertencia a pessoa alguma. Estava ao mesmo tempo aqui dentro, lá fora e em lugar nenhum. [... ] Por isso ele a escutava agora pela primeira vez. Sem dono, o Quarto Concerto de Brandemburgo tinha uma intensidade de beleza, uma profundidade de significado intrínseco, incomparavelmente maiores do que qualquer coisa que ele alguma vez tivesse encontrado na mesma música quando ela era de sua propriedade particular.

[...] E o Quarto Concerto de Brandemburgo dessa noite não era apenas uma Coisa em Si desconhecida; era também, de um modo impossível qualquer, um Evento Presente com uma duração infinita. Ou melhor (e ainda mais impossível, já que ele tinha três movimentos e estava sendo tocado na velocidade normal), ele não tinha duração. O metrônomo comandava cada uma de suas frases; mas a soma das frases não era um intervalo de segundos e minutos. Havia um tempo, mas não havia tempo. Então, o que havia?

– A eternidade,. – ele começou a rir.

– Que é tão engraçado? – perguntou ela.

– A eternidade – respondeu ele. – Acredite ou não, é tão real quanto a merda.**

Eu conseguia seguir Aldous no mundo de música e cores; mas quando ele falava sobre a fusão do sujeito e o objeto eu não entendia. Não entendia, mas sabia que ele sabia, e que, algum dia, eu também saberia. “Sujeito e objeto”, ele disse baixinho e com ternura, várias vezes. “Nenhuma separação entre sujeito e objeto.” No silêncio da casa ampla, na inteireza daquele dia, havia o conhecimento dele, havia a minha ignorância. Eu tinha consciência das duas coisas, e d'a ausência de conflito entre elas. Toda a pessoa dele emanava amor, e sua voz estava cheia de espanto maravilhado – “Sujeito e objeto, eles são um só.”

Naquele dia, em parte devido à minha experiência em psicoterapia, eu tinha imaginado – apesar de ter tentado não imaginar coisa alguma – que Aldous pudesse falar sobre Maria. Eu tinha esperado que ele o fizesse, e que expressasse emocional-mente seu sofrimento. Ainda não tinha percebido que Aldous tinha seu modo próprio de dirigir a incrível alquimia pela qual nós transformamos continuamente nossos sentimentos e idéias em outra coisa qualquer. Aldous transformou seu amor por Maria, e a dor de sua perda, na morte de Lakshmi, uma inesquecível passagem em A ilha.

Durante aquele primeiro dia de LSD a lembrança de Maria esteve presente com freqüência. Estávamos na casa dela, onde nada tinha sido modificado desde a sua morte. Tínhamos ficado em silêncio durante um longo tempo, escutando música. Agora o disco terminou – eu queria parar o mecanismo para evitar o desagradável “clique” da parada automática. Para fazer isso, tive que me afastar alguns passos de Aldous na direção da vitrola. Quando dei o primeiro passo, senti subitamente que Maria estava presente. Presente, mas não fora de mim – presente em mim. Espantada e fascinada, eu sabia que estava caminhando como Maria – que ela, e não eu, estava caminhando. Deve ter sido no terceiro ou quarto passo em direção à vitrola e para longe de Aldous que a voz dele me alcançou e tocou em meu vibro. Extremamente firme e tema, a voz disse: “Nunca seja qualquer outra pessoa senão você mesma.”

Aldous não precisou lembrar-me isso de novo.

Agora que tenho experiência de LSD, esse episódio – que não durou mais de dois ou três segundos – é menos surpreendente, embora não menos misterioso. Não posso explicar o que foi que me fez sentir, por um ou dois segundos, que eu era Maria – e o que fez Aldous perceber minha fugaz impressão? Certa-mente não foi me ver dar dois ou três passos num aposento em penumbra.

Desde aquele primeiro dia como acompanhante de um viajante psicodélico, aprendi a estar preparada para não ter segredos para o viajante. Uma pessoa em estado psicodélico pode perceber muito mais coisas em outros seres humanos do que quando está em seu estado cotidiano. O viajante pode ver seu acompanhante em diferentes épocas de sua vida, em diferentes períodos da história, e como pessoas diferentes, às vezes em conflito uma com a outra. De repente, durante a sessão psicodélica, o viajante olha para seu acompanhante. Freqüentemente é uma descoberta fascinante. Qualquer pessoa que esteja como acompanhante tem que desistir de qualquer tentativa de disfarce. Não apenas é inútil, mas também cria uma tensão cansativa e perturbadora para ambos. “Quem é você?” Falada ou não, a pergunta é feita ruidosamente em quase todas as viagens. Silencioso e nu, o acompanhante tem que saber que ele não pode responder – pois a essência da resposta está tanto em quem pergunta como nele próprio.

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* Mais provavelmente, mescalina. Ver a carta de Huxley para Osmond, datada de 29 de outubro de 1955. Ele tomou LSD pela primeira vez em dezembro.

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** A ilha, p. 877 da edição brasieilra.