Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 11 - 1954 Cartas
Capítulo 11
1954
Cartas
As portas da percepção mostrou ser o trabalho mais controverso de Huxley. A resposta do público, escreve sua biógrafa Sybille Bedford, “ia desde o entusiasmo, discriminado e indiscriminado, à desaprovação moral e intelectual, ao desdém, ao embaraço [...] Racionalistas presumidos viam novas provas de charlatanismo, de abdicação intelectual, enquanto os sérios e os religiosos ficavam perturbados pelo oferecimento de um atalho” (Bedford, v. 2 p. 162). Mas Aldous, fortalecido por sua experiência, já pensava numa seqüência para As portas, e mergulhando no trabalho, na correspondência e no estudo em diversas áreas – algumas novas e algumas re-visitadas: parapsicologia, privação sensorial (então chamata “ambiente restrito”) e ascetismo, esquizofrenia e alcoolismo, as metdforas e imagens de céu-e-inferno na literatura e na arte. Ele e Maria experimentaram também uma droga psicoativa pouco usada nos Estados Unidos: ololiuqui (sementes de ipoméia contendo amidos de ácido lisérgico), mas a dose (seis sementes) foi, ao que parece, pequena demais para causar em Aldous outros efeitos além de euforia e relaxamento.
Uma longa viagem à Europa e ao Oriente Médio incluiu uma conferência sobre a experiência visionária num congresso internacional de parapsicologia. Ele falou sobre o mesmo assunto para estudantes da Universidade Duke, quando voltou aos Estados Unidos. No final do uno ele trabalhou arduamente em suas anotações, transformando-as em livro.
A J. B. RHINE' [SMITH 649]
740 North Kings Road, Los Angeles 46, Califórnia 17 de janeiro de 1954
CARO Dr. Rhine,
[...] envio-lhe um conjunto de provas de página de um próximo ensaio sobre a experiência com mescalina [As portas da percepção]. O assunto do que pode ser chamado a fauna e a flora do subconsciente mais profundo é algo que me fascina.. Pois parece que, além do subconsciente pessoal (que tem a ver com os problemas de nossa história .particular) e além do sub-consciente coletivo de Jung, com seus Arquétipos que são simbólicos dos problemas imemoriais da espécie, existe um mundo que pouco ou nada tem a ver com nossos interesses humanos pessoais ou coletivos – o mundo do qual poetas e profetas derivaram suas descrições de inferno e céu e as outras áreas mais remotas do Outro Mundo. O que surge sob a mescalina e na esquizofrenia é diferente; mas a diversidade apresenta muitas características comuns, e essas características comuns surgem em descrições de paraísos cristãos, muçulmanos e budistas e, quando a experiência toma um rumo negativo, em descrições do inferno. Há muitos pormenores em Dante que estão bem próximos ao que esquizofrênicos e pessoas que tornam mescalina experimentam e descrevem. Por que deveríamos carregar conosco esse vasto universo não-humano, simplesmente não se pode imaginar. É apenas “uma dessas coisas” – como os marsupiais na Austrália, como as girafas na Africa, só que, é claro, muito mais bizarra. Pois pelo menos os marsupiais e as girafas são adaptados às condições em nosso planeta; ao passo que esses fenômenos de céu e inferno do subconsciente profundo parecem ser completamente estranhos à nossa experiência particular ou à experiência da raça. [...]
Muito cordialmente, Aldous Huxley
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* Famoso pesquisador norte-americano de fenômenos extrasensoriais e pei, temas que interessavam enormemente a Huxley.
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 653]
740 North Kings Road, Los Angeles 46, Califórnia 2 de ruço de 1954
Caro Huumphry,
[...] Três fatos interessantes surgiram recentemente. Minha velha amiga Naomi Mitchison escreve da Escócia, depois de ler As portas, que ela teve uma experiência quase idêntica de trans-figuração do mundo exterior durante seus vários períodos de gravidez. Será que isso poderia ser devido a um desarranjo temporário no suprimento de açúcar ao cérebro? (E também, uma mulher desconhecida escreve que teve experiências similares à mescalina durante ataques de hipoglicemia.)
Um desconhecido escreve de Seattle que produziu extraordinárias transformações de consciência – as quais ele não descreve – jejuando e ficando sem dormir durante um fim de semana. É claro que isso é o que tantos místicos, orientais e acidentais, fizeram. O ascetismo é apenas em parte motivado por um senso de pecado e um desejo de expiação, e só em parte, no nível subconsciente, por masoquismo. É também motivado pelo desejo de se entrar em contato com o Outro Mundo, e o conhecimento, pessoal ou indireto, de que a “mortificação” nos leva através da porta no muro.
Outro desconhecido me escreve de Los Angeles. É um ex-alcoólatra, que teve experiências de êxtase em seus primeiros dias de alcoolismo e insiste, apesar do que possam dizer os freudianos, que o desejo do êxtase é um motivo muito forte em muitos alcoólatras. Ele é também um amigo dos índios, conhece alguns que tornaram peiote mas tiveram uma experiência aterrorizante, e insinua que sabe ou é capaz de descobrir muitas coisas sobre a relação entre o peiotismo e o alcoolismo entre os índios. Não conheço esse homem, e duvido que tenha tempo para isso antes de nossa partida. Mas (espero que você não se importe!) pedi-lhe que pusesse no papel suas informações e as remetesse para você. Acho que pode ser de grande valor. Ele é de opinião que poderia ser muito interessante experimentar o efeito da mescalina em alcoólatras e ex-alcoólatras. E eu acho que se seu projeto de pesquisa for iniciado (ou mesmo se não for) isso pode ser uma coisa produtiva a se fazer.*
Tenho também um amigo [...] amável e competente, [A. L. Kitselman], que desenvolveu, dos textos do Antigo Budismo (textos que ele pode estudar no original, em pali) uma forma de psicoterapia que ele chama de Terapia E. (E sendo o equivalente à Enteléquia, o Bodhi.) Ele próprio já tomou peiote e propõe partir para a mescalina, sob supervisão médica. Enquano isso fez algumas experiências com ololiuqu(i), descobriu que em alguns casos ele parece aumentar a sugestionabilidade, libe-rar tensões antigas, e ajudar a obter vislumbres da verdadeira natureza da pessoa. Ao mesmo tempo parece facilitar, aos que estão perto da pessoa que ingeriu a droga, uma espécie de relacionamento telepático com ela – ou, pode-se dizer, um relacio-namento subtelegráfico, caso em que as experiências compartilhadas não são pensamentos e sim dores e incômodos, que os assistentes sentem indiretamente (como já aconteceu sob hipnose profunda) e que de um modo qualquer eles “descarregam”, beneficiando a pessoa que tomou a droga, que se sente muito melhor depois. O ololiuqu(i) é usado pelos feiticeiros mexicanos e cubanos para aumentar as faculdades extra-sensoriais e aliviar doenças; portanto pode ser que haja algo psicologicamente objetivo nisso tudo. Quando nós o tornamos não aconteceu muita coisa a Leslie LeCron‘ e a mim próprio, a não ser euforia e relaxamento. Maria teve algumas visões bastante divertidas e coerentes – diferentes em qualidade das que normalmente tem sob hipnose, e mais manifestamente significativas de um modo simbólico. Uma delas era como um capítulo suplementar do Monkey (O Macaco) – a maravilhosa alegoria chinesa traduzida por Arthur Waley. Era a visão do Macaco tentando subir para o céu por sua própria cauda – um comentário realmente admirá-vel sobre as pretensões do intelecto discursivo.
Você já experimentou os efeitos da mescalina num homem ou numa mulher congenitamente cegos? Isto certamente teria interesse.
Lembranças a você e à família.
Do seu, Aldous
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* Osmond, Hoffer e seus colegas mais tarde demonstraram estatisticamente os efeitos benéficos da psicoterapia associada com a mescalina e o LSD no problema do alcoolismo.
Psicoterapeuta amigo de Huxley.
À HAROLD RAYMOND [SMITH 657]
740 North Kings Road, Los Angeles 46, Califórnia 8 de março de 1954
Caro Harold,
Obrigado por sua carta e pelas boas notícias a respeito das vendas do livro (As portas da percepção) – excelentes, eu acho, para um ensaio. Vi a crítica de Young – da qual gostei muito, e que agradou a meu amigo o Dr. Osmond, o psiquiatra sob cuja supervisão tornei a droga. O próprio Osmond está escrevendo uma crítica do livro para Tomorrow, e seu jovem colega, o Dr. Smythies, tem um artigo sobre mescalina em geral, na mesma revista. Aliás, estou espantado com a quantidade de trabalhos que estão sendo feitos sobre a mescalina. As coisas não param de surgir – trabalho em Boston, trabalho em Chicago, trabalho em Buenos Aires. Com relação ao último, um ítalo-argentino muito competente surgiu em minha vida há uns dois dias. Acontece que ele é a maior autoridade na química dos alcalóides do cacto, inclusive, é claro, a mescalina.'
O que Steedman’ disse sobre a droga às vezes ter resultados terríveis é inteiramente verdade, é claro. (Mencionei o fato no ensaio.) Uma ótima descrição do terror foi dada por um jornalista canadense chamado Katz no número de outubro (eu acho) do Macleans Mapazine (uma publicação canadense). Ele tomou a droga sob a supervisão de Osmond, e seu artigo é um relato passo a passo, baseado em gravações e notas taquigrafadas, de suas experiências – que foram inteiramente aterrorizantes. Como é estranho que escritores como Belloc e Chesterton possam cantar as virtudes do álcool (que é responsável por mais ou menos dois terços dos acidentes de automóvel e três quartos dos crimes de violência) e serem considerados bons cristãos e pessoas direitas, enquanto que qualquer pessoa que se aventure a opinar que possa haver outros atalhos, menos prejudiciais, para a autotranscendência. <aqui falta o último parágrafo da carta – página 79>
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* Dr. Ladislao Reti, autor da monografia Cactus alkaloids and some related campounds (Alcalóides do cacto e alguns compostos afins) (Viena, 1950).
** Um crítico.
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 671]
740 N. Kings Rd., Los Angeles 46, CaL
25 de outubro (1954)
Meu caro Humphry,
Acabo de receber sua carta anunciando sua chegada entre 15 e 17 de novembro. Espero que você fique aqui pelo maior tempo possível. Se sentir necessidade de mais tranqüilidade, pode-ríamos ir para algum lugar no deserto por uns dias, ou para o litoral, ou talvez uma pequena viagem juntando as duas coisas, o que aqui é bem possível.
Demos quase toda a nossa mescalina para nosso amigo do Egito, o Dr. Godel, que conhecia um pouco o assunto mas queria descobrir mais. Assim, por favor, venha suprido; você sabe como é difícil arranjar qualquer coisa por aqui. Não me lembro se já lhe falei sobre o uso que o Dr. Puharich fez do ácido lisérgico em experiências extra-sensoriais – e descobriu que havia um período de capacidade ampliada, perto do princípio, um longo tempo sem capacidade, e outro período lúcido perto do fim. Ele ia tentar diminuir a dose de maneira a manter o indivíduo todo o tempo na zona lúcida, sem ser levado para fora dos limites, para o Mundo inteiramente Outro.' Obviamente temos que pensar na mente em termos de um sorvete napolitano estratificado, com um sabor peculiar de consciência em cada camada.
A farmacologia pode nos permitir chegar exatamente à camada que queremos, sem ir mais longe.
Aliás, você chegou a mandar as peças?
Lembranças nossas para todos.
Do seu,
Aldous
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* Andrija Puharich – pesquisador pioneiro sobre a interconexio entre as substâncias psicodélicas e a parapsicologia, autor de In searek of the ouapic Mmekroom (Em busca do cogumelo mágico). (1969) •
AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 672]
740 N. Kings Rd., L A 46, Cal. 7 de novembro de 1954
Caro Humphry,
Pode me dar uma pequena informação, por favor? Onde foi publicado o trabalho de [D. O.] Hebb sobre os efeitos do ambiente restrito? Ou, melhor ainda, você pode me dizer em poucas linhas qual era a natureza das experiências produzidas mediante trancar-se em silêncio no escuro? Essas visões eram parecidas com as da mescalina? Quero pelo menos mencionar.esse assunto no trabalho “Experiência Visionária, Arte Visionária e o Outro Mundo”, que estou ampliando.’
Espero vê-lo breve.
Do seu,
Aldous
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* Huxley conhecia também o trabalho do Dr. John Lilliy neasse campo; ele e Julian Huxley visitaram o laboratório de Lilly em 1966.