Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Capítulo 22 - 1958 Persuasão Química

Capítulo 22

 

1958

 

Persuasão Química

ALD0US HUXLEY

 

Admirável mundo nevo revisitado baseia-se numa série de artigos originalmente publicados no início de 1958 como um suplemento ao Newsday. Em uma carta a seu irmão Julian, Aldous descreve o assunto – prova contemporânea de que se cumpriu sua profecia de 1932 sobre o controle da mente sob um estado totalitário através do uso de drogas e outros meios – como “curioso e deprimente”. No capítulo seguinte do livro, Huxley elucida a distinção entre o soma dos antigos invasores ar,"anos da Indo e o soma de Admirável Mundo Novo, que não tem “nenhuma das desvantagens do original hindu”, e era “um dos mais poderosos instrumentos de poder no arsenal do ditador”. Ele fornece uma excelente análise das drogas psicoativas e sua potencialidade para o bem e para o mal. De passagem ele mostra familiaridade com as descobertas do Relatório LaGuardia, publicado em 1944 mas proibido por causa de sua conclusão de que a maconha não causava perigos graves à sociedade (não há prova de que Huxley tenha experimentado maconha).

 

No Admirável Mundo Novo de minha fábula não havia uísque, nem tabaco, nem heroína ilícita, nem cocaína manufaturada em casa. As pessoas não fumavam, nem bebiam, nem cheiravam, nem se aplicavam injeções. Quando alguém se sentia deprimido ou desanimado, engolia um tablete ou dois de um composto químico chamado soma. O soma original, de onde tirei o nome dessa droga hipotética, era uma planta desconhecida (possivelmente a Asclepias acida) usada pelos antigos invasores arianos da Índia em um de seus ritos religiosos mais solenes. O suco intoxicante extraído do caule dessa planta era bebido pelos sacerdotes e pelos nobres durante uma cerimônia elaborada. Nos Cânticos Vedas diz-se que os bebedores de soma eram abençoados de muitas maneiras. Seus corpos eram fortalecidos, seus corações se enchiam de coragem, alegria e entusiasmo, suas mentes eram iluminadas e, numa experiência direta de v!da eterna, eles recebiam a certeza de sua imortalidade. Mas o suco sagrado tinha suas desvantagens. O soma era uma droga perigosa – tão perigosa que até mesmo o grande deus-céu, Indra, às vezes adoecia por bebê-la. Os mortais comuns podiam até morrer por uma dose excessiva. Mas a experiência era tão transcendentalmente maravilhosa e iluminadora que beber soma era considerado um alto privilégio. Para esse privilégio, nenhum preço era alto demais.

O soma de Admirável Mundo Novo não tem as desvantagens de seu original indiano. Em pequenas doses ela trazia uma sensação de contentamento, em doses maiores provocava visões e, se a pessoa tomasse três tabletes, mergulharia em poucos minutos num sono refrescante. E tudo sem custo fisiológico ou mental. Os habitantes do Admirável Mundo Novo podiam tirar férias de seus maus-humores, ou dos aborrecimentos familiares da vida cotidiana, sem sacrificar sua saúde ou reduzir de modo permanente sua eficiência.

No Admirável Mundo Novo o hábito do soma não era um vício particular; era uma instituição política, era a própria essência da Vida, da Liberdade e da Busca à Felicidade garantidas pela Declaração de Direitos Humanos. Mas esse mais precioso dos privilégios inalienáveis do indivíduo era ao mesmo tempo um dos mais poderosos instrumentos de poder no arsenal do ditador. A administração sistemática de drogas em indivíduos para o bem do Estado (e incidentalmente, é claro, para seu próprio deleite) era o principal alicerce na política dos Controladores Mundiais. A ração diária de soma era um seguro contra o desajuste pessoal, a inquietação social e a disseminação de idéias subversivas. Karl Marx declarou que a religião é o ópio do povo. No Admirável Mundo Novo essa situação foi invertida. O ópio, ou melhor, o soma, era a religião do povo. Como a religião, a droga tinha o poder de consolar e compensar, provocava visões de um outro mundo melhor, oferecia esperança, fortalecia a fé e promovia a caridade. Um poeta escreveu que a cerveja

 

... faz mais do que Milton pode fazer

para justificar ao homem a vontade de Deus.

 

e vamos nos lembrar que, comparada com o soma, a cerveja é uma droga da espécie mais primitiva e pouco confiável. Nesse caso de justificar ao homem a vontade de Deus, o soma está para o álcool como o álcool está para os argumentos teológicos de Milton.

Em 1931, quando eu estava escrevendo sobre esse sintético imaginário por meio do qual as gerações futuras tornar-se-iam felizes e dóceis, o famoso bioquímico americano Dr. Irvine Page estava-se preparando para partir da Alemanha, onde tinha passado três anos no Instituto Kaiser Wilhelm, trabalhando na química do cérebro. “É difícil compreender”, escreveu o Dr. Page num artigo recente, “por que demorou tanto para que os cientistas chegassem a investigar as reações químicas em seus próprias cérebros. Falo”, ele acrescenta, “por aguda experiência própria. Quando voltei para casa em 1931 [...l não consegui arranjar um emprego nesse campo (o campo da química cerebral) ou despertar o mínimo interesse por ele.” Hoje em dia, vinte e sete anos mais tarde, o não-existente mínimo interesse transformou-se numa onda de pesquisa bioquímica e psicofarmacológica. As enzimas que regulam a atuação do cérebro estão sendo estudadas. Dentro do corpo, substâncias químicas até agora desconhecidas, como o adrenocromo e a serotonina (da qual o Dr. Page foi co-descobridor) foram isoladas e seus efeitos de longo alcance em nossas funções físicas e mentais estão sendo agora investigados. Enquanto isso, novas drogas estão sendo sintetizadas – drogas que reforçam, corrigem ou interferem com a atuação de várias substâncias químicas, por meio das quais o sistema nervoso produz seus milagres diários e horários como controlador do corpo, o instrumento e mediador da consciência. De nosso ponto de vista atual, o fato mais interessante sobre essas dropas novas é que elas alteram temporariamente a química do cérebro e o estado mental associado sem causar dano permanente ao organismo como um todo. Nesse aspecto elas são como o soma – profundamente diferentes das drogas alteradoras da mente que havia no passado. Por exemplo, o tranqüilizante clássico é o ópio. Mas o ópio é uma droga perigosa que, dos tempos neolíticos até os dias de hoje, tem causado dependência e arruinado a saúde. A mesma coisa é verdade do eufórico clássico, o álcool – a droga que, nas palavras do salmista, “torna alegre o coração do homem”. Mas infelizmente o álcool não apenas torna alegre o coração do homem; em doses excessivas, ele também causa doenças e dependência, e tem sido a maior fonte,' nos últimos oito ou dez mil anos, de crimes, in-felicidades domésticas, degradação moral e acidentes evitáveis.

Entre os estimulantes clássicos, o chá, o café e o mate são, graças a Deus, quase completamente inofensivos. São também estimulantes muito fracos. Ao contrário dessas “taças que alegram mas não inebriam”, a cocaína é uma droga muito pode-rosa e perigosa. Aqueles que fazem uso dela têm que pagar por seus êxtases, suas sensações de poder físico e mental ilimitadas, com fases de depressão dolorosa, com sintoma físicos horríveis; tais como a sensação de estar sendo infestado por milhares de insetos rastejantes e por delírios paranóicos que podem levar a crimes de violência. Outro estimulante de safra mais recente é a anfetamina, mais conhecida sob seu nome comercial de Benzedrina. A anfetamina age muito eficazmente – mas age, se houver abuso, à custa da saúde física e mental. Foi declarado que no Japão há agora mais ou menos um milhão de viciados em anfetamina.

Das drogas clássicas que produzem visões, as mais conhecidas são o peiote do México e do sudoeste dos Estados Unidos e a Cannabis sativa, consumida em todo o mundo sob nomes como haxixe, bhang, kif, marijuana e maconha. Segundo os mais sérios testemunhos médicos e antropológicos, o peiote é muito menos maléfico do que o gim ou o uisque do Homem Branco. E1e permite aos índios que o usam em seus ritos religiosos entrar ao paraíso, e sentir-se unidos à amada comunidade, sem fazê-los pagar pelo privilégio com algo pior que a tortura de ter que mastigar uma substância de sabor horrível e sentir-se um tanto nauseado durante uma ou duas horas. A Cannabis sativa é uma droga menos inócua – embora nem um pouco tão maléfica quanto os sensacionalistas gostariam que acreditássemos. O Comitê Médico, designado em 1944 pelo Prefeito de Nova Iorque para investigar o problema da maconha, chegou à conclusão, depois de uma cuidadosa investigação, que a Cannabis sativa não é uma ameaça séria à sociedade, ou até mesmo àqueles que a usam. É simplesmente um incômodo.

Desses clássicos alteradores da mente nós passamos para os mais recentes produtos da pesquisa psicofarmacológica. Desses, os mais apregoadós são os três novos tranqüilizantes: reserpina, cloropromazina e meprobamato. Ministrados a certos tipos de psicóticos, os dois primeiros demonstraram ser notavelmente eficazes, não em curar doenças mentais, mas pelo menos em abolir temporariamente seus sintomas mais dolorosos. O meprobamato (Miltown) produz efeitos similares em pessoas que sofrem de várias formas de neuroses. Nenhuma dessas drogas é inteiramente inofensiva; mas seu custo, em termos de saúde física e eficiência mental, é extraordinariamente baixo. Num mundo onde ninguém consegue coisa alguma de graça, os tranqüilizantes oferecem muito em troca de muito pouco. O Miltown e a cloropromazina ainda não são o soma, mas chegam bem perto de ser um dos aspectos dessa droga mítica. Eles proporcionam um alívio temporário da tensão nervosa sem, na grande maioria dos casos, inflingir dano orgânico permanente, e sem causar mais do que uma leve diminuição, quando a droga está agindo, da eficiência intelectual e física. Exceto como narc6ticos, provavelmente são preferíveis aos barbitúricos, que cegam o fio cortante da mente e, em doses grandes, causam um número variado de sintomas psicofísicos indesejáveis e podem resultar numa dependência completa.

No LSD-25 (ácido lisérgico-dietilamido) os farmacologistas criaram recentemente outro aspecto do soma – um aperfeiçoa-dor da percepção e produtor de visões que é, fisiologicamente falando, quase gratuito. Essa droga extraordinária, que é eficiente em doses tão pequenas quanto cinqüenta ou até mesmo vinte e cinco milionésimos de grama, tem o poder (como o peiote) de transportar pessoas para o outro mundo. Na maioria dos casos, o outro mundo ao qual o LSD-25 dá acesso é celestial; por outro lado, ele pode ser purgatorial ou até mesmo infernal. Mas, positiva ou negativa, a experiência com ácido lisérgico é sentida por quase todos que passam por ela como profundamente importante e esclarecedora. De qualquer modo, o fato de que as mentes podem ser transformadas tão radicalmente a um custo tão pequeno para o corpo é verdadeiramente espantoso.

O soma não era apenas um produtor de visões e um tranqüilizante; era também (e sem dúvida impossivelmente) um estimulante do corpo e da mente, um criador de euforia ativa assim como da felicidade negativa que se segue à liberação da ansiedade e da tensão.

O estimulante ideal – poderoso mas inócuo – ainda não foi descoberto. A anfetamina, como vimos, estava longe de ser satisfatória; exigia um preço alto demais pelo que concedia. Um candidato mais promissor ao papel de soma em seu terceiro aspeoto é Iproniazid, que está sendo usado hoje para tirar de seu sofrimento pacientes deprimidos, para avivar os apáticos e de modo geral aumentar a quantidade de energia psíquica disponível. Ainda mais promissor, segundo um famoso farmacologista meu conhecido, é um novo composto, ainda em estágio de testes, que será conhecido como Deaner. Deaner é um aminoálcool e julga-se que ele aumenta a produção de acetilcolina dentro do corpo, aumentando assim a atividade e a eficácia do sistema nervoso. O homem que toma essa nova pílula precisa de menos sono, sente-se mais alerta e disposto, pensa mais depressa e melhor – e tudo isto com quase nenhum custo orgânico, pelo, menos a curto prazo. Parece quase bom demais para ser verdade.

Vemos então que, apesar do soma não existir ainda (e provavelmente nunca existirá), alguns sucedâneos razoavelmente bons para as vários aspectos do soma já foram descobertos. Há agora tranqüilizantes fisiologicamente baratos, produtores de visão fisiologicamente baratos e estimulantes fisiologicamente baratos. óbvio que um ditador poderia, se desejasse, usar essas drogas com fins políticos. Ele poderia assegurar-se contra inquietação política mudando a química dos cérebros de seus súditos e assim deixando-os contentes com a condição servil. Ele poderia usar tranqüilizantes para acalmar os excitados, estimulantes para criar entusiasmo nos indiferentes, alucinógenos para distrair a atenção dos infelizes de suas misérias. Mas como, pode-se perguntar, irá fazer o ditador para que seus súditos tornem as pílulas que os farão pensar, sentir e comportar-se da maneira que ele acha desejável? Com toda a probabilidade será suficiente apenas tornar disponíveis as pílulas. Hoje o álcool e o tabaco estão disponíveis, e as pessoas gastam consideravelmente mais nesses eufóricos, pseudo-estimulantes e sedativos muito pouco satisfatórios do que estão dispostos a gastar na educação de suas crianças. Ou pensemos nos barbitúricos e nos tranqüilizantes. Nos Estados Unidos, essas drogas só podem ser obtidas com receita médica. Mas a procura por parte do público norte-americano de alguma coisa que torne um pouco mais tolerável a vida num ambiente urbano-industrial é tão grande que os médicos estão agora dando receitas para os vários tranqüilizantes ao ritmo de quarenta e oito milhões por ano. Mais ainda, a maioria dessas receitas são reutilizadas. Cem doses de felicidade não são suficientes: mande buscar na farmácia outro frasco – e quando ela tiver. terminado, outro ainda... Não pode haver dúvida de que, se os tranqüilizantes pudessem ser comprados de maneira tão fácil e barata quanto a aspirina, eles seriam consumidos, não aos bilhões, como são no momento, mas às centenas de bilhões E um estimulante bom e barato teria a mesma popularidade.

Sob uma ditadura, se ensinaria os farmacêuticos a mudar sua melodia a cada mudança de circunstâncias. Em tempos de crise nacional, seria seu trabalho promover a venda de estimulantes. Entre as crises, demasiada atividade e energia por parte de seus súditos podia ser embaraçoso para o tirana Em tais épocas as massas seriam induzidas a comprar tranqüilizantes e produtores de visões. Sob a influência desses xaropes calmantes, elas não causariam problemas a seu chefe.

Como as coisas estão agora, os tranqüilizantes podem impedir que certas pessoas dêem trabalho, não apenas a seus chefes, mas até mesmo a si próprias. Tensão demais é uma doença, mas de menos, também. Há certas ocasiões em que temos que estar tensos, quando um excesso de tranqüilidade, (e especialmente de tranqüilidade imposta do exterior, por um agente químico) é inteiramente inapropriada.

Num recente simpósio sobre meprobamato, do qual participei, um eminente bioquímico sugeriu, de brincadeira, que o governo dos Estados Unidos deveria doar gratuitamente ao povo soviético cinqüenta bilhões de doses desse tranqüilizante tão popular. A piada tinha um fundo sério. Num concurso entre duas populações, uma das quais esteja sendo constantemente estimulada por ameaças e promessas, constantemente dirigida por uma propaganda direta, enquanto que a outra esteja sendo não menos constantemente distraída pela televisão e tranqüilizada pelo Miltown, qual dos oponentes tem mais probabilidades de vencer?

Além de tranqüilizar, alucinar e estimular, o soma da minha fábula tinha o poder de aumentar a sugestionabilidade, e assim podia ser usada para reforçar os efeitos da propaganda governamental. Menos eficazmente, e a um custo fisio1ógico mais alto, várias drogas já na farmacopéia podem ser usadas para o mesmo propósito. Existe a escopolamina, por exemplo, o princípio ativo do meimendro negro e, em doses grandes, um veneno poderoso; existem o pentotal e o amital de sódio. Apelidado, por uma estranha razão qualquer, “o soro da verdade”, o pentotal tem sido usado pela polícia de vários países com o propósito de extrair confissões de (ou talvez sugerir confissões a) criminosos renitentes. O pentotal e o amital de sódio diminuem a barreira entre a mente consciente e a mente subconsciente, e são de grande valor no tratamento de “fadiga de batalha” pelo processo conhecido na Inglaterra como “terapia de abreação”, e na América como “narcossíntese”. Dizem que essas drogas são às vezes empregadas pelos comunistas, quando preparam prisioneiros importantes para aparecerem em público no tribunal.

Enquanto isso, a farmacologia, a bioquímica e a neurologia estão em marcha, e podemos ter certeza de que, durante os próximos anos, novos e melhores métodos químicos para aumentar a sugestionabilidade serão descobertos. Como tudo mais, essas descobertas poderão ser bem ou mal usadas. Elas podem ajudar o psiquiatra em sua batalha contra a doença mental, ou podem ajudar o ditador em sua batalha contra a liberdade. Mais provavelmente (já que a ciência é divinamente imparcial) elas irão ao mesmo tempo escravizar e libertar, curar e ao mesmo tempo destruir.