Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Introdução
Moksha é uma coletânea dos escritos de Aldous Huxley, a maior parte datando de sua última década de vida. Para a avaliação desses discursos, ensaios e cartas, e do valor que ele lhe atribuía, faz-se necessária uma apresentação do autor, assim como do legado literário que ele nos deixou. Aldous Leonard Huxley nasceu em 26 de julho de 1894, de uma notável família literária e científica. Era o terceiro filho do Dr. Leonard Huxley – professor, diretor editorial e literato – e de Julia Arnold, sobrinha do poeta Matthew Arnald e irmã da romancista Sra. Humphrey Ward. Era neto de T. H. Huxley, o cientista, e bisneto do formidável filósofo Dr. Thomas Arnold. Seu irmão mais velho, Julian, morreu em 21 de fevereiro de 1975, extinguindo-se assim essa geração de Huxleys mundialmente famosos.
Os próprios escritos de Huxley são o melhor documento de sua transição de poeta a romancista, a místico, a ensaísta, a cientista. Aos dezesseis anos, uma desastrosa infecção no olho deixou Huxley praticamente cego, impedindo a desejada carreira médica. Forçado a depender do braille para ler, de um guia para caminhar e de uma máquina para escrever, ele considerava sua incapacidade irreversível, e seus primeiros poemas, tais como The defeat of youth (A derrota da juventude) (1918) e Leda (1920) exprimem amargura. No entanto, o poema-título de The cicadas (As cigarras) (1931) mostra uma libertação desses sentimentos mórbidos, e numa enxurrada de criação Huxley trocou a poesia pelo romance, chocando o público leitor com Crome yellow (Amarelo-cromo) (1921), Antic hay (1923) e Those barren leaves (Aquelas folhas maninhas) (1925). Foi comparado a dois rebeldes literatos contemporâneos, Noel Coward e Richard Aldington; no entanto, enquanto esses últimos atacavam a classe média sem apresentar sugestões para seu aperfeiçoamento, os escritos de Huxley forneciam as semeies da síntese construtiva. Na coletânea de ensaios de viagem Jesting pilate (Pilatos galhofeiro) (1926) e em seu romance Time must have a stop (O tempo deve parar) (1944), pode-se encontrar o estilo brilhante que se tornaria sua marca, e vislumbres das preocupações filosóficas que logo lhe despertariam a atenção.
O romance Brave New World (Admirável Mundo Novo) (1932) precedeu o 1984 de George Orwell de uns vinte anos, e é hoje talvez o trabalho mais conhecido de Huxley. Um número perturbadoramente grande de suas profecias foram cumpridas.
Nesse romance, Huxley apresenta uma droga curativa chamada Soma (o Cristianismo sem lágrimas, a moralidade num frasco) que deve ser comparada com sua criação posterior, Moksha (um processo de educação e esclarecimento).
A opinião de Huxley sobre o cientista, uma pessoa que une as disciplinas da religião e da filosofia com a ciência, segue os princípios que ele apresentou pela primeira vez em O tempo deve. parar. Nesse romance ele evitou cuidadosamente comprometer-se com extremos: sentia que, na busca da verdade e da compreensão, a ausência de uma hipótese significaria falta de motivo ou razão para experimentações, enquanto que construir uma hipótese por demais elaborada resultaria em descobrir o que se tem certeza de estar ali e ignorar todo o resto. Sua “hipótese de trabalho mínima” supõe a existência de uma Divindade ou Substrato, uma “ausência de ego” transcendente e imanente, da qual a pessoa deve tornar-se parte através do amor e do conhecimento.
O encontro com o Dr. Humphry Osmond, em 1953, que forneceu o cadinho para as experiências pessoais de Huxley em desafiar essa “hipótese de trabalho mínima”, é o ponto de parda lógico para a presente coletânea. A mescalina, então uma droga pouco estudada, encontrada no cacto Anhalonium lewimi, serviria como catalisador dessa experiência. A mescalina foi pela primeira vez isolada da planta em 1894 por Heffter, sintetizada por Spath em 1919 e explorada farmacologicamente por Rouhier e Beringer na década de 20. No início da década de 50, porém, os únicos estudos a respeito dos efeitos dessa droga eram 'clínicos e fisiológicos; não havia qualquer pesquisa literária ou humanística.
Os resultados da pesquisa científico-humanística de Huxley foram profundos e logo se fizeram sentir. As conseqüências a curto prazo foram o registro de experiências produzidas pela droga em The doors of perception (As portas da percepção) (1954), e a elaboração a partir delas, e a sua extrapolação para outros fenômenos de consciência em Heaven and hell (Céu e inferno) (1956). A conseqüência a longo prazo dessa experiência e das diversas que a seguiram, convenceu Huxley da validade de sua hipótese de trabalho: havia um Substrato que era “tudo o que está acontecendo em toda parte do universo”, ou melhor, a consciência desse “tudo”. Ele ficou fascinado pelo potencial de drogas como a mescalina, o LSD e a psilocibina de proporcionar uma experiência de aprendizado que normal-mente nos é negada em nosso sistema educacional. Suas conferências, seus romances e seus ensaios repetiam o tema do desespero e da esperança. Num artigo publicado em Playboy (novembro de 1963) ele exprimiu seu desespero porque “num mundo de explosão populacional, de um avanço tecnológico desenfreado e de um nacionalismo militante, o tempo à nossa disposição – para a descoberta de novas fontes de energia para ultrapassar a inércia psicológica de nossa sociedade – é estritamente limitado”. A esperança, expressa em sua fantasia utópica Island (A ilha) (1962), é de que “uma substância semelhante à psilocibina poderia ser usada para potencializar a educação não-verbal do adolescente e para lembrar aos adultos que o mundo real é muito diferente do universo deformado que eles criaram para si mesmos por meio de seus preconceitos de condicionamento cultural”.
Em A ilha o conceito de uma droga semelhante é desenvolvido com a apresentação de um fungo, o Moksha. Pelo nome é evidente que não se trata do Soma apresentado em Admirável Mundo Novo; “Moksha” deriva do sânscrito, significando “liberação”, e “soma” vem da palavra “corpo” em grego. Com esse livro, Huxley novamente acirrou a controvérsia muito à frente de seu tempo, com a descrição do processo da morte como um processo de aprendizado, que pode ser enriquecido pela administração de drogas psicodélicas. A sinceridade dessa opinião fica evidenciada em sua experiência final, na qual ele recebeu duas pequenas doses de LSD, uma delas algumas horas antes de morrer e a outra pouco antes da morte. Em seus últimos momentos ele estava consciente e tranqüilo.
Durante a última década de sua vida, Huxley mostrou-se intencionalmente controverso; no entanto era desesperadamente sincero. É impossível adivinhar o que ele escreveria hoje, uns quinze anos depois, diante da ampla proselitização para o uso de drogas psicodélicas que ocorreu no fim dos anos 60. Nessa época seu uso espalhou-se, freqüentemente por parte de pessoas que não se tinham preparado para a experiência ou para a integração pessoal dos valores dela. O que quer que ele pudesse ter escrito, o' papel. de Huxley na literatura e na expressão da filosofia da' expansão da consciência jamais poderá ser negado.
Alexander T. Shulgin Lafayette, Califórnia