Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 17 - 1956 Céu e Inferno
Capítulo 17
1956
Céu e Inferno
ALDOUS HUXLEY
Huxley descreveu este livro como "um ensaio longo f... ] sobre a experiência visionária e sua relação com a arte e as concepções tradicionais sobre o Outro Mundo. Ele se origina, é claro, na experiência com a mescalina, que esclareceu bastante, eu acho, todos os tipos de coisas” (Bedford,, v. 2, p. 209). O cacto do peiote e seu alcalóide psicoativo, muito mais que o LSD, produzem efeitos visuais que Huxley compara à pintura e a outras formas de arte popular visionária, tais como os espetáculos de lanterna mágica, fogos de artifício, filmes coloridos e o estroboscópio – no último caso, antecipando-se ao Show de Luzes do Acid Rock da década de 6O. A base bioquímica da experiência visionária e os vários métodos de alcançá-la, à parte o “acesso químico”, são discutidos, assim como a base psicológica para uma experiência visionária negativa ou positiva, prefigurando os parâmetros “fixos e fixadores” de pesquisadores mais recentes do Projeto de Pesquisa sobre Psicodélicos de Harvard.
Nesta sequência a As portas da percepção, Huxley novamente toma o seu título a “O Casamento do Céu e do Inferno”, de Blake.
A EXPERIÊNCIA visionária negativa é com freqüência acompanha-a por sensações corporais de um tipo muito especial e característico. Visões agradáveis costumam ser associadas a uma sensação de separação do corpo, um sentimento de desindividualização. (Não há dúvida de que esse sentimento de desindividualização é que torna possível aos indígenas, que praticam o culto do peiote, usar a droga não apenas como um atalho para o mundo visionário, mas também como instrumento para criar uma solidaríedade amorosa dentro do grupo participante.) Quando a experiência visionária é terrível e o mundo se transfigura para pior, a individualização é intensificada e o visionário encontra-se associado a um corpo que parece ficar progressivamente mais tenso, mais comprimido, até que finalmente ele se vê reduzido a ser a sofredora consciência de um monte de matéria espessa, não maior que uma pedra que pode ser segurada entre as mãos.
Vale a pena frisar que muitos dos castigos apresentados nas várias descrições do inferno são castigos de pressão e constrição. Os pecadores de Dante estão afundados na lama, aprisionados nos troncos das árvores, congelados dentro de blocos sólidos de gelo, esmagados sob pedras. O Inferno é psicologicamente verdadeiro. Muitos de seus sofrimentos são experimentados por esquizofrênicos e por aqueles que tornaram mescalina ou ácido lisérgico em condições desfavoráveis.
Qual é a natureza dessas condições desfavoráveis? Como e por que o céu se transforma em inferno? Em certos casos a experiência negativa do visionário é resultado de causas predominantemente físicas. A mescalina, depois da ingestão, tende a acumular-se no fígado. Se o fígado estiver doente, a mente associada pode encontrar-se no inferno. Mas o que é mais importante para nossas metas atuais é o fato de que a experiência visionária negativa pode ser produzida por meios puramente psicológicos. O medo e a ira barram o caminho para o Outro Mundo celestial e mergulham no inferno a pessoa que tomou a mescalina.
E o que é verdade em relação à pessoa que tomou mescalina também se aplica à pessoa que tem visões espontaneamente ou sob hipnose. Sobre esse alicerce psicológico foi erguida a doutrina teológica da fé que salva – uma doutrina que se encontra em toda.s as grandes tradições religiosas do mundo. Os escatologistas sempre acharam difícil conciliar seu racionalismo e seu moralismo com os fatos brutos da experiência psicológica. Como racionalistas e moralistas, eles sentem que o bom comportamento deveria ser recompensado e que os virtuosos merecem ir para o céu. Mas como psicólogos eles sabem que a virtude não é a condição única ou suficiente para uma experiência visionária agradável. Sabem que os atos por si são impotentes e que é a fé, ou confiança amorosa, que garante que a experiência visionária vai ser agradável.
Emoções negativas – o medo que é a ausência de confiança, o ódio, a raiva ou a malícia que excluem o amor – são a garantia que a experiência visionária, quando e se ocorrer, será assustadora. O Fariseu é um homem virtuoso; mas sua virtude é do tipo que é compatível com emoções negativas. Suas experiências visionárias serão, portanto, provavelmente infernais em vez de agradáveis.
A natureza da mente é tal que o pecador que se arrepende e comete um ato de fé num poder maior tem mais probabilidades de ter uma experiência visionária agradável do que o orgulhoso pilar da sociedade com suas justas indignações, sua ansiedade sobre posses e pretensões, seus hábitos arraigados de culpar, desprezar e condenar. Daí a enorme importância, em todas as grandes tradições religiosas, do estado da mente no momento da morte.
A experiência visionária não é o mesmo que a experiência mística. A experiência mística está além do reino dos opostos. A experiência visionária ainda está dentro desse reino. O céu está vinculado ao inferno, e “ir para o céu” não é liberação maior do que a descida para o horror. O céu é simplesmente um ponto de observação de onde o Substrato divino pode ser visto mais claramente do que no nível da existência individual cotidiana. Na vida, como sabemos por experiência e por observação, mesmo a experiência visionária agradável tende a mudar seu sinal se persistir por demasiada tempo.
Muitos esquizofrênicos têm seus momentos de felicidade celestial, mas o fato de que (diferentemente de quem toma mescalina) eles não sabem quando, ou se algum dia, poderão voltar para a reconfortante banalidade da experiência cotidiana faz com que até mesmo o céu pareça assustador. Mas para aqueles que, por qualquer razão, estão assustados, o céu se transforma em inferno, o contentamento em horror, a Luz Clara no horrível clarão da terra acesa.
Algo do mesmo tipo acontece no estado póstumo. Depois de ter tido um vislumbre do insuportável esplendor da Realidade definitiva, e depois de ter viajado de um lado para o outro entre o céu e o inferno, a maior parte das almas acha impossível retroceder para aquela região da mente mais segura, onde podem usar desejos, lembranças e caprichos, seus ou de outras pessoas, para construir um mundo muito semelhante àquele em que viviam na terra.
Daqueles que morrem, uma minoria infinitesimal é capaz de união imediata com o divino Substrato, uns poucos são capazes de suportar o contentamento visionário do céu, uns poucos se encontram nos horrores visionários do inferno e são incapazes de escapar; a grande maioria termina na espécie de mundo descrito por Swedenborg e pelos médiuns. Desse mundo é sem dúvida possível passar, quando as condições necessárias forem preenchidas, para mundos de contentamento visionário ou de iluminação definitiva.
Minha própria opinião é de que o espiritualismo moderno e as tradições antigas estão ambos corretos. Existe um estado póstumo do tipo descrito no livro de Sir Oliver Lodge, Raymond; mas existe também um céu de experiência visionária agradável; há também um inferno da mesma espécie de experiência visionária aterrorizante que é experimentada aqui pelos esquizofrênicos e por alguns daqueles que tornam mescalina; e existe também uma experiência, além do tempo, de união com o Substrato divino.