Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 35 - 1962 Amor e Trabalho
Capítulo 35
1962
Amor e Trabalho
LAURA HUXLEY
Enquanto corrigia as provas de A ilha em sua nova casa (que dividiam com Ginny Pfeifferj em. Mulholland Highway, Huxley um dia deixou o trabalho de lado para fazer outra tentativa com psilocibina. A maior parte dessa sessão foi gravada em fita, e mais tarde transcrita e re-vista por sua esposa Laura. É, ao que parece, o único relato “ao vivo” de Aldous em estado psicodélico. A compreensão de Laura do papel de guia tinha-se aprofundado desde o episódio de 1955, enriquecida por suas próprias experiências psicodélicas, assim como por aquelas que ela organizava para alguns de seus pacientes no momento adequado de suas psicoterapias.
Os mantras se revelam: amor e trabalho, paixão e distanciamento, a "sanidade fundamental” que existe no mundo “apesar de toda a confusão e as bobagens dispa-ratadas que estão acontecendo”, o sincronismo de grande filosofia e nariz escorrendo levando a uma discussão sobre a morte e o valor da ioga oriental de morrer, exemplificado no Bagavad-Gita, Carne Zen, Ossos Zen e, acima de tudo, O Livro Tibetano dos Mortos.
O Que se segue é um relato de uma sessão psicodélica com Aldous. É a única da qual tenho a gravação em fita, não da sessão inteira, mas de sua maior parte.
Alguns meses depois da morte de Aldous, quando encontrei essa fita, fiquei profundamente comovida. Eu a tinha esquecido, e agora, depois da morte dele, essas palavras eram mais do que nunca significativas, mesmo que, às vezes, equivocadas. E como era bom passar de “a vida após a morte” para “sopa aqui e agora”, do Sermão da Montanha para narizes escorrendo! E novamente percebi a constante consideração e o encorajamento que Aldous dava a meu projeto na época, mesmo nesse dia extraordinário.
Primeiro pensei em publicar as palavras dele gravadas como são, sem comentários. Mas quando a fita foi transcrita para o papel, comecei a ver que elas não ficariam tão claras para o leitor quanto eram para mim, uma participante no diálogo. Há um mundo de diferença entre ler uma conversa e ouvi-la. Na leitura, dois elementos importantes ficam faltando: a voz tão significativa, principalmente no caso de Aldous, pois ele tinha uma grande variedade de inflexões, de cor e de estados de espírito e ritmo, e as pausas, sempre importantes, mas ainda mais nesse tipo de diálogo. Eu poderia ter mexido nessa conversa, mas preferi deixá-la como está na fita. As frases de Aldous não são bem acabadas e claras como em seus escrito,s e suas conferências – mas ele não estava fazendo uma conferência; estava conversando comigo. Sinto que o conteúdo e a autenticidade de suas palavras valem mais que a consideração pela elegância literária.
Outra razão para comentar sobre essa conversa gravada é que Aldous refere-se a assuntos não familiares para muita gente. A experiência da Luz Clara do Vazio, do Barco ou do estado pós-morte, do herói lutador do Bagavad-Gita – esses não são assuntos cotidianos, porém são da maior importância para todos nós. Nessa conversa Aldous cita dois livros: O Bagavad-Gíta e O Livro Tibetano dos Mortos. Na época eu não tinha lido qualquer desses livros, mas Aldous tinha me contado muita coisa sobre eles. Para qualquer pessoa que os leu, o que Aldous diz é intelectualmente claro. Mas enquanto a familiaridade com esses livros esclarece um pouco nosso diálogo, a conversa de Aldous – a atmosfera, a aura – não é de modo algum uma discussão deles. A parte extraordinária dessa conversa é a sensação de que Aldous está experimentando aquilo que ele já sabia havia muito tempo. Mas, como ele escreveu em “Conhecimento e compreensão”, 1 há um mundo de diferença: “A compreensão é a consciência primária e d!reta de materiais crus.” Por outro lado, o conhecimento é adquirido e “pode ser passado adiante e compartilhado por meio de palavras e outros símbolos. A compreensão é uma experiência imediata e só pode ser comentada (muito insatisfatoriamente). nunca compartilhada”. O conhecimento é “público”. A compreensão é “particular”. Em 'A ilha, as crianças recebem uma ilustração dessa diferença no quinto ano primário, mais ou menos com dez anos.
“As palavras são públicas; elas pertencem a todas as pessoas que falam uma certa língua; elas estão arroladas em dicionários. E agora vamos olhar para as coisas que acontecem lá fora.” Ele apontou para a janela aberta. Espalhafatosos contra uma nuvem branca, meia dúzia de papagaios surgiram à vista, passaram por trás de uma árvore e sumiram. [...] “O que acontece lá fora é público – ou pelo menos bastante público”, ressalvou ele. “E o que acontece quando alguém fala ou escreve palavras – isso também é público. Mas as coisas que acontecem dentro... são particulares. Particulares.” Ele colocou a mão no peito. “Particulares.” Esfregou a testa “Particulares.”
As palavras que Aldous pronunciou nessa experiência psicodélica podem ser procuradas no dicionário; elas são públicas. A compreensão de sua experiência é um assunto particular de cada um de nós.
Essa sessão foi diferente das outras em muitos modos. Geralmente, quando tínhamos uma sessão psicodélica, a noite anterior e o dia da sessão eram mantidos absoluta e rigorosamente vazios. Dessa vez nós saímos para jantar na véspera da sessão. Reparo também, em minha agenda, que no dia da sessão, 22 de janeiro de 1962 – uma segunda-feira – havia três outras anotações: um hóspede chegando no aeroporto, o aniversário da empregada e uma visita de experiência a uma família cujos três membros eram doentes mentais mas estavam sem tratamento.
Foi porque o dia não estava inteiramente livre que nós mudamos de LSD para a psilocibina. Ao contrário do LSD, que permanece por várias horas mesmo depois do pico ter passado, a psilocibina geralmente termina completamente. Na verdade, essa sessão durou apenas das 10:40 da manhã às 3:00 da tarde. Considerando que Aldous tinha tomado uma dose pequena, mais tarde nós nos perguntamos por que ela tinha tido um efeito tão grande.
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1 Collected essay. (Ensaios reunidos.)
Naquela manhã, depois do café, fomos para meu aparta-mento-estúdio, onde não seríamos perturbados. O estúdio está praticamente sem mobília. O chão é coberto por um felpudo tapete branco – parece grama branca, e é agradável sentar-se nele. Como sempre, mas especialmente para uma sessão psicodélica, havia flores e frutas frescas. Aqui e ali, pontilhando a amplidão branca, havia bambus frescos, conchas, livros de arte, discos e alguns galhos de acácia dourada que tinha acabado de florir em nosso jardim meio queimado. No nicho na sala de estar havia estantes sem pintura, uma grande peça de madeira sem pintura que servia de escrivaninha, um gravador, e duas poltronas pequenas.
As 10:40 Aldous tomou 4 mg de psilocibina.
Há um período de meia hora a mais ou menos duas horas entre a ingestão da psilocibina e o início de seu efeito. Geral-mente durante esse período nós conversávamos ou contemplávamos quadros; mais freqüentemente ouvíamos música – ou não fazíamos coisa alguma. Nunca se sabe que direção essas experiências podem tomar. As vezes as “portas da percepção” são purificadas de repente, com um tranca; às vezes a purificação vem gradualmente, com descobertas cada vez maiores. Essas descobertas podem ser vislumbres psicológicos, ou podem ser feitas através de qualquer dos sentidos – é geralmente dos olhos que as vendas começam a se pulverizar.
Na sessão psicodélica o papel de um acompanhante é estar ali, inteiramente atento, e sem qualquer opinião preconcebida do que poderá acontecer. Um acompanhante tem que estar ao mesmo tempo completamente ali e completamente fora do caminho. As vezes a pessoa sente que devia estar ali na passividade mais in-tensa e alerta que conseguir – mas, paradoxalmente, estar ali invisível. No entanto, isso nunca aconteceu com Aldous. As sessões com ele sempre tinham sido fáceis, e eu sabia que ele me queria ali, visível e tangível.
Um acompanhante a uma experiência psicodélica não pode ter uma idéia preconcebida – mas não ter opinião alguma é uma coisa muito difícil. Naquela manhã eu estava pensando que essa sessão seria muito leve, já que a dosagem era tão pequena, e que seria semelhante às outras que eu tivera com Aldous – que ia modular-se da beleza e da presença intensa da vida para o amor em todos os níveis, o humano assim como o místico.
Surpreendentemente, Aldous pediu-me para desligar a música. Era Bach, provavelmente a Oferenda musical ou uma cantata.
Desliguei a vitrola, e enquanto me interrogava se Aldous gostaria de ouvir outra coisa qualquer, ele levantou-se do chão onde estava sentado e começou a caminhar pelo corredor que unia a sala ao quarto. Isso também nunca tinha acontecido antes. Aldous, como a maioria das pessoas numa experiência psicodélica, movia-se muito pouco, geralmente ficando no mesmo lugar pela maior parte do dia.
Caminhei um pouco com ele, tentando sentir o que ele estava sentindo. Ele parecia preocupado, e havia nele uma sensação de agitação, e – também muito incomum – ele estava resmungando alguma coisa em voz baixa e pouco clara. A princípio não consegui entender o que ele estava dizendo. Depois entendi as palavras “Confusão – confusão terrível”. Tornei a caminhar ao lado dele – havia uma agitação incomum em seus movimentos, sua expressão, nas meias frases que ele dizia. Depois de algum tempo, quando perguntei “Onde é essa confusão?”, ele disse que era na vida após a morte; acho que mencionou a palavra ‘limbo’. Ele estava entrando em contato, ou sendo, ou sentindo, um mundo incorpóreo no qual havia uma apavorante confusão.
Nas sessões psicodélicas geralmente há longos períodos, às vezes de horas, em que não se diz uma só palavra. A música, ou às vezes o silêncio, é a maneira venenos inadequada de exprimir o inexprimível, a melhor maneira de não nomear o inominável. Mas eu conhecia esses momentos de êxtase, pois eles se refletiam no rosto de Aldous – e mesmo nesses momentos Aldous dizia uma ou duas palavras. Mas aquela era uma situação diferente. Aldous não estava tendo uma experiência extasiante – estava atravessando algo muito intenso, de grande importância mas não agradável. Ele não parecia estar disposto ou ser capaz de colocá-lo em palavras. Esse estado durou talvez meia hora. Depois, subitamente, ele disse: “Agora está tudo bem – está tudo bem.” Seu rosto mudou; ele sentou-se na poltrona perto do gravador; aquele outro mundo tinha-se dissolvido de repente. Ele parecia bem, e eu podia sentir que ele agora estava pronto para falar sobre sua experiência. Sua mente se encontrava em alto nível de atividade.
PRIMEIRAS PALAVRAS DE ALDOUS NA FITA:
“Sabe, isso é... eu estava pensando em um de seus títulos... isso é uma das maneiras de tentar fazer cubos de gelo com água corrente, não é? Fixar alguma coisa e tentar rnantê-la... clara, é sempre errado.”
Achei que ele estava dizendo que era errado fixar suas impressões em fita.
LAURA: Bem, vamos desligar o gravador.
Aldous: (imediatamente, e com muita ênfase) : Não, não, não estou falando disso. Estou falando que a luz pura é o maior cubo de gelo de todos, o cubo de gelo definitivo.
Aldous estava se referindo a uma de minhas “Receitas para Viver e Amar”, que tinha requerido muitas alterações. O título da receita é: "Não Tente Fazer Cubos de Gelo com um Rio Cor-rente”.' Seu conceito é de que nossos organismos estão continua-mente mudando, num mundo em mutação contínua; que a essência da vida é sua fluidez, sua capacidade de mudar, de fluir e tomar um novo rumo; que o problema é que às vezes, geralmente inconscientemente e sem querer, nós congelamos uma parte dessa vida que flui em um “cubo de gelo”. Na receita, são dados exemplos ilustrando como isso pode ser pernicioso; depois há instruções para descongelarmos esses “cubos de gelo” que aprisionam nossa vida e energia. Para resumir, “cubo de gelo” refere-se ao efeito duradouro e congelante de uma experiência superemocional de dor, raiva ou medo, em suas variadas e numerosas manifestações, e que fica inexprimida. Aldous tinha me ajudado com a receita, e a frase “cubos de gelo num rio corrente" era uma expressão muito usada por nós.
Aldous: A luz pura. Este é o maior cubo de gelo de todos. É o cubo de gelo definitivo.
A Luz Pura. A Luz Clara do Vazio. A experiência de Divindade. Experiência mística. A experiência máxima... Quantos nomes, através dos séculos e em todas as diversas culturas, foram dados a esse estado para o qual o mais sofisticado dos mestres da palavra diz que não há palavras! Eu me lembro de Aldous ter dito que Santo Agostinho, que escreveu volumes de tratados básicos à teologia católica, no fim de sua vida teve a experiência da Luz Pura – e nunca mais escreveu uma palavra. Em A ilha Aldous descreve essa experiência como “compreensão sem conhecimento, contentamento luminoso”.
Laura: Você pensou que ia ter isso (a Luz Pura) hoje?
Aldous: Ora, se eu quiser, eu posso! Mas quero dizer que é muito bom perceber que é só a – vamos dizer assim – a imagem no espelho dessa outra coisa. É só essa confusão total – quero dizer, se a pessoa conseguir imobilizar essa confusão total pelo tempo suficiente, então ela se torna a confusão pura e única – luz pura.
Laura: Se a pessoa conseguir imobilizá-la? Que quer dizer isso? Aldous:A gente pode imobilizá-la, mas ela não é a coisa real – a gente pode permanecer uma eternidade nessa coisa com a exclusão do amor e do trabalho.
LAURA: Mas essa coisa devia ser amor e trabalho.
Aldous: (com ênfase): Exatamente! Quero dizer que é por isso que ela é errada. Como eu estava dizendo, isso ilustra que não podemos fazer cubos de gelo de um Rio Corrente. A gente pode conseguir fazer cubos de gelo... esse é o maior cubo de gelo do mundo. Mas a gente provavelmente pode prosseguir para – oh, não se pode prosseguir para sempre, mas por enormes períodos de tempo – no que parece [esta palavra foi muito enfatizada] ser eternidade, estando em luz.
Em seus últimos anos, Aldous colocou cada vez mais ênfase no perigo de viciar-se na meditação apenas, no conhecimento apenas, na sabedoria apenas – sem amor. Agora mesmo ele tinha experimentado a tentação ao vício em uma coisa ainda mais alta: o vício em estar na luz e ficar lá. “Ora, se eu quiser, eu posso!”, ele tinha dito. Ficar nessa consciência extasiante e afastar-se da participação e o compromisso com o resto do mundo – isso é perfeitamente traduzido hoje, numa gíria forte, na ex-pressão “cair fora” (dropping out).
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2 You are not tee target (Você não é o alvo) (New York, Farrar, Strauss and Giroux, 1963), capítulo 23.
Aldous: (continuando): Isso nega completamente os fatos: é moralmente errado; e finalmente, é claro, absolutamente catastrófico.
“Absolutamente catastrófico.” Essas duas palavras são ditas com a convicção mais sincera e profunda. A voz não foi erguida, mas cada letra está como se esculpida num brilhante bloco de mármore de Carrara – e continua esculpida na alma de quem quer que as ouça. É uma declaração definitiva: não se pode isolar-se dos companheiros e do ambiente, pois não existe salvação particular; pode-se “ficar preso” na Luz Pura, em vez de infundi-la em “Amor e Trabalho”, que é a solução direta para a vida de todos, aqui e agora. Amor e Trabalho – se eu tivesse que resumira essência da vida de Aldous, eu não conseguiria encontrar uma maneira mais precisa de exprimi-la.
Depois das palavras “absolutamente catastrófico”, a fita corre em silêncio por algum tempo. E então há uma completa mudança d= estado de espírito. Um sorriso terno e envolvente aparece na voz de Aldous, o meu sorriso. Ele passa através da voz, criando uma atmosfera de amor e surpresa divertida, mas, acima de tudo, de ternura.
Aldous: Não sei como você arranjou todas essas coisas, querida. (Riso). O que é que aconteceu nesse seu crânio duro, duro – como entram essas idéias extraordinárias?
Ele sempre ficava muito feliz quando eu inventava alguma coisa, e estava voltando agora à receita do cubo de gelo.
LAURA: Pelo menos a dos cubos de gelo eu me lembro muito bem, Estava dando LSD a [...] e fiquei com essa sensação...
Eu estava praticamente vendo uma torrente de água – sabe, um rio, – e ele estava tentando tirar uma lógica disso – de modo que ele pudesse mostrar que todas aquelas pessoas mentiam, sabe...
ALDOUS: (interrompendo com uma risada calorosa) : Claro que mentem!
LAURA: E eu tive a impressão de que ele estava racionalizando água, ou até mesmo tentando congelar um pedaço desse rio corrente e fazer cubos de gelo dele...
.Aldous: (ainda rindo, e tocando em minha testa) : Mas você tem tantas idéias. Obviamente, esse crânio terrivelmente duro tem um buraco em algum lugar. (Bastante riso).
Laura: Espero que sim. Aldous (depois de um silêncio) : É certamente muito impressionante.
Ter “um buraco no crânio” tem significados diferentes para pessoas diferentes. Aldous queria dizer aqui que essas idéias doíam ter fluído para dentro de minha cabeça e não para fora. Especialmente depois de suas experiências psicodélicas, Aldous mencionava com frequência a teoria de Bergson – que nosso cé-rebro e nosso sistema nervoso não são a fonte de nossas idéias, mas sim uma válvula redutora através da qual a Mente Integral pinga apenas o tipo de informação que é necessária para que sobrevivamos neste planeta. Uma distensão temporária da válvula, ou “um buraco na cabeça”, permite que um fragmento da Mente Integral flua para dentro – isso é o que normalmente chamamos inspiração. Em As portas da percepção, onde Aldous relata sua primeira experiência psicodélica, ele fala bastante sobre essa teoria de Bergson e diz que ela devia ser seriamente levada em consideração.
Há um silêncio na fita e então o diálogo continua, num tom pensativo e sério.
Laura: Não me lembro se lhe disse, ou se sonhei que lhe disse – já lhe falei da frase que gira na minha cabeça esses dias, “Eu sou mil pessoas”?
Aldous: Não, você não me falou.
Laura: Mas isso também não facilita coisa alguma.
Aldous: Não, obviamente. E quando não há uma ancoragem em parte alguma – quando para voltar para depois da morte, quero dizer, não haverá ancoragem...
Laura: Ah, sim, estou entendendo.
Aldous estava pensando a respeito, e pondo em palavras, a experiência que tinha tido um pouco antes, quando estava caminhando pelo corredor. Ele tinha experimentado o estado incorpóreo de Após a Morte, onde há uma sobrevivência da consciência, mas não do corpo como o conhecemos,
Aldous: Então, quando houver mil pessoas correndo em direções diferentes – quero dizer, de qualquer maneira... (então, bem baixinho) seu cabelo tem o mesmo cheiro das acácias... sua cabeça é muito sólida (tocando em minha cabeça) porque a questão é: quando não houver nada como isto...
– Isto – um corpo tangível, algo para ver, ouvir, cheirar, tocar – em contraste com esse outro estado de ser, que ele tinha experimentado antes, onde havia sentimentos e pensamentos, mas não percepções, sentidos ou formas sólidas como estamos acostumados.
Laura: Quando não há coisa alguma em que se segurar...
Aldous: Há mil pessoas diferentes indo em mil direções diferentes: e é disso que você tem um vislumbre agora. E isso, natural-mente, é o que é tão terrível, mas acho que sei – (E, depois de uma pausa com profunda convicção) mas eu sei que sempre haverá – e isso é que eu digo que é a experiência extraordinária – pelo menos há alguém lá que sabe que há mil outras pessoas indo em direçôes diferentes – que há uma sanidade fundamental no mundo, que está sempre lá apesar das mil pessoas indo em mil direções diferentes. E enquanto estamos no tempo e no espaço, rodeados pela gravidade, somos controlados a um ponto considerável. (Eu gostaria de poder descrever a profundidade da voz de Aldous aqui, a sensação de admiração.) Mas ter um vislumbre do que é quando não há qualquer controle exceto esse conhecimento fundamental – quero dizer que é aí que o bardo está certo.
Aldous está-se referindo ao Livro Tibetano dos Mortos, ou Experiência Após a Morte no Plano Bardo. Ouvi falar desse livro pela primeira vez através de Aldous, alguns dias depois da morte de Maria. Em resposta a um bilhete meu ele tinha me convidado para almoçar e dar um passeio. Ele conhecia inúmeros caminhos pelos campos, bem no meio de Los Angeles e não muito longe de sua casa, de modo que depois do almoço fomos passear a pé no Laurel Canyon. Eu tinha muitas perguntas em mente, sobre Maria, e ele as respondeu sem que eu lhe perguntasse, contando-m tudo o que tinha acontecido depois que tínhamos nos conhecido em Roma no verão.
Ele disse que nas últimas horas de vida de Maria ele tinha falado com ela, encorajando-a a ir em frente, como no Bardo. “Que é isso?” perguntei. Ele então me falou sobre o Bardo – ou plano intermediário seguinte à morte do corpo, como é descrito no Livro Tibetano dos Mortos, explicando que nesses antigos ensinamentos a pessoa moribunda é encorajada a continuar – ir mais longe – não se preocupando ou se perturbando com esse corpo atual, ou com parentes ou amigos ou negócios incompleto,s, mas ir para um estado ampliado de consciência.
Em seguida ele disse que o Livro Tibetano dos Mortos é tanto um manual sobre a Arte de Viver quanto da Arte de Morrer. OS sobreviventes são aconselhados a pensar no ente amado e em sua necessidade e destino nesse seu novo estado de consciência, em vez de estar completa e egocentricamente envolvidos com o próprio sofrimento. “Continue. Vá em frente” – para ambas as consciências, aquela que ainda está usando o corpo e aquela cujo corpo está sendo descartado – este é um conselho sensato e compassivo. “Continue. Vá em frente.”
Quantos de nós estão caminhando por aí, não inteiramente vivos porque parte de nós não foi em frente mas morreu com Mamãe ou Papai ou outra pessoa amada – às vezes, até mesmo um animal de estimação? O aterrorizante e incompreensível fato da morte é suficientemente difícil de aceitar e assimilar mesmo com o ensinamento mais esclarecido, mesmo com o encoraja-mento mais cálido e tangível – quanto mais quando não há ajuda em entender, ajuda em aceitar, em falar sobre a morte. Como é que se pode começar a entender a morte, quando ela é um assunto quase proibido na boa educação? O sexo é agora um tópico de conversa aceitável; a morte ainda é varrida para debaixo do tapete, ainda trancada no calabouço, como os loucos o eram há não muito tempo.
Aquele primeiro passeio depois da morte de Maria permaneceu marcado em mim. Eu tinha vagamente ouvido falar nessa maneira nobre e sábia de lidar com a morte, como uma doutrina esotérica. Agora Aldous, chocado e pálido, mas inteiramente vivo, estava me dizendo como ele tinha aplicado esse conhecimento; como ele tinha encorajado Maria a partir sem preocupação ou arrependimentos. Enquanto ele falava, durante aquele passeio, eu comparava minha própria experiência da morte: os ritos lúgubres, cantando tragicamente o pecado, o fogo do inferno e a danação eterna; a 1astimável súplica por piedade, a uma divindade distante, divindade alternadamente irada e cheia de perdão; enquanto nós, os sobreviventes, presos no sofrimento e completamente centralizados nele, mal pensávamos na pessoa morta a não ser em relação à nossa angústia. O triste pensar que a preocupação e o dinheiro gastos com cadáveres na América seriam suficientes para alimentar milhões de crianças; suficientes para transformar vidas de delinqüência e desespero em vidas de dignidade humana e felicidade.
Aldous continuou a me contar, durante aquele primeiro passeio depois da morte de Maria, como ele a tinha levado o mais longe que pôde. Ele estava abalado como qualquer ser humano que perdeu uma amada companheira de toda a vida; no entanto, na hora da morte dela, ele tinha sido capaz de desviar sua atenção da dor de perdê-la e dirigir essa atenção e a dela também para o fato mais importante – a sanidade fundamental da qual ele fala em toda experiência psicodélica – e nesta também.
A fita continua.
Aldous: O Bardo está certo. Sabe, a gente tem que estar consciente dessa coisa e agarrar-se a ela para salvar a vida – caso contrário, a gente fica inteiramente dentro de um redemoinho moais: Sim. Mas quantas pessoas sabem disso?
Aldous: (com grande ênfase) : Exatamente! Mas é por isso que eles dizem que realmente devíamos começar a nos preparar para isso. (Aldous estava falando da preparação para a morte). E devo dizer que acho terrivelmente importante que através desses conhecimentos que recebemos através desses cogumelos ou seja o que for 3 a gente compreenda um pouco do que se trata. Acho que a experiência mais extraordinária é saber que há toda essa insanidade que é apenas a multiplicação... a caricatura da insanidade normal que há. Mas que há uma sanidade fundamental que está lá apesar de todas as coisas aterrorizantes – e também não realmente aterrorizantes, mas às vezes extasiantes, coisas maravilhosas. A gente não deve ir para o céu, como eles sempre falam.
Outra e outra vez! Não cair fora do Amor e do Trabalho, até mesmo de uma sociedade insatisfatória, para a segurança pessoal isolada da Luz Pura com ou sem psicodélicos. “Como eles sempre falam” – Aldous está se referindo aos budistas mahayana, para quem o Bodhisattva é a mais elevada forma do homem: tal homem não chafurda em sua salvação particular, mas vive e participa das atividades do mundo, por compaixão por aqueles que ainda não atingiram a iluminação.
Eu queria saber mais coisas a respeito de não ir para o céu.
Laura: A gente não deve ir para o céu?
Aldous: A gente não deve ir para o céu. É igualmente perigoso.
É temporário – e de alguma forma a gente quer se agarrar à verdade suprema das coisas.
Laura: À. verdade suprema das coisas?
Aldous: Bem, eu quero dizer... a luz total do mundo, eu acho, que está no aqui e agora que nós experimentamos. É naturalmente o corpo-mente. Mas quando se está liberado do corpo tem que haver algum equivalente experimental do corpo, alguma coisa tem que ser agarrada... Não sei.
Laura: Então, a que a gente se agarra?
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3 Os “cogumelos sagrados” (Psilocpbe mexicana), de que a psilocibina é a síntese química – ‘ou seja o que for”, significando matérias psicodélicas em geral. [Nota de L. Huxley.]
Aldous: Tudo o que se pode dizer é que a gente se agarra a essa sanidade fundamental, que, como eu disse, é garantida, enquanto a gente está no corpo, pelo fato do espaço e do tempo e da gravidade, e das três dimensões e todo o resto. De alguma forma, quando a gente se livra dessas âncoras...
No Livro Tibetano dos Mortos, somos freqüentemente avisados desse perigo de ir para um céu ou inferno fantasmagórico, ilusório. O guia (ou guru) explica que nesse estado incorpóreo os nossos pensamentos e sentimentos parecem tomar forma concreta. Pensamentos são coisas. A pessoa morta vê essas coisas e se não for ajudada, fica presa nelas. Então, dizem-lhe continuamente que essas aparições são apenas alucinações – são as uma projeção de sua consciência – e que ela tem que adiante sem se envolver nelas, sem repulsa ou atração; que ela tem que entender que são apenas coisas que ela mesma criou.
O conselho é continuamente repetido: “Oh, Nobre de Berço! Não deixeis vossa mente ser confundida!”. Similarmente, a primeira 'e a última palavra em A ilha é “Atenção”. É a primeira palavra que o confuso e ferido viajante que veio do Ocidente – o homem que não aceitava um sim como resposta – ouve nessa Ilha, cantada pelo pássaro maiaá; uma maneira encantadora em que o romancista sintetiza numa única palavra uma mensagem antiga e vital para todos: Atenção.
ALDOUS: (continuando) : Mas há um equivalente de alguma espécie, que tem de ser agarrado. Caso contrário, o mundo à nossa volta é tênue e se torna – qual é a palavra? – Pretas, o mundo dos fantasmas sem descanso. A pessoa vai para o inferno, e então, em desespero, tem que voltar correndo e arranjar outro corpo.
Laura: Para tornar a se agarrar?
Aldous: Para tornar a se agarrar. Bem, obviamente esta é a melhor coisa, se a pessoa não conseguiu o bem supremo. Mas todos disseram claramente que há alguma coisa que é o equivalente – novamente, nessa extraordinária doutrina do Cristianismo, a ressurreição do corpo, e por fim a imortalidade, vai ter algo como o corpo preso a ele. Não sei o que isso significa, mas obviamente não se pode dar um significado comum a isso. Mas a gente vê exatamente o que eles estavam querendo – uma idéia de que de alguma forma temos que arranjar um equivalente, um nível mais alto, dessa ancoragem que o tempo, o espaço e a gravidade nos dão. E que pode ser conseguida. Como eu disse, nessa estranha experiência a pessoa tem a sensação de que existe essa sanidade fundamental, apesar de toda a confusão e as bobagens disparatadas que estão acontecendo – e que são irrelevantes para a pessoa – e que nada têm a ver, de um modo estranho, embora possam parecer muito, muito importantes. (Silêncio, e depois:) muito importante, se a pessoa consegue, enquanto está acontecendo, se a pessoa consegue ver a aparência externa disso. É obviamente importante cuidar de seus negócios de um modo sensato e ver sua importância, de um modo tolo, mas se a pessoa consegue, através disso tudo, ver esse outro nível de importância, à vista disso muitas das atividades deverão ser cortadas. Não parecerá haver sentido em desempenhá-Ias – embora muitas tenham de ser desempenhadas, mas elas serão desempenhadas de um modo novo – com uma espécie de alheamento, porém com um fazer coisas até o limite de cada um. Este é outro dos paradoxos: trabalhar até o limite para ter sucesso no que está fazendo, e ao mesmo tempo estar alheio a isso – se não tiver sucesso, ora, que pena – e se tiver sucesso – tant mieux – nâo tem que exultar por causa disso. Essa é a história inteira do Bagavad-Gita: de algum modo, fazer tudo com paixão mas com alheamento...
LAURA: Paixão e alheamento...
Paixão e alheamento. Há muitos anos, antes de eu ter ouvido falar nessas filosofias, com que paixão eu ansiava pelo alheamento! Esse era o ideal que eu tinha me proposto como musicista; tocar com tudo o que eu tinha, arder de paixão, mas manter uma pureza e um alheamento cristalinos na perfeição técnica e estilística. E nesses últimos anos de trabalho e exploração psicológicos, eu tinha visto, em minha vida e meu trabalho cotidianos, dentro e fora de mim, todos os tipos e graus de paixão apenas ou de alheamento apenas – mas como é rara a fusão das duas coisas!
No Bagavad-Gita, o herói Arjuna é um grande guerreiro, e Krishna, ou Encarnação do Espírito Supremo, é seu guia. Arjuna é informado de que tem que lutar com toda a sua força e a sua coragem – mas tem que estar alheio à luta.
Se olharmos para dentro e em volta, podemos ver muitas maneiras pelas quais essa luta é levada a efeito, e três delas são as mais conspícuas. Uma é a maneira do guerreiro que, estando internamente descontente, ressentido e punitivo, é química e psicologicamente compelido a lutar. Ele tem que ser contra; ele tem que dar e aceitar um não como resposta mesmo se – às vezes, especialmente se – sua vantagem está no sim. Ele está combatendo um inimigo externo que frequentemente é só uma sombra refletida do inimigo interno; mesmo quando o inimigo externo é conquistado, o interno é apenas temporariamente apaziguado. Depois, há outra espécie de lutador: o homem que se desenco-raja com facilidade, que permanece passivo em vez de arriscar a possibilidade de perder; supercauteloso e cheio de suspeita, ele se engana, em vez de enfrentar os problemas e as decisões. Há ainda outro tipo de lutador, aquele de quem Krishna fala. Encontramos esse tipo também – mas como é raro! Ele é aquele que luta apenas depois de uma avaliação ética do assunto e de seus próprios motivos fundamentais. Sem se preocupar com vit'-ria ou derrota, há nele uma paz interior. Esse guerreiro, liberado dos demônios subconscientes, de mente clara, controlado, pode parecer, externamente, implacável, decidido, até mesmo furioso; por dentro, ele é invulneravelmente harmonioso.
No Gita esses três tipos de homens são descritos assim:
Aquele que age sem desejo,
Que não se vangloria de seu feito,
Que é ardente, resistente,
Intocado pelo triunfo,
Imperturbado pelo fracasso:
Ele é um homem de sattwa (a energia da inspiração)
Aquele que age com desejo,
Ardendo pelo prêmio da glória vã,
Brutal, ambicioso e traidor
Regozija-se depressa demais no triunfo,
Desesperando-se no fracasso:
Ele é um homem de rajas (a energia da ação).
Aquele que age indiferentemente,
Cujo coração não está em seu feito,
Estúpido e teimoso,
Um embusteiro, e malicioso,
O ocioso amante do atraso,
Facilmente desalentado:
Ele é um homem de 4 tamas (a energia da inércia).
Aldous estava-se referindo ao homem que luta com a energia da inspiração (sattwa).
Aldous: A pessoa pode ver o que é – ela não está envolvida, mesmo que esteja envolvida até o limite. Que parte dela não está envolvida? Mas não adianta tentar fazer uma análise, porque, como sempre, é um paradoxo e um mistério.
Laura: Mas mesmo se...
ALDOUS: A gente começa a entender isso, que isso é o principal problema.
Houve muitas pausas nessa conversa. A maioria das palavras era formulada lentamente, num esforço de esclarecer realidades às quais a maioria de nós está desacostumada. Aldous vinha falando baixa e pensativamente. Apesar da má qualidade da gravação, que é com freqüência prejudicada pelo ruído dos carros e pela estática, pode-se sentir que a atmosfera está impregnada de pensamentos e descobertas. Agora há uma pausa, depois alguns ruídos – estamos tirando lenços de papel de uma caixa.
Então:
ALDOUS: Meu nariz está escorrendo. (Agora o estado de espírito e a voz mudam completamente, tornam-se leves, e há uma risada divertida na voz de Aldous.) Uma ótima lembrança de que a maior filosofia está inextricavelmente ligada a narizes escorrendo. Uma das coisas de que deviam ter falado no Evangelho. Obviamente ele estava numa montanha – o Sermão da Montanha – devia ser muito ventoso e frio lá em cima. Com certeza o nariz dele escorria mesmo.
Não há na voz qualquer intenção iconoclasta – apenas uma risadinha e uma reafirmação da convicção de Aldous de que tudo está ligado a tudo o mais, e que não devíamos nos esquecer disso; não importa em que alto plano da espiritualidade nós habi-temos, ainda estamos presos pela lei da natureza, também tenho certeza de que Aldous percebeu, naquele momento, que vinha falando gravemente por um bom tempo – era natural para ele, graças a Deus, tornar a gravidade leve com encanto e humor.
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4 The song of God: Bhagavad-Gita (A canção de Deus: Bagavad--Gita). Traduzido para o inglês por Swami Prabhavananda e Christopher Isherwood, com introdução de Aldous Huxley (New York, New American Library, 1954).
Laura: (depois de um silêncio) : Mas é muito difícil. Como é que a pessoa se prepara para a morte? Tudo isso parece, como você disse, tornar isso muito...
ALDOUS: Acho que a única maneira pela qual se pode preparar para a morte... você entende que, bem, afinal, toda a sua psicoterapia é, num certo sentido, uma preparação para a morte, pois você morre para as lembranças que deixou que a perseguissem como se estivessem no presente: “Deixe os mortos enterrarem seus mortos.” É óbvio que o modo completamente saudável de viver é “suficiente para o dia é o mal dele”.
Aldous com frequência citava essas palavras, que foram a maneira de Cristo dizer “Viva aqui e agora”. Ele sugeriu que eu colocasse essa citação em minha receita “Deite o Fantasma”, que trata do problema de lembranças emocionais que nos perseguem e interferem em nosso presente. Ele achava que o que Cristo disse ao homem que queria enterrar seu pai, “Siga-me, e deixe que os mortos o enterrem”, era a maneira mais forte de dizer “Viva aqui e agora”. A pessoa não devia se preocupar com o passado ou o futuro, já que cada dia tem problemas suficientes. Esse prin-cípio ele também vivia – ou podia fazer alguma coisa aqui e agora a respeito de um problema, ou não permitiria que esse pro-blema interferisse com o aqui e agora.
Aldous: A pessoa aceita isso sem ficar obsedada pelo que está no passado – ela morre para ele. A preparação para a morte definitiva é estar consciente de que sua forma de vida mais alta e mais intensa está acompanhada e condicio-nada por uma série de pequenas mortes todo o tempo. Te-mos que estar morrendo para essas lembranças obsessivas. Quero dizer, novamente o paradoxo é ser capaz de lembrar-se com extrema clareza, mas não ser perseguido.
Aldous está falando aqui da diferença entre as duas memó-rias, a memória informática e a memória emocional. A memó-ria informática é essencial para nós, para nossa vida cotidiana. A memória emocional tem uma qualidade mais sutil, mais po-derosa e, às vezes impregnante; especialmente quando inconscien-te, ela pode nos perseguir com fantasmas de nosso passado emo-cional, roubando-nos a energia e a atenção de que necessitamos aqui e agora.
Aldous: Bem, elas têm que se encontrar, eu acho, em algum – o que é chamado entre aspas “o Espírito”, como nós encontramos normalmente nesse nível inconsciente-subconsciente.
E elas também se encontram no nível superconsciente, que, é claro, contém completamente o inconsciente. (Pausa) E isso seria certamente o ensinamento dos Bardos – essas mil figuras – elas podem se encontrar do modo errado, que é por... até o ponto da confusão através do cubo de gelo, ou podem se encontrar através do reconhecimento do supremo no espírito, naquele nível.
Isto é uma repetição do que Aldous tinha dito no início: ou há um encontro naquela aterrozizante confusão de pensamentos e emoções turbilhonando sem a segurança de um terreno comum que é o corpo – ou há um encontro na consciência dessa sanida-de-do-mundo fundamental que ele sentia tão intensamente.
ALDOUS: E é por isso que eles todos dizem que a pessoa tem que trabalhar bastante, e tentar perceber esse fato – e um dos modos de perceber isso é – afinal, naquele pequeno Zen flesh, Zen bone 6 (Carne Zen, ossos Zen) – a preparação é através desses exercícios de consciência. Isso mais ou menos leva ao terceiro nível de consciência.
Laura: Mas então, entre os dois extremos há tanta deriva...
Aldous: Há demasiadas maneiras de errar. Quero dizer, até as pessoas melhor intencionadas erram. (Silêncio longo.) Vou olhar para este Rembrandt – Na fita, ouvem-se ruídos confusos. Aldous estava folheando livros de arte – Rembrandt era para ele o maior de todos os pintores. Ouve-se a minha voz, do outro aposento, falando ao telefo-ne com Paula, a filha de Ginny, na época com onze anos, que não tinha ido à escola naquele dia. Depois ouvimos novamente a voz de Aldous. Desde o incêndio, nós estávamos morando com Ginny e seus dois filhos, e essa proximidade tornou muito concreto para Aldous o problema da educação. Ele estava vendo todos os dias a dificuldade de educar duas crianças numa cidade grande como Los Angeles. O problema tinha muitas facetas; ele mencionou um deles nessa conversa.
5 Paul Reps, Zen flesh, Zen bones (Carne Zen, ossos Zen) (Penguin Books, 1971).
Aldous: Se ela precisar de nós, querida, podemos voltar para lá.
Ela está sozinha? Com certeza não quer ficar sozinha. Talvez seja melhor irmos. (Silêncio.) Ela disse que queria escrever uma história, então eu lhe dei uma caneta. (Outro silèncio.)
Quando penso na coisa admirável que havia na minha escola de meninos.
LAURA: Uma rotina?
Aldous: Bem, quero dizer, tínhamos uma oficina de carpintaria.
Sempre podíamos passar nosso tempo livre lá quando tínhamos vontade, e isso era obrigatório duas ou três horas por semana. Havia um carpinteiro que era o zelador da escola, mas ele era um carpinteiro com experiência. Fizemos todos os exercícios que o aprendiz tem que aprender – quase até o trabalho do mestre. Isto é o que “obra-prima” quer dizer. 6 O aprendiz aprende todas as coisas, e finalmente faz sua prova final como Ph.D.
LAURA: É mesmo?
Aldous: No caso de um carpinteiro, haveria todos os diferentes tipos de encaixes, malhetas, e assim por diante – várias coisas colocadas juntas.
LAURA: O que é muito difícil.
ALDOUS: Muito difícil. Sabe, todas as superfícies tinham que ser absolutamente planas – a gente aprendia a aplainar com perfeição.
LAURA: Você fazia isso?
ALDOUS: Sim. Sim, nós fazíamos todos os diferentes tipos de encaixes, malhetas, e assim por diante – exatamente como um aprendiz medieval teria feito.
Laura: Bem, mas...
Aldous: Então, quando tínhamos feito todas essas espécies de exercícios, então nos permitiam fazer o que quiséssemos – fazer um martelo ou uma caixa, ou uma estante – e nós fazíamos – mas sempre com o melhor padrão de qualidade. Quer dizer, não havia possibilidade dessas coisas serem pregadas com pregos; eram sempre feitas por meio de encaixes.
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6 “Obra-prima”, em inglês “masterpiece”, literalmente “peça de mes-tre”, ou seja, de quem não é mais um aprendiz. (N. da T.).
Laura: Mas aqui eles não fazem isso – nem mesmo os carpinteiros profissionais.
Aldous: Um bom trabalho de marcenaria ainda é feito assim, mas naturalmente hoje em dia não é realmente – quer dizer, é bem diferente.
Laura: Mas nessa escola eles não fazem coisa alguma; passam a tarde inteira lá correndo de um lado para outro.
Aldous: Bem, um dos problemas é o salário. Quer dizer, havia esse homem excelente que fazia todos os trabalhos avulsos na escola, mas que era um artesão dos velhos tempos, que passou por tudo isso. Mas era um homem muito vivo: era um prazer estar com ele. E sabia conversar, e tinha expressões maravilhosas – como quando afiava uma ferramenta, dizia: “Agora está suficientemente afiada para cortar os bigodes de um rato sem acordá-la.” Mas tudo isso já passou. Mas o que não devia ter passado é a idéia perfeitamente sensata de dar aos garotos algo para fazer.
Laura: Quer que eu faça uma sopa? Você gostaria de sopa?
Aldous: Sim, seria ótimo.