Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 18 - 1956 Admirável Mundo Novo Revisitado
Capítulo 18
1956
Admirável Mundo Novo Revisitado
ALDOUS HUXLEY
Entre julho de 1955 e abril de 1957 Huxley produziu um ensaio mensal para a revista Espire, escrevendo sobre uma grande variedade de tópicos sob o título de “Do Estuda de Aldous Huxley”. A seguinte análise retrospectiva trata das previsões feitas em seu famoso romance publicado um quarto de século antes, e arrisca novas especulações sobre o futuro da civilização. “O Soma de Admirável Mundo Novo não é mais um sonho distante”: os tranqüilizantes Miltown, Equanil, etc. possuem muitas das mesmas características. O desfecho é a “droga de escolha’ – uma expressão profética de uma idéia que iria tornar-se um lugar-comum no final dos anos 60. As drogas que Huxley achava mais interessantes eram a mescalina e o LSD, mas imaginava que “outros alteradores da mente, com propriedades ainda mais notáveis”, seriam desenvolvidos por cientistas.
A coisa mais triste que pode acontecer a um profeta é provarem que ele está errado; a segunda coisa mais triste é provarem que ele está certo. Nos vinte e cinco anos que se passaram desde que Admirável mundo novo foi escrito, passei por ambas as experiências. Os acontecimentos provaram que eu estava tristemente errado e tristemente certo.
Eis alguns dos pontos em que eu estava errado. No início da década de 30, Einstein tinha equiparado a massa à energia, e já se falava em reações em cadeia, mas os habitantes do Admirável Mundo Novo nada sabiam sobre fissão nuclear. Também no início da década de 30 nós sabíamos tudo sobre conservação e recursos insubstituíveis, mas seu suprimento de metais e combustível mineral era tão copioso no século VII depois de Ford quanto os nossos são hoje. Na realidade, a situação quanto às matérias-primas já será subcrítica em 600 DF e o átomo será a principal fonte de energia industrial. Novamente, os habitantes do Admirável Mundo Novo resolveram o problema populacional e sabiam como manter uma relação permanentemente favorável entre os números de homens e os recursos naturais. Na realidade, será que nossos descendentes conseguirão essa feliz consumação dentro dos próximos seis séculos? E se realmente a conseguirem, será por meio de planejamento racional, ou através da obra imemorial das pestes, da fome e da guerra mutuamente exterminadora? É claro que é impossível dizer. A única coisa que podemos predizer com uma certa certeza é que a humanidade (se seus governantes decidirem abster-se do suicídio coletivo) estará viajando a velocidades vertiginosas ao longo de um dos períodos mais perigosos e congestionados de sua história.
Os habitantes do Admirável Mundo Novo produziam seus filhos em fábricas bioquímicas. Mas, embora os bebês de proveta não estejam completamente fora de questão, é virtualmente certo que nossos descendentes vão, na realidade, permanecer vivíparos. O Dia das Mães não corre o perigo de ser substituído pelo Dia da Proveta. Minha previsão foi feita por motivos estritamente literários, e não como uma predição pensada sobre a história futura. Nesse assunto eu sabia de antemão que mostrariam que estava errado.
Da biologia passemos agora à política. A ditadura descrita em Admirável mundo novo era global e, a seu modo peculiar, benevolente. À. luz dos acontecimentos atuais e das tendências em desenvolvimento, suspeito com tristeza que nessa previsão também eu possa ter errado. É verdade que o século VII Depois de Ford ainda está bem distante, e é possível que, até lá, a dura necessidade econômica, ou o caos social resultante da guerra nuclear, ou a conquista militar por um Grande Poder, ou alguma pavorosa combinação de todos os três, forçará nossos descendentes a fazerem o que devíamos estar fazendo agora, par motivos de interesse próprio esclarecido e por simples humanidade – a saber, colaborar com o bem comum. Em tempos de paz, quando as coisas estão indo toleravelmente bem, não se pode esperar que as pessoas votem em medidas que, embora benéficas a longo prazo, terão algumas conseqüências desagradáveis a curto prazo. As forças divisórias são mais poderosas do que aquelas que fizeram a união. Interesses disfarçados em línguas, filosofias de vida, modos à mesa, hábitos sexuais, organizações políticas, eclesiásticas e econômicas são suficientemente poderosos para bloquear todas as tentativas, por métodos racionais e pacíficos, de unir a humanidade para seu próprio bem. E há também o nacionalismo. Com suas Cinqüenta e Sete Variedades de deuses tribais, o nacionalismo é a religião do século XX. Podemos ser cristãos, judeus, muçulmanos, hindus, budistas, confucionistas ou ateístas, mas permanece o fato de que há apenas uma fé pela qual grandes massas de nós estão preparadas para matar e morrer, e essa fé é o nacionalismo. O nacionalismo vai permanecer como a religião dominante da raça humana pelos próximos dois ou três séculos pelo menos, é o que parece por demais provável. Se for evitada uma guerra nuclear total, podemos esperar ver, não a ascensão de um único estado mundial, mas a continuação, em condições cada vez piores, do sistema atual, sob o qual estados nacionais competem pelos mercados e pelas matérias-primas e preparam-se para guerras parciais. A maioria desses estados provavelmente serão ditaduras. Isso é inevitável; pois a crescente pressão da população sobre os recursos vai tornar as condições domésticas mais difíceis, e a competição internacional mais intensa. Para evitar a falência econômica e reprimir o descontenta-mento popular, os governos dos países famintos serão tentados a criar controles mais estritos. Além disso, a desnutrição crônica reduz a energia física e perturba a mente. A fome e o autogoverno são incompatíveis. Mesmo onde a dieta média fornece três mil calorias por dia, é bastante difícil fazer funcionar a democracia. Numa sociedade cuja maioria de membros está vivendo com mil e setecentas a duas mil calorias por dia, é simplesmente impossível. A maioria desnutrida sempre será governada, de cima, pelos bem nutridos. A. medida que a população aumenta (dois bilhões e setecentos milhões de nós estão agora aumentando nosso número à média de quarenta milhões por ano, e esse aumento está aumentando de acordo com as regras do interesse conjunto) ; à medida que as exigências que crescem geometricamente pressionam cada vez com mais força as fontes de crescimento está-tico ou, na melhor das hipóteses, de crescimento aritmético; à medida que os padrões de vida são forçados a baixar e o descontentamento popular é forçado a elevar-se; à medida que a luta geral pelos recursos em diminuição torna-se cada vez mais feroz, essas ditaduras nacionais tenderão a tornar-se mais opressivas em casa, mais impiedosamente competitivas no estrangeiro. Diz um dos habitantes do Admirável Mundo Novo: “Governar é uma questão de sentar-se e não de golpear. Governa-se com o cérebro e as nádegas, não com os punhos.” Mas onde há muitas ditaduras nacionais em competição, cada uma delas com problemas em casa e cada uma delas preparando-se para uma guerra total ou parcial contra seus vizinhos, a tendência é preferir-se golpear a sentar-se, os punhos como instrumento de política ao cérebro e à “magistral inatividade” (para citar a frase imortal de Lord Salis-bury) dos traseiros. Na política, o futuro próximo tem mais probabilidade de se parecer com o 1984 de George Orwell do que com Admirável mundo novo.
Deixem-me considerar agora alguns dos pontos nos quais, eu temo, posso ter acertado. Os habitantes do Admirável Mundo Novo eram os herdeiros e os exploradores de um novo tipo de revolução, e essa revolução era, com efeito, o tema de minha fábula. Revoluções passadas sempre foram todas em campos exteriores ao indivíduo com um organismo psicofísico – no campo, por exemplo, da organização eclesiástica e do dogma religioso, no campo da economia, no campo da organização política, no campo da tecnologia. A revolução por vir – a revolução cujas conseqüências foram descritas em Admirável mundo novo – vai afetar homens e mulheres, não perifericamente, mas no próprio âmago de seus seres orgânicos. Os revolucionários mais antigos procuravam mudar o ambiente social na esperança (se eram idealistas, e não meros ambiciosos de poder) de mudar a natureza humana. Os futuros revolucionários atacarão diretamente a natureza humana como a encontram, nas mentes e nos corpos de suas vítimas ou, se preferirem, seus beneficiários.
Entre os habitantes do Admirável Mundo Novo, o controle da natureza humana foi conseguido por procriação eugênica e disgénica, por um condicionamento sistemático durante a infância e, mais tarde, por “hipnopedia”, ou instrução durante o sono. O condicionamento infantil é tão antigo quanto Pavlov, e a hipnopedia, embora rudimentar, já é uma técnica bem estabelecida. Fonógrafos com relógios embutidos, que os ligam e desligam a intervalos regulares durante a noite, já estão no mercado e são usados por estudantes de línguas estrangeiras, por atores com pressa de memorizar suas falas, por pais desejosos de curar os filhos de molhar a cama e outros hábitos indesejáveis, por indivíduos que procuram um aperfeiçoamento moral e físico através da auto-sugestão e “afirmações de pensamento positivo”. Que os princípios de procriação seletiva, condicionamento infantil e hipnopedia ainda não tenham sido aplicados pelos governos deve-se, nos países democráticos, à persistente convicção liberal de que as pessoas não existem para o Estado, mas que o Estado existe para o bem das pessoas; e nos países totalitários, ao que pode ser chamado conservantismo revolucionário – apego à revolução de ontem, em vez de à revolução de amanhã. Não há, no entanto, razões para acreditarmos complacentemente que esse conservadorismo revolucionário vai persistir indefinidamente. Em mãos totalitárias, a psicologia aplicada já está conseguindo resultados notáveis. Um terço de todos os prisioneiros americanos capturados na Coréia sucumbiu, pelo menos parcialmente, à lavagem cerebral chinesa, que derrubou as convicções instiladas por educação e condicionamento infantil e substituiu esses reconfortantes axiomas pela dúvida, a ansiedade e uma crônica sensação de culpa. Isso era conseguido por métodos inteiramente antiquados, que combinavam instrução direta com o que pode ser chamado de psicoterapia tradicional ao inverso, e não fazia uso de hipnose, hipnopedia ou drogas alteradoras da mente. Se todos, ou pelo menos um desses métodos poderosos tivesse sido empregado, a lavagem cerebral provavelmente teria tido sucesso com todos os prisioneiros, e não com apenas trinta por cento deles. Com seu modo vago e retórico, políticos e clérigos pregadores gostam de dizer que a luta atual não é material, e sim espiritual – um caso não de máquinas, mas de idéias. Eles se esquecem de acrescentar que a eficácia de idéias depende muito do modo como são inculcadas. Uma idéia verdadeira e benéfica pode ser ensinada com tanta inépcia que acabe sem efeito nas vidas de indivíduos e sociedades. inversamente, teorias grotescas e maléficas podem ser tão habilmente enfiadas na cabeça das pessoas que, cheias de fé, vão correr a mover montanhas – para a maior glória do demônio e para sua própria destruição. Nos tempos atuais o dinamismo das idéias totalitárias é maior que o dinamismo das idéias liberais, democráticas. Isso não se deve, é claro, à superioridade intrínseca das idéias totalitárias. Deve-se em parte ao fato de que, num mundo onde a população está ultrapassando rapidamente os recursos, torna-se necessário um controle governamental em escala cada vez maior. Deve-se também, em parte, ao fato de que os meios empregados para a disseminação das idéias totalitárias são mais eficientes, e são usados mais sistematicamente, do que os meios empregados para a disseminação de idéias liberais e democráticas. Esses métodos mais eficientes de propaganda totalitária, educação e lavagem cerebral são, como temos visto, bastante antiquados. Mais cedo ou mais tarde, no entanto, os ditadores vão abandonar seu conservadorismo revolucionário e, juntamente com ele, os métodos antigos herdados do passado pré-psicológico e paleofarmacológico. Então, que os céus nos ajudem!
Entre os legados do passado protofarmacológico devemos enumerar nosso hábito de, quando sentimos a necessidade de uma liberação da tensão, de umas férias mentais da realidade desagradável, beber álcool ou, se acontecer de pertencermos a uma cultura não-ocidental, de fumar haxixe ou ópio, de mastigar folhas de coca ou betel, ou qualquer outra do vasto número de drogas intoxicantes. Os habitantes do Admirável Mundo Novo não faziam qualquer dessas coisas; simplesmente mastigavam um tablete ou dois de uma substância chamada Soma. Isso, não é preciso dizer, não é o mesmo Soma mencionado nas antigas escrituras hindus – uma droga um tanto perigosa, derivada de uma planta até agora não identificada, nativa da Ásia Central, na parte sul – mas um sintético, possuindo “todas as virtudes do álcool e do cristianismo, e nenhum de seus defeitos.” Em doses pequenas, o Soma dos habitantes do Admirável Mundo Novo era um relaxante, induzindo à euforia e provocando sentimentos amistosos e solidariedade social. Em doses medianas ela transfigurava o mundo exterior e agia como um alucinógeno brando; e em doses grandes era um narcótico. Virtualmente todos os habitantes do Admirável Mundo Novo consideravam-se felizes. Isso se devia em parte ao fato de que tinham sido educados e condicionados para tomar o lugar destinado a eles na hierarquia social, em parte ao ensino durante o sono que os tornava contentes com o que tinham, e em parte ao Soma e sua capacidade de dar a eles férias de circunstâncias desagradáveis e seus egos desagradáveis.
Todos os narcóticos, estimulantes, relaxantes e alucinógenos naturais conhecidos do botânico e do farmacólogo modernos foram descobertos pelo homem primitivo e estão em uso desde os tempos imemoriais. Uma das primeiras coisas que o Homo sapiens fez com sua racionalidade e sua autoconsciência recém-desenvolvidas foi utiliza-las para encontrar meios de atalhar o raciocínio analítico e de transcender ou, em casos extremos, obliterar temporariamente a isoladora consciência do eu. Experimentando todas as coisas que cresciam no campo ou na floresta, eles se apegaram àquelas que, nesse contexto, pareciam boas – isto é, tudo que mudasse a qualidade da consciência e a tornas-se diferente, não importava como, dos sentimentos, das percepções e dos pensamentos cotidianos. Entre os hindus, a respiração ritmada e a concentração mental substituíram até certo ponto as drogas alteradoras da mente usadas em outros lugares. Mesmo na terra da ioga, mesmo entre os religiosos e mesmo visando a objetivos religiosos especiais, a cannabis indica tem sido usada livremente para suplementar os esforços dos exercícios espirituais. O hábito de tirar férias do mundo mais ou menos purgatorial, que nós criamos para nós mesmos, é universal. Moralistas podem denunciá-lo, mas, apesar dos discursos desaprovadores e da legislação repressiva, o hábito persiste, e as drogas alteradoras da mente estão disponíveis em toda a parte. A fórmula marxista “A religião é o ópio do povo” é reversível, e pode-se dizer, ainda mais verdadeiramente, que “O ópio é a religião do povo”. Km outras palavras, a alteração da mente, mesmo que produzida (seja por meios devocionais ou ascéticos ou psicoginásticos ou químicos), sempre foi considerada um dos maiores, talvez o maior, dos bens alcançáveis. Até o presente, os governos pensaram sobre o problema das substâncias químicas que transformam a mente somente em termos de proibição ou, um pouco mais realisticamente, de controle e taxação. Nenhum deles, até agora, estudou-o em sua relação com o bem-estar individual e a estabilidade social; e muito poucos (graças a Deus!) pensaram nele em termos de estadismo maquiavélico. Por causa dos interesses disfarçados e da inércia mental, insistimos em usar o álcool como nosso principal transformador da mente – exatamente como faziam nossos ancestrais neolíticos. Sabemos que o álcool é responsável por uma alta proporção de nossos acidentes de trânsito, nossos crimes de violência, nossos sofrimentos domésticos; no entanto não fazemos esforço algum para substituir essa droga antiquada e extremamente insatisfatória por algum novo alterador da mente, menos maléfico e mais esclarecedor. Entre os habitantes do Admirável Mundo Novo, a invenção pré-histórica de Noé, o licor fermentado, foi tornada obsoleta por um sintético moderno, planejado para contribuir para a ordem social e a felicidade do indivíduo, e a fazer isso com um mínimo de custo psicológico.
Na sociedade descrita em minha fábula, o Soma era usado como um instrumento de estadismo. Os tiranos eram benevolentes, mas ainda assim eram tiranos. Seus súditos não eram forçados à obediência; eram quimicamente coagidos a amar sua servidão, a cooperar de boa vontade e até mesmo entusiasticamente aa preservação da hierarquia social. Pelos maus e pelos ignorantes, qualquer coisa e tudo pode ser usado mal. O álcool, por exemplo, tem sido usado, em doses pequenas, para facilitar a troca de idéias em simpósios (literalmente, uma festa de bebida) de filósofos. Tem sido usado também, como os mercadores de escravos usavam, para facilitar o rapto. A escopolamina pode ser usada para produzir o “sono crepuscular”; pode também ser usada para aumentar a sugestionabilidade e amaciar prisioneiros políticos. A heroína pode ser usada para controlar a dor; pode também ser usada (como dizem que foi usada pelos japoneses durante a ocupação da China) para produzir uma dependência inutilizadora num adversário perigoso. Dirigida por pessoas erradas, a revolução que virá poderia ser desastrosa, a seu modo, como uma guerra nuclear e bacteriológica. Pelo uso sistemático de instrumentos psicológicos, químicos e eletrônicos já existen-tes (sem mencionar esses mecanismos novos e melhores que o futuro nos reserva), uma oligarquia tirânica poderia manter a maioria em sujeição permanente e voluntária. Essa é a profecia que fiz em Admirável mundo novo. Espero que provem que estou errado, mas estou amargamente temeroso de que provem que estou certo.
Enquanto isso, é bom frisar que o Soma não é intrinsecamente mau. Pelo contrário, uma droga que transforma a mente e é inofensiva e efetiva pode ser uma grande bênção. E, de qualquer maneira (como a História deixa claro), não há possibilidade de serem abolidas todas as drogas que transformam a mente. A opção com que nos defrontamos não é uma opção entre a Soma e nada; é uma escolha entre Soma e álcool, Soma e ópio, Soma e haxixe, ololiuqui, peiote, datura, agárico e todo o resto dos alteradores da mente naturais; entre o Soma e tais produtos. da química e da farmacologia científicas como o éter, o cloral, o veronal, a Benzedrina e os barbitúricos. Em urna palavra, temos que escolher entre uma droga total e mais ou menos inofensiva e uma grande variedade de drogas mais ou menos nocivas e apenas parcialmente efetivas. E essa escolha não vai ser adiada até o século VII Depois de Ford. A farmacologia está progredindo. O Soma de Admirável mundo novo não é mais um sonho distante. Aliás, algo que possui muitas das características do Soma já está entre nós. Refiro-me ao mais novo dos agentes tranqüilizantes – a Pílula da Felicidade, como os que a usam chamam-na carinhosamente, conhecida na América sob as marcas registradas de Miltown e Equanil. Essas Pílulas da Felicidade exercem uma dupla ação: elas relaxam a tensão da musculatura estriada e assim relaxam as tensões associadas na mente. Ao mesmo tempo atuam no sistema de enzimas do cérebro de tal maneira que previnem distúrbios surgidos no hipatálamo por causa da interferência no trabalho do córtex. No nível mental, o efeito é uma abençoada liberação da ansiedade e da emotividade voltada para si mesma.
Em minha fábula, o selvagem exprime sua convicção de que as vantagens do Soma devem ser pagas por meio de perdas nos mais altos níveis humanos. Talvez ele estivesse certo. O universo não tem o hábito de nos dar alguma coisa em troca de nada. Mas mesmo assim há muito a dizer em favor de uma pílula que nos possibilita assumir uma atitude, em relação às circunstáncias, de distanciamento, ataraxia, “santa indiferença”. O valor moral de um ato não pode ser medido exclusivamente em termos de intenção. O inferno está cheio de boas intenções, e temos que levar em conta os resultados. Um comportamento racional e bondoso tende a produzir bons resultados, e esses resultados permanecem bons mesmo quando o comportamento que os produziu foi, ele próprio, produzido por uma paula. Por outro lado, será que podemos substituir impunemente a autodisciplina sistemática por uma substância química? Ainda não se sabe.
De todas as drogas que alteram a consciência, as mais interessantes, se não as que são mais imediatamente úteis, são aquelas que, como o ácido lisérgico e a mescalina, abrem a porta para o que pode ser chamado o Outro Mundo da mente. Muitos pesquisadores já estão explorando os efeitos dessas drogas, e podemos ter certeza de que outros alteradores da mente, com propriedades ainda mais notáveis, serão produzidos no futuro próximo. O que o homem fará afinal com esses elixires extraordinários, é impossível dizer. Imagino que eles estejam destinados a ter um papel na vida humana pelo menos tão importante quanto o papel desempenhado, até agora, pelo álcool, e incomparavelmente mais benéfico.