Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 33 - 1961 Experiência Visionária
Capítulo 33
1961
Experiência Visionária
ALDOUS HUXLEY
A conferência que se segue, realizada numa reunião internacional de psicólogos, é talvez a mais sistemática das muitas palestras que Huxley fez sobre esse assunto. A pergunta “Por que as pedras preciosas são preciosas?" veio a funcionar como um koan Zen cada vez que ele falava sobre este assunto. Ele abrange métodos de acesso ao Mundo Visionário, as características da experiência e seu valor na religião, no folclore e nas artes. Seus comentários sobre o acesso químico agora incluem referências à recente síntese da psilocibina.
Sr. Presidente, senhoras e senhores, sinto-me um pouco incerto sobre estar aqui num grupo de cientistas ilustres. No entanto, consolo-me com o pensamento de que as pessoas de minha profissão ocuparam-se com os problemas da psicologia três ou quatro mil anos antes da sua profissão ser inventada. Naturalmente, vocês sistematizaram o que as pessoas no campo literário viram de um modo um tanto vago, intuitivo e espasmódico, e naturalmente nós, por nossa vez, podemos aprender muito com vocês.
Minha desculpa para estar aqui, realmente, pode ser resumida numa frase de Alexander Pope, que diz que “os tolos correm para onde os anjos temem pisar”. Entre tantos anjos acadêmicos que estão, naturalmente, completamente inibidos por seu meio ambiente, por seus interesses intelectuais disfarçados, por seus diplomas, é muito importante, eu acho, que irrompa, de vez em quando, um tolo literato que não é inibido em qualquer desses níveis e que começa a percorrer esse campo imenso e não tem medo de fazer papel de tolo, ou de acabar envovendo-se numa espécie qualquer de encrenca acadêmica. Acho que, apesar do fato de que os literatos não podem contribuir com coisa alguma de sólido interesse científico, eles podem, mesmo assim. ser de alguma ajuda, pois exploram áreas desse universo fantástico da mente humana, que o psicólogo acadêmico, mais cauteloso, tem um certo temor de adentrar. E com essa breve introdução deixe-me prosseguir para esse fascinante tema da Experiência Visionária.
POR QUE AS PEDRAS PRECIOSAS SAO PRECIOSAS?
Bem, vou começar fazendo uma dessas perguntas que as crianças fazem a seus pais e que os deixa completamente desnorteados – uma pergunta do tipo “Por que a grama é verde?”. A minha pergunta é: Por que as pedras preciosas são preciosas' É bem estranho, quando se pensa no assunto: por que os seres humanos gastaram tanto tempo, tanta energia e tanto dinheiro para colecionar cascalhos coloridos? Não há nisso um valor econômico concebível, e elas até que- são bonitinhas, mas parece muito estranho que se colocasse tanta energia no objetivo ele colecionar pedras preciosas, e também que tenha surgido tamanha mitologia e tamanho folclore como o que surgiu e foi cristalizado em torno das pedras preciosas.
Por que as pedras preciosas sempre foram consideradas .-extremamente preciosas? Bem, esta pergunta me foi feita há uns cinqüenta anos pelo ilustre filósofo norte-americano George Santayana, e ele apresentou esta resposta. Ele disse, eu acho, que elas são preciosas porque, d- todos os objetos deste mundo de transiência, esse mundo de perpétua extinção, elas parecem ser a coisa mais próxima da permanência absoluta; elas nos dão, por assim dizer, uma espécie de imagem visível da eternidade ou da imutabilidade. Bem, acho que essa resposta tem seu valor, mas não é, de modo algum, a resposta completa para nosso problema. Ela ó importante porque parece remontar a algum profundo fator psicológico na mente, mas acho que ela não vai suficiente-mente longe; acho que não chega ao fator psicológico mais importante, que determina a preciosidade das pedras preciosas. E aqui vou citar outro filósofo da antiguidade, Plotino, o grande filósofo neoplatônico, que, numa passagem muito interessante e profundamente significativa, diz: “No mundo inteligível, que é o mundo das Idéias platônicas, tudo brilha; conseqüentemente, a coisa mais bonita de nosso mundo é o fogo!”
Este comentário é significativo de várias maneiras. Em primeiro lugar, interessa-me profundamente por mostrar que uma grande estrutura metafísica, a estrutura platônica e neoplatônica, era essencialmente alicerçada numa experiência para-sensorial. O mundo das Idéias brilha, é um mundo que pode ser visto; e esse fato curioso, de que o mundo ideal pode na verdade ser visto, pode ser encontrado também no próprio Platão. No Fédon, Sócrates fala do mundo póstumo para onde vão os bons depois de mortos, e é um tanto difícil compreender, a partir do próprio diálogo, se ele é simplesmente um mundo paradisíaco, ou se é também, num certo sentido, o mundo das Idéias. Mas, de qualquer maneira, o que Sócrates diz sobre esse mundo – que ele chama a outra terra – é novamente que nessa outra terra tudo brilha, que as próprias pedras da rua e das montanhas têm a qualidade de pedras preciosas; e ele termina dizendo que as pedras preciosas de nossa terra, nossos altamente valorizados rubis, esmeraldas, e assim por diante, são apenas fragmentos infinitesimais das pedras que podem ser vistas nessa outra terra; e essa outra terra, onde tudo é mais brilhante, mais claro e mais real do que em nosso mundo, é, ele diz, uma visão dos espectadores abençoados. Bem, eis novamente aqui outra indicação de que uma grande idéia metafísica, a Idéia platônica, o sistema platônico de um mundo ideal, é também baseado num mundo de visão. É uma visão dos espectadores bem-aventurados, e acho que agora começamos a ver por que as pedras preciosas são preciosas: elas são preciosas porque de algum modo nos lembram algo que já está lá em nossas mentes. Lembram-nos esse mundo paradisíaco, mais-que-real, que às vezes é vislumbrado conscientemente por algumas pessoas e de que a maioria das pessoas, eu acho, já teve breves vislumbres, e de que nós todos, de um modo obscuro qualquer, estamos cônscios, num nível inconsciente. E, como diz Plotino, é por causa da existência desse outro mundo, esse outro mundo luminoso, que a coisa mais bonita do mundo é o fogo.
Ora, é interessante o fato de falarmos que os diamantes têm fogo, que os diamantes mais preciosos e mais valiosos são aqueles com maior quantidade de fogo, e que toda a arte de lapidar diamantes é, naturalmente, a arte de fazê-los mostrar a maior quantidade possível de fogo interior. E pode-se mesmo dizer que todas as pedras preciosas são, num certo sentido, fogo cristalizado. É muito significativo encontrarmos, neste contexto, no Livro de Ezequiel, quando ele está descrevendo o Jardim do éden, que ele está cheio de pedras de fogo – que são simplesmente pedras preciosas – assim vemos, acho que de modo definitivo, que elas nos lembram esse estranho outro mundo do fundo de nossas mentes, ao qual algumas pessoas conseguern obter acesso, e ao qual algumas pessoas têm acesso espontaneamente.
ACESSO AO MUNDO V1SIONÁRIO
Acesso Espontâneo. Antes de continuar a falar sobre a natureza real desse mundo visionário interior, deixem-me falar um pouco sobre os meios de acesso a esse mundo. Algumas pessoas chegam lá espontaneamente; parecem ser capazes de ir e voltar sem dificuldade entre o mundo visionário e o mundo cotidiano, biologicamente útil, de nossa experiência comum. Temos pessoas como William Blake, por exemplo, que estão passando constantemente de um mundo para o outro. Blake teve um período, na meia-idade, em que era incapaz de visitar o mundo visionário. Durante uns vinte anos ele não o viu. Costumava vê-lo em sua juventude, e depois novamente na velhice ele era capaz de penetrar nele à vontade. E temos, acho, vários casos de poetas e artistas que passavam de um mundo ao outro. Existem descrições muito bonitas e detalhadas do mundo visionário, dadas ao poeta irlandês George Russell – que escrevia sob o nome de A.E. – onde ele descreve suas próprias experiências de ir e voltar do luminoso mundo dentro da mente.
Há esses casos espontâneos em que uns poucos privilegiados são capazes de visitar o outro mundo e voltar em segurança. Então acho que podemos dizer também que, num número muito grande de crianças – não sei qual é a proporção; acho que nunca isso foi sistematicamente investigado – mas num bom numero de crianças há essa capacidade de viver numa espécie de mundo visionário. Elas vêem tanto dentro quanto fora desse mundo luminoso transfigurado. É, naturalmente, o mundo descrito por Wordsworth em sua famosa Ode on the intimations of immortality from recollections of early childhood (Ode sobre os Indícios de Imortalidade em Recordações da Primeira Infância). Acho que muitas crianças têm exatamente o tipo de indícios de imortalidade que Wordsworth descreveu. Depois, a seu tempo, à medida que são submetidas ao nosso sistema de educação analítico e conceitual, elas perdem a capacidade de ver esse ou'.ro mundo que gradualmente, nas palavras de Wordsworth, “esmaece à luz do dia comum”. Depois de ter vivido num mundo que tinha “a glória e o frescor de um sonho”, elas retornam para este mundo um tanto enfadonho, um tanto pobre no qual a maioria de nós passa a vida. Eu diria, de passagem, que um dos maiores problemas da educação é como ajudarmos as crianças a aproveitar o máximo de ambos os mundos. Como podemos ajudá-las a aproveitar o máximo do mundo de experiência primária (e dessa extensão da experiência primária que é a experiência visionária) e ao mesmo tempo ajudá-las a aproveitar o máximo do mundo da linguagem e o máximo do mundo dos conceitos e das idéias gerais? No presente, nosso sistema de educação parece quase uma garantia de que, enquanto lhes ensinamos a usar palavras e conceitos, nós apagamos esse outro mundo de beleza e de realidade mais elevada em que tangias crianças vivem.
Estes são dois casos de consciência espontânea do outro mundo, do mundo visionário. Outro tipo de pessoas que têm essa consciência espontaneamente são os moribundos. Os leitores Tolstoi hão de se lembrar daquele extraordinário conto A morte de Ivã Ilyitch, em que, no final de seus indescritíveis sofrimentos, esse infeliz sente que está sendo empurrado para dentro de um saco negro, cada vez mais profundo, e de repente, poucas horas antes de morrer, ele percebe que o fundo desse saco está aberto e que no final dele há luz.
Isto não e simplesmente uma invenção literária. Nos últimos meses, o Dr. Karlis Osis,1 da Fundação de Parapsicologia de Nova Iorque, vem mandando questionários a um grande número médicos e enfermeiras, fazendo com que relatem o estado de espírito de pacientes no leito de morte. O interessante é que ele Osis, primarem, acho, umas 800 respostas de médicos e enfermeiras que relatam que, espontaneamente, pacientes à beira da morte tiveram mesmo essas tremendas experiências visionárias de luz, de figuras luminosas. É muito interessante aprender que esse fenômeno, que naturalmente já foi relatado na literatura do passado, é agora confirmado estatisticamente. Esta é uma das coisas mais fascinantes que psicólogos profissionais estão fazendo hoje em dia. Estão confirmando, por questionários e em laboratórios, todo tipo de coisas que eram conhecidas intuitivamente, e conhecidas por observação, e registradas de modo casual por literatos e filósofos do passado.
1Karlis. Deatkbed observations by physicians and nurses (Observações de médicos e enfermeiras junto ao I 't d rt ). Em "Parapsychologycal Monographs” (Monografias Parapsicológieas), n º 8, N.Y. : Fundação de Parapsicologia, Inc. 1961. (Condensado no Internacional Journal of Parapsychonlogy (N.Y.) v. 4, .º 2.e, p. 27-56. Ver também Duncan Blewett, Psychedelic drugs in parapsychological research (Drogas psicodélicas na pesquisa parapsicológica), ibid', v. 5, n.4 1, inverno de 1963, p. 43-74).
Bem, como eu disse, isso representa o terceiro tipo de casos espontâneos. Agora temos que passar para os casos provocados.
Acesso Provocado. O fato de a experiência visionária sempre ter sido altamente valorizada, em todos os lugares e em todos os tempos, significa que em todos os tempos e em todas as culturas foram feitos esforços sistemáticos para provocar essa experiência.
A experiência pode ser provocada de várias maneiras. Vamos discorrer rapidamente sobre algumas delas.
Um método é a hipnose. Sob hipnose profunda, um certo número de pessoas (não muito grande, mas já vi algumas) evidentemente entra nesse mundo e relata acontecimentos muito estranhos e interessantes: elas vêem figuras, vêem paisagens luminosas, e assim por diante. Esses não são fenômenos muito comuns, mas é interessante saber que há um certo número de pessoas que pode ser transportado a esse outro mundo por hipnose.
Há outros métodos psicológicos de entrar no outro mundo, e um dos mais conhecidos no Oriente é, naturalmente, o método da concentração dirigida a um só ponto, o tradicional método ioga de excluir tudo além de um ponto particular no qual a -atenção é concentrada. Isto, em muitos casos, parece resultar no rompimento da barreira que rodeia nosso mundo de consciência comum, cotidiano, biologicamente utilitário, e a passagem para outro tipo de consciência, a consciência visionária. Há ainda outro método que tem sido praticado, é claro, dentro de todas os grandes tradições religiosas, o método que agora é chamado privação sensorial, ou ambiente restrito. Aqui, novamente, é muito interessante ver psicólogos profissionais repetindo, em labora-tório, o trabalho que foi feito por razões metafísicas e religiosas por eremitas e santos vivendo em cavernas nas montanhas ou no deserto. É extraordinário que quando limitamos o número de estímulos externos ou os abolimos totalmente, como pode ser feito com alguma dificuldade, então, num período de tempo relativamente curto, a mente começa a produzir tremendas experiências visionárias. Historicamente vemos figuras como Santo Antônio e os monges da Thebaida, no deserto egípcio, no século IV, e vemos também os eremitas do Himalaia, os eremitas tibetanos e hindus que viveram em completo isolamento nas cavernas. Por exemplo, quando se lê a vida de Milarepa, o grande eremita tibetano, ou a vida de Santo Antônio e São Paulo, o eremita na tradição cristã, vê-se que esse isolamento produzia de fato experiências visionárias. E é, interessante, como eu disse, ver esses fatos confirmados por pesquisadores côntemporâneos como D. O. Hebbm McGill, no Canadá, ou meu amigo o Dr. John Lilly no Instituto Nacional de Saúde em Washington. Lilly provavelmente foi mais longe que qualquer outra pessoa ao criar um ambiente restrito. Ele entra numa banheira à temperatura de 35,5 graus, prende-s numa espécie de colete de modo a mal poder mover-se, respira apenas através de um tubo, de modo que até seu rosto está coberto de água e não há diferença de sensação em parte alguma de seu corpo, e dentro de três ou quatro horas ele está tendo tremendas experiências visionárias. Ora, o fato interessante é que, como Santo Antônio, a maioria dessas experiências visionárias é extraordinariamente desagradável, e pedi ao Dr. Lilly que descrevesse essas experiências, mas ele nunca me disse exatamente o que eram elas, exceto que eram realmente muito, muito desagradáveis. Santo Antônio, como qualquer pessoa que já visitou um museu sabe, também era sujeito a experiências extremamente desagradáveis, mas ele ocasional-mente tinha experiências genuinamente místicas e divinas. É também interessante que, em todas as tradições religiosas, desertos e lugares onde há um mínimo de estímulos sensoriais sempre foram olhados de modo ambivalente, primeiro como os lugares onde Deus está mais perto e segundo como o lugar onde abundam demônios. Encontramos no Novo Testamento, por exemplo, que os demônios que são expulsos por Jesus vão para o deserto porque esse é o lugar natural, o habitat dos demônios. Mas, por outro lado, os eremitas que viveram nos desertos, no século IV, dizem que foram para lá porque esse é um lugar onde se pode chegar mais perto de Deus, do que em qualquer outro lugar. Como eu disse, é extremamente interessante descobrir que essas antigas práticas religiosas podem ser e têm sido confirmadas no laboratório de pesquisadores psicológicos modernos. Outro método de entrar no outro mundo é o método da respiração sistemática. Os exercícios de respiração foram desenvolvidos, mais sistematicamente, na índia, é claro, e encontramos traços deles na tradição ocidental, particularmente na tradição da Igreja Ortodoxa Grega, onde as pessoas evidentemente empregavam alguns métodos de respiração, e até mesmo em místicos ocidentais. Estou pensando no Padre Surin,’ o jesuíta francês do século XVII que fala sobre os diferentes métodos de respirar, embora ele não saiba descrever exatamente quais eram. O fato importante sobre os exercícios de respiração é que acho que se pode dizer que todos esses complicados exercícios de respiração tendem a terminar numa prolongada suspensão da respiração. Novamente, é bem sabido que uma alta concentração de divido de carbono no sangue produz realmente experiências visionárias notáveis e espantosas, de sorte que vemos aqui, nesse modo empírico, que pessoas em todas as tradições religiosas do passado fizeram uso de métodos para alterar a química do corpo, de uma maneira que facilitava as experiências visionárias. Essa é, novamente, a razão fisiológica, não a razão metafísica ou ética, para práticas tais como o jejum. O jejum tem sido empregado em por assim dizer todas as tradições culturais com o propósito, entre outras coisas, de provocar visões. Por exemplo, na primitiva sociedade indígena na América isso era parte comum da iniciação dos jovens adolescentes. Eles saíam para a floresta ou para a campina e jejuavam até ter uma visão do deus que estavam buscando, e eles sempre acabavam por ter uma visão. Os métodos de jejum, naturalmente, foram usados em todas as tradições religiosas. Esse efeito psicológico do jejum foi confirmado num amplo estudo feito por Keys, intitulado The biology of human starvation (A biologia da inanição humana)‘. Há uma descrição minuciosíssima do que acontece depois de um grande período de abstinência de alimentos, e entre as coisas que acontecem estão essas experiências visionárias. Sabemos também que quantidades insuficientes de vitaminas, assim como simplesmente quantidades insuficientes de calorias, produzem profundas mudanças psicológicas. Há profundas mudanças psicológicas na pelagra, por exemplo, e no beribéri. Aqui, novamente, é interessante olhar para a História, com o conhecimento que temos agora, e ver por que um período como a Idade Média foi provavelmente muito mais fértil em visões do que um período da época atual. A razão é muito simples, que nós estamos na verdade entupidos de vitaminas, e eles não estavam. Afinal, todo inverno na Idade Média era uma época de extrema deficiência vitamínica: a pelagra e outras doenças de deficiência eram muito comuns. Depois de um longo período de jejum involuntário vinham os quarenta dias da Quaresma, onde o jejum voluntário era imposto sobre o jejum involuntário, de modo que quando a Páscoa chegava a mente estava completa-mente pronta para qualquer tipo de visão. Acho que não há dúvida de que essa é uma das razões por que experiências visionárias espontâneas são muito menos comuns agora do que eram. é simplesmente um fator dietético. No passado, nas civilizações mas antigas, uma dieta um tanto deficiente tendia a tornar possíveis certos tipos de experiências visionárias, enquanto que agora nossa dieta bem avultada tende a bloqueá-las.
Personagem histórico de Os demônios de Loudun. [Trad. bras. : Porto Alegre, Globo, 1982.]
Keys, Ancel et al. Tke biologp of kuman starvation (Biologia da inanição humana). Minneapolis, Editora da Univ. de Minnesota, 1950.
Entre outros métodos de transportar a mente para o outro mundo havia a privação do sono. Encontra-se isto em todas as tradições religiosas: o sono é reduzido e a mente é aberta e amadurecida para a experiência visionária. É, novamente, interessante ver o psicólogo profissional confirmando as descobertas do passado. Meu amigo, o Dr. J. West, há um ano ou dois teve a oportunidade de supervisionar o período insone de um homem que era disc jockey numa estação de rádio norte-americana. Por causa de aposta, ele tinha decidido ficar sem dormir por um período de não me lembro quantos dias, dez ou doze. O Dr. West supervisionou o empreendimento e disse-me que foi muito interessante, depois de sete ou oito dias, ver como esse homem estava vivendo num mundo inteiramente visionário, com .ocorrências de todo tipo de visões estranhas, algumas horríveis e outras bens bonitas. Portanto, vemos novamente uma interessante confirmação de velhas descobertas empíricas, num laboratório moderno.
Até mesmo o hábito medieval de austeridade ou punição auto-imposta era provavelmente também extremamente propicia-dor de visões. A autoflagelação, por exemplo: se se analisa quais eram os efeitos dessa espécie de procedimento, fica bem claro que todos eles propiciavam experiências visionárias. Primeiro eles liberavam uma grande quantidade de adrenalina, uma grande quantidade de histamina,tendo ambas efeitos muito estranhos sobre a mente, e depois, na Idade Média, quando não existiam sabonetes nem antissépticos, qualquer ferida podia infeccionar, e infeccionava, e os produtos da decomposição da proteína entravam na corrente sanguínea. Sabemos também que essas coisas têm realmente efeitos psicológicos muito .estranhos e interessantes. Para confirmar tudo isso, é muito curioso ler o comentário do grande francês do século XIX, o Cura d’Ars (agora canonizado sob o nome de São João Vianney), que foi proibido pelo bispo de praticar austeridades muito severas, as autoflagelações que ele tinha praticado quando rapaz, e ele disse nostalgicamente: “Quando eu tinha permissão para fazer o que eu queria com o meu corpo, Deus não me recusava coisa alguma.” Isto é uma declaração psicológica muito interessante de que evidentemente há reações psicológicas no nível bioquímico que, ligadas a esse tipo de autoflagelação, tendem a produzir visões.
Acesso Químico. Vamos passar agora ao último tipo de métodos para induzir visões; ele tem a ver com a ingestão de vá-rios agentes químicos. Ora, como o antropólogo francês Philippe de Félice mostrou há uns vinte anos em seu livro Poisons sacrés. ivresses divines (Venenos sagrados, embriaguez divina)p virtual-mente em todas as tradições religiosas, tanto civilizadas como primitivas, drogas que alteram a mente têm sido usadas com o fito de provocar experiências visionárias. Todo tipo de substância química tem sido usada com esse propósito. A mais antiga registrada, suponho, é o soma dos hindus. Ninguém sabe, eu acho, qual era a planta do soma. Foi identificada como a Asclepias (ascléia, ou paina-de-sapo), mas a descrição no texto sagrado não parece combinar com a dessa planta. Pelo texto antigo, parece que era uma planta trepadeira que as arianos que invadiram a índia no ano 1000 a.C. trouxeram com eles da Ásia Central, e tornou-se cada vez mais difícil conseguir a planta à medida que eles penetravam mais na Índia. Philippe de Félice tem uma hipótese muito interessante sobre o desenvolvimento da Ioga (que evidente-mente teve lugar mais ou menos nessa época, embora possa ter começado antes, com o povo da Índia pré-ariana). Os invasores arianos podem ter sido forçados a adotar a Ioga pelo fato de que lhes era impossível obter suprimentos de soma, de modo que, como não podiam induzir visões por meios bioquímicos, eles eram forçados a recorrer a exercícios puramente psicológicos e de respiração para chegar ao mesmo lugar. É uma hipótese interessante, que talvez possa ser verdadeira. Não sei. Bem, entre outras drogas, que naturalmente foram usadas no passado, estão algumas drogas alteradoras da mente extremamente perigosas, como o ópio e a coca, da qual a cocaína é derivada, e outras relativamente perigosas, como o haxixe – e, afinal, nosso velho e caro amigo, o álcool, que era usado pelos gregos, mais tarde pelos persas, e usado pelos celtas na Europa como uma droga alteradora da mente e venerado como um deus. Esta é a coisa interessante: a substância que produz a alteração da mente é considerada divina, e é então substancializada como uma pessoa projetada no universo exterior como uma pessoa divina. Temos o mesmo fenômeno na América Central, onde recentemente os arqueólogos desenterraram nas montanhas da Guatemala um grande número e pequenas figuras de pedra que representam cogumelos, de cujo caule emerge a cabeça de um deus. É muito significativo o ato de que esse cogumento que altera a mente, e que, como veremos num momento, entrou agora na vida européia, fosse substancializado como uma divindade.
O Acesso pelo Cogumelo. Entre as drogas alteradoras da mente menos perigosas, usadas em ritos religiosos no passado, está o peiote, o cacto mexicano, que é usado nos estados do sudoeste dos Estados Unidos, em grande parte do México, e também o banistério (Bannisteriopsis caapi) da América do Sul, e agora, é claro, o cogumelo mexicano.
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De Félice, Philippe. Poisons sacrés, cresses divines. Essai sur quelques formea inférieures de la mystique. (Venenos Sagrados, Embriaguez Divina. Ensaio sobre algumas formas inferiores do misticismo )
Nos tempos modernos, a farmacologia produziu, parcial-mente por métodos de extração mais refinados e parcialmente por métodos de síntese, um certo número de drogas alteradoras da mente de poder extraordinário, mas notáveis pelo fato de terem um efeito muito pouco danoso sobre o corpo. O peiote, entre as drogas naturais, quase não tem efeito danoso sobre o corpo; não provoca o vício, e índios de 80 anos não tornam mais quantidades da droga do que tornavam quando eram jovens, nem sentem qualquer vontade de tomá-la com mais freqüência do que uma vez por mês ou a cada seis semanas, quando acontecem os ritos religiosos. O extrato do peiote que é o princípio ativo, e que agora é sintetizado, a mescalina, tem as mesmas qualidades. Entre os acréscimos mais recentes ao armamentarium dos farmacologistas, os psicofarmocólogos, estão o LSD-25 (ácido lisérgico-dietilamido) que foi sintetizado pelo Dr. Albert Hofmann, na Basiléia, em 1943, e mais recentemente a psilocibina (a respeito da qual espero que o Dr. Leary fale hoje) que foi sintetizada acho que há não mais de dois ou três anos, também pelo Dr. Hofmann, que começou extraindo os princípios ativos do cogumelo mexicano que tinha sido trazido pelo' professor Heim de sua expedição ao México com o Sr. Gordon Wasson.4 Tive recentemente a interessante experiência de ler uma carta que o Professor Hom tinha escrito a meu irmão e que dizia: “Acabo de voltar do México, e como grande triunfo levei comigo algumas cápsulas de psilocibina de Hofmann e dei a dose a uma velha senhora – a curandera, a curandeira – com quem tínhamos originalmente feito nossas experiências com os cogumelos – e ela ficou muito contente por que os efeitos eram exatamente os mesmos do cogumelo, e disse: ‘Agora posso fazer minha mágica o ano inteiro, não tenho que esperar pela temporada de cogumelos!’” Assim, talvez seja um dos grande triunfos da ciência moderna o fato de um desses dias o Professor Hofmann na Basiléia receber um telegrama dizendo: “Por favor mande via aérea cem cápsulas para o sul do México, tenho uma mágica muito importante para fazer essa semana” – e as cápsulas irem e a mágica ser feita.
Esses métodos bioquímicos são, eu imagino, os mais poderosos e os mais seguros, por assim dizer, de todos os meios de nos transportar para esse outro mundo que existe no presente. Acho que, como o Professor Timothy Leary vai explicar hoje, existe um campo muito grande para a experimentação sistemática por psicólogos, porque agora é possível explorar áreas da mente a um custo mínimo para o corpo, áreas que era quase impossível alcançar antes, exceto pelo uso de drogas muito perigosas ou então ao se encontrar as raras pessoas que podem entrar nesse mundo espontaneamente. (Claro que é muito difícil para elas fazer isso a pedido, “o Espírito sopra onde quer”, nunca podemos ter certeza de que as pessoas com o dom da experiência visionária espontânea poderão exercê-la a pedido.) Com drogas como a psilocibina, é possível, para a maioria das pessoas, entrar nesse, outro mundo com muito pouco problema e quase sem prejudicar a si próprias.
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4 Heim, Roger & Wasson, É. Gordon. Les champignons Hallycinogènes du Medique ; études ethnologiques, taxinomiques, biologiques, physiologiques et chimiques. (Os cogumelos alucinógenos; estudos etnológicos, taxinômicos, biológicos, fisiológicos e químicos). Com a cola-boração de Albert Hofmann, Roger Cailleux, A. Cerletti, Arthur Brack, Hans Kobel, Jean Delay, Pierre Pichot, Th. Lemperière e J. Nicholas-Charles. Archives du Muséum National d’Histoire Naturelle (Arquivos do Museu Nacional de História Natural), 1958. Série 7, v. VI. (Paris, 1959). A curandeira era Maria Sabina.
A NATUREZA DA EXPERIÊNCIA VISIONÁRIA
Tendo discutido os meios de acesso a esse mundo de experiência visionária, vou começar a falar da natureza do mundo. Qual é a natureza da experiência visionária?
A Luz • O maior fator comum em todas essas experiências é, eu acho, o fator da luz. Tanto pode haver luz negativa, ruim, quanto luz boa. Em Paraíso perdido, Milton fala sobre a iluminação do inferno, que ele diz que é a escuridão visível, Acho que esta é provavelmente uma boa descrição psicológica do tipo de luz sinistra que às vezes os visionários vêem, e é uma luz que acho que muitos esquizofrênicos vêem. No livro da Dra. Séchehaye, Jornal d’une schizophrène (Diário de uma esquizofrênica),5 sua paciente descreve precisamente essa luz assustadora na qual ela vive: é uma espécie de luz infernal, é uma luz como o clarão dentro de uma fábrica, o horrível clarão de luz elétrica brilhando sobre máquinas. Mas, por outro lado, aqueles que entram numa experiência positiva dizem que essa luz é de uma beleza e uma expressividade incríveis.
A experiência de luz no lado positivo pode ser dividida, eu acho, em dois tipos principais. Há a experiência do que pode ser chamado luz indiferenciada, uma experiência apenas de luz, de tudo estar inundado de luz. E há a experiência de luz diferenciada. isto é, de objetos, pessoas e paisagens que parecem estar impregnados e brilhantes de sua própria luz.
De maneira geral acho possível dizer que a experiência de luz indiferenciada tende a ser a experiência associada à experiência mística total. A experiência mística, acho, pode ser definida de maneira um tanto simples como a experiência na qual a relação sujeito-objeto é transcendida, na qual há uma sensação de completa solidariedade da pessoa com outros seres humanos e com o universo em geral. Há também uma sensação do que pode ser chamado de a suprema Perfeição do universo, o fato de que, apesar da dor, apesar da morte, apesar de todos os horror”s que acontecem à nossa volta, esse universo é de algum modo perfeito, e há uma compreensão direta de frases como as que encontramos, por exemplo, no Livro de Jó, frases que em nosso estado normal nós certamente não podemos compreender. Por exemplo, quando Jó diz “Sim, embora ele me extermine, mesmo assim eu confio Nele”, isto é incompreensível em nosso nível biológico normal, mesmo ao nível do misticismo induzido.
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5 Séchehaye, Marguerite A. Journal d’une schizophrène; auto-observatior d’une schizophrène pendant le traitement psyehothérapique. (Diário de uma esquizofrênica. Auto-observação de uma esquizofrênica durante o tratamento psicoterapêutico). (Paris, 1960). (Trad. para o inglês por G. Rubin-Rabson: Reality laat end regained; auto-biography of a schizophrenie gira;1, with analytic interpretation. (A realidade perdida e reencontrada ; autobiografia de uma moça esquizofrênica, com interpretação analítica). (N.Y., 1961.)
Há também outro traço muito característico na experiência mística: a sensação de uma intensa gratidão, uma intensa gratidão pelo privilégio de estar vivo num universo tão extraordinário quanto este, tão totalmente maravilhoso. Aqui novamente achamos frases, na literatura mística, que são completamente in-compreensíveis ao nível biológico, comum, cotidiano, mas que se tornam completamente compreensíveis ao nível visionário e místico. Por exemplo, há uma frase de William Blake que diz: “A Gratidão é o próprio Céu”. Que significa isso? É muito difícil imaginar em nosso estado de mente normal, mas torna-se perfeitamente claro no estado místico espontâneo ou provocado: a gratidão é mesmo o próprio Céu, a gratidão intensa, e a experiência real de gratidão têm uma qualidade elevadora e alegre que está além das palavras.
A experiência da luz é, naturalmente, descrita inúmeras vezes na literatura religiosa. Afinal, os casos mais famosos (a luz experimentada por São Paulo na estrada de Dama'.co; uma tremenda explosão de luz que acordou Maomé de seu sono e que o fez desmaiar por causa de sua intensidade; a experiência de luz tremenda que Plotino contou ter tido três ou quatro vezes em sua vida) – isso se encontra inúmeras vezes na literatura. E não vamos imaginar que essas experiências de luz são limitadas apenas a homens e mulheres notáveis; elas não são. Muitas pessoas bem comuns as tiveram, e este é um dos grandes méritos do mais recente livro do Professor Raynor C. Johnson, chamado O observador nas colinas, onde ele reúne um grande número de casos de pessoas perfeitamente comuns que tiveram essa tremenda experiência de luz indiferenciada. Se posso citar uma carta que recebi recentemente de um correspondente desconhecido – uma mulher de seus sessenta anos, que me escreveu dizendo que quando estudante tinha tido uma experiência que a afetou toda a vida – ela disse: “Eu era uma garota de 15 ou 16 anos, estava na cozinha fazendo torradas para o chá e de repente, numa escura tarde de novembro, todo o local foi inundado de luz, e durante um minuto pelo relógio eu fiquei imersa nela, e tive a sensação de que, de algum modo inexprimível, o universo era perfeito. Isso me afetou para o resto da vida, perdi todo o medo da morte, tenho paixão pela luz, mas não tenho o menor medo da morte, porque essa experiência da luz tem sido uma espécie de convicção de que tudo, de alguma forma, está certo.”
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Watcher on the hills. (O observador nas colinas) (1959).
Essas experiências são relativamente comuns; muitas pessoas mais as têm e não as relatam; quero dizer, vivemos agora numa época em que as pessoas não gostam de falar sobre essas experiências. Se alguém tem essas experiências, ela fica de boca fechada, com medo de lhe mandarem procurar um psicanalista. No passado, quando as visões eram consideradas louváveis, as pessoas falavam sobre elas. Naturalmente corriam um risco considerável, pois no passado a maioria das visões era considerada como sendo inspirada pelo demônio, mas se a pessoa tinha a sorte de convencer os outros de que sua visões eram divinas, ela então obtinha muita consideração. Mas agora, como eu disse, o caso mudou, e as pessoas não gostam de falar sobre essas coisas. Acho que este é o mérito do recente trabalho do Professor Maslow sobre o que ele chama de experiência culminante.7 Ele está colecionando um número muito grande de casos desse tipo de experiência, e ele assegura a seus estudantes que não vai considerá-los loucos se eles lhe contarem essas coisas, e ele diz que é surpreendente o número deles que revelam o fato de terem tido essa espécie de experiências.
Com isto encerramos o que se refere à luz indiferenciada, e quero destacar aqui um fato interessante. Acho que se pode dizer que em todas as religiões, tanto primitivas quanto desenvolvidas, a luz é o tipo predominante de símbolo divino, mas o fato interessante é que esse símbolo é baseado num fato psicológico, de que a luz do mundo, a luz interior, o esclarecimento, a luz clara do vazio na literatura budista, todos esses são símbolos. Mas são também fatos psicológicos. Assim como os grandes sistemas metafísicos – assim me parece – têm sua origem, em muitos casos, em experiências psicológicas, de modo que tornamos a ver que esses símbolos primários da vida religiosa também têm origem nas experiências psicológicas. Essa experiência de luz quase-sensorial é algo que se fez presente e em muitas religiões, e acho que se pode dizer que em todas, e se tornou, como eu disse, o símbolo fundamental.
Agora vamos passar da luz indiferenciada para a luz diferenciada, isto é, a luz contida em objetos, brilhando de pessoas e coisas. Bem, a seu nível mais simples isso é uma espécie de geometria viva luminosa. Há aqui algo bastante interessante. Acho que neste contexto podemos novamente dizer que certos símbolos são baseados em fatos psicológicos. Por exemplo, as mandalas da Índia, nas quais o Dr. Jung era tão interessado, elas também são baseadas, acho, em fatos psicológicos No que podem ser chamados estágios iniciais da experiência visionária, as pessoas realmente vêem com os olhos fechados coisas que são exatamente como as manda-las. Esses grandes traçados simbólicos são também baseados em experiências psicológicas imediatas.
Além dessas, é claro, há todo tipo de experiências visionárias mais realísticas, naturalísticas – experiências de arou teturas, de paisagens, de figuras. É interessante descobrir que inúmeras vezes, nos relatos de pessoas que tiveram experiências visionárias, encontramos os mesmos elementos descritos, por exemplo, no livro de Heinrich Kluver sobre o peiote, onde ele resume a maior parte do material que tem sido publicado até a época em que ele o escreveu.8 “Inúmeras vezes encontramos essa descrição de paisagens e arquiteturas luminosas recamadas de pedras preciosas. As portas e janelas são emolduradas por pedras preciosas, todo o mundo de paisagem é cheio do que Ezequiel chama as pedras de fogo. Essas descrições, naturalmente, são intimamente paralelas aos relatos de paraísos, mundos póstumos e terras encantadas, que são encontradas em todas as tradições do mundo. Mais tarde vamos nos aprofundar nisso, mas acho importante destacar que também aqui há uma base psicológica para uma grande parte do material encontrado na literatura tradicional de religião e folclore.
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7 Maslow, Abraham H. Toward a psychology of being (Para uma psicologia do ser) (Princeton, 1962).
8 Mescal (1928).
Figuras Visionárias. Agora chegamos às figuras visionárias. Elas também ocorrem, e também aqui há um fato muito curioso e interessante, que tem sido várias vezes registrado na literatura, de experiências espontâneas e experiências provocadas de que quando se vê uma figura, ela virtualmente nunca tem um rosto que possamos reconhecer. Nossos pais, mães, esposas e filhos não aparecem. O que vemos é um completo desconhecido.
Acho que aqui também esse fato explica algumas especulações teológicas interessantes. Por exemplo, ps anjos não são, como agora teoricamente se supõe, os espíritos dos mortos que partiram; eles pertencem a uma espécie inteiramente outra. Isto confirma exatamente o que os psicólogos descobriram em relação a experiências provocadas ou espontâneas; elas são sempre figuras de desconhecidos.
Quando se começa a pensar na neurologia e na psicologia desse estado de coisas, é extraordinário que haja algo em nosso cérebro/mente que usa as lembranças de experiências visuais e as recombina de tal maneira a apresentar à consciência algo absolutamente novo, que nada tem a ver com nossa vida particular e muito pouco a ver, pelo que podemos imaginar, com a vida da humanidade em geral. Pessoalmente acho extremamente re-confortaste pensar que haja em algum lugar no fundo do meu crânio alguma coisa que é absolutamente indiferente a mim e até mesmo absolutamente indiferente à raça humana. Acho que é muito satisfatório que haja uma parte da mente que não se importa com o que eu estou fazendo, mas que está preocupada com algo bem diferente. E por isso é assim, e a base neurológica disso, não posso imaginar, mas acho que é algo que requer um estudo.
A Transfiguração • Agora chegamos a outro aspecto da luz diferenciada que pode ser descrito como o transbordamento do mundo interior para o mundo exterior. Há uma espécie de experiência visionária que as pessoas têm com os olhos abertos e que consiste numa transfiguração do mundo exterior, de modo que ele parece avassaladoramente bonito, vivo e brilhante. Naturalmen-te, é isso que Wordsworth descreveu com tanta beleza e acuidade em sua grande Ode sobre os Índices de Imortalidade”, e experiências similares podem ser encontradas nas obras dos místicos. na obra do místico anglicano Traherne, que dá uma descrição incrivelmente bela do tipo de mundo transfigurado em que ele vivia em sua infância. Essa descrição termina com o trecho mais bonito, onde ele descreve esse mundo maravilhoso, e ele diz: “E assim, com muita confusão me ensinaram os sujos estratagemas do mundo, que agora desaprendo e me transformo novamente numa criança, de modo que agora entro novamente no Reino de Deus.”
Como eu disse antes, aqui está certamente um dos maiores desafios da educação moderna: como manter vivo esse mundo de imenso valor que as pessoas têm enquanto crianças e que certas pessoas privilegiadas mantêm durante toda a vida? Como manter isso vivo e ao mesmo tempo transmitir uma quantidade suficiente de educação conceitual para tornar as crianças cidadãos e cientistas eficientes? Isto eu não sei, mas tenho certeza absoluta de que este é um dos desafios com que se defronta a educação moderna.
Essa visão externa transfigurada é muito importante em relação à arte. De modo algum toda arte é visionária; há arte maravilhosa que é essencialmente não visionária. Mas há também arte maravilhosa que é essencialmente visionária, que é o produto da visão do artista, por assim dizer de olhos fechados, do que está acontecendo dentro de sua cabeça, esse outro mundo extra-ordinário; ou então uma visão do mundo exterior transfigurado para melhor ou para pior. Nas obras de Van Gogh, por exemplo, pode-se encontrar exemplos extraordinários de transfiguração negativa e positiva. Pode-se ver na mesma exposição dois quadros, um dos quais é claramente o mais jubiloso quadro da mais jubilosa experiência de um mundo positivamente transfigurado, e perto dele haverá um quadro que é absolutamente aterrorizante e sinistro, onde ele viu o mundo realmente transfigurado, mas transfigurado de um modo puramente diabólico. Pode-se entender o sofrimento desse infeliz que podia ser precipitado de um verdadeiro paraíso para algo absolutamente infernal, e não é surpreendente que ele tenha terminado por suicidar-se. Quando se vê uma grande coleção de seus quadros, é bem fácil reconhecer os altos e baixos dessa experiência extraordinária, de transfiguração positiva e negativa.
EXPERIÊNCIA VISIONÁRIA, RELIGIÃO E FOLCLORE
Vamos agora falar um pouco da importância da experiência visionária na religião e no folclore. Em todas essas tradições encontram-se descrições do paraíso, da idade do ouro, da vida futura, que, colocadas lado a lado com as descrições da experiência visionária, espontânea ou induzida, mostram-se exatamente as mesmas; que o mundo descrito na religião popular, esses outros mundos, são simplesmente descrições de experiências visionárias que os homens projetaram do interior para o universo. Em todas as tradições descobrimos a mesma profusão de pedras preciosas, e quando elas não são usadas encontramos o vidro, que, naturalmente, era considerado no passado um material muito precioso e estranho. Encontramos isso no Livro da Revelação, um mar de vidro na Nova Jerusalém, cujas paredes eram de ouro mas transparentes, uma espécie de ouro e vidro transparente, e encontramos a mesma ênfase no vidro como um material mágico maravilhoso nas tradições nortistas. Encontramo-la na tradição celta, na tradição galesa; por exemplo, a casa dos mortos é chamada “Ynisvitrin”, a Ilha de Vidro, e na tradição teutônica os mortos vivem num lugar chamado “Glassberg”, as montanhas de vidro. E é muito curioso encontrar, desde o Japão até a Europa Ocidental, as mesmas imagens surgindo inúmeras vezes, demonstrando como tem sido universal e uniforme esse tipo de experiência visionária e como tem sido constantemente considerada d grande importância e projetada para o cosmo nas várias tradições religiosas.
AS ARTES VISIONÁRIAS
Vou falar rapidamente sobre algumas das artes que têm natureza visionária. Não é preciso dizer que uma das mais extraordinárias, que alcançou o máximo de sua excelência nos séculos XII e XIII, é a arte do vitral. Qualquer pessoa que tenha entrado na Catedral de Chartres ou na Sainte-Chapelle, em Paris, vai perceber como essa arte podia ser extraordinária; dentro da Sainte-Chapelle, par exemplo, a pessoa está dentro de uma imensa pedra preciosa, uma elaboradíssima visão adornada em cujo centro a pessoa está. É muito interessante o fato histórico de que no século XII o famoso Abade de Saint-Denis disse que, em sua época, em todas as igrejas, havia duas caixas de coleta, uma para os pobres e outra para a confecção de janelas de vitral, e, enquanto que a caixa dos pobres geralmente estava vazia, a caixa dos vitrais estava sempre cheia, demonstrando que as pessoas realmente valorizavam imensamente esse tipo de experiência visionária.
Outro fato interessante é que a arte visionária é com freqüência uma arte popular, e muitas das artes populares são com fremência artes visionárias, por exemplo, a arte dos cortejos e procissões com trajes especiais. Todos os reis e papas, e todos os membros da aristocracia, das hierarquias religiosas do passado, sempre entenderam perfeitamente o enorme poder que essa espécie de exibição visionária tem sobre os seres humanos. Esses cortejos, a entrada de reis nas cidades, a coroação de papas, sempre foram imensamente populares e se contam, eu acho, entre os mais poderosos instrumentos para persuadir as pessoas de que a autoridade de facto era também uma autoridade de jure, de jure divino. E é criando uma espécie de ambiente visionário para o símbolo da autoridade pura que essa autoridade pura passa a ser aceita como legítima.
Outro tipo de arte popular que é visionária é, naturalmente, a arte da pirotecnia. Os fogos de artifícios desenvolveram-se imensamente mesmo durante o Império Romano, e depois da invenção da pólvora eles foram muito mais longe do que poderiam ter ido no passado. Mas essas sempre foram formas de arte imensamente populares, e são essencialmente artes visionárias.
Do mesmo modo, a arte do espetáculo teatral: as grandes mascaradas elisabetanas e jacobinas dos séculos XVI e XVII, nas quais se gastavam fantásticas somas de dinheiro. Há o registro de uma mascarada organizada pelos advogados das escolas de Direito em Londres que custou vinte mil libras em dinheiro daquela época, o que é hoje uma soma absolutamente gigantesca, provavelmente pelo menos um quarto de milhão de libras para uma noite de diversão. Estou demonstrando o enorme interesse e entusiasmo que esse tipo de demonstração provocava. Não é preciso dizer que essa espécie de arte popular, que depende de iluminação, depende muito do desenvolvimento da tecnologia. Tenho certeza de que no passado, com o uso de velas, só era possível uma iluminação extremamente pobre, e é interessante notar que desde a invenção do espelho parabólica no final do século XVIII, depois a invenção do gás, depois a luz de cálcio, depois a eletricidade, tornou-se possível produzir efeitos visionários no mundo do teatro que no passado estavam fora de questão.
Aqui, novamente, a etimologia popular é muito interessante. É interessante descobrir, por exemplo, que a invenção de Atanásio Kircher no século XVII foi imediatamente denominada Lanterna Mágica; sua projeção de uma imagem luminosa numa tela branca, num aposento escurecido, foi imediatamente considerada mágica. A expressão “lanterna mágica” era considerada como inteiramente apropriada para esse tipo de experiência visionária.
Acho muito comovente pensar que pode-se traçar um espectro completo da experiência visionária desde os fogos de artifício, através da lanterna mágica, do moderno filme colorido, do espetáculo colorido, através das visões dos santos e, final-mente, da luz indiferenciada dos místicos. Tudo isso segue uma curva contínua, e desde o início houve essa imediata sensação, por parte de quase todos os envolvidos, de que havia algo intrinsecamente valioso e importante nessa espécie de experiência.
E isso me traz à conclusão – qual é o valor da experiência visionária?
O VALOR DA EXPERIÊNCIA VISIONÁRIA
Imagino que em certo sentido se pode dizer que o valor é absoluto. Em certo sentido se pode dizer que a experiência visionária é, por assim dizer, uma manifestação simultânea do belo e do verdadeiro, de intensa beleza e intensa realidade, e como tal ela não tem que ser justificada de qualquer modo. Afinal de contas, o Bom, o Verdadeiro e o Belo são valores absolutos, e em certo sentido se pode dizer que a experiência visionária sempre foi considerada um valor absoluto, sempre foi considerada de imenso significado e imensa importância intrínseca e digna de ser obtida a um preço muito alto.
Mas é também importante frisar que, embora elas sejam, em certo sentido intrinsecamente valiosas e em certo sentido absolutamente valiosas, mesmo assim acho que temos que falar das experiências visionárias em termos de seu valor dentro do quadro de referência de bondade e espiritualidade. Nesse contexto acho muito importante pensar na definição teológica de tais experiências. A definição teológica de uma visão ou mesmo de uma experiência mística espontânea é “uma graça gratuita”. Essas coisas são graças, elas nos são concedidas, não temos que trabalhar por elas. Elas vêm a nós e são gratuitas, o que significa que não são necessárias nem significativas para a salvação ou a iluminação, como quer que se queira chamar. Mas, usadas apropriadamente, se tiverem cooperação, se a lembrança delas for considerada importante e as pessoas trabalharem ao longo do curso traçado durante a visão, então elas podem nos ser de imenso valor e importância para mudar nossas vidas. Essa idéia da graça gratuita que se torna importante se cooperamos com ela é muito significativa em todo o âmbito da experiência visionária, tanto espontânea quanto induzida.
Vamos ouvir o Dr. Leary 9 sobre a indução de tais experiências por meio de substâncias tais como a psilocibina, e eu por certo diria que essa espécie de experiência induzida pode não ter o menor valor, pode ser apenas como ir ao cinema e ver um filme interessante. Ou, ao contrário, se cooperamos com ela, ;e percebemos que ela tem uma espécie de significado profundo e fazemos algo a respeito disso, então ela pode ser muito importante para mudar nossas vidas, mudar nosso modo de consciência, fazer-nos perceber que há outros modos de olhar para o mundo, além da maneira utilitária comum, e pode também resultar em mudanças importantes em nosso comportamento. Naturalmente chegamos agora ao problema filosófico: qual é o status metafísico das visões, qual é o status ontológico? Bem, felizmenmente este é um Congresso de Psicologia Aplicada, não temos que entrar nesse tipo de problema, embora eu ache que vale a pena entrar nele, e espero que alguém entre nele mais cedo ou mais tarde. Mas por enquanto podemos dizer, eu acho, que o valor, à parte o valor intrínseco, por assim dizer o valor ético, sociológico e espiritual da experiência visionária, é que se for bem usada ela pode resultar numa mudança importante e significativa no modo de consciência, e talvez também numa mudança de comportamento ou para melhor.
Transcrição verbatim, com ligeiras alterações.
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9 Mais tarde, no mesmo dia, o Dr. Leary falou sobre How to change behavior (Como modificar o comportamento).