Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Capítulo 21 - 1957 Cartas

Capítulo 21

 

1957

 

Cartas

 

Huxley passou esse ano entre sua casa de Los Angeles e um hotel na cidade de Nova Iorque onde ele trabalhou no roteiro para a versão teatral de O gênio e a Deusa, e a versão em comédia musical de Admirável mundo novo. No final do ano ele tinha começado a escrever Admirável mundo novo revisitado (um livro inteiro, que não deve ser canfundido com o artigo escrito para a Esquire). Ele não tomou substâncias psicodélicas em 1957, mas tomou grandes doses de niaeinamida sob a supervisão do Dr. Hoffer, numa tentativa de reduzir o nível de colesterol de seu sangue e assim conseguir a diminuição da catarata de seu olho direito. As cartas de Huxley nesse ano continuam a evidenciar sua preocupação com a natureza trascendental das experiências visionárias produzidas por substâncias psicoativas, inclusive doses leves de éter e de gás hilariante, e o valor da mescalina na pesquisa da hipnose das Percepções Extra-Sensoriais (PES), baseada em estudos preliminares.

 

A PHILIP B. SMITH‘

 

3276 Deronda Drive Los Angeles 28, Col.

20 de maio de 1957

 

[...] Parece evidente que anestésicos como a mescalina e o LSD “abrem uma porta” que dá acesso a áreas da mente das quais não temos, ou temos muito pouco, ou só ocasionalmente, conhecimento. Nessa área da mente podemos encontrar experiências visionárias, às vezes teráveis, mas com mais freqüência (se estivermos física e psicologicamente saudáveis) bonitas e esclarecedoras. Podemos também encontrar o que os místicos chamam de “conhecimento obscuro” sobre a natureza do universo – uma “sensação de alguma coisa bem mais profundamente entremesclada” (no dizer de Wordsworth), uma sensação de que o Todo está presente em cada coisa individual, o Absoluto em todos os relativos. É associada a esse conhecimento obscuro pode vir uma nova espécie de apreensão, na qual a relação tradicional de sujeito-objeto é de alguma forma transcendida, e há uma consciência do eu e do mundo exterior como sendo um só. Com freqüência há também uma experiência real de verdades (são conhecidas como verdades), que, quando apresentadas em termos conceituais à mente em seu estado normal, parecem incompreensíveis e absurdas. Tais declarações como “Deus é amor” são percebidas com a totalidade do ser do indivíduo, e sua verdade parece evidente por si mesma, apesar da dor e da morte. Isso é acompanhado de uma intensa gratidão pelo privilégio de existir neste universo. (Blake disse que “a gratidão é o próprio céu” – uma frase que eu era incapaz de entender antes de tomar LSD, mas que agora me parece luminosamente compreensível.) Drogas diferentes dão acesso a áreas diferentes desse Outro Mundo da mente – ou pelo menos tornam mais fácil atingir uma área do que outra. No entanto, é surpreendente ver como as experiências produzidas por substâncias químicas diferentes correspondem intimamente umas às outras. A mescalina é diferente do LSD, e ambos são diferentes da substância ativa do cogumelo descrito por Gordon Wasson. Mas as experiências produzidas são bem semelhantes. E, por sua vez, essas experiências produzidas por drogas são bem semelhantes às experiências que vêm espontaneamente a certas pessoas e que em outras foram produzidas por "exercícios espirituais” e métodos similares psicofísicos para alterar a química, tais como jejum, insônia prolongada, mortificação violenta da carne. Nem devemos nos esquecer dos efeitos do “meio ambiente restrito”. O que homens como Hebb e Lilly estão fazendo em laboratório foi feito pelos eremitas cristãos no Tebaida e em outros lugares, e pelos eremitas hindus e tibetanos nas remotas escarpas do Himalaia. Minha própria crença é de que essas experiências realmente nos dizem alguma coisa sobre a natureza do universo, que elas são valiosas por si mesmas e, acima de tudo, valiosas quando incorporadas à nossa imagem do mundo e refletidas em nossas ações na vida normal. O efeito da experiência mística sobre a vida normal tem sido considerada em toda parte como o teste da validade da experiência.

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* Não se encontra em G. Smith. Publicada em P. B. Smith, Chimiical glimpses of reality (Vislumbres químicos da realidade), (Springfield, Charles Thomas, 1972), p. 86-87.

 

AO DR. HUMPHRY OSMOND [SMITH 774]

 

3276 Deronda Deve Los Angeles 28, Cal. 1º de junho de 1957

 

Caro Hamphry,

[...] Enquanto isso, o que você diz aos planos de Eileen (que ela disse que ia lhe escrever explicando) para uma tranqüila série de experiências na casa da Sra. Bolton, na F1órida, no próximo inverno? Parecem-me muito bons, e se você pudesse vir pelo menos durante uma parte da duração da experiência, poderia ser possível conseguir alguma coisa importante. Usando as mesmas pessoas numa série regular de testes, talvez seja possível uma exploração realmente sistemática de seus outros mundos. Será também possível ver o que se pode fazer combinando hipnose com LSD ou mescalina. O Dr. L. J. West, da Faculdade de Medicina da Universidade de Oklahoma, esteve aqui há algumas semanas – am rapaz extremamente preparado, eu acho. Ele descobriu que pessoas mescalinizadas são quase não-hipnotizáveis. Sugeri-lhe que hipnotizasse as pessoas antes que elas tornassem LSD, e lhes desse sugestões pós-hipnóticas dirigidas a orientar a experiência produzida pela droga numa direção desejada, e também à meta muito desejável de permitir que as pessoas recapturem a experiência do LSD por meios puramente psicológicos, depois de sua volta à consciência normal, e sempre que assim o desejem. O fato de que essa espécie de experiência ocorra em algumas pessoas espontaneamente indica que os agentes químicos não são indispensáveis, e pode ser que o inconsciente possa ser persuadido, por meio de sugestões pós-hipnóticas, repetidas várias vezes se for necessário, a abrir a porta sem a ajuda de chaves químicas. Um cenário como o que Eileen imagina seria ideal para essa espécie de experiência. Seria ótimo se você pudesse ir até a Flórida para supervisionar pelo menos a fase inicial do trabalho.

Há poucos dias recebi uma carta de outro médico do Oklahoma, o Dr. Philip Smith, que vem fazendo experiências com anestésicos tais como o éter, o gás hilariante, etc. – testando os efeitos psicológicos de doses leves. Ele evidentemente obteve bons resultados, e escreveu-me perguntando se eu conhecia alguma indicação bibliográfica sobre o assunto. Conheço muito poucas, e ele disse que na bibliografia médica elas são notavelmente escassas. É evidente, pelo pouco que há, que aqui existe outra chave para a porta para o outro mundo.

Enquanto eu estava em Nova Iorque almocei com Wasson em seu Templo de Mamon. [....] ele tem trabalhado enormemente em seu assunto, e o material reunido em seus enormes tomos é mulato curioso e sugestivo. No entanto, ele gosta mesmo, como você diz, de pensar que seus cogumelos são de algum modo únicos e infinitamente superiores a tudo mais. Ten-tei desiludi-lo. Mas ele gosta de sentir que tomou posse do Onico psicodélico – não aceite sucedâneos, só é genuíno aquele que é vendido com assinatura do inventor.

Vi também em Nova Iorque o velho e querido Suzuki. Que velhinho realmente maravilhoso! Você leu o livro mais recente dele. sobre Misticismc, cristão e budista? É muito bom. E ainda melhor é um pequeno folheto publicado pela Sociedade Budista de Londres, chamado Essence of Buddhism (A essência do budismo). ate último é realmente admirável. Faz a gente per-ceber como esses budistas do Extremo Oriente são mais sutis, em assuntos de psicologia, do que qualquer pessoa no Ocidente. E!es sabem tudo sobre “experiências existenciais” e os horrores da situação humana como vêm, descritos por Sartre, Camus e os demais – e sabem como atravessar para o outro lado, onde todo o relativo manifesta a igualdade absoluta, e onde a Igualdade é idêntica à mahakaruna, a Grande Compaixão...

 

Do seu, afetuosamente, Aldous

 

A J. B. RHINE [SMITH 777]

 

The Shoreham, Nova York 19, N.Y.

19 de setembro de 1957

 

Caro J. B.,

 

Obrigado por suas cartas de 15 de agosto, que me encontram em Nova Iorque, lutando com os trabalhos preliminares da produção de uma peça.

A única informação sobre os efeitos de LSD sobre a PES vem de meu amigo, o Dr. Humphry Osmond, que descobriu que parecia haver uma relação telepática entre ele e outro homem, enquanto ambos estavam sob a influência da droga. Eles, no entanto, não fizeram nenhum teste sistemático. E o problema é que pessoas sob o LSD ou a mescalina geralmente estão em um estado de experiência mais intensa, mais significativa – um estado no qual podem tornar-se extremamente impacientes com a tolice erudita de estatísticas, experiências repetidas, precauções científicas, perguntas por parte de pesquisadores, etc. É mais ou menos como pedir a alguém que está embebido em escutar um Prelúdio e Fuga de Bach, ou está fazendo amor, que responda a um questionário. Os seres humanos, como você certamente verificou, não são cobaias muito boas, exceto nos níveis mais rudimentares de sua atividade vital.

 

Cordialmenfe Aldous H.