Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 26 - 1959 A Revolução Definitiva
Capítulo 26
1959
A Revolução Definitiva
ALDOUS HUXLEY
Novamente falando como homem de letras entre cientistas e técnicos, Huxley definiu sua tarefa como sendo criar “uma ponte entre a ciência e o mundo em geral". Ele comenta a capacidade superior de pessoas do mundo das letras para descrever o efeito das drogas na mente, e espera que surja uma linguagem que permita às pessoas "falarem sobre uma experiência mística em termos de teologia, de psicologia e de bioquímica a um só tempo”. A droga profetizada em Admirável Mundo Novo, que o autor supunha concretizar-se só depois de vários séculos, foi confirmada depois de apenas 27 anos: havia agora no mercado uma droga patenteada com o nome de “Soma’. Huxley concitava a platéia a lidar com a questão do ser humano sob ataque farmacológico, rememorando seu aviso feito em 1936 de que “os propagandistas do futuro serão provavelmente químicos e fisiologistas, assim como escritores”.
Esta NOITE me perguntei o que, exatamente, eu estava fazendo nesta companhia. Sou provavelmente o único diplomado em artes nesta grande conferência de doutores em várias ciências. Venho aqui como uma espécie de ignorante no vasto mar do conhecimento especializado. Há um verso muito curioso, que foi preservado do poeta grego Arquiloco. Foi transformada em titulo de um interessante ensaio de Isaiah Berlin sobre Tolstoi, Eis o verso: “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma única coisa enorme.” Ora, este é um verso enigmático. Mas no terreno da história natural o que ele significa é claro: a raposa sabe toda espécie de truques, mas o ouriço pode enrolar-se em forma de bola e resistir à raposa. É um verso que pode ser aplicado em muitos campos. Na literatura, por exemplo, há autores raposa e autores ouriço. Há as raposas que dominam uma área enorme e sabem muitas, muitas coisas. O exemplo supremo, é claro, é Shakespeare. E há os ouriços, que se concentram numa idéia e desenvolvem-na até o limite, e o exemplo supremo é, naturalmente Dante.
No caso presente, acho que posso aplicar essa idéia aos especialistas e não-especialistas, e posso dizer que aqui sou uma espécie de raposa de segunda categoria no meio de inúmeros ouriços da alta categoria, e que é que estou fazendo? Qual a vantagem da minha presença aqui?
Bem, obviamente não posso competir com nenhum dos ouriços. Ouço os trabalhos lidos aqui, e muitos deles me parecem extremamente interessantes, e eu aprendo muita coisa com eles. Mas. confesso que, quando os ouriços ficam químicos demais, eu me perco e fico sem saber do que estão falando. Mesmo assim, acho que a raposa, com seu conhecimento, um tanto superficial, de várias coisas, sua atividade abrangente e em várias direções, tem um valor, e pode fazer alguma coisa, especialmente se ela está disposta a trabalhar com os ouriços.
Naturalmente, nos defrontamos com o grande problema da especialização. Outro dia eu estava lendo um livro extremamente interessante, que vai sair na primavera, que trata da atividade de meu avô como reformador educacional. Ele era, acima de suas atividades como biólogo, imensamente interessado e ativo em questões sociais, e foi o principal responsável pelo currículo da Comissão das Escolas de Londres quando a educação tornou-se universal e gratuita na Inglaterra. E trabalhou muito para trans-formar a Universidade de Londres numa universidade realmente moderna, com departamentos especializados em todos os campos. Ele percebia que era necessária uma especialização para explorar as profundezas do conhecimento científico.
Mas a coisa interessante é que vinte anos depois, dois ou três anos antes de morrer, ele estava profundamente preocupado em desfazer os efeitos da especialização. Queria tirar os professores de seus nichos, juntá-los num esforço conjunto para reunir seu conhecimento especializado e apresentá-lo ao mundo. E depois de quase setenta anos este continua sendo um de nossos problemas consideráveis. Como aproveitar o máximo de ambos os mundos: o mundo da especialização, que é absolutamente necessário, e o mundo da comunicação e interesse gerais pelos assuntos mais importantes da vida, que também é necessário.
E acho que aqui o homem de letras tem uma contribuição a oferecer. Ele pode, se decidir associar-se aos ouriços, fazer algo para formar uma ponte entre a ciência e o mundo em geral. Isto me parece um assunto de importância crucial. Parecemos ter agora uma atitude realmente esquizofrênica.
Se eu tivesse o controle da educação, ia começar mostrando às crianças bem novinhas que a regra fundamental de moralidade, a regra de ouro, -começa no nível sub-humano, até mesmo sub-biológico. Se queremos que a natureza nos trate bem, temos que tratar bem a natureza. Se começarmos a destruir a natureza, a natureza vai nos destruir, e esse preceito moral básico é fundamental em nosso conhecimento atual d’ ecologia e conservação. D que sabemos agora sobre ecologia indica que a natureza existe num equilíbrio delicadíssimo, e que qualquer coisa que afete esse equilíbrio vai produzir conseqüências inesperadas e com freqüência desastrosas. Vemos então que muitas das mais importantes verdades éticas fluem natural e simplesmente de latos científicos, e eu estou convencido de que essa espécie de ponte entre o mundo da ciência pura para o mundo da ética devia ser construída desde a mais tenra idade.
Mas enquanto isso o homem de letras pode fazer muito para estabelecer essa ponte. Homens de letras muito pensaram sobre a relação entre o corpo e a mente, o cérebro e o corpo, e o físico em geral é o espírito, e produziram alguns resultados muito:interessantes, que podem ser chamados de pré-científicos. Por exemplo, se se comparar a psicologia medieval ou a psicologia do seculo XVI com a poesia dos Contos de Canterbury de Chaucer, percebe-se a enorme superioridade do artista literário sobre o homem de ciências naquele período. O mesmo acontece com Shakespeare. Quando se examina a psicologia oficial da época, fica-se espantado por sua crueza; mas quando se estudam as peças de Shakespeare, fica-se ainda mais espantado pela enorme sutileza da psicologia, e a agudeza desse homem extraordinário. A psicologìa oficial, científica, não alcança a psicologia literária até ò final do século ‘XIX. É incrível ver a aridez da doutrina psicologica oficial desse período, em comparação com a psicologia literária de romancistas como Baliac ou Dickens ou George Eliot ou Dostoievski e Tolstoi. Fica-se impressionado com a pobreza das formulações científicas em comparação com a extraordinária riqueza e a sutileza que esses homens, através da observação e da intuição, colocaram em seus romances. É divertido ver também, o modo como alguns dos problemas que estão sendo discutidos agora, o efeito das drogas sobre a mente, por exemplo, eram discutidos e compreendidos pelos grandes mestres da literatura no passado.
Há pouco mencionávamos o problema do álcool. É interessante ver como esses homens perceberam o fato de que os efeitos do álcool eram profundamente diferentes segundo o temperamento e a constituição das pessoas que o tornavam. E, aliás, não assisti a todas as sessões da conferência até agora, mas entre
essas a que assisti fiquei impressionado com a ausência de menção ao fato profundamente importante de que a espécie humana é mais variável do que quaisquer outras espécies em toda a natureza. De uma maneira geral podemos dizer que a variabilidade a espécie aumenta à medida que subimos na escala evolucionária, e que o máximo de variabilidade está na espécie humana, que somos profundamente diferentes uns dos outros como indivíduos, tanto estruturalmente quanto bioquimicamente. E é interessante, por exemplo, ver o modo como Shakespeare mostra que a embriaguez de um Falstaff é totalmente diferente da embriaguez de um Cassio, uma figura militar que pertence ao extremo do que Sheldon chamaria pólo somático da variabilidade humana. Ambos os exemplos de embriaguez são também bastante diferentes da embriaguez que seria manifestada, por exemplo, por uma pessoa com o meu tipo físico. Enquanto eu estaria me sentindo extremamente mal e muito, muito melancó1ico, Cassio seria extremamente agressivo, e Falstaff seria extremamente alegre. Essa profunda variabilidade entre indivíduos é notada, eu suponho, não apenas em relação ao álcool, mas a todas as outras drogas. Cito esse fato apenas para mostrar que o literato fez observações agudas desde o início da história da cultura.
Chegamos agora à questão da linguagem. Em seu trabalho de ontem, o Dr. Joel Elkes frisou o fato de que falta uma linguagem para discutir muitos desses problemas, e ele expressou a esperança de que dentro de pouco tempo possamos usar a matemática para essas discussões. Mas, no que concerne ao público em geral, a matemática não é de muita ajuda, e é aqui que o homem de letras pode, eu acho, desempenhar um papel muito importante. Nosso problema é adaptar uma linguagem que no momento não se presta a descrever a continuidade do corpo e da mente, um universo de continuidade completa. De um modo ou de outro temos que inventar os meios para falar sobre esses problemas de uma maneira artisticamente variada que vai torna-los acessíveis ao público em geral. Idealmente, por exemplo, deveríamos ser capazes de falar sobre uma experiência mística em termos de teologia, de psicologia e de bioquímica a um só tempo. É uma proeza difícil, mas, a não ser que possamos fazer algo assim, vai continuar sendo extremamente difícil para as pessoas pensar sobre essa contínua teia de vida, pensar nela como uma continuidade, e não em termos do velho dualismo platônico e cartesiano que distorce tão extraordinariamente nossa imagem do mundo. Como vamos fazer isso, como os literatos vão conseguir esse milagre da linguagem, eu não sei, mas acho que tem que ser conseguido. E talvez consigamos. Talvez algum futuro Shakespeare vá surgir com um enorme domínio da linguagem, capaz de pegar nosso inglês existente e, de algum modo, por algum milagre de poesia ou milagre de prosa poética, dar essa imagem de uma continuidade. Isso é algo a respeito de que eu mesmo pensei muito, e francamente não tenho talento suficiente para a tarefa.
No início do século XIX, há tanto tempo, Wordsworth comentou, em seu prefácio para as Baladas líricas, que chegaria o tempo em que a mais remota descoberta do físico e do químico tornar-se-ia um assunto apropriado para a poesia. Mais de 150 anos se passaram desde então, e esses campos ainda permanecem bem afastados. Ainda não fizemos a fusão, e este é um assunto sobre o qual os literatos deveriam pensar com muito cuidado.
Basta dessa espécie de justificativa para a minha existência aqui.
Vamos entrar no assunto dessa palestra, que denominei A Revolução Definitiva.
A Revolução Definitiva, como eu a vejo, é a aplicação aos assuntos humanos, tanto em nível social quanto em nível individual, da tecnologia. Ora, o que é tecnologia? Tecnologia, a técnica em geral, eu imagino, é a aplicação, de um modo perfeita-mente consciente e racional, de métodos bem planejados para fazer as coisas com eficiência. A palavra de ordem é “eficiência”.
O início da tecnologia, nos tempos modernos, foi no campo da produção industrial, no campo da aplicação de máquinas e trabalho fabril aos problemas de produzir, primeiramente, bens tecidos, depois bens metalúrgicos, e cada vez mais aos produtos industriais diversos. Então, com a criação de maquinaria mais complicada, tornou-se necessário aplicar a técnica a esferas especificamente humanas. De maneira geral podemos dizer que, quanto mais complicada é a maquinaria física, mais complicada tem que se tornar essa organização na sociedade que usa essas máquinas.
Naturalmente, a aplicação da técnica a problemas sociológicos, políticos e governamentais é antiga, embora esporádica. Por exemplo, no Velho Testamento, no Livro de Samuel e no Livro de Crônicas, lemos que o Rei Davi ordenou a enumeração do povo. Ele ordenou um censo, que é um dos primeiros métodos seguidos por qualquer governo eficiente e dotado de mentalidade técnica. Mas é interessante notar que Davi o ordenou expressa-mente contra a vontade de Jeová, e como resultado de tentação por parte de Satã. Assim, vemos que nesse período da Idade do Bronze, em que foram escritos o Livro de Samuel e o Livro de Crônicas, havia um poderoso sentimento antitécnica. As pessoas sentiam, com convicção, que havia um grande perigo em deixar que o governo viesse e descobrisse tudo sobre elas.
Há bastante base para essa suspeita, e no exame da História vemos que um dos grandes alicerces da liberdade tem sido a ineficiência. O desejo de ser um tirano existiu com freqüência, mas os meios para ser tirânico muitas vezes foram extraordinariamente deficientes. O espírito de despotismo era forte, mas a carne era fraca. Vejam o caso de Luís XIV. Luís XIV proclamou-se monarca absoluto e teria gostado de organizar todo o mundo, mas seu arsenal técnico era deficiente, e foi muito fácil para os indivíduos escapar entre as malhas de sua rede extensamente tecida. Mesmo na época de Napoleão nós ficamos impressionados pela ineficiência do chefe de polícia, Fouchette, um homem de enorme capacidade, com um departamento altamente organizado.
Mas comparadas com a eficiência das forças policiais até mesmo do estado democrático de hoje, essas pessoas eram inteira-mente ineptas. E havia muita liberdade individual, simplesmente porque as pessoas no poder não conseguiam controlar as massas.
Esses esforços esporádicos e preliminares do que poderia ser chamado tecnicizar o controle governamental têm atravessado a História. Por exemplo, o mundo romano era impressionantemente bem organizado em muitos aspectos. Eles tecnicizaram as forças militares de um modo em que elas não tornaram a ser tecnicizadas até a segunda metade do século XVIII. Tinham um sistema de lei técnico e racional, tal como não tornamos a ver até a época de Napoleão e a reforma da lei inglesa durante o século XIX. Mas é claro que tudo isso desapareceu, e durante a Idade Média tivemos um extraordinário mundo antitécnico no qual a organização era, por assim dizer – não gostamos de usar essa palavra, mas era, de um certo modo, natural. Desenvolveram-se organizações, as corporações, por exemplo, que cresceram a partir da associação de pessoas que faziam o mesmo tipo de coisa, sem qualquer tipo de sistema planejado. E era tudo notavelmente ineficiente.
Tinha que ser inteiramente destruído na época da Revolução Francesa, para tornar possível o grande desenvolvimento da tecnologia, que se seguiu. Essas que podem ser chamadas sociedades naturais tinham que ser atomizadas, desintegradas para permitir que surgisse a organização em larga escala técnica.
Hoje vemos a aplicação da técnica a assuntos humanos numa escala ainda maior em todos os países, e eu diria que a diferença realmente importante entre o mundo comunista e o mundo ocidental não se baseia na teoria marxista que exige a propriedade pública para os meios de produção. Esta é uma espécie de mitologia do mundo soviético. Mas a diferença real é que os comunistas estão dispostos a permitir que a tecnicização chegue a seu limite absoluto, enquanto nós temos escrúpulos consideráveis sobre permitir que isso domine nossas velhas tradições de liberdade pessoal e instituições democráticas. Marx e Engels deram uma importância extraordinária ao aspecto técnico da organização social; e o que vemos na Rússia de hoje é um mundo no qual a tecnologia recebe carta-branca, e no qual o homem está cada vez mais subordinado às necessidades da tecnologia.
E um dos perigos mais graves com que nos defrontamos é exatamente este: estarmos sendo forçados, pela tecnologia, a tomar o mesmo caminho que os russos tornaram voluntariamente, mas nós estamos sendo empurrados para lá. A tecnologia tende a crescer e desenvolver-se segundo as leis de seu próprio ser. Ela não se desenvolve de acordo com as leis de nosso ser. As duas coisas são bem distintas, e o homem agora se encontra subordinado a essa coisa que ele criou, e sujeito às suas leis, que não são leis humanas.
Vemos essa tecnicização prosseguir em muitos campos. Por exemplo, no campo do governo, mesmo nos governos democráticos e liberais, é bem claro que todo o sistema de governo está se tornando cada vez mais tecnicizado. Neste país há, eu creio, nada menos que cinqüenta e seis agências do governo cuidando apenas de estatísticas; tornou-se necessário que tenhamos esse imenso arsena1 de conhecimento técnico para permitir que a coisa funcione. Depois, existem os poderes reais do governo que foram tão imensamente fortalecidos pelo avanço da tecnologia. A polícia, por exemplo, tem poderes que, como declarei, a polícia de Napoleão nem imaginava. Não é apenas uma questão de possuírem armas superiores ou meios de comunicação que as forças policiais antigas não possuíam. É também uma questão de terem métodos extremamente precisos para registrar coisas. A posição de todos fica registrada em cartões perfurados, em microfilmes, etc. Este é um fato inteiramente novo. Há uma imensa massa de in-formações sobre todo o mundo nas mãos do governo central, que nunca existiu antes. A coisa pela qual Davi foi castigado alcançou uma importância que era absolutamente inimaginável há cem anos.
Este é apenas um dos campos no qual vemos o avanço da técnica. Tornamos a vê-la no campo econômico, onde, até mesmo nos países ocidentais, o velho hábito de deixar a economia interamente para o mercado livre é bastante substituída por um elaborado sistema de planos.
A tecnicização está sendo ainda mais acelerada pelo aumento rapidíssimo da população. A medida que os números aumentam, também aumentam os problemas de organização. As grandes dificuldades que surgem, à medida que os números pressionam cada vez com mais força os recursos, levarão, inevitavelmente, a uma atividade muito mais intensivamente planejada do goverrno central. E, à medida que os números aumentarem durante os próximos cinqüenta anos, como evidentemente farão – estamos crescendo agora a uma média de mais ou menos quarenta e cinco milhões por ano, no planeta –, à medida que isso acontecer, acho que veremos ainda mais tecnicização, uma usurpação maior, pela administração central, das funções que costumavam estar na mão de indivíduos.
E agora chegamos ao aspecto mais interessante e talvez o mais alarmante dessa tecnicizacão da vida humana, que é a técnica aplicada a indivíduos, não apenas à sociedade em larga escala. mas ao indivíduo, e isso pode ser dividido em várias categorias.
Em primeiro lugar, naturalmente, há essa técnica espantosa-mente bem desenvolvida, a propaganda. A propaganda pode ser definida como oposta ao argumento racional, argumento baseado em fatos. O argumento baseado em fatos pretende produzir uma convicção intelectual; a propaganda pretende, acima de tudo, produzir atos reflexos. Destina-se a fazer um desvio para evitar a es-cuba racional baseada no conhecimento dos fatos e chegar diretamente ao nlexo solar, por assim dizer, e a afetar o subconsciente. A eficácia da propaganda foi demonstrada, em escala assustadora, na Alemanha de Hitler; e é novamente demonstrada na ditadura comunista, e é demonstrada neste país pela extrema eficiência da publicidade comercial.
A tecnicização dos meios de chegar ao inconsciente humano apresenta um perigo enorme para toda a nossa concepção tradicional de democracia e de liberdade. Parece transformar em bobagem o processo democrático, que, afinal de contas, se baseia na teoria de que os eleitores fazem escolhas racionais, apoiadas em fatos. E quando se lê num livro como The hidden persuaders (Os persuasores ocultos) que neste país 'ambos os partidos políticos empregam agentes de publicidade para manejar a maquinaria de suas campanhas, fica-se assustado, e imagina-se quanto tempo a tradição democrática vai poder sobreviver nas garras de um método técnico que é cuidadosamente preparado para evitar a escolha racional e para afetar as pessoas num nível abaixo da razão, num nível quase fisiológico.
Então vemos novamente a tecnicização da persuasão como ela se manifesta nos processos de lavagem cerebral, que é cuidadosamente baseada no trabalho de Pavlov, e que é, pelo que podemos julgar pelos resultados conseguidos na China e entre prisioneiros de guerra na Coréia, extremamente eficiente, e com certeza destinada a se tornar cada vez mais eficiente ao longo do tempo.
Finalmente chegamos à questão de atacar o ser humano no nível fisiológico, por meios farmacológicos. O neste ponto que este congresso, eu acho, tem que começar a pensar sobre o que vai acontecer com essas drogas que vão sendo desenvolvidas. Como é que serão usadas? Como é que vamos ter certeza de que serão bem usadas? Parece-me perfeitamente viável que possa ser produzida uma droga eufórica bem mais eficiente e menos danosa do que o álcool, e, se essa droga se tornasse acessível, e fosse introduzida em todas as garrafas de Coca-Cola, então claramente, como eu me aventurei a afirmar há mais de vinte e cinco anos em Admirável mundo novo, isso poderia tornar-se um instrumento incrivelmente poderoso nas mãos de um ditador. Acho que o que está-se tornando bem claro é que as ditaduras do futuro provavelmente não serão baseadas no terror, como as ditaduras do passado próximo têm sido, as ditaduras de Hitler e Stalin. O terror é um método extremamente destrutivo, estúpido e ineficiente de controlar o povo. Os romanos descobriram isso há muitos anos. Tentaram o mais possível dirigir seu império por consentimento e não por mera coerção. E estamos agora em posição de agir muito melhor que os romanos, porque temos esse enorme arsenal de técnicas que permitirão aos dirigentes fazer seus súditos realmente gostarem da escravidão. Em Admirável mundo novo a distribuição dessa droga misteriosa, que chamei de Soma e cujo nome foi aproveitado pelos Laboratórios Wallace (devo dizer que para um produto muito pior), a distribuição dessa droga era um esteio da plataforma política – era simultaneamente um dos grandes instrumentos de poder nas mãos da administração central, e ao mesmo tempo era um dos grandes privilégios das massas a permissão de tomar essa droga, porque as tornava muito felizes. Isso naturalmente era uma fantasia, mas uma fantasia que agora está bem mais perto de ser realizada do que eu pensei, e do que estava, certamente, naquela época. E me parece perfeitamente viável que haverá, na próxima geração ou na seguinte, um método farmacológico de fazer as pessoas gostarem de sua servidão, e produzir ditaduras sem lágrimas, por assim dizer. Produzir uma espécie de campo de concentração indolor para sociedades inteiras, de modo que as pessoas na verdade serão privadas de suas liberdades mas gostarão disso, porque estarão distraídas de qualquer desejo de rebelião – pela propaganda, pela lavagem cerebral, ou pela lavagem cerebral intensificada por métodos farmacológicos. E isto me parece ser A Revolução Definitiva.
No passado, tivemos revoluções que ficavam todas na periferia das coisas. O ambiente era mudado na esperança de mudar-se o indivíduo que estava no centro desse ambiente. Hoje, graças à aplicação de técnicas aos seres humanos, estamos em posição de mudar o ser humano. De modo que a revolução definitiva vai dizer respeito ao homem e à mulher como eles são, e não ao ambiente em que vivem, e não vejo como se possa ir mais longe que a natureza definitiva dessa revolução.
Agora surge a questão: o que pode ser feito, se é que se pode fazer alguma coisa, a respeito desse avanço constante da tecnicização? Obviamente, impedi-la está fora de questão. A tecnicização vai continuar, gostemos ou não, e também parece perfeitamente claro que sem um aumento constante da tecnicização em muitos campos vai ser quase impossível proporcionar uma vida decente para o número cada vez maior de pessoas. De modo que temos que aceitar. o fato de que esse processo técnico vai continuar, e vai continuar a se desenvolver de acordo com as leis de seu próprio ser. Vai ser desenvolvido com o objetivo de produzir cada vez mais eficiência, não necessariamente com o objetivo de produzir seres humanos inteiramente desenvolvidos. Isso nada tem a ver com aquilo, e nem qualquer questão de ética tem algo a ver com aquilo. O imperativo categórico da tecnologia é a eficiência.
A questão é: podemos resistir a isso, podemos aproveitar o melhor dos dois mundos? Como eu disse, não é uma questão de esperar abolir a técnica. Acho que isso é impossível. É uma questão de aproveitar de alguma forma o melhor dos dois mundos, de modo que possamos aproveitar os resultados da tecnologia, que são a ordem; a eficiência e a profusão de bens, e ao mesmo tempo aproveitar o que para os seres humanos sempre foi considerado da maior importância, isto é, 'a liberdade e a possibilidade de espontaneidade. Essa questão da espontaneidade é terrivelmente importante, e é, na verdade, um dos grandes inimigos da técnica. Um ser humano numa unidade produtiva altamente tecnicizada não pode simplesmente ser espontâneo. Isso se chocaria com o plano apresentado de antemão pelos engenheiros e técnicos que decidem como ele deveria trabalhar, e desse modo ele, o ser humano, é profundamente diminuído, porque não tem permissão para ser espontâneo.
Nosso problema é descobrir um modo de permitir que essa espontaneidade venha à tona, e permitir que a liberdade exista, deixando, no entanto, que a técnica se desenvolva até os limites que ela tem que alcançar, e isso é um problema incrivelmente difícil. É também um problema por demais urgente.
Quando escrevi Admirável mundo novo, em 1932, imaginei que esse tipo de mundo existiria daqui a uns 500 anos. Mas um grande número de previsões feitas naquela fantasia tornou-se verdadeiro dentro de vinte e -sete anos, e parece bem provável que várias outras tornar-se-ão realidade dentro da próxima geração, de modo que não há muito tempo. A urgência é altamente intensificada pelo enorme crescimento da população. Quando se reflete, por exemplo, que países como o México terão suas populações duplicadas nos próximos vinte e quatro anos, vê-se que devemos começar a fazer alguma coisa imediatamente.
E eu acho que o primeiro passo é tentar descobrir o que pode ser que aconteça. No passado nós nos deixamos tomar de surpresa pelo desenvolviinento da tecnologia. Acho que não era necessário. Acho que não era necessário sermos tomados de surpresa pelo desenvolvimento do sistema fabril no final do século XVIII e no início do século XIX. Se tivéssemos nos dedicado, se nossos antepassados tivessem se dedicado a tentar prever o que ia acontecer, acho que eles não teriam que sujeitar milhões de seres humanos a uma vida absolutamente infernal, no que Blake chamava o moinho escuro e satânico da época. Se tivéssemos usado um pouco d imaginação e um pouco de boa-vontade naquele tempo, acho que poderíamos ter salvo milhões de pessoas de ama infelicidade incalculável durante duas ou três gerações.
E acho que não temos que nos deixar ser tomados de surpresa novamente. Acho que temos uma grande quantidade de fatos, e que com um pouco de imaginação podemos projetá-los no futuro, e podemos ver com bastante clareza o que vai acontecer, o que é provável que aconteça, contanto que não nos expludamos antes.
Parece-me por demais importante que os ouriços, os especialistas, entrem em contato com os representantes das outras especialidades não-científicas, e com representantes do público leigo comum. E posso imaginar um congresso em escala muito maior, não necessariamente maior em número, mas numa escala mais variada, do que o congresso que hoje aqui tem lugar. Teria representantes de várias disciplinas científicas encontrando representantes do governo, dos negócios, do campo da religião, sentando-se e tentando imaginar (A) o que é provável que aconteça, e (B) o que pode ser feito para abrandar os resultados, que, se doados por sua própria conta, acho que serão extremamente perigosos e extremamente indesejáveis. Acho que tem que haver um congresso assim, tem que haver um encontro de cabeças para tentar planejar uma política educacional qualquer, uma política governamental qualquer, uma política legal qualquer em relação a esse processo de tecnicização desmedido, que vem prosseguindo nos últimos 100 anos, que vem prosseguindo com uma aceleração crescente, e que vai nos levar Deus sabe aonde dentro dos próximos cinqüenta anos.
Encerro, portanto, com essa idéia: que numa instituição como esta, na Universidade da Califórnia, no departamento médica ou em outro qualquer dos departamentos, haja um congresso periódico de tipos de pessoas bem diferentes para pensar sobre esses problemas e, como eu disse, se possível, planejar alguns meios pelos quais possamos aproveitar o melhor de ambos os mundos. O melhor do mundo puramente humano, e o melhor desse mundo extraordinário, maravilhoso e assustador da técnica.