Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 31 - 1961 Cartas
Capítulo 31
1961
Cartas
Em maio desse ano, um incêndio destruiu completamente a casa dos Huxley em Deronda Drive, inclusive sua biblioteca de 4.000 volumes e todos os seus manuscritos, com a exceção do quase terminado A ilha, que ele salvou das chamas e terminou algumas semanas mais tarde. “É estranho estar começando do princípio na minha idade”, ele escreveu a respeito do incêndio. Em 1961 ele pronunciou três grandes conferências: uma sobre o controle da mente, em San Francisco, outra num congresso anual de parapsicologia na França, e a terceira num congresso internacional de psicologia aplicada, na Dinamarca. Deu sua entrevista mais longa – cobrindo duas tardes inteiras – para um comentador da BBC em Londres. Encontrou-se com o Dr. Albert Hofmann na Suíça, e viajou à 1ndia pela primeira vez desde a década de 20.
Suas cartas ao Dr. Timothy Leary mostram seu continuado interesse pela arte visionária, assim como pela inutilidade da abordagem científica (por exemplo, a pavloviana) que encara negativamente o comporta-mento modificado. Expressou com freqüência seu cuidado em não dramatizar ou glamurizar as drogas psicodélicas nos meios de comunicação de massa, e esse fato é reiterado numa carta a Osmond.
AO DR. TIMOTHY LEARY1
3276 Deronda Drive, Los Angeles 28, Calif.
6 de fevereiro de 1961
Meu CARO Tim,
Obrigado por sua carta de 23 de janeiro, que chegou durante a minha ausência – primeiro no Havaí, depois em São Francisco (onde tivemos um bom congresso sobre O Controle da Mente).
Não vou poder – infelizmente! – escrever coisa alguma para Harpers – estou desesperadamente ocupado tentando ter-minar um livro.
Em S.F. encontrei o Dr. [Oscar] Janiger, a quem não via havia vários anos. Ele me disse que deu LSD a 100 pintores que fizeram quadros antes, durante e depois da droga, e cujos esforços estão sendo avaliados por uma equipe de críticos de arte. Isto pode ser interessante. Eu lhe dei seu endereço, e acho que você vai ter notícia dele.
Também conversei rapidamente com o Dr. Joly West (prof. de psiquiatria na Faculdade de Medicina da U. de Oklahoma), que me contou que trabalhou muito com privação sensorial, valendo-se de versões aperfeiçoadas das técnicas de John Lilly. Efeitos visionários interessantes – mas não tive tempo de ouvir detalhes.
Você tem razão sobre a inutilidade da abordagem “científica”. Esses idiotas deviam ser pavlovianos, e não etnólogos lorenzianos. Pavlov nunca viu um animal em seu estado natural, só sob tensão. Os rapazes do LSD “científico” fazem a mesma coisa com as pessoas submetidas às experiências. Não é de espantar que eles encontrem psicoses.
Do seu, Aldous
1 Diretor do Projeto de Pesquisa sobre Psicodélicos em Harvard, 1960-68. Não
consta da edição de Smith das cartas de Huxley.
AO DR. TIMOTHY LEARY [SMITH 861]
The Plaza, Quinta Avenida com Rua 59, Nova Iorque 13 de abril de 1951
Meu caro Tim
Na próxima vez que você vier a Nova Iorque vá ver a exibição de Max Ernst no Museu de Arte Moderna. Alguns dos quadros são exemplos maravilhosos do mundo visto do ponto de observação do LSD ou dos cogumelos. Ernst vê de modo visionário, e é também um artista de primeira categoria, capaz de expressar o que vê em quadros que são tão adequados aos fatos visionários quanto qualquer outro que eu conheça. Pode ser interessante entrar em contato com ele, descobrir qual é o estado normal dele, e então dar-lhe LSD ou cogumelos e fazê-lo comparar suas experiências normais com as produzidas pela droga. Combinação de idiossincrasia psicológica e enorme talento faz dele um caso raro e valioso.
Do seu, Aldous