Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária
Capítulo 8 - 1953 Manhã de Maio em Hollywood
Capítulo 8
1953
Manhã de Maio em Hollywood
DR. HUMPHRY OSMOND
Aqui o Dr. Osmond narra “aquela viagem improvável" que o levou a Los Angeles com uma dose <O,4 g) de mescalina para Huxley, a quem ele guiou na viagem imortalizada em A,s portas da percepção. As apreensões clássicas do guia são expressas com humor: embora Aldous “parecesse o paciente ideal”, Osmond chegou a temer momentaneamente que se tornaria conhecido como “o homem que enlouqueceu AIdous Huxley”. Osmond permaneceu um dos mais íntimos amigos de Huxley durante seus últimos dez anos; muitas das mais importantes cartas de Huxley a respeito de psicodélicos foram endereçadas a ele.
Faz agora onze anos desde que fiz aquela viagem improvável a Hollywood. Eu estava trabalhando num hospital de doenças mentais nas campinas do Canadá, a três mil quilômetros de distância. Embora eu tivesse guardado comigo um exemplar da esplêndida antologia de Huxley Textos e pretextos durante os ataques a Londres, em comboios no Atlântico num destróier de escolta, e ele ainda me acompanhe em minhas andanças, nunca esperei conhecer pessoalmente seu formidável autor. Na verdade, se eu tivesse pensado sobre isso, teria duvidado de termos muita coisa em comum, pois na época, como agora, meu principal interesse e minha principal preocupação eram cuidar, tratar e aliviar pacientes que sofriam de esquizofrenia.
O Dr. John Smythies' e eu tínhamos colaborado num artigo para o Hibbert Jourreal‘ sobre o estado atual da medicina psicológica. Aldous leu-o; gostou dele; e nos mandou uma carta caracteristicamente amistosa e encorajadora, escrita em sua caligrafia vigorosa que ascendia ligeiramente ao largo do papel. Ele acrescentou que esperava nossa visita na próxima vez que fôssemos à Califórnia. Nem John nem eu estávamos suficientemente aclimatados na América do Norte para sentir que os três/cinco mil quilômetros não eram uma barreira particular ao encontro; isso foi antes que o avião a jato tivesse erodido inteiramente nosso senso espacial.
No entanto, menos de um mês depois dessa primeira carta, eu estava a caminho da Califórnia para ser hóspede de Aldous e Maria Huxley. Eu fora mandado, bastante inesperadamente, assistir ao congresso da Associação Psiquiátrica Norte-Americana que então se realizava em Los Angeles. Lembro-me de ter-me sentido ao mesmo tempo um pouco envergonhado e orgulhoso quando disse que não ia precisar de hotel pois ia ficar com eles.
Maria contou-me como aconteceu. Certo dia, no café da manhã, Huxley ergueu os olhos de sua correspondência e disse: “Vamos convidar esse cara Osmond para ficar aqui.” Maria ficou surpresa, porque Aldous raramente sugeria hospedar alguém, e ela nunca tinha ouvido falar em “esse cara”. Aldous esclareceu: “É um psiquiatra canadense que trabalha com mescalina.” Maria respondeu: “Mas ele pode ter barba, e nós podemos não gostar dele.” Aldous pensou um pouco e disse: “Se não gostarmos dele, podemos sair bastante.” Maria achou que essa não era uma boa solução. No entanto, o convite de Aldous insinuava que, embora eu fosse bem-vindo, a natureza de seu trabalho exigia que ambos saíssem muito. Fiquei intrigado, especialmente desde que ele declarara que estava interessado em nosso trabalho e poderia até tornar-se objeto de uma experiência, se fosse possível. Fiquei também apreensivo, mas minha esposa assinalou: “Vai ser só por alguns dias, e você pode ‘ficar preso’ até mais tarde nas sessões da A.P.N.”
O convite era uma honra e uma oportunidade. Fiquei curiosíssimo em conhecer esse homem notável, cujas idéias eu tinha criticado de uma distância segura, mas não sou um homem versado em literatura e achava a perspectiva intimidante. Cheguei à casa dos Huxley na Kings Road, não muito longe de Sunset Boulevard, cansado e preocupado. Não tinha conseguido informar-me sobre os regulamentos a respeito de entrar com mescalina nos Estados Unidos. Quando os descobri, anos mais tarde, percebi que tinha motivos para ficar preocupado. Sentia-me também tímido e sem jeito; duvidava que pudesse sustentar o tipo de conversa que imaginava os Huxley estivessem acostumados.
Maria colocou-me à vontade imediatamente. Ela não era nem um pouco intimidante. Por seu lado, ela ficou aliviada porque eu não tinha barba. Declarou: “Eu sabia que você e Aldous, sendo ingleses, iam se dar bem.” Para Maria, os ingleses eram bastante incompreensíveis, a não ser um ao outro.
Aldous deslizou em minha direção, vindo da fresca penumbra da casa para o sol da varanda da frente. Parecia estar suspenso a alguns centímetros do chão, como uma das figuras aleg6ricas de Blake. Era muito alto. A cabeça era maciça, de belo formato, com uma testa esplêndida. Seu olhar, do olho bom, era aguçado e penetrante, mas parecia estar focalizado um pouco acima e abaixo de mim. Seu aperto de mão era breve e inseguro, como se ele não gostasse desse hábito, e isso era mesmo verdade, pois as pessoas de pele fina e estrutura leve, a quem Sheldon chama cerebrotônicas, não gostam de contatos físicos em demasia. A voz era clara e lindamente modulada, com uma qualidade penetrante, quase de pássaro, qualidade essa da qual tornei plena consciência alguns dias depois, no congresso da A. P.N. Estávamos parados no saguão, do lado de fora do salão principal, quando a voz de Huxley atravessou o burburinho como uma lâmina: “Mas, Humphry, que coisa incrível, num país marxista como este...” Era o ano de 1953, no auge da era de McCarthy. “Marxista” era uma palavra diabólica na cidade dos anjos.
O que impressionou desde o início, e continuou a me impressionar ao longo dos anos de nossa amizade, foi a bondade e tolerância desse homem cujas obras me tinham às vezes levado a supor que ele seria cínico, desiludido e até mesmo rude.
Levei algum tempo para compreender que “Bertie” significava Bertrand Russell, que “Tom Eliot” era T. S. Eliot, e “Lawrence” era, evidentemente, D. H. Maria contou-me que quando ela estava datilografando o manuscrito de Lady Chatterley, Lawrence procurou-a, aborrecido e embaraçado. Exclamou: “Maria, você nunca mais deve usar aquela palavra.” Maria quis saber qual podia ser essa palavra proibida, e Lawrence, com relutância, pronunciou um palavrão hoje em dia muito comum.
“Mas, Lawrence”, ela protestou, “você a usa várias vezes em Lady Chatterley. Além disso, é uma ótima palavra.” Lawrence explicou delicadamente que ela não deveria mais usar a palavra porque “ia chocar Aldous. Não é absolutamente uma palavra ótima, e de qualquer maneira serviria.” Maria ficou espantada, porque Aldous não parecera nem um pouquinho aborrecido com a palavra, mas já que Lawrence evidentemente ficava, ela parou de empregá-la. Ambos sempre falaram de Lawrence com muita afeição.
Eu tinha imaginado que Aldous era bem informado, mas desde o primeiro encontro até nosso último em Estocolmo, no ano passado, nunca deixei de me assombrar e deliciar com a ex-tensão, a abertura, a flexibilidade e a alegria pura de sua mente esplêndida. Quando ele estava à vontade, lançava idéias no ar com a graça, a elegância e o senso de humor que um golfinho treinado possui ao brincar com a bola. Estivéssemos nós numa reunião científica, fazendo turismo em Nova Iorque, visitando o grande cemitério de Forest Lawn, caminhando pelos Surrey Commons que ele amava tanto, jogando críquete no deserto de Mojave, abrindo nosso caminho para o Ateneu onde, ele declarava, “a gente mal consegue ouvir os próprios pensamentos, por causa do barulho dos facões políticos, acadêmicos e eclesiásticos sendo afiados”, ou numa expedição de compras ao Ohrbach’s, Aldous discutia assuntos sérios e triviais com seu imenso cabedal de conhecimento especializado. Adorava um bom mexerico, sobre qualquer assunto – a última descoberta científica, princípios teológicos, livros, pinturas, novos processos no sistema de esgotos, utopias, o sistema de abastecimento de água de Los Angeles (um particular favorito), o efeito de vestuário produzido em massa nos sistemas sociais e políticos, parapsicologia, ou o futuro da megalópole – sempre, desde que lhe proporcionasse ocasião de refletir e comentar sobre a infinita estranheza da vida. Embora fosse muito bem informado, estava sempre aprendendo mais, e o melhor tributo que se podia conseguir era o seu deliciado “Que coisa absolutamente incrível!”
Aqueles que não o conheciam, ou que não conheciam muito bem o assunto que ele estivesse discutindo, poderiam supor erroneamente que seu conhecimento era superficial, pois ele usava de maneira leve sua grande cultura e nunca era pomposo. Considerava-se um homem educado fazendo o possível para manter-se atualizado em sua época, e achava natural fazer isso. Acho que ele estava bastante cônscio de que era imensamente inteligente e dotado, mas não considerava isso motivo de orgulho ou soberba. Seu orgulho era de poder ganhar a vida escrevendo, uma ocupação de que ele gostava e para com a qual tinha o amor e o cuidado de um artesão. Considerava-se um escritor que devia ser capaz de comunicar-se com todo tipo de pessoas, não apenas os sofisticados ou os eruditos. Nunca achou indigno de si escrever para filmes ou para revistas populares. Certa ocasião estava planejando transformar Admirável Mundo Novo numa comédia musical, porque achava que assim suas idéias seriam melhor compreendidas. Escrevia para Playboy e para Daedalus, para Life e para Encounter, e considerava-as igualmente aceitáveis como canais de comunicação com o povo. Ele gostava de conhecer e de escrever para homens e mulheres interessantes, em todos os lugares, e parecia igualmente à vontade com sábios, cientistas, milionários, gurus, teatrólogos e administradores, assim como com as pessoas mais loucas e exóticas. E todos pareciam apreciar muito sua inteligência crítica, imparcial, sábia, porém bondosa e entusiasta.
Levei Aldous a uma das principais sessões do congresso. Ele sentou-se lá, prestando a maior atenção, e fazendo o sinal-da-cruz entusiasticamente cada vez que o nome de Freud era mencionado. Em Admirável Mundo Novo, o Salvador era chamado “Nosso Ford”, ou, como certas pessoas, por alguma. razão inexplicável, preferiam chamá-lo, “Nosso Freud”. Tratava-se ali de uma congregação, incluindo muitos devotos freudianos, de modo que Aldous ficou ocupado. Felizmente meus colegas psiquiatras estavam tão absortos nas orações que ninguém percebeu.
Quando o congresso terminou, a mescalina veio à tona, pois eu tinha confessado ter trazido alguma comigo. Maria assegurou-me que Aldous estava ansioso por tomá-la, pois ela tinha imaginado, corretamente, que “vocês, ingleses” tinham evitado discutir o assunto. O médico deles não se opunha. Aldous não tinha problemas de fígado. Apesar dos comentários que às vezes ouvia sobre “as deploráveis tendências místicas dele nos últimos anos”, achei-o, tanto na época quanto posteriormente, sagaz, tranqüilo e acurado; mas é claro que a história do misticismo, apesar do conceito popular em contrário, preocupa um grande número de pessoas práticas, racionais e socialmente ativas.
Aldous arranjou um ditafone para a ocasião. Eu não via uma maneira decente de me escusar, e concordamos em fazer a experiência. Passei uma noite inquieto. Na manhã seguinte, enquanto eu mexia a água e observava os cristais branco-prateados da mescalina girando e dissolvendo-se com uma esteira ligeira-mente oleosa, pensava se a quantidade seria suficiente, ou demasiada. Era uma deliciosa manhã de maio em Hollywood, sem sinal de smog para irritar os olhos, e nem quente demais. Mas eu estava preocupado. Aldous e Maria ficariam tristes se não funcionasse, mas, e se funcionasse bem demais? Será que eu devia cortar a dose pela metade? O lugar não podia ser melhor, Aldous parecia o paciente ideal, Maria era eminentemente sensata, e nós gostávamos uns dos outros, o que era muito importante para a experiência; mas eu odiava a possibilidade, por mais remota que fosse, de ser o homem que tinha enlouquecido Aldous Huxley. Meus temores eram infundados. A amarga substância química não funcionou com a rapidez que Aldous impacientemente esperava. Foi apagando aos poucos a pátina de raciocínio conceitual; as portas das percepção foram purificadas, e Aldous percebia coisas com menos interferência de seu poderoso cérebro racionalizador. Dentro de duas horas e meia eu podia perceber que a droga estava agindo, e dentro de três horas eu sabia que tudo ia dar certo. Aldous e Maria ficaram muito contentes. Eu também, assim como muito aliviado.
Três dias depois voei de volta para o Canadá, para encontrar as campinas cobertas por uma nevada temporã. Eu tinha passado dias agradáveis, e esperava ansioso o relatório de Aldous, que ele desenvolveu num livro amplamente conhecido – As portas da percepção. Daí em diante nos encontrávamos pelo menos uma vez por ano, e estávamos sempre nos escrevendo. Tenho agora comigo a última carta dele, escrita em 15 de outubro de 1963. Ele discutia o perfil de um estudo sobre o potencial humano, em que estávamos ambos ocupados. Era característico dele... "Mas sendo o velho das Termópilas que nunca faz nada direito, não consigo encontrar a cópia...” A carta termina: “Sinto que nunca mais vou servir para coisa alguma, mas espero e acho que esse estado de coisas vai passar a seu tempo (vai passar – o único lema que serve para qualquer situação humana, boa ou ruim).”
Aldous era profundamente interessado na relação entre a psique e o caráter, e era amigo íntimo do Dr. William Sheldon, um dos notáveis pioneiros nesse campo. Através dele fiquei conhecendo Sheldon, que me declarou que Aldous era uma das pouquíssimas pessoas que realmente entendiam o que ele estava querendo dizer. Numa de nossas expedições de compras ao Ohrbach’s, em Los Angeles, Aldous apresentou-me à arte de somatotipia de escada rolante. As pessoas na escada rolante estão distraídas, alheas a qualquer exame, e à vontade. Quando passávamos por elas na direção oposta, Aldous gritava: “Humphry, você viu aquela mulher maravilhosamente somatotônica com as feições astecas?” Ele próprio ilustrava as limitações impostas pela constituição na imaginação mais vívida quando diz!a: “Sabe, não consigo imaginar como seria ser o Joe Louis.” Eu partira do princípio de que com seu temperamento profundamente compreensivo ele teria pouca dificuldade em entrar no mundo do lutador de boxe. É um mundo no qual tudo se concentra naqueles momentos eternos e altamente ritualizados dentro do ringue; momentos da verdade, para os quais vive o grande lutador, e durante os quais ele está realmente vivo. Mas para Aldous, de ossos leves, pouco músculo, linear, esguio e cerebrotônico, com sua sensibilidade à dor e sua consciência da possibilidade de ferir-se, parecia incompreensível que alguém pudesse gostar de assistir ou de participar desse combate violento e traumatizante, com seu doloroso impacto dos corpos.
Não muito depois de minha segunda visita a Los Angeles, Maria faleceu. Sabendo que seu tempo era curto, ela me contou como estava preocupada com Aldous; mas na ocasião ele mostrou-se mais capaz e mais adaptável do que ela e a maioria dos amigos tinham esperado.
Ele apresentou-me a muitas pessoas a quem achava que nosso trabalho interessaria, e dessas apresentações houve vários seguimentos. Por exemplo, meu encontro com Eileen Garrett‘ resultou numa série de estudos ligando a parapsicologia à psicofarmacologia. E daí surgiram emocionantes progressos em hipnose, um dos assuntos prediletos de Aldous. E com seu irmão Julian,4 meu co-lega o Professor Abram Hoffer e eu exploramos algumas das vantagens genéricas de ser esquizofrênico. Em nosso trabalho com psicodélicos (substâncias de manifestação ou revelação da mente) Aldous advogava uma temeridade cautelosa, aconselhando os exploradores a trabalhar em segredo e a evitar publicidade. Infelizmente seu conselho não foi seguido.
Quando nos encontrávamos em Nova Iorque, ele geralmente entrava numa galeria de arte e adejava de um quadro a outro, espiando através de seu pequeno óculo de alcance, e sempre vendo coisas que eu, com minha visão muito melhor, nunca tinha observado.
Foi quando ele estava escrevendo A ilha que eu soube do câncer que iria matá-lo. Era novembro de 1960, o dia da eleição presidencial, e eu tinha ido de avião para Cambridge, em Massachusetts, onde ele ia fazer uma conferência. Parecia abatido, cansado e pálido. Disse-me que tinha tido câncer de língua, mas que seu médico achava que havia uma boa chance de funcionar o tratamento com agulhas de rádio. Ele tinha pensado em cirurgia mas, ao saber que certamente iria prejudicar sua fala, tinha desistido. Pediu-me para não discutir isso com outros membros de sua família, pois eles ficariam preocupados e isso não o ajudaria. Depois mudou de assunto e leu para mim o capítulo de A ilha que trata da medicina-moksha, o uso de psicodélicos para ajudar as pessoas a se prepararem para mudar num mundo em mutação, ensinando-as como aprender a mudar para melhor e como preparar-se para morrer. Continha suas melhores idéias, que provocarão muito estudo e meditação, e cujo valor ainda não foi inteira-mente apreciado.
No início de 1961, ele e Laura perderam sua casa nova num violento incêndio, e todas as suas posses, incluindo livros e papéis, foram queimadas. Foi uma espécie de morte, um despojar-se de tudo. Como ele disse mais tarde, "tornei isso como um sinal de que a sinistra ceifadora estava de olho em mim”. No entanto ele agüentou isso também, e em suas visitas à Inglaterra em 1961 e 1962, apesar de tão magro que parecia que um vento forte iria carregá-lo, ele estava maravilhosamente alegre.
Apenas um ano antes de morrer, ele parou do lado de fora da casa onde nascera, em Charterhouse School, em Surrey, e ficou comovido e surpreso porque o dono da casa reconheceu-o e convidou-o a entrar. Ele achava difícil ser uma figura pública e levar-se a sério como um grande homem. Disse-me que era incômodo ser elogiado, porque ele ficava com vontade de rir ou então voltar-se para ver quem era a pessoa admirável para quem os discursos estavam sendo feitos. No entanto, gostou muito de sua recepção no Rio de Janeiro, onde todos os dias de sua estada um dos jornais publicou uma coluna intitulada “O Sábio”. “É o único lugar no mundo onde alguém vai querer ler a opinião de um cavalheiro versado em letras sobre coisas em geral, todos os dias.” Achou Brasília cansativa e um tanto desumana, e o ponto alto de sua viagem foi sobrevoar o rio Amazonas para ver uma tribo de índios na Idade da Pedra. Foi recebido por um dos esplêndidos antropólogos, funcionário da Funai, que, ouvindo o nome Huxley, perguntou: “Sir Julian?” e, ao ouvir: “Não, Aldous”, chorou de alegria. Acho que ele considerava esse o maior tributo.
Em agosto passado, na Academia Mundial em Estocolmo, ele estava transparente de palidez e antes nem sabia se ia poder fazer a viagem. O câncer retornara, mas tinha sido novamente rechaçado por algum tempo. Mas ele esforçou-se diligentemente para persuadir os membros da Academia a estudar o potencial humano. Tendo tido sucesso, ele dedicou-se a preparar um esboço. Fiquei com ele enquanto o completava, em seu quarto de hotel. Estava absorto em sua tarefa. Observando-o, senti que talvez nunca mais o visse de novo, e assim tirei alguns retratos do grande artesão trabalhando. Pois seu estilo coloquial enganadoramente fácil não era conseguido sem muita revisão cuidadosa. Ele me disse que agora não era mais fácil escrever do que vinte e cinco anos antes. Não conhecia nenhum atalho para escrever bem, a não ser reescrever várias vezes. Fiquei inquieto quando nos despedimos, mas tentei ignorar minha apreensão. Ele iria visitar-me em Princeton em outubro, apenas dois meses depois. E em nossos últimos momentos juntos estávamos discutindo quem deveria ser convidado para participar do novo trabalho. Mas quando chegou outubro ele estava doente demais para viajar. O tempo emprestado, ganha pelo tratamento com raios X, estava esgotado, e logo o meu querido amigo, o sábio e bondoso trifibio, pois essa era a sua própria definição do homem, deixara de existir.
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* Colega do Dr. Osmond e do Dr. Abram Hoffer na pesquisa sobre esquizofrenia realizada no Hospital Saskatchewan, em Weyburn.
** Hibbert J., L. I., 2 (jan. 1958), um resumo de seu relatório: “Esquizofrenia: uma nova abordagem” J. Mental Sci., 98 (abril 1952).
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*** Presidente da Fundação de Parapsicologia.
**** Sir Julian Huxley (1887-1975), o famoso zoólogo, era irmão mais velho de Aldous.