Moksha: Textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária

Capítulo 39 - 1963 A Cultura e o Indivíduo

Capítulo 39

 

1963

 

A Cultura e o Indivíduo

ALDOUS HUXLEY

 

Ao oferecer esse ensaio aos editores da primeira antologia popular sobre LSD, Huxley “deliberadamente. [... ] tratou em termos mais gerais todo o problema da relação do indivíduo com sua cultura – um proble-ma em cuja solução os psicodélicos sem dúvida poderão fazer sua parte”. (Carta a T. Leary, em 3 de junho de 1963). O valor das substâncias psicodélicas está em “po-tencializar a educação não-verbal [da pessoa] ”, permi-tindo que ela transcenda seu condicionamento social e consequentemente faça surgir as reformas culturais neces-sárias. Huxley pede “experiências em larga escala [... ] empíricas” no tempo limitado que nos resta.

 

ENTRE A CULTURA e o indivíduo, a relação é, e sempre foi, estranhamente ambivalente. Somos ao mesmo tempo os beneficiários de nossa cultura e suas vítimas. Sem a cultura, e sem essa pré-condição de toda a cultura, a linguagem, o homem não passaria de mais uma espécie de babuíno. É à linguagem e à cultura que devemos nossa humanidade. E “Que obra é o homem!”, diz Hamlet:

“Como é nobre na razão! como é infinito em capaci-dade!... em ação, como se parece com um anjo! na apreensão, como se parece còm um deus!”.

Mas, infelizmente, nos intervalos de ser nobre, racional e potencialmente infinito, homem, orgulhoso homem,

Vestido com uma breve e pouca autoridade,

Mais ignorante daquilo que tem mais certeza,

Sua essência vítrea, como um macaco zangado,

Faz truques tão fantásticos diante dos céus.

Como fazer os anjos chorar.

Gênio e macaco zangado, que faz truques fantásticos e raciocina como um deus – em todos esses papéis, os indivíduos são produto de uma linguagem e de uma cultura. Trabalhando nos dozes ou treze bilhôes de neurônios no cérebro humano, a linguagem e a cultura nos deram a lei, a ciência, a ética, a filo-sofia; tornaram possíveis todas as façanhas de talento e de san-tidade. Também nos deram o fanatismo, a superstição e a pre-sunção supersticiosa; idolatria nacionalista e assassinato em massa em nome de Deus; a propaganda que levanta as multidões e a mentira organizada. E, juntamente com o sal da terra, elas nos deram, geração após geração, inúmeros milhões de conformistas hipnotizados, as vítimas predestinadas de dirigentes ávidos de poder que sâo, eles mesmos, as vítimas de tudo o que é mais in-sensato e desumano em sua tradição cultural.

Graças à linguagem e à cultura, o comportamento humano pode ser incomparavelmente mais inteligente, mais original, cria-tivo e flexível do que o comportamento dos animais, cujos cérebros são pequenos demais para acomodar o número necessário de neurônios para a invenção da linguagem e a transmissão de conhecimento acumulado. Mas, novamente graças à linguagem e à cultura, os seres humanos com frequência se comportam com uma estupidez, uma falta de realismo, uma inadequação total, das quais os animais são incapazes.

Vindo da Ilha de Trobriand ou de Boston, católico da Sicília ou budista do Japão, cada um de nós nasce numa cultura qualquer e passa a vida dentro de seus limites. Entre cada consciência humana e o resto do mundo há uma cerca invisível, uma rede de padrões tradicionais de pensar e sentir, de opiniões de segunda-mão que se transformaram em axiomas, de antigos slogans reverenciados como revelações divinas. O que vemos através das malhas dessa rede, nunca é, naturalmente, a “coisa em si” incognoscível. Nem mesmo é, na maioria dos casos, a coisa como ela se impinge sobre nossos sentidos e como nosso organismo esponta-neamente reage a ela. O que normalmente apreendemos e a que reagimos é uma curiosa mistura de experiência direta com símbolos culturalmente condicionados, de impressões sensoriais com idéias preconcebidas a respeito da natureza das coisas. E a maioria das pessoas sente que os elementos simbólicos nesse coquetel de consciência são mais importantes que os elementos dados pela experiência direta. Isto é inevitável, pois, para aqueles que aceitam totalmente sua cultura, sem criticá-la, as palavras na lin-guagem familiar não tornam o lugar (ainda que insuficiente-mente) das coisas. Pelo contrário, as coisas tornam o lugar das palavras conhecidas. Cada acontecimento único de sua vida é imediata e automaticamente classificado como outra ilustração concreta de uma das abstrações verbalizadas e consagradas pela cultura, enfiadas em suas cabeças pelo condicionamento infantil.

Escusado é dizer que muitas das idéias que nos foram pas-sadas pelos transmissores de cultura são eminentemente sensatas e realistas. (Se não o fossem, a espécie humana agora estaria extinta.) Mas, juntamente com esses conceitos úteis, toda cultura passa um estaque de opiniões irrealistas, algumas das quais nunca fazem sentido, enquanto que outras podem algum dia ter pos-suído um valor para a sobrevivência, mas que agora, nas cir-cunstâncias mudadas e mutantes da história, tornaram-se com-pletamente irrelevantes. Desde que os seres humanos reagem a símbolos tão pronta e evidentemente quanto reagem aos estímulos da experiência não-intermediada, e já que a maioria deles acre-dita ingenuamente que as palavras consagradas pela cultura a respeito das coisas são tão reais quanto, ou até mais reais que, suas percepções das coisas em si, essas opiniões antiquadas ou intrinsecamente tolas fazem um mal enorme. Graças às idéias realistas passadas pela cultura, a humanidade sobreviveu e, em certos campos, progride. Mas graças às tolices perniciosas enfiadas em cada indivíduo no processo de sua aculturação, a humanidade, embora sobrevivendo e progredindo, sempre teve problemas. A História é o registro, entre outras coisas, dos truques fantásticos e geralmente cruéis que a humanidade enlouquecida pela cultura prega em si mesma. E o jogo horrível continua.

O que o indivíduo pode e deve fazer para melhorar sua iro-nicamente equivocada relação com a cultura na qual ele se en-contra? Como pode continuar a aproveitar os benefícios da cul-tura sem, ao mesmo tempo, estupidificar-se ou freneticamente intoxicar-se com seu veneno? Como pode ele tornar-se discriminantemente aculturado, rejeitando o que é tolo ou realmente mau em seu condicionamento, e agarrando-se àquilo que torna o comportamento humanitário e inteligente?

Uma cultura não pode ser discriminadamente aceita, muito menos modificada, exceto por pessoas que viram através dela – por pessoas que fizeram buracos na limitante muralha de símbo-los verbalizados, e assim são capazes de olhar para o mundo e. pela reflexão, para si mesmos, num modo novo e relativamente sem preconceitos. Tais pessoas não nascem apenas; elas têm também que ser feitas. Mas como?

No campo da educação formal, o que o futuro abridor de buracos precisa é de conhecimento. Conhecimento da história passada e atual das culturas em toda a sua fantástica variedade. e conhecimento sobre a natureza e as limitações, os usos e os abusos, da linguagem. Um homem que sabe que houve muitas culturas, e que cada cultura diz ser a melhor e mais verdadeira de todas, vai achar difícil levar a sério as fanfarronadas e as dogmatizações de sua própria tradição. Do mesmo modo, um ho-mem que sabe como os símbolos estão relacionados à experiência, e que pratica o tipo de autocontrole linguístico ensinado pelos expoentes da Semântica Geral, não tem probabilidade de levar à sério a tolice absurda e perigosa que, dentro de cada cultura, passa por filosofia, sabedoria prática e argumento político.

Como preparação para abrir o buraco, esse tipo de educação intelectual certamente é valiosa, mas não menos certamente insuficiente. O treinamento ao nível verbal precisa ser suplementado por treinamento em experiência sem palavras. Temos que aprender como ficar mentalmente silenciosos, cultivar a arte da pura receptividade.

Estar silenciosamente receptivo – como isso parece infantilmente simples! Mas, na verdade, como logo descobrimos, quanto é difícil! O universo no qual os homens passam suas vidas é a criação do que a filosofia hindu chama Nama-Rupa (Nome e Forma). A realidade é um contínuo, um Algo inimaginavelmente misterioso e infinito, cujo aspecto exterior é o que nós chama-mos Matéria e cujo interior é o que chamamos Mente. A lin-guagem é um mecanismo para tirar o mistério da Realidade e fazê-la prestar-se à compreensão e à manipulação humanas. O homem aculturado quebra a continuidade, coloca rótulos em alguns poucos fragmentos, projeta os rótulos para o mundo exte-rior e assim cria para si mesmo um universo por demais humano de objetos separados, cada um dos quais é apenas a corporificação de um nome, uma ilustração particular de uma abstração tradicional qualquer. O que percebemos toma o padrão da rede concentual através do qual ele foi filtrado. A receptividade pura é difícil porque a consciência normal do homem é sempre condicionada culturalmente. Mas a consciência normal, como William James destacou há muitos anos, “é apenas um tipo de consciência, enquanto à sua volta, separadas dela por uma tela muito tênue, jazem formas potenciais de consciência inteiramente diferentes. Podemos atravessar a vida sem suspeitar de sua existência; mas aplique o estímulo apropriado, e a um toque: elas estão ali em toda a sua integridade, tipos definidos de mentalidade que provavelmente em algum lugar têm seu campo de aplicação e adaptação. Nenhuma descrição do universo em sua totalidade pode ser definitiva, se deixa de considerar essas formas de consciência.”

Como a cultura pela qual ela é condicionada, a consciência normal é ao mesmo tempo nossa melhor amiga e uma inimiga perigosíssima. Ela nos ajuda a sobreviver e a progredir; mas ao mesmo tempo ela nos impede de realizar algumas de nossas po-tencialidades mais valiosas e, às vezes, nos traz todo tipo de problemas. Para se tornar inteiramente humano, o homem, o orgulhoso homem, o que faz truques fantásticos, tem que aprender a ,sair da frente de si mesmo: só assim suas capacidades infinitas e sua apreensão angélica têm uma chance de chegar à superfície. Nas palavras de Blake, temos que “purificar as portas da percepção”; pois quando as portas da percepção são purificadas, “tudo aparece ao homem como realmente é – infinito”. Para a consciência normal as coisas são corporificações, estritamente finitas e isoladas, de rótulos verbais. Como podemos quebrar o hábito de impor automaticamente nossos preconceitos e a lembrança de palavras consagradas pela cultura sobre nossa experiência direta? Resposta: pela prática da receptividade pura e do silêncio mental. Isso vai purificar as portas da percepção e, no mesmo processo, tornar possível o surgimento de outras formas de consciência além da normal – consciência estética, consciência visionária, consciência mística. Graças à cultura, nós somos os her-deiros de um grande acúmulo de conhecimento, de um tesouro sem preço de métodos lógicos e cienúficos, de milhares de exemplos de know-how tecnológico e organizacional. Mas o corpomente humano possui outras fontes de informação, utiliza outros tipos de raciocínio, tem o dom de uma sabedoria intrínseca que é independente do condicionamento cultural.

WordsWorth escreve que “nosso intelecto intrometido (a parte da mente que usa a linguagem para tirar o mistério da Realidade deforma as belas formas das coisas: nós assassinamos para dis-secar”. Não é preciso dizer que não podemos sobreviver sem nosso intelecto intrometido. O pensamento conceitual verbalizado é indispensável. Mas mesmo quando eles são bem utilizados, os conceitos “verbalizados deformam “as belas formas das coisas”. E quando (como acontece com tanta frequência) são mal utilizados, eles deformam nossas vidas pela racionalização de antigas tolices, pela instigação do assassinato e a perseguição em massa e todos os outros truques fantasticamente horríveis que fa-zem os anjos chorar. A passividade nâo-verbal sábia é um antí-doto à atividade verbal tola, e um corretivo necessário para a atividade verbal sábia. Os conceitos verbalizados sobre a experiên-cia precisam ser suplementados pelo conhecimento direto e não-intermediários dos acontecimentos como eles se apresentam a nós.

É a velha história da letra e do espírito. A letra é necessária, mas jamais deve ser levada muito a sério, pois, divorciada do espírito, ela restringe e finalmente mata. Quanto ao espírito, ele “sopra onde lhe apraz” e, se deixarmos de consultar os melhores mapas culturais, podemos ser soprados para fora de nossa rota e naufragarmos. No momento, a maioria de nós aproveita o pior de ambos os mundos. Ignorando os ventos do espírito que sopram livremente e confiando nos mapas culturais que podem estar com anos de atraso, nós disparamos a toda velocidade sob o vapor em alta pressão de nossa autoconfiança presunçosa. As passagens que vendemos para nós mesmos nos asseguram que nosso destino é um porto qualquer na Ilha dos Bem-Aventurados. Na verdade, costuma acontecer que cheguemos à Ilha do Diabo.

A auto-educação ao nível não-verbal é tão antiga quanto a civilização. “Fique imóvel e saiba que sou Deus” – para os visio-nários e os místicos de todos os tempos e lugares, este tem sido o primeiro e o maior dos mandamentos. Os poetas escutam suas Musas e do mesmo modo o visionário e o místico esperam a inspiração num estado de sábia passividade, de vacuidade dinâmica. Na tradição ocidental, esse estado é chamado “a oração do olhar simples”. No outro lado do mundo ele é descrito em termos psicológicos em vez de teístas. No silêncio mental nós “olhamos para nossa própria Natureza”, nós "nos agarramos ao Não-Pensamento que há no pensamento”, nós nos “tornamos aquilo que essencialmente sempre fomos”. Pela atividade sábia podemos adquirir um conhecimento analítico útil a respeito do mundo, co-nhecimento que pode ser comunicado por meio de símbolos ver-bais. No estado de passividade sábia nós tornamos possível o surgimento de formas de consciências outras que a consciência utilitária da vida normal. O conhecimento analítico útil a respeito do mundo é substituído por uma espécie qualquer de experiência biologicamente insubstancial, mas espiritualmente esclarecedora scbre o mundo. Por exemplo, pode haver uma experiência estetica direta com o mundo como a beleza. Ou pode haver uma experiência direta com a estranheza intrínseca da existência, sua implausibilidade. E finalmente pode haver uma experiência direta com a unidade do mundo. Essa experiência mística direta de estar uno com a Unidade fundamental, que se manifesta na infinita diversidade de coisas e mentes, nunca poderá ser adequadamente expressa em palavras. Como a experiência visionária, a experiência do místico só pode ser comentada pelo lado de fora. Os símbolos verbais nunca podem dar idéia de seu interior.

É através do silêncio mental e da prática da passividade sábia que artistas, visionários e místicos prepararam-se para a experiência direta do mundo como beleza, como mistério e como unidade. Mas o silêncio e a passividade sábia não são os únicos caminhos que levam para fora do universo por demais humano criado pela consciência normal, condicionada pela cultura. Em “Expostulation and Reply” (Admoestação e Resposta), o amigo literato de Wordsworth, Matthew, reprova o poeta porque

 

Você olha em volta para a Mãe Terra,

Como se ela sem propósito o tivesse dado à luz;

Como se você fosse seu primeiro filho,

E ninguém tivesse vivido antes de você!

 

Do ponto de vista da consciência normal, isto é pura delinquência intelectual. Mas é o que o artista, o visionário e o místico têm que fazer e, na verdade, sempre fizeram. “Olhar para uma pes-soa, uma paisagem, qualquer objeto comum, como se o estivesse vendo pela primeira vez.” Este é um dos exercícios de consciên-cia direta e não-verbalizada prescritos nos antigos textos do budismo tântrico. Artistas, visionários e místicos recusam-se a escravizar-se aos hábitos condicionados pela cultura de sentir, pen-sar e agir que sua sociedade considera corretos e naturais. Quan-do quer que isso pareça desejável, eles deliberadamente deixam de projetar sobre a realidade aqueles padrões de palavras consa-grados dos quais todas as mentes humanas têm um estoque tão copioso. Eles sabem, tanto quanto qualquer outra pessoa, que a cultura e a linguagem nas quais qualquer cultura é enraizada são absolutamente necessárias e que, sem elas, o indivíduo não seria humano. Mas mais vividamente do que o resto da humanidade eles também sabem que, para ser inteiramente humanos, o indivíduo tem que aprender a descondicionar-se, tem que ser capaz de abrir buracos no muro de símbolos verbalizados que o prende.

Na exploração do mundo vasto e misterioso das potenciali-dades humanas, os grandes artistas, visionários e místicos têm sido pioneiros. Mas onde eles foram outros podem seguir. Potencialmente, todos nós somos “infinitos em capacidades e como deuses na apreensão”. Modos de consciência diferentes da consciência normal estão ao alcance de quem quer que saiba como aplicar os estímulos necessários. O universo no qual um ser humano vive pode ser transfigurado para uma nova criação. Te-mos apenas que abrir um buraco no muro e olhar à nossa volta com o que o filósofo Plotino descreve como “essa outra espécie de ver, que todo o mundo tem mas poucos utilizam”.

Dentro de nossos sistemas atuais de educação, o treinamento ao nível não-verbal é parco em quantidade e pobre em qualidade. Além disso, seu propósito, que é simplesmente ajudar quem o recebe a ser, mais “como deuses na apreensão”, não é claramente declarado nem coerentemente perseguido. Podíamos e, enfaticamente, devíamos agir melhor do que temos agido nesse campo tão importante. A sabedoria prática das civilizações mais antigas e as descobertas de espíritos aventureiros dentro de nossa própria tradição e em nossa própria época são acessíveis. Com sua ajuda. poder-se-ia fazer um currículo e uma metodologia de treinamento não-verbal, sem muita dificuldade. Infelizmente, a maioria das autoridades tem um interesse disfarçado na manutenção dos muros culturais. Eles franzem a testa para o fato de abrir buracos, con-siderando-o subversivo, e consideram o “outro modo de ver” de Plotino um sintoma de distúrbio mental. Se um sistema eficiente de educação não-verbal pudesse ser planejado, será que as autoridades permitiriam que ele fosse amplamente aplicado? É uma questão em aberto.

Do mundo não-verbal da consciência culturalmente nâo-contaminada, passamos para o mundo subverbal da fisiologia e da bioquímica. Um ser humano é um temperamento e um produto do ccndicionamento cultural; ele é também, e primeiramente, um sistema bioquímico extraordinariamente complexo e delicado, cujo interior, à medida que o sistema passa de um estado de equilíbrio para outro, é a mudança de consciência. É porque cada um de nós é um sistema bioquímico que (segundo Housman)

 

O malte faz nuus do que Milton pode fazer

Para justificar ao homem a vontade de Deus.

 

A cerveja consegue seu triunfo teológico porque, nas pala-vras de William James, “A embriaguez é o grande excitante da função Sim no homem”. E ele acrescenta que “É parte do mistério e tragédia mais profundos da vida que idéias e vislumbres de algo que imediatamente reconhecemos como excelentes sejam concedidos a tantos de nós apenas nas fugazes primeiras fases do que, em sua totalidade, é um veneno tão degradante.” Conhece-se a árvore pelos frutos, e os frutos de álcool etílico em demasia, usado como excitante da função Sim, são realmente amar-gos. Não menos amargos são os frutos de sedativos viciantes, alucinógenos e excitantes como o ópio e seus derivados, como a cocaína (tão alegremente recomendada pelo Dr. Freud a seus amigos e pacientes), como os barbitúricos e anfetaminas. Mas nos últimos anos os farmacólogos extraíram ou sintetizaram vários compostos que afetam poderosamente a mente sem causar qualquer dano ao corpo, nem na hora da ingestão nem, através do vício, mais tarde. Através desses novos psicodélicos, a consciência normal do indivíduo pode ser modificada de várias maneiras dife-rentes. É como se, para cada indivíduo, seu eu mais profundo de-cidisse que tipo de experiência será mais vantajosa. Tendo deci-dido, ele utiliza os poderes da droga que alteram a mente para conseguir a personalidade de que necessita. Assim, se é bom para ele desenterrar suas lembranças mais profundas, as lembranças mais profundamente enterradas serão desenterradas. Em casos onde isso não tem grande importância, acontecerá outra coisa qualquer. A consciência normal pode ser substituída pela consciência estética, e o mundo será percebido em toda a sua beleza inimaginável, toda a ardente intensidade de seu “existir”. E a consciência estética pode modular-se em consciência visionária. Graças a outro tipo de ver, o mundo vai agora revelar-se não apenas inimagi-navelmente lindo, mas também inimaginavelmente misterioso – como um tumultuoso abismo de possibilidades, sempre se realizando em formas imprecedentes. Novos vislumbres de um mundo novo, transfigurado, de generosidade, novas combinações de pensamento e fantasia – o fluxo de novidade jorra através do mundo numa torrente, em que cada gota está carregada de significado. Há os símbolos cujo significado está fora deles, nos fatos dados da experiência visionária, e há aqueles fatos dados que significam apenas eles mesmos. Mas “apenas eles mesmos” é também “não menos que o divino substrato de todo o ser”. “Nada além disso” é ao mesmo tempo “a Igualdade de tudo”. E agora a consciência estética e visionária aprofunda-se até a consciência mística. O mundo é visto agora como uma diversidade infinita que no entanto é uma unidade, e o indivíduo sente-se uno com a Unidade infinita que se manifesta, totalmente presente, em todos os pontos do es-paço, em todos os instantes no fluxo do perecimento perpétuo e da renovação perpétua. Nossa consciência normal, condicionada pela palavra, cria um universo de diferenciações agudas, preto e branco, isso e aquilo, eu e você e ele. Na consciência mística de ser uno com a Unidade infinita há uma reconciliação dos opostos, uma percepção do Não-Particular no particular, uma transcendencia de nossas relações sujeito-objeto com coisas e pessoas uma experiência direta de nossa solidariedade com todos os seres e uma espécie de convicção orgânica de que, apesar dos mistérios do destino, apesar de nossas escuras tolices e malevolência deliberada, sim, apesar de tudo isso que é tão evidentemente errado no mundo, ele mesmo assim é, de um modo profundo, paradoxal e inteiramente inexprimível, Perfeito. Para a consciência anormal, a frase “Deus é Amor” não é mais que um trecho de pensamento positivo. Para a consciência mística, é uma verdade evidente por si mesma.

Mudanças tecnológicas e demográficas inauditamente rápidas estão regularmente aumentando os perigos que nos rodeiam, e ao mesmo tempo diminuindo regularmente a importância dos tradicionais padrões de sentir-e-pensar impostos a todos os indivíduos, tanto dirigentes quanto dirigidos, por sua cultura. Sempre deejável, um treinamento na arte de abrir buracos nos mãos culturais é agora a mais urgente das necessidades. Será que um treinamento como esse pode ser agilizado e tornado mais eficiente pelo uso correto dos psicodélicos inofensivos agora disponíveis? Com base em experiência pessoal e em evidências publicadas, acredito que sim. Em minha fantasia utópica, A ilha, especulei em termos de ficção sobre os modos pelos quais uma substância semelhante à psilocibina poderia ser usada para potencializar a educação não-verbal de adolescentes e lembrar aos adultos que o mundo real é muito diferente do universo desastroso que eles criaram para si próprios por meio de seus preconceitos condicionados pela cultura. “Divertir-se com Fungos” – foi assim que um crítico galhofeiro qualificou o assunto. Mas o que é melhor? Divertir-se com Fungos ou ter Idiotice contra Ideologia, ou ter Guerras por causa de Palavras, extrair os Erros de Amanhã das Crenças Errôneas de ontem?

Como deveriam ser administrados os psicodélicos? Sob que circunstâncias, com que tipo de preparação e continuação? São perguntas que têm que ser respondidas empiricamente, através de experimentação em grande escala. A mente coletiva do homem, tem um alto grau de viscosidade e flui de uma posição para ou-tra com a relutante deliberação de uma maré vazante de limo. Mas num mundo de aumento populacional explosivo, de avanço tecnológico desenfreado e de nacionalismo militante, o tempo à nossa disposição é estritamente limitado. Temos que descobrir, e descobrir logo, novas fontes de energia para superar a inércia psicológica de nossa sociedade, solventes melhores para liquefazer o grude limoso de um estado de espírito anacrônico. Ao nível verbal, uma educação sobre a natureza e as limitações, os usos e abusos da linguagem; no nível sem palavras, uma educação sobre o silêncio mental e a receptividade pura; e finalmente, atra-vés do uso de psicodélicos inofensivos, um curso sobre experiên-cias ou êxtases quimicamente ocasionados – isso, eu creio, vai proporcionar todas as fontes de energia mental, todos os solventes para o limo conceitual, que um indivíduo requer. Com sua ajuda, ele poderia ser capaz de adaptar-se seletivamente à sua cultura, rejeitando seus males, tolices e despropósitos, aceitando com gratidão todos os seus tesouros de conhecimento acumulado, de racionalismo, de generosidade humana e de sabedoria prática. Se o número de tais indivíduos for suficientemente grande, se sua qualidade for suficientemente alta, eles poderão ser capazes de passar da aceitação discriminada de sua cultura para a mudança e a reforma discriminadas. Será isto um esperançoso sonho utópico? A experiência pode nos dar a resposta, pois o sonho é pragmático; as hipóteses utópicas podem ser testadas empiricamente. E nesta época opressiva, um pouco de esperança é certamente um visitante bem-vindo.