O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 10 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

5. Quasímodo

 

Num piscar de olhos, tudo se organizou para a execução da ideia de

Coppenole. Burgueses, estudantes e funcionários do Palácio da Justiça puseram mãos à obra. A pequena capela em frente à mesa de mármore foi escolhida como palco para as caretas. Um vidro quebrado na bonita rosácea acima da porta abriu um círculo de pedra pelo qual se combinou que os competidores passariam a cabeça. Para alcançá-lo, era preciso subir em dois barris que apareceram não se sabe de onde e foram empilhados, um em cima do outro, também não se sabe como. Estipulou-se que cada candidato, homem ou mulher (pois poderia-se eleger uma papisa), cobriria o rosto e se manteria escondido na capela até o momento de sua aparição, para manter virgem e inteira a primeira impressão. Em pouquíssimo tempo a capela ficou cheia de concorrentes e a porta foi fechada.

Do lugar em que estava, Coppenole tudo ordenava, tudo dirigia, tudo improvisava. Durante a confusão, o cardeal, não menos desconcertado que Gringoire, a pretexto de algum negócio pessoal ou da hora das vésperas, se retirou com todo seu cortejo, sem que a multidão, que tanto se impressionara com sua chegada, minimamente se incomodasse com sua partida. Guillaume Rym foi o único a notar a debandada de Sua Eminência. A atenção popular, como o sol, seguia sua revolução e, partindo de uma ponta da sala, depois de se deter por algum tempo no meio, passara para o outro lado. A mesa de mármore e o estrado de brocado haviam tido o seu momento; era a vez da capela de Luís XI. O campo estava livre para todo tipo de loucura, restando no salão apenas flamengos e ralé.

A exibição de caretas teve início. A primeira figura a aparecer na abertura, com as pálpebras reviradas pelo avesso, bocarra escancarada e testa enrugada como nossas botas à hussarda, do período do Império, causou uma explosão de risos tão inextinguível que Homero tomaria

aqueles grosseirões por deuses.89 É verdade que o grande salão não deixava de ser como um Olimpo e o pobre Júpiter de Gringoire sabia disso, melhor do que ninguém. Mais duas caretas se sucederam, depois outra e mais outra, sempre acompanhadas de risos e trepidações de alegria que redobravam. Havia no espetáculo não sei qual vertigem particular, não sei qual força de embriaguez e fascínio, difíceis de transmitir aos leitores de hoje e aos nossos círculos literários. Que se imagine uma série de rostos apresentando sucessivamente todas as formas geométricas, do triângulo ao trapézio, do cone ao poliedro; todas as expressões humanas, da cólera à luxúria; todas as idades, das rugas do recém-nascido às rugas da velha moribunda; todas as fantasmagorias religiosas, do Fauno a Belzebu; todos os perfis animais, do focinho ao bico, das ventas à tromba. Que se imaginem todas as carrancas da ponte Neuf, esses pesadelos petrificados pelas mãos de Germain Pilon, ganhando vida e fôlego e vindo, uma de cada vez, nos olhar de frente, com uma expressão abrasadora; que se imaginem todas as máscaras do carnaval de Veneza a se sucederem diante de seu lornhão; que se imagine, resumindo, um caleidoscópio humano.

A orgia se tornava cada vez mais explosiva. Téniers conseguiria, no máximo, dar uma ideia imperfeita da cena. Que se imagine como uma

bacanal a batalha pintada por Salvador Rosa.90 Não havia mais estudantada, nem embaixadores, nem burgueses, nem homens, nem mulheres; não havia mais Clopin Trouillefou, Gilles Lecornu, Marie Quatrelivres, Robin Poussepain. Tudo se apagava sob a licenciosidade comum. O grande salão se reduzia a uma vasta fornalha de atrevimentos e de jovialidade em que cada boca representava um grito, cada rosto uma careta, cada indivíduo uma postura. E tudo isso junto gritava e urrava. Os rostos estranhos, sucedendo-se a ranger os dentes na rosácea, eram como gravetos lançados num braseiro. E de toda essa multidão efervescente escapava, como o vapor de um forno, um rumor amargo, agudo, cortante, sibilino como as asas de um mosquito.

— Ai, ai! Maldição!

— Vejam só essa figura!

— Não vale nada.

— Outra!

— Guillemette Maugerepuis, veja só essa cara de touro, faltam só os chifres. Não é então o seu marido.

— Outra!

— Pela barriga do papa! Que careta é essa?

— Eieiei! Trapaça! Só se pode mostrar o rosto.

— Essa danada da Perrette Callebotte! É capaz de fazer isso.

— Aleluia! Aleluia!

— Estou sem ar!

— Esse aí não consegue fazer as orelhas passarem pelo buraco!

Etc. etc.

Justiça seja feita, no entanto, a nosso amigo Jehan. No meio de todo aquele tumulto, ele continuava no alto do seu pilar, como um grumete na gávea. Agitava-se com tremenda fúria. Tinha a boca escancarada e dela escapava um grito que não se ouvia, não porque encoberto pelo clamor geral, por mais intenso que fosse, mas por provavelmente atingir o limite dos sons agudos perceptíveis, as doze mil vibrações de Sauveur ou as oito

mil de Biot.91

Já Gringoire, passado o primeiro momento de abatimento, havia recuperado a presença de espírito. Endurecera contra a adversidade:

— Continuem! — disse pela terceira vez a seus atores, máquinas falantes.

Depois, andando a grandes passadas diante da mesa de mármore, foi tomado pela fantasia de ir também à rosácea aberta da capela, nem que fosse só pelo prazer de fazer uma careta àquele povo ingrato.

— Nada disso, não seria digno de nós; sem vinganças! Lutemos até o fim. O poder da poesia sobre o povo é grande; vou trazê-lo de volta. Veremos quem vencerá, se as caretas ou as belas-letras.

Infelizmente, era o único espectador remanescente de sua peça.

Viu-se em pior situação do que antes; em seu campo de visão, agora, tinha apenas costas.

Engano meu. O gordo e paciente sujeito já consultado num momento crítico se mantinha de frente para o teatro. Quanto a Gisquette e Liénarde, há muito já haviam desertado.

Gringoire se sentiu tocado no fundo do coração pela fidelidade daquele único espectador. Aproximou-se e dirigiu-se a ele, sacudindo com delicadeza o seu braço, pois o bravo homem estava encostado à balaustrada e dava um ligeiro cochilo.

— Senhor — disse Gringoire —, eu lhe agradeço.

— Senhor — respondeu o gordo bocejando —, por quê?

— Entendo o que o incomoda — retomou o poeta. — É todo esse barulho que o impede de ouvir melhor. Mas fique tranquilo! Seu nome passará à posteridade. Qual é o seu nome, por favor?

— Renault Château, guardião do sinete real no Châtelet de Paris,92 a seu dispor.

— O cavalheiro é aqui o único representante das musas — congratulou-o Gringoire.

— Muito honesto da sua parte, senhor — respondeu o guardião do sinete real no Châtelet.

— É o único — voltou Gringoire — a ter convenientemente ouvido a peça. O que acha dela?

— Ah! — respondeu o gordo magistrado ainda mal desperto. — Bastante alegre, deveras.

Gringoire teve que se contentar com apenas esse elogio, pois uma trovoada de aplausos, misturados a uma prodigiosa aclamação, cortou a conversa. O papa dos bufos tinha sido eleito.

— Aleluia! Aleluia! Aleluia! — gritava o povo por todo lugar.

Era, de fato, uma careta maravilhosa que brilhava, naquele momento, no vão aberto na rosácea. Após tantas figuras pentagonais, hexagonais e heteróclitas sucedendo-se na abertura, sem realizar o ideal do grotesco que se formara nas imaginações exaltadas pela orgia, só mesmo, para arrebanhar os votos, aquela careta sublime que acabava de deslumbrar a plateia. O próprio mestre Coppenole aplaudiu e Clopin Trouillefou, que tinha concorrido (e Deus sabe a intensidade de feiura que seu rosto podia alcançar), declarou-se perdedor. Faremos o mesmo. Não vamos tentar dar ao leitor uma ideia do nariz tetraédrico, da boca em ferradura, do olho esquerdo minúsculo e obstruído por uma desgrenhada sobrancelha ruiva, enquanto o direito desaparecia por completo sob uma imensa verruga, dos dentes desordenados, desfalcados, parecendo ameias de uma fortaleza, a beiçola calejada em que um daqueles dentes se posicionava como a presa de um elefante, o queixo bifurcado e, sobretudo, a fisionomia — uma mistura de malícia, espanto e tristeza. Que se tente imaginar, se possível for, tal conjunto.

Uma careta maravilhosa brilhava no vão aberto na rosácea.

 

A aclamação foi unânime. Todos acorreram à capela, aplaudindo em triunfo o bem-aventurado papa dos bufos. Mas foi quando chegaram ao cúmulo a surpresa e a admiração. A careta era o rosto, pura e simplesmente.

Ou melhor dizendo, sua pessoa inteira era uma careta só. Uma cabeçorra espetada de cabelos ruivos. Entre os dois ombros, uma enorme corcunda cujo peso se compensava à frente. Um sistema de coxas e pernas tão estranhamente disposto que elas só se encostavam à altura dos joelhos e, vistas de frente, pareciam dois arcos de foice que se juntassem pelo cabo. Pés grandes, mãos monstruosas e, completando toda essa deformidade, uma atitude de aterrorizantes vigor, agilidade e coragem. Era uma estranha exceção à regra que diz ser a força um resultado, assim como a beleza, da harmonia. Assim era o papa que os bufos acabavam de proclamar.

Um gigante quebrado e mal colado.

Quando essa espécie de ciclope apareceu à entrada da capela, imóvel, atarracado e quase com a mesma largura que altura, quadrado a partir da

base, como disse um grande homem,93 com um gibão bipartido vermelho e roxo, salpicado de sininhos prateados, e sobretudo pela perfeição da sua feiura o populacho o reconheceu imediatamente e exclamou em uníssono:

— É Quasímodo, o sineiro! É Quasímodo, o corcunda de Notre Dame! Quasímodo, o caolho! Quasímodo, o coxo! Aleluia! Aleluia!

O pobre-diabo tinha muitas designações a escolher.

— Que se cuidem as grávidas! — gritaram alguns estudantes.

— Ou as que quiserem engravidar — completou Joannes.

De fato, as mulheres escondiam o rosto para não ver.

— Ah! Que macaco horrível — dizia uma.

— Tão mau quanto feio — completava outra.

— É o diabo — acrescentou uma terceira.

— Tenho a infelicidade de morar perto de Notre Dame; toda noite ouço-o rondar pelas calhas.

— Com os gatos.

— Sempre pelos telhados.

— Lança maldições pelas chaminés das nossas casas.

— Outra noite, veio fazer uma careta na minha lucarna. Achei que era alguém. Morri de medo!

— Tenho certeza de que vai ao sabá. Uma vez, deixou uma vassoura na minha bacia de água suja.

— Ah! Carantonha horrível de corcunda!

— Ah! Alma ruim!

— Buuu!

Os homens, pelo contrário, estavam adorando e aplaudiam.

Quasímodo, objeto de todo aquele tumulto, continuava de pé à porta da capela, sombrio e grave, deixando que o admirassem.

Um estudante, acho que foi Robin Poussepain, veio rir bem debaixo do nariz dele, perto demais. Quasímodo se limitou a pegá-lo pela cintura e o lançou a dez passos, sobre a multidão. E tudo isso sem pronunciar uma palavra.

Mestre Coppenole, maravilhado, aproximou-se.

— Cruz de Deus! Santo Pai! És a mais bela feiura que já vi na vida. Mereces o papado tanto de Roma quanto de Paris.

Dizendo isso, havia tranquilamente colocado a mão em seu ombro. Quasímodo não se mexeu. Coppenole continuou.

— És alguém que quero muito convidar para uma comilança, mesmo que isso me custe um bom dinheiro. O que acha?

Quasímodo não respondeu.

— Cruz de Deus! — exclamou o fabricante de meias. — És surdo?

De fato, era surdo.

E começava também a se impacientar com as maneiras de Coppenole. Virou-se bruscamente para ele com um ranger de dentes tão formidável que o gigante flamengo recuou, como um buldogue diante de um gato.

Em torno do estranho personagem criou-se um círculo de terror e respeito, em um raio de pelo menos quinze passos geométricos. Uma velha explicou a mestre Coppenole que Quasímodo era surdo.

— Surdo! — repetiu o fabricante de meias com sua risada flamenga. — Cruz de Deus! É um perfeito papa.

— Ei! Sei quem ele é — gritou Jehan que, finalmente, havia descido de seu capitel para ver Quasímodo de perto. — É quem bate os sinos do meu irmão arquidiácono.

— Bom dia, Quasímodo!

A tumultuosa e esfarrapada procissão se moveu pelas galerias do palácio, antes de seguir

por ruas e cruzamentos.

 

— Diabo de homem! — disse Robin Poussepain, ainda todo doído por causa da queda. — Quando se mostra, é corcunda. Andando, é manco. Quando olha, é vesgo. Você fala, ele é surdo. E o que faz esse Polifemo da língua que tem?

— Quando ele quer, ele fala — explicou a velha. — Ficou surdo por causa dos sinos. Mas não é mudo.

— Fica devendo isso — observou Jehan.

— E tem um olho supérfluo — acrescentou Robin Poussepain.

— Não — opinou judiciosamente Jehan. — Um caolho é bem mais incompleto do que um cego, pois sabe o que lhe falta.

Nesse meio-tempo, todos os mendigos, lacaios, batedores de carteiras, junto com os estudantes, tinham ido em procissão buscar, no armário dos empregados do tribunal, a tiara de papelão e a samarra derrisória do papa dos bufos.

Quasímodo deixou que o vestissem sem reagir, com orgulhosa docilidade. Depois sentaram-no numa padiola enfeitada. Doze oficiais da confraria dos bufos o ergueram nos ombros. Uma espécie de amarga e desdenhosa satisfação se estampou na triste face do ciclope, vendo sob seus pés deformados todas aquelas cabeças de homens bonitos, eretos e bem-feitos. Em seguida, a tumultuosa e esfarrapada procissão se moveu para, segundo a tradição, dar a volta pelas galerias do palácio, antes de seguir por ruas e cruzamentos.

 

89. Referência a uma cena de A ilíada (I, 597-600), passada no Olimpo.

90. David Téniers foi um pintor flamengo do séc.XVII, famoso sobretudo por suas cenas de cabarés. Do pintor barroco Salvador Rosa conserva-se ainda no Louvre o quadro Batalha heroica.

91. Joseph Sauveur, que era surdo-mudo, foi um dos fundadores da acústica musical, no séc. XVII. Já o físico oitocentista Baptiste Biot igualmente se interessou pela acústica, discordando quanto ao limite superior de vibrações para a sensibilidade humana de audição.

92. O Châtelet (“pequeno castelo”) era uma grande fortaleza em Paris que servia também de prisão, sob a direção do preboste. O Grande Châtelet ficava à margem direita do Sena e foi demolido em 1802, para a abertura da atual praça du Châtelet. À margem esquerda, no lugar da atual praça Saint-Michel, havia o Pequeno Châtelet. Ambos tinham como função proteger as duas pontes que davam acesso à ilha de la Cité.

93. Napoleão Bonaparte/Napoleão I, cujo nome era citado na primeira edição, de 1831.