O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 42 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

Livro oito

1. O escudo que virou folha seca

 

Gringoire e todo o Pátio dos Milagres estavam mortalmente preocupados.

Há um mês não se tinha notícia de Esmeralda, o que muito acabrunhava o duque do Egito e os amigos bandidos. Da cabra também ninguém sabia, o que ainda mais aumentava a dor de Gringoire. Certo fim de tarde, a egípcia havia desaparecido e, desde então, não dava mais sinal de vida. Todas as buscas foram vãs. Alguns miseráveis, para provocar Gringoire, diziam tê-la visto naquela noite nos arredores da ponte Saint-Michel, na companhia de um oficial, mas aquele marido à moda da Boêmia era um filósofo céptico e, aliás, mais do que ninguém sabia o quanto a esposa era virgem. Pudera comprovar o pudor inexpugnável resultante das virtudes combinadas do amuleto e da egípcia, tendo calculado matematicamente a resistência daquela castidade elevada à segunda potência. Sentia-se, então, tranquilo quanto a isso.

Mas não podia entender o desaparecimento. Era uma profunda infelicidade. Teria emagrecido, se tal fosse possível. Deixara tudo de lado, inclusive o gosto literário, inclusive sua obra De figuris regularibus et

irregularibus,385 que ele contava mandar imprimir com o primeiro dinheiro que conseguisse (pois se apaixonara pela impressão desde que havia visto o Didascalon, de Hugues de Saint-Victor, impresso com os célebres

caracteres de Vindelin de Spire).386

Certo dia, passando diante da torre criminal,387 o filósofo percebeu um agrupamento de gente numa das portas do Palácio da Justiça.

— O que está havendo? — perguntou a um jovem que saía de lá.

— Não sei muito bem — ele respondeu. — Dizem que está sendo julgada uma mulher que assassinou um militar. Como parece haver feitiçaria envolvida, o bispo e o Santo Ofício intervieram no caso. Meu irmão, que é arquidiácono de Josas, está o tempo todo lá dentro e estou querendo falar com ele. Mas não consegui por causa da multidão; o que me prejudica muito, pois preciso de dinheiro.

— É pena — disse Gringoire. — Gostaria de poder emprestar algum, mas, como vê, meus calções estão furados, e não foi por carregar moedas.

Não se atreveu a dizer que conhecia o irmão arquidiácono, a quem não tinha mais procurado desde a cena na igreja, desatenção que o deixava constrangido.

O estudante se foi e Gringoire seguiu a multidão que subia a escadaria da Grande Câmara. Estimava nada haver de melhor para dissipar a melancolia do que o espetáculo de um processo criminal, de tal forma os juízes, em geral, patenteiam uma reconfortante estupidez. As pessoas em volta avançavam de forma solidária e silenciosa. Após um lento e aborrecido empurra-empurra num corredor escuro, que serpenteava pelo palácio como se fosse o canal intestinal do velho edifício, chegaram todos a uma porta baixa que desembocava numa sala cujo aspecto ele pôde explorar por cima das cabeças ondulantes da plateia, graças à sua estatura acima da média.

A sala era ampla e sombria, o que a fazia parecer ainda maior. A luz do dia já diminuía e as compridas janelas ogivais só deixavam entrar um pálido raio que se diluía antes de chegar à abóbada, enorme entrelaçamento de vigas esculpidas, em que as mil figuras entalhadas pareciam confusamente se mover na penumbra. Várias velas já estavam acesas, espalhadas por cima das mesas e realçando cabeças de escrivães atarefados na papelada. A parte anterior da sala era ocupada pela multidão. À direita e à esquerda viam-se homens vestindo togas, junto a mesas. No fundo, sobre um estrado, muitos juízes de rostos imóveis e sinistros, com os que estavam mais atrás desaparecendo nas trevas. As paredes eram semeadas de flores de lis inumeráveis. Vagamente se distinguia, acima dos juízes, um Cristo de bom tamanho e, por todo lugar, lanças e alabardas, nas extremidades das quais a luz das velas fazia brilhar pontas de fogo.

— Cavalheiro — perguntou Gringoire a alguém ao lado. — O que são todas aquelas pessoas enfileiradas ali, como prelados em concílio?

— À direita, são os conselheiros da Grande Câmara — respondeu o homem —, à esquerda os conselheiros das investigações. Os de toga negra são religiosos e os de toga vermelha, leigos.

— E ali, mais acima — continuou Gringoire —, aquele gordo avermelhado que transpira?

— É o sr. presidente do tribunal.

— E os carneiros, mais atrás? — quis ainda saber Gringoire que, já dissemos, não apreciava a magistratura (mas talvez isso viesse do rancor que guardara do dramático episódio no Palácio da Justiça).

— São os senhores mestres de demandas da residência real.

— E à frente dele, aquele javali?

— É o sr. escrivão do tribunal do Parlamento.

— E à direita, o crocodilo?

— Mestre Philippe Lheulier, advogado extraordinário do rei.

— E à esquerda, o gato gordo e negro?

— Mestre Jacques Charmolue, procurador do rei no tribunal da Igreja, com os senhores do Santo Ofício.

— E o que faz toda essa boa gente? — quis saber Gringoire.

— Julga.

— E julga quem? Não vejo réu.

— É uma mulher. Não pode vê-la. Está de costas para nós e atrás da multidão. Olhe, está ali, cercada de alabardas de infantaria.

— Quem é a mulher? — perguntou ainda Gringoire. — Sabe como se chama?

— Não sei, cavalheiro. Cheguei agora. Mas creio que o processo envolve feitiçaria, já que o Santo Ofício está presente.

— Ótimo! — disse nosso filósofo. — Assistiremos a toda essa gente de toga comer carne humana. Vale como espetáculo!

— Senhor — observou o vizinho —, não acha que mestre Jacques Charmolue tem aparência afável?

— Hum! — respondeu Gringoire. — Desconfio dessa afabilidade de nariz empinado e lábios finos.

Nesse momento, pessoas em volta pediram silêncio aos dois que tanto conversavam. Ouvia-se um depoimento importante.

— Meus senhores — dizia no meio da sala uma velha, cujo rosto desaparecia por inteiro sob as roupas, de forma que dava a impressão de um monte de trapos ambulante. — Meus senhores, a coisa é tão verdadeira quanto verdade é que me chamo Falourdel, há quarenta anos estabelecida na ponte Saint-Michel e pagando pontualmente rendas, aluguéis e taxas da casa em frente à de Tassin-Caillart, o tintureiro, no lado nascente do rio. Pobre velha hoje em dia, cavalheiros, mas bela jovem outrora! Já há alguns dias, me diziam: “Falourdel, não rode demais sua roda de fiar à noite, que o diabo gosta de cardar a roca das velhas com os chifres. Com certeza o monge-papão, que no ano passado andava pelas bandas do Templo, circula agora na Cité. Cuide para que ele não bata à sua porta, Falourdel.” Uma noite, fiava minha roca, bateram à minha porta. Perguntei quem era. Ele praguejou. Abri. Dois homens entraram. Um escuro, com um belo oficial. Do escuro, só se viam os olhos, duas brasas. O resto era só capa e chapéu. Eles disseram: “o quarto santa Marta”. É o quarto em cima, cavalheiros, o melhor que tenho. Deram-me um escudo. Guardei o escudo na gaveta e pensei: “amanhã compro tripas no bucheiro da Gloriette”. Subimos. Chegando ao quarto de cima, enquanto eu estava de costas, o homem escuro desapareceu. Isso me surpreendeu um pouco. O oficial, que era bonito como um grande senhor, desceu comigo. Saiu. Foi o tempo de fiar um quarto de meada e ele voltou com uma bonita mocinha, uma boneca que brilharia como o sol, se estivesse penteada. Tinha com ela um bode, um bode grande, não me lembro mais se preto ou branco. Isso me fez pensar. Com relação à moça, não via problema, mas o bode!… Não gosto desse bicho, tem barba e chifres. Parece um homem. Além do mais, cheira a

sábado.388 Mesmo assim, nada disse. Tinha o escudo. Era justo, não acha, sr. juiz? Ajudei a moça e o capitão a subirem para o quarto do alto e deixei-os, isto é, com o bode. Desci e voltei a fiar. Preciso dizer que a casa tem um andar térreo e um no alto, dando os fundos para o rio, como as demais casas da ponte. A janela do térreo e a janela de cima se abrem para a água. Estava, então, fiando. Não sei por quê, pensei no monge-papão, porque o bode tinha feito com que eu voltasse a pensar nele. Além disso, a moça bonita estava vestida de forma bem estranha… De repente, ouvi um grito no alto, alguma coisa caiu no chão e a janela se abriu. Corri para a minha, que fica bem embaixo, e vi passar, diante dos meus olhos, uma massa escura que caiu na água. Era um fantasma vestido de padre. Havia luz do luar. Pude ver muito bem. Ele nadou para os lados da Cité. Tremendo, chamei

então a vigilância. Os senhores da dúzia389 chegaram e, como estavam alegres, sem saber do que se tratava começaram por me espancar. Expliquei. Subimos e o que encontramos? Meu pobre quarto coberto de sangue, o capitão estendido no chão, com um punhal no pescoço, a menina se fazendo de morta e o bode todo nervoso. Pensei comigo mesma: “Vou levar mais de quinze dias para lavar esse chão, vou precisar raspar, vai ser terrível.” Levaram o oficial, pobre rapaz! E a moça, toda desarrumada. Mas espere. O pior foi que, no dia seguinte, quando fui pegar o escudo para comprar as tripas, achei uma folha seca no lugar.

A velha se calou. Um murmúrio de horror circulou pelo público.

— Um fantasma, um bode… tudo isso cheira à feitiçaria — disse um vizinho de Gringoire.

— E essa folha seca! — acrescentou outro.

— Não tem dúvida — retomou um terceiro. — É uma bruxa em combinação com o monge-papão, para atacar oficiais.

O próprio Gringoire não estava longe de achar tudo aquilo assustador e possível.

— Mulher Falourdel — disse o sr. presidente, majestosamente. — Nada mais tem a dizer à justiça?

— Nada mais, excelentíssimo — respondeu a velha. — A não ser que no relatório trataram a minha casa de barracão decrépito e fedorento, o que é um insulto. As casas da ponte podem não ser bonitas, por haver gente demais, mas há açougueiros que moram lá, e são homens ricos, casados com belas mulheres bem asseadas.

O magistrado que Gringoire havia comparado a um crocodilo se levantou.

— Paz! — exclamou ele. — Peço aos senhores que não percam de vista o fato de ter sido encontrado um punhal com a acusada. Mulher Falourdel, trouxe a folha seca em que se transformou o escudo que o demônio lhe deu?

— Trouxe sim, senhor — ela respondeu. — Aqui está.

O escrivão levou a folha morta ao crocodilo, que fez um sinal lúgubre com a cabeça e passou-a ao presidente, que, por sua vez, enviou-a ao procurador do rei no tribunal da Igreja. De modo que a folha deu a volta na sala.

— Trata-se de uma folha de bétula — disse mestre Jacques Charmolue. — Nova comprovação de feitiçaria.

Um conselheiro tomou a palavra:

— Testemunha, dois homens subiram, ao mesmo tempo, ao andar de cima da sua casa. O homem escuro, que a senhora primeiro viu desaparecer e, depois, nadar no Sena, com roupas de padre, e o oficial. Qual dos dois lhe entregou o escudo?

A velha pensou por um momento e respondeu:

— O oficial.

Um rumor percorreu os ouvintes.

— Ah! — pensou Gringoire. — Isso abala um pouco a minha convicção.

No entanto, o advogado extraordinário do rei, mestre Philippe Lheulier, novamente interveio:

— Lembro aos senhores que, no depoimento tomado no leito de morte do oficial assassinado, ele declarou ter vagamente pensado no monge-papão ao ser abordado pelo homem escuro, e que o fantasma vivamente o havia incentivado a ir encontrar a acusada. Quando o capitão disse estar sem dinheiro, recebeu do homem o citado escudo, que ele entregou à Falourdel. Ou seja, o escudo era uma moeda do inferno.

A observação concludente pareceu dissipar todas as dúvidas de Gringoire e dos demais incrédulos do auditório.

— Os senhores têm o dossiê com as devidas peças — acrescentou o advogado do rei, sentando-se —, e podem consultar o depoimento de Phoebus de Châteaupers.

Ouvindo esse nome, a acusada se levantou. Sua cabeça ficou acima da multidão. Horrorizado, Gringoire reconheceu Esmeralda.

Estava pálida. Os cabelos, antes tão graciosamente cacheados e enfeitados com lantejoulas, caíam desordenados. Os lábios pareciam azulados. Os olhos fundos eram assustadores. Que desgraça!

— Phoebus! — ela repetiu. — Onde está? Senhores, antes de me matar, por favor, digam se ele ainda vive!

— Cale-se, mulher! — respondeu o presidente. — Não é o que nos interessa.

— Por piedade! Digam se ele está vivo ou não — continuou a cigana, juntando as belas mãos emagrecidas, e podiam-se ouvir as correias baterem no vestido.

— Muito bem! — disse com secura o advogado do rei. — Ele está morrendo. Satisfeita?

A infeliz voltou a cair em seu assento, sem voz, sem lágrimas, branca como uma figura de cera.

O presidente se debruçou na direção de um homem colocado mais abaixo, que usava gorro dourado, toga negra, corrente no pescoço e tinha uma vergasta à mão.

— Meirinho, faça entrar a segunda acusada.

Todas as atenções se voltaram para uma portinhola que foi aberta e, para grande emoção de Gringoire, deu passagem a uma bonita cabrita de chifres e patas dourados. O elegante animal parou um momento à entrada da sala, estendendo o pescoço como se, no alto de um rochedo, tivesse diante dos olhos um imenso horizonte. De repente, avistou a boêmia e, saltando por cima da mesa e da cabeça de um escrivão, num instante chegou aos joelhos dela. Em seguida, graciosamente se pôs aos pés da sua dona, esperando uma palavra ou um carinho. Mas a acusada se manteve imóvel e a pobre Djali não recebeu sequer um olhar.

— Ei, é… o horrível animal — disse a velha Falourdel. — Reconheço perfeitamente as duas!

Jacques Charmolue interveio:

— Por favor, senhores, procedamos ao interrogatório da cabra.

De fato, era a segunda acusada. Nada mais comum, naquele tempo, que os processos por feitiçaria impetrados contra animais. Encontra-se, entre muitos outros nas contas do prebostado referentes ao ano de 1466, um curioso detalhe dos custos do processo de Gillet-Soulart e sua porca, executados por seus desmandos, em Corbeil. Tudo está ali incluído: o preço do fosso para a porca, as quinhentas achas de lenha retiradas do porto de Morsant, as três pintas de vinho e o pão para a última refeição do condenado, fraternalmente dividida com o carrasco, incluindo os onze dias de guarda e alimentação da porca, a oito deniers parisis cada dia. Mas tais processos não se limitavam apenas aos animais. As capitulares de Carlos Magno e Luís o Piedoso previam pesadas penas contra fantasmas esvoaçantes que ousassem se apresentar nos ares.

O procurador no tribunal da Igreja exclamou:

— Se o demônio que habita essa cabra, tendo resistido a todos os exorcismos, persistir em seus malefícios e assustar o tribunal, previno que seremos forçados a requerer o cepo ou a fogueira.

Gringoire suou frio. Charmolue pegou em cima de uma mesa o pandeiro da cigana e, apresentando-o à cabra numa determinada posição, perguntou:

— Que horas são?

A cabra olhou para ele com uma expressão inteligente, ergueu a pata dourada e bateu sete vezes. De fato, eram sete horas. Uma movimentação de pavor percorreu a multidão.

Gringoire não se conteve:

— Ela está se perdendo! Podem ver que não sabe o que faz.

— Silêncio no fundo da sala! — ordenou o meirinho.

Manejando o instrumento, Jacques Charmolue fez a cabra executar diversos outros truques, pedindo o dia, o mês etc. em que estavam, da maneira como o leitor já tomou conhecimento anteriormente. Por uma ilusão ótica característica dos debates judiciários, aqueles mesmos espectadores que talvez já tivessem várias vezes aplaudido nas esquinas os inocentes truques de Djali, se horrorizavam sob as abóbadas do Palácio da Justiça. Decididamente, a cabra era o diabo.

A situação piorou quando o procurador do rei revirou no chão certo saquinho de couro que Djali tinha pendurado no pescoço, cheio de letras soltas. Diante de todo o público, a cabra extraiu do alfabeto espalhado, com a pata, as peças formando esse nome fatal: Phoebus. Os sortilégios de que o capitão tinha sido vítima pareceram irresistivelmente demonstrados e ficou patenteado que a cigana, a linda dançarina que tantas vezes havia deslumbrado os passantes com a sua graça, não passava de uma horrível estrige.

Que, aliás, não apresentava sinal nenhum de vida. Nem as graciosas movimentações de Djali, nem as ameaças do tribunal, nem as surdas imprecações do auditório pareciam chegar ao seu entendimento.

Para despertá-la, foi preciso que um guarda severamente a sacudisse e que o presidente erguesse a voz solene:

— Filha, a senhorita é de raça boêmia, que é dada a malefícios. Com a cumplicidade da cabra enfeitiçada, implicada no mesmo processo, feriu e apunhalou, na noite de 29 de março último, em combinação com as potências das trevas e ajudada por encantos e gestualidade, um capitão dos arqueiros da ordenança do rei, Phoebus de Châteaupers. Persiste em negar?

— Horror! — gritou a jovem, escondendo o rosto com as mãos. — Meu Phoebus! Ah! É o inferno!

— Persiste em negar? — perguntou friamente o presidente.

— Sim, nego! — ela respondeu, com terrível entonação na voz, de pé e com os olhos faiscantes.

O presidente prosseguiu, decidido:

— Como então explica os fatos de que é acusada?

Ela respondeu, com uma voz entrecortada:

— Já disse. Não sei. Foi um padre. Um padre que não conheço. Um padre infernal que me persegue!

— Exatamente — retomou o juiz. — O monge-papão.

— Senhores! Por favor! Sou apenas uma pobre menina…

— Do Egito — disse o juiz.

Mestre Jacques Charmolue tomou a palavra, com toda suavidade:

— Tendo em vista a obstinação da acusada, peço a aplicação da questão.

— Concedido! — proclamou o presidente.

O corpo inteiro da infeliz estremeceu. Mesmo assim, ela se levantou por ordem dos guardas armados e seguiu, com passo bastante firme, Charmolue e os padres do Santo Ofício, entre fileiras de alabardas, até uma porta estreita, que subitamente se abriu e voltou a se fechar depois que ela passou, fenômeno que causou no entristecido Gringoire o efeito de uma horrível bocarra que acabasse de devorá-la.

Depois disso, ouviu-se um balido lamentoso. Era a cabritinha que chorava.

A audiência foi suspensa. Tendo um conselheiro observado que todos estavam cansados demais para esperar até o final da tortura, o presidente o fez notar que um magistrado deve ser capaz de se sacrificar pelo dever.

— Que inconveniente malfeitora esta — comentou um venerando juiz —, que nos obriga à questão sem termos feito refeição!

 

385. “Sobre as figuras regulares e irregulares”.

386. Impressores alemães que se estabeleceram em Veneza, no séc.XV. Hugues de Saint-Victor foi um filósofo, teólogo e autor místico do séc.XII. É curioso notar que seu nome lembra o do próprio Victor Hugo.

387. Torre em que se situava a câmara criminal, no Palácio da Justiça.

388. Ou seja, ao sabá, a bruxaria.

389. As forças policiais andavam em grupo de doze.