O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 12 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

Livro dois

1. De Caríbdes a Cila

 

A noite cai cedo no mês de janeiro. As ruas já estavam às escuras quando

Gringoire saiu do palácio, e isso o agradou: ansiava por alcançar alguma ruela obscura e deserta para meditar à vontade e para que o filósofo aplicasse um primeiro bálsamo na ferida do poeta. A filosofia, aliás, era seu único refúgio, pois não sabia para onde ir. Depois do estrepitante aborto daquela inaugural tentativa no teatro, não se animava a voltar ao lugar em que morava, na rua Grenier-sur-l’Eau, diante de Port-au-Foin, pois contava com o que o sr. preboste devia lhe dar por seu epitalâmio para pagar o

mestre Guillaume Doulx-Sire, coletor da taxa sobre animais de Paris,96 pelos seis meses de aluguel devidos, isto é, doze soldos parisis; doze vezes o valor do que possuía no mundo, incluindo nesse patrimônio seus calções, a camisa e o chapéu. Depois de pensar por um momento, provisoriamente abrigado sob a guarita da prisão que servia à tesouraria da Sainte-Chapelle, onde se alojaria à noite, e tendo todas as ruas de Paris à disposição, lembrou-se de ter visto, na semana anterior, na rua de la Savaterie, diante da porta de um conselheiro do Parlamento, um degrau de apoio para se montar em mulas, e de naquela ocasião haver imaginado que a pedra daria excelente travesseiro para um mendigo ou um poeta. Agradeceu à providência o envio de tão boa lembrança. Porém, ao se preparar para atravessar a praça do Palácio rumo ao tortuoso labirinto da Cité, onde serpenteiam todas essas antigas irmãs que são as ruas de la Barillerie, de la

Vieille-Draperie, de la Savaterie, de la Juiverie etc.,97 ainda existentes hoje em dia, com suas construções de nove andares, ele viu a procissão do papa dos bufos que também saía do palácio e avançava pelo pátio com muitos gritos, intensa claridade de archotes e com os seus músicos, os mesmos que o haviam abandonado. A cena reavivou os arranhões no amor-próprio e ele fugiu. Na amargura da triste aventura dramática, tudo que lembrasse a festa daquele dia o abalava e fazia a ferida voltar a se abrir.

Quis tomar a ponte Saint-Michel; crianças corriam por lá, brincando com estalinhos e rojões.

— Malditos fogos de artifício! — praguejou Gringoire, tomando a direção da ponte au-Change.

Tinham fixado nas primeiras casas da ponte três bandeiras representando o rei, o delfim e Margarida de Flandres, e seis bandeirolas com os retratos do duque da Áustria, do cardeal de Bourbon, do sr. de Beaujeu, da sra.

Joana de França, do sr. bastardo de Bourbon98 e de não sei mais quem, tudo iluminado por tochas. A turba as admirava.

— Feliz pintor Jehan Fourbault! — disse Gringoire com um profundo suspiro e virou as costas para bandeiras e bandeirolas.

Uma rua abria-se à frente. Pareceu-lhe tão escura e abandonada que esperou nela escapar de todos os sons, assim como de todas as luzes da festa. Tomou-a. Logo no início, seu pé tropeçou num obstáculo e ele caiu. Era um ramo de uma “árvore de maio” que pela manhã os funcionários do tribunal tinham posto à porta de um presidente do parlamento, festejando a solenidade do dia. Gringoire suportou heroicamente a nova provação. Levantou-se e dirigiu-se à beira do rio. Tendo deixado para trás as câmaras civil e criminal das torres do palácio e renteando em seguida o grande muro dos jardins do rei, pela margem não pavimentada em que a lama lhe chegava aos tornozelos, foi dar na ponta ocidental da Cité e considerou por algum tempo a ilhota do Atravessador de Vacas, que, de lá para cá,

desapareceu sob o cavalo de bronze e da ponte Neuf.99

A ilhota surgia na penumbra como uma massa escura, além do estreito braço d’água esbranquiçada que a separava. Mal se distinguia, pelo brilho de uma luzinha fraca, a espécie de barraco em forma de colmeia que servia de abrigo ao barqueiro que atravessava o gado de uma margem a outra.

— Feliz atravessador de vacas! — pensou Gringoire. — Não sonhas com glória nem escreves epitalâmios! Que importância têm para ti reis que se casam e duquesas de Borgonha? Não conheces outras margaridas além daquelas que a relva de abril dá a ruminar às tuas vacas! E eu, poeta, sou vaiado e bato os dentes e devo doze soldos e minha sola está tão transparente que serviria de vidro para tua lanterna. Obrigado, atravessador de vacas! Tua cabana descansa minha vista e me faz esquecer Paris!

Foi despertado desse êxtase quase lírico por um estrepitoso rojão duplo de são João que bruscamente irrompia da bem-aventurada cabana. Era o atravessador de vacas que tomava parte nos folguedos do dia e fazia pipocarem seus fogos de artifício.

O estouro causou arrepios em Gringoire.

— Maldita festa! — exclamou. — Vai me perseguir por toda parte? Ah, meu Deus! Até mesmo o atravessador de vacas!

Em seguida, olhou para o Sena a seus pés e foi tomado por horrível tentação:

— Ah! — disse ele. — Tranquilamente me afogaria, se a água não estivesse tão fria!

Uma decisão desesperada então o assaltou. Já que não podia escapar do papa dos bufos, das bandeirolas de Jehan Fourbault, dos ramos da árvore de maio, dos foguetes e dos rojões, mergulharia resolutamente no coração mesmo da festa e iria à praça da Grève.

— Pelo menos lá — pensou — posso conseguir um tição da fogueira para me aquecer e comer alguma migalha dos três grandes brasões reais de açúcar que a mesa pública da cidade deve ter disponível.

 

96. Coutume du pied-fourché, literalmente a “taxa do casco fendido”, era paga para se entrar com animais como bois e carneiros em Paris.

97. Essas ruas existiam ainda à época em que foi escrito o romance, no lugar da atual Préfecture de Police, construída durante a remodelação da cidade pelo barão Haussmann, na década de 1860.

98. Os bastardos eram muitos na família Bourbon, mas provavelmente se trata de Luís de Bourbon, filho do duque Carlos, legitimado por Luís XI, que o casou com sua própria bastarda Joana de Valois.

99. A ponte Neuf começou a ser construída em 1578, incorporando a ilhota do Atravessador de Vacas à Cité. A estátua equestre de Henrique IV foi erguida em 1614.