O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 31 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

3. História de um bolo com fermento de milho

 

 

À época em que se passa essa história, a cela da torre Roland estava

ocupada. Se o leitor quiser saber por quem, basta que ouça a conversa de três felizes comadres que, no momento em que chamamos a atenção para o Buraco dos Ratos, se dirigiam precisamente nessa direção, indo do Châtelet à Grève, pela beira do rio.

Duas delas estavam vestidas como boas burguesas de Paris. A fina gorgerette branca, a saia de tiretaine riscada de vermelho e azul, as meias brancas de tricô, com coins coloridos em bordadura, bem esticadas nas

pernas,306 os sapatos quadrados de couro pardo e solas pretas, mas, principalmente, o chapéu, uma forma cônica brilhosa, sobrecarregada de fitas e rendas que as mulheres da Champagne ainda usam, concorrendo com os granadeiros da guarda imperial russa, tudo deixava claro pertencerem à classe de ricas comerciantes, precisamente situada entre o que os criados denominam uma mulher e uma dama. Não usavam anéis nem cruz de ouro, e podia-se notar não ser por pobreza, mas muito simplesmente por medo da

multa.307 A terceira estava mais ou menos vestida da mesma maneira, mas havia no conjunto e nos seus modos algo que indicava provavelmente se tratar da esposa de um tabelião de província. Pela maneira como o cinto subia acima dos quadris, por exemplo, adivinhava-se que não estava há muito tempo em Paris. Acrescentem-se a gorgerette plissada, os nós de fitas nos sapatos, as riscas da saia serem horizontais e não verticais e mil outros detalhes que ofendiam o bom gosto.

As duas primeiras caminhavam com aquelas passadas particulares das parisienses que mostram Paris às provincianas. E a provinciana segurava pelo braço um menino desengonçado, que por sua vez segurava um bolo de bom tamanho.

A provinciana segurava pelo braço um menino desengonçado, que por sua vez segurava

um bolo.

 

Constrange-nos acrescentar ainda que, no rigor daquela estação do ano, o menino usava a língua como lenço. E era arrastado non passibus

aequis,308 como diz Virgílio, tropeçando com frequência, para grande desespero da mãe. É bem verdade que dava mais atenção ao bolo do que ao chão em que pisava. Sem dúvida algum grave motivo o impedia de mordê-lo (ao bolo), pois ele se contentava com a simples observação amorosa, mas de tal modo que a mãe teve que também carregar o bolo. Era um suplício

fazer da bochechuda criança um Tântalo.309

As três damoiselles (pois “dama” era reservado à nobreza) falavam ao mesmo tempo.

— Vamos, damoiselle Mahiette — dizia à interiorana a mais moça das três, que era também a mais gorda. — Temo que cheguemos tarde demais. Disseram, no Châtelet, que ele seria imediatamente levado ao pelourinho.

— Ora! O que está dizendo, damoiselle Oudarde Musnier? — interpôs-se a outra parisiense. — Ele vai estar por duas horas no pelourinho. Temos tempo. Já viu pelourinhar, querida Mahiette?

— Já — respondeu a provinciana. — Em Reims.

— Ora! E como é esse seu pelourinho de Reims? Uma jaula sem graça onde são supliciados camponeses. Grandes coisas!

— Apenas camponeses? — ripostou Mahiette. — No Marché-aux-Draps de Reims? Tivemos belíssimos criminosos, que haviam matado pai e mãe! Camponeses! O que acha que somos, Gervaise?

A provinciana estava realmente a ponto de se zangar, pela honra do seu pelourinho. Felizmente a discreta damoiselle Oudarde Musnier mudou rapidamente de assunto.

— Aliás, damoiselle Mahiette, o que achou dos nossos embaixadores flamengos? Já viu tão bonitos em Reims?

— Devo admitir — respondeu Mahiette — que somente em Paris se veem flamengos assim.

— Notou na embaixada aquele grande embaixador que fabrica meias? — perguntou Oudarde.

— Notei — confirmou Mahiette. — Mais parecia um Saturno.

— E aquele gordo com uma cara igual a uma barriga nua? — perguntou Gervaise. — E um outro, pequeno, com os olhinhos em pálpebras vermelhas irrequietas e espevitadas como a ponta de um cardo ao vento?

— Os cavalos é que eram muito bonitos — disse Oudarde. — Vestidos à moda do país deles!

— Ah, querida! — interrompeu a provinciana Mahiette, aproveitando a oportunidade de assumir, por sua vez, um ar superior. — E o que diria então se houvesse visto há dezoito anos, em 61, na coroação em Reims, os cavalos dos príncipes e da companhia do rei! Gualdrapas e jaezes de todo tipo. Uns em tecidos de Damasco, ou fino algodão de ouro e adornos com martas zibelinas, outros de veludo e caudas de arminho. E outros repletos de ourivesaria e campanas grandes de ouro e prata! Quanta finança tudo aquilo não custou! E as belas crianças a servirem de pajens montados!

— De qualquer forma — retrucou de maneira seca a sra. Oudarde — os flamengos têm cavalos muito bonitos e magnificamente se regalaram na residência do sr. preboste dos comerciantes, no Hôtel de Ville, onde foram servidos confeitos de amêndoa, hipocraz, especiarias e outras singularidades.

— O que está dizendo, vizinha? — exclamou Gervaise. — Foi na casa do sr. cardeal, no Petit-Bourbon, que os flamengos se regalaram.

— Nada disso, foi no Hôtel de Ville!

— Está errada. No Petit-Bourbon!

— Tanto foi no Hôtel de Ville — retomou Oudarde de maneira ácida — que o doutor Scourable fez uma arenga em latim, com que todos ficaram muito satisfeitos. Foi meu marido, que é livreiro-juramentado, que me disse.

— Pois tanto foi no Petit-Bourbon — respondeu Gervaise não menos ardentemente — que posso detalhar o que apresentou o procurador do sr. cardeal: doze duplos quartos de hipocraz branco, clarete e tinto, vinte e quatro caixas de maçapão duplo de Lyon, igual número de archotes de duas libras cada e seis tonéis de vinho da Beaune, branco e clarete, do melhor que se possa encontrar. Só espero que tudo isso seja positivo. Soube por meu marido, que é oficial de milícia no Parlatório dos Burgueses e comparava, hoje de manhã, os embaixadores flamengos com os do padre

João310 e os do imperador da Trebizonda, que vieram da Mesopotâmia a Paris à época do último rei e tinham brincos nas orelhas.

— Tanto é verdade que se regalaram no Hôtel de Ville — replicou Oudarde, pouco impressionada com o que a amiga dizia — que nunca se viu semelhante triunfo de carnes e confeitos de amêndoas.

— Pois garanto que foram servidos por Le Sec, oficial da cidade, no palacete do Petit-Bourbon! É onde você se engana.

— No Hôtel de Ville, garanto!

— No Petit-Bourbon, querida! Tanto que iluminaram com vidros

mágicos a palavra Espérance escrita no portão principal.311

— No Hôtel de Ville! No Hôtel de Ville! Inclusive Husson le Voir tocava flauta!

— Garanto que não!

— Garanto que sim!

— Garanto que não!

A boa e gorda Oudarde se preparava para nova réplica e a discussão talvez chegasse às vias de fato, se Mahiette não exclamasse de repente:

— Vejam as pessoas que se juntaram ali, ao final da ponte! Há no meio algo que todos olham.

— Na verdade — disse Gervaise — estou ouvindo um pandeiro. Deve ser a pequena Smeralda que faz cabriolas com sua cabra. Rápido, Mahiette! Aperte o passo e puxe o filho. Estão aqui para conhecer as curiosidades de Paris. Já viram ontem os flamengos, precisam ver hoje a egípcia.

— Egípcia! — exclamou Mahiette, parando bruscamente e apertando com força o braço do menino. — Deus me livre! Vai roubar meu filho! Vamos sair daqui, Eustache!

Pôs-se a correr pelo cais na direção da Grève, até deixar a ponte bem distante para trás. Aconteceu que o menino que ela puxava acabou caindo no chão de joelhos. Ela parou sem fôlego. Oudarde e Gervaise chegaram até onde eles estavam.

— A egípcia, roubar seu filho? — espantava-se Gervaise. — É uma ideia bem estranha.

Mahiette balançava a cabeça, pensativa.

— O que é estranho — observou Oudarde — é que a sachette tem a mesma ideia a respeito das egípcias.

— E o que é a sachette? — quis saber Mahiette.

— Ora! — respondeu Oudarde. — A irmã Gudule.

— E quem é — voltou Mahiette — a irmã Gudule?

— Só podia mesmo ser de Reims para não saber isso! — respondeu Oudarde. — É a reclusa do Buraco dos Ratos.

— Como assim? — estranhou Mahiette. — A pobre mulher para quem estamos levando esse bolo?

Oudarde confirmou com a cabeça.

— Exatamente. Vai vê-la daqui a pouco na sua lucarna que dá para a Grève. Ela tem a mesma ideia feita que a senhora sobre esses errantes do Egito que tamborinam e leem a sorte para as pessoas. Não sei de onde vem o horror dela pelos zingari e egípcios. Mas você, Mahiette, por que correr tanto, só de vê-los?

— Ah! — disse Mahiette, segurando com as duas mãos a cabeça do filho. — Não quero que aconteça comigo o que aconteceu com Paquette la Chantefleurie.

— Ah! Não pode deixar de nos contar essa história, boa Mahiette — disse Gervaise, pegando-a pelo braço.

— Conto sim — respondeu Mahiette —, mas precisam realmente viver nessa Paris de vocês para não saber disso! Vou contar, então, mas não precisamos ficar aqui paradas. Paquette la Chantefleurie era uma bonita moça de dezoito anos, como eu à mesma época, isto é, há dezoito anos, sendo culpa dela própria não ser hoje, como eu, uma bem nutrida e satisfeita mãe de 36 anos, com um marido e um filho. Aliás, já aos quatorze anos ela não poderia mais! Era, em todo caso, filha de Guybertaut, menestrel a bordo de embarcações em Reims, o mesmo que cantou para Carlos VII, quando ele foi coroado rei e desceu o nosso rio de Vesle, de

Sillery até Muison, tendo inclusive a sra. Donzela a bordo.312 Quando o velho pai morreu, Paquette era ainda bem pequena e restou então apenas a mãe, irmã do sr. Mathieu Pradon, mestre caldeireiro em Paris, à rua Parin-Garlin, e que morreu no ano passado. Como podem ver, era moça de família. A mãe era boa mulher e, infelizmente, nada ensinou a Paquette senão um pouco de passamanaria e fabricação de bibelôs, o que não a impediu de crescer normalmente muito forte e de continuar muito pobre. Residiram ambas em Reims, junto ao rio, na rua de Folle-Peine. Notem o seguinte, pois acho que foi o que desgraçou Paquette. Em 61, ano da coroação de nosso rei Luís XI, que Deus o tenha, Paquette era tão alegre e

bonita que todo mundo a chamava Chantefleurie.313 Pobrezinha! Tinha belos dentes e gostava de rir para exibi-los. E moça que gosta de rir logo se põe a chorar, os belos dentes levam à perdição os belos olhos. Assim, então, era a Chantefleurie. Ela e a mãe ganhavam duramente a vida. Haviam decaído muito, desde a morte do menestrel. A passamanaria não lhes dava mais do que seis denários por semana, o que não chega a duas moedas de cobre. Longe estava o tempo em que o pai Guybertaut ganhava doze soldos parisis numa única coroação, com uma canção. No inverno, naquele mesmo ano de 61, com as duas sem ter lenha nem brasa, o frio intenso imprimiu cores tão vivas no rosto de Chantefleurie que os homens começaram a se interessar por ela. Muitos inclusive a chamavam Pâquerette! E ela se perdeu.

Mahiette interrompeu o que contava:

— Eustache! Eu que o veja morder esse bolo!

E emendou:

— Imediatamente percebemos que tinha se perdido, certo domingo, quando foi à igreja com uma cruz de ouro no pescoço. Aos quatorze anos, podem imaginar coisa assim? O primeiro foi o jovem visconde de Cormontreuil, que tem seu campanário a três quartos de légua de Reims. Depois o sr. Henri de Triancourt, mensageiro montado do rei. Em seguida, decaindo, Chiart de Beaulion, mestre de cerimônias. Descendo cada vez mais, Guery Aubergeon, que servia à mesa do rei; e então Macé de Frépus, barbeiro do sr. delfim; daí Thévenin le Moine, cozinheiro do rei. Entregou-se a homens cada vez menos jovens e menos nobres como Guillaume Racine, menestrel sanfoneiro, e Thierry de Mer, fabricante de lampiões. Depois disso, a pobre Chantefleurie foi de todos. Chegou ao último denário da sua moeda de ouro. O que posso dizer, minhas amigas? Na coroação, naquele mesmo ano de 61, foi quem fez a cama do rei dos libidinosos! No mesmo ano!

Mahiette suspirou e enxugou uma lágrima que descia dos olhos.

— A história nada tem de tão extraordinária — achou Gervaise. — E não vi nisso tudo egípcios nem crianças.

— Paciência! — retomou Mahiette. — Já verá uma criança. Em 66, há dezesseis anos, que se completarão este mês mesmo, no dia de santa Paula, Paquette deu à luz uma menina. Pobrezinha! Foi uma alegria imensa! Há muito tempo ela queria um filho. A mãe, a boa mulher que aceitara fechar os olhos a tudo aquilo, havia morrido. Paquette não tinha mais a quem amar no mundo e nem quem a amasse. Já há cinco anos se perdera; era uma pobre criatura a Chantefleurie. Estava só, só nessa vida, apontada pelas pessoas na rua, insultada, batida pelos guardas; meninos esfarrapados zombavam dela. Além disso, chegara aos vinte anos e os vinte anos são a velhice para as mulheres do amor. A farra começava a não render mais do que os bibelôs de antigamente. A cada ruga que ganhava perdia um trocado. O inverno voltou a ser duro, a lenha rareou, assim como o pão no guarda-comida. Não conseguia mais trabalhar, pois se entregando à volúpia, ficara preguiçosa, e sofria muito mais, pois se tornando preguiçosa, ficara voluptuosa. Pelo menos é como o sr. cura de Saint-Remy explica por que mulheres assim têm mais frio e mais fome do que outras miseráveis, quando envelhecem.

— Pode ser — observou Gervaise. — E os egípcios?

— Espere um pouco, Gervaise! — disse Oudarde, que era menos impaciente. — O que haveria no final, se tudo fosse dito logo no início? Continue, Mahiette, por favor. Pobre Chantefleurie!

Mahiette continuou.

— Ela vivia, então, bem triste, bem miserável, com as faces escavadas de lágrimas. Mesmo na vergonha, na loucura e no abandono, ela achou que estaria menos envergonhada, menos louca e menos abandonada se tivesse algo no mundo, ou alguém, que pudesse amar e que a amasse. Precisaria ser uma criança, pois só uma criança é inocente a tal ponto. Percebera essa verdade depois de tentar amar um ladrão, o único homem capaz de querê-la, mas no final de certo tempo, se deu conta de que também o ladrão a desprezava. As mulheres do amor precisam de um amante ou de uma criança que lhes preencham o coração. Sem isso, se sentem muito infelizes. Não podendo ter um apaixonado, ela se concentrou inteira no desejo por um filho e, como não tinha abandonado a religião, fez sua oração de sempre a Deus. Deus apiedou-se e deu a ela uma filhinha. Foi uma alegria indescritível. Uma torrente de lágrimas, de carinhos e beijos. Amamentou ela mesma a criança, fez fraldas a partir do lençol, o único que tinha na cama, e nem por isso sentiu mais frio ou fome. Voltou a ficar bonita. Moça envelhecida, jovem mãe. O interesse por ela voltou, Chantefleurie voltou a ser procurada, havendo compradores para o que vendia e todo o horror da sua vida ela transformou em roupinhas, touquinhas e babadores de cetim, sem sequer pensar em comprar um cobertor.

Interrompeu-se:

— Sr. Eustache, já avisei que não coma esse bolo.

E voltou:

— Certo é que a pequena Agnès, pois era este o nome da criança, nome de batismo, pois nome de família há muito tempo Chantefleurie não tinha mais, certo é que a pequerrucha vivia mais agasalhada e embrulhada com

fitinhas e bordados do que uma delfina do Delfinado!314 E tinha, entre outros pertences, um par de sapatinhos! Provavelmente o rei Luís XI não teve nenhum parecido! A mãe os havia costurado e bordado ela própria, com todas as finezas de passamanaria de um vestido da Virgem. Eram certamente os dois sapatinhos rosa mais bonitos que alguém possa imaginar. Tinham no máximo o comprimento do meu polegar e era preciso ver sair os pezinhos da criança para acreditar que pudessem ter entrado ali. É bem verdade que os tais pezinhos eram tão pequenininhos, tão bonitinhos, tão rosados! Mais rosados do que o cetim dos sapatinhos!

Interrompendo-se mais uma vez:

— Quando tiver um filho, Oudarde, verá que nada é mais bonito do que os pezinhos e as mãozinhas.

— É tudo que peço — exclamou Oudarde, com um suspiro. — Mas espero também igual aspiração do sr. Andry Musnier.

— Aliás, voltou Mahiette, não eram só os pés que eram bonitinhos, na filha de Paquette. Vi-a quando tinha apenas quatro meses. Era um amorzinho! Os olhos eram maiores do que a boca. E lindos cabelos pretos fininhos, já cacheados. Que bela morena seria, aos dezesseis anos! A mãe a cada dia mais perdia a cabeça pela filha. Fazia carinhos e cócegas, beijava, lavava, enfeitava, dava-lhe mordidinhas! Estava louca pela criança e agradecia a Deus. Os pezinhos cor-de-rosa, sobretudo, causavam um encanto sem fim, um delírio de felicidade! Estava o tempo todo com os lábios colados neles, sem poder acreditar no quanto eram pequenininhos. Colocava-os nos sapatinhos, retirava, admirava, se encantava, olhava a contraluz, se comovia ao tentar fazê-los caminhar em cima da cama e de bom grado passaria a vida de joelhos, calçando e descalçando os pezinhos, como se fossem os do Menino Jesus.

— O conto todo é muito bonito — disse a meia-voz Gervaise —, mas e o Egito nisso tudo?

— Já verá — replicou Mahiette. — Chegaram um dia a Reims uns cavaleiros bem diferentes. Eram vagabundos e mequetrefes que perambulam por todo o país, dirigidos por seu duque e seus condes. A pele deles era morena, os cabelos crespos e usavam anéis prateados nas orelhas. As mulheres pareciam ainda mais feias do que os homens. Tinham o rosto escuro e sempre descoberto, blusas sujas no corpo, um pano velho e grosseiro amarrado por cima dos ombros e a cabeleira presa em rabo de cavalo. As crianças que carregavam eram de dar medo aos macacos. Um bando de excomungados. O bando inteiro vinha do baixo Egito a Reims, passando pela Polônia. Ao que diziam, o papa os havia confessado e dado como penitência que percorressem o mundo por sete anos seguidos, sem dormir em camas. Por esse motivo também eram chamados penitentes e cheiravam mal. Parece que foram antes sarracenos e por isso acreditavam então em Júpiter, mas recebiam dez libras tournois de todos os arcebispos, bispos e abades de báculo e mitra. Uma bula papal garantia a eles tal privilégio. Vinham a Reims para ler a sorte, em nome do rei de Argel e do imperador da Alemanha. Como podem imaginar, mais não foi preciso para proibir que entrassem na cidade. Por isso, o bando inteiro acampou de graça junto à porta de Braine, na colina em que há um moinho, ao lado dos buracos das antigas crateras. De Reims, as pessoas iam vê-los. Eles sabiam olhar nas palmas das mãos e fazer profecias maravilhosas. Seriam capazes de prever a Judas que seria coroado papa. Corriam, no entanto, terríveis boatos a respeito deles, sobre crianças raptadas, bolsas roubadas e carne humana devorada. Os mais ajuizados diziam aos que eram menos: não vá, mas as pessoas iam, escondidas. Foi um acontecimento marcante. Fato é que diziam coisas de espantar um cardeal. As mães mostravam os filhos em triunfo, depois de terem tido as mãos lidas pelas egípcias, anunciando todo tipo de milagre, escrito em pagão e em turco. O rebento de uma seria imperador, o de outra, papa, e de outra mais, capitão. A pobre Chantefleurie foi vítima da curiosidade. Quis saber se a bela Agnès não seria um dia imperatriz da Armênia ou de outro lugar. Levou-a, então, até os egípcios e as egípcias admiraram a criança, trataram com meiguices, beijaram-na com aquelas bocas escuras e disseram maravilhas da infantil mãozinha. Para grande alegria da mãe, infelizmente! Encantaram-se, sobretudo, com os pezinhos e os lindos sapatinhos. A criança não tinha ainda um ano. Já tatibitateava, ria para a mãe por nada, era gordinha e rechonchuda, tinha mil pequenos gestos de anjo do Paraíso. Assustou-se com as egípcias e chorou. Mas a mãe cobriu-a de beijos e foi embora, satisfeita e feliz com a boa sorte que as adivinhas tinham previsto para a pequena Agnès. Seria uma beldade, seria virtuosa, uma rainha de verdade. Voltou então para o casebre da rua de Folle-Peine, orgulhosa por carregar nos braços uma rainha. No dia seguinte, aproveitou um momento em que a criança dormia na cama — pois deitavam-se sempre juntas —, deixou com cuidado a porta entreaberta e correu para contar a novidade a uma vizinha da rua de la Séchesserie, de que viria o dia em que a sua filha Agnès seria servida à mesa pelo rei da Inglaterra e pelo arquiduque da Etiópia, além de cem outras surpresas. Quando voltou, não ouvindo choro ao subir a escada de casa, pensou: “que bom! Agnès nem acordou”. A porta, entretanto, estava mais aberta do que ela havia deixado. A pobre mãe correu até a cama… A criança não estava mais ali, o lugar se encontrava vazio. Nada restava da filhinha, a não ser um dos lindos sapatinhos. Ela se lançou para fora do quarto, desceu às pressas a escada e começou a bater com a cabeça nas paredes, gritando: “Minha filha! Quem está com a minha filha? Quem pegou minha filha?” A rua estava deserta, a casa era isolada, ninguém respondeu. Ela seguiu pela cidade, esmiuçou todas as ruas, o dia inteiro correu de uma para outra enlouquecida, desnorteada, terrível, farejando portas e janelas como um animal atordoado que não encontra a sua ninhada. Esbaforida, descabelada, horrível de se ver, tinha nos olhos uma ardência que secava as lágrimas. Parava quem passasse por perto e gritava: “Minha filha! Minha filha! Minha linda filhinha! Que me guarde como criada quem me devolver minha filha, como criada do seu cachorro. Que devore meu coração, se assim quiser.” Em certo momento, encontrou o sr. cura de Saint-Remy e disse: “Sr. cura, lavrarei a terra com as mãos, mas faça com que devolvam minha criança!” Era dilacerante, Oudarde, e cheguei a ver um homem duro, mestre Ponce Lacabre, que é procurador, chorar: “Ah! Pobre mãe!” À noite, ela voltou para casa. Uma vizinha havia visto, enquanto ela estava fora, duas egípcias entrarem às escondidas com um embrulho nos braços e depois descerem, tendo fechado a porta, fugindo apressadas. E desde que elas foram embora, ouvia-se, na casa de Paquette, algo como um choro de criança. A mãe se alegrou enormemente, subiu a escada como se tivesse asas, empurrou a porta como se fosse uma bala de canhão e entrou… Uma coisa horrível, Oudarde! No lugar da doce pequena Agnès, tão rosada e fresca, que era um dom do Senhor, estava uma espécie de pequeno monstro infame, manco, caolho, malfeito, se arrastando aos pios pelo chão. Ela tapou os olhos com horror, exclamando: “Ah! Será que as bruxas transformaram minha filha nesse animal pavoroso?” Rapidamente os vizinhos a livraram do pequeno coxo. Ele a teria enlouquecido. Era a monstruosa criança de alguma egípcia ligada ao diabo. Parecia ter quatro anos, mais ou menos, e falava uma língua que de jeito nenhum era língua humana. Eram sons impronunciáveis. Chantefleurie se lançou sobre o sapatinho, tudo que lhe restava de tudo que havia amado. Permaneceu imóvel por muito tempo, muda, sem fôlego, parecendo morta. De repente, seu corpo inteiro tremeu, ela cobriu aquela relíquia de beijos furiosos e se desmanchou em pranto, como se o coração acabasse de estourar. Posso garantir que todas nós também chorávamos. Ela dizia: “Ah! Minha filhinha! Minha linda filhinha! Onde estará?”, de uma forma que nos revirava as entranhas. Choro só de lembrar. Os filhos, para nós — percebe? —, são o tutano dos ossos. Meu pobre Eustache! Tão bonito! Se soubessem como ele é bonzinho! Ontem mesmo disse: quero ser militar quando crescer. Ah! Meu Eustache! Se eu o perdesse! Bem, Chantefleurie se levantou de repente e começou a correr por Reims inteira, gritando: “Ao acampamento dos egípcios! Ao acampamento dos egípcios! Guardas para queimar as bruxas!” Mas os egípcios tinham ido embora. Já era de noite, não puderam ir atrás deles. No dia seguinte, a duas léguas de Reims, num matagal entre Gueux e Tilloy, descobriram restos de uma grande fogueira, algumas fitas que tinham sido da filha de Paquette, gotas de sangue e cocô de bode. A noite fora justamente a de um sábado e ninguém teve dúvida: os egípcios fizeram o sabá naquele matagal e devoraram a criança, na companhia de Belzebu, como fazem os maometanos. Quando Chantefleurie soube dessas coisas horríveis, não chorou, movimentou os lábios como se fosse falar, mas não conseguiu. No dia seguinte, os cabelos dela tinham embranquecido. Dois dias depois, ela desapareceu.

— Realmente, uma história horrível — disse Oudarde. — Arrancaria lágrimas de um borguinhão!

— Não é de espantar — acrescentou Gervaise — que o horror pelos egípcios a tenha feito correr tanto!

— E fez bem — completou Oudarde — de fugir daquela maneira com Eustache, pois esses também são egípcios da Polônia.

— Não — disse Gervaise. — Soube que vêm da Espanha e da Catalunha.

— Catalunha? É bem possível — respondeu Oudarde. — Polônia,

Catalunha, Valognes, sempre confundo esses três lugares.315 Mas certo é que todos são egípcios.

— E certamente têm dentes afiados o suficiente para comer criancinhas — acrescentou Gervaise. — E não me surpreenderia que a tal Smeralda também participe disso, mesmo com seus ares finos. Aquela cabrita branca faz coisas maliciosas demais para não haver alguma libertinagem nisso tudo.

Mahiette andava em silêncio. Estava absorta nessa espécie de devaneio que, de certa maneira, se segue a uma narrativa dolorosa e só termina depois de espalhar o sentimento, de vibração em vibração, até as últimas fibras do coração. Gervaise, no entanto, se dirigiu a ela:

— E não se soube mais o que aconteceu a Chantefleurie?

Mahiette não respondeu. Gervaise repetiu a pergunta, sacudindo-lhe o braço e chamando-a pelo nome. Ela pareceu enfim sair do torpor em que estava.

— O que aconteceu a Chantefleurie? — disse ela, repetindo maquinalmente as palavras que os ouvidos haviam registrado; e depois, se esforçando para prestar atenção ao sentido das palavras, respondeu vigorosamente: — Ah! Nunca se soube.

Após uma pausa, acrescentou:

— Uns disseram tê-la visto sair de Reims ao cair da noite, pela porta Fléchembault; outros, ao amanhecer, pela velha porta Basée. Um pobre encontrou a cruz de ouro que ela usava, pendurada na cruz de pedra, no campo em que se faz a feira. Era a joia que havia causado a sua perdição, em 61. Um presente do belo visconde de Cormontreuil, o primeiro amante. Paquette nunca aceitara se desfazer dela, por mais miserável que estivesse. Era apegada à joia como à própria vida. Assim, quando vimos que a havia abandonado, pensamos logo que estivesse morta. No entanto, gente do cabaré Les Vantes disse tê-la visto passar a caminho de Paris, andando de pés descalços nas pedras. Mas seria preciso que tivesse, então, saído pela porta de Vesle, o que seria improvável. Melhor dizendo, até acho que tenha mesmo saído pela porta de Vesle, mas já fora desse mundo.

— Não entendi — disse Gervaise.

— Vesle — respondeu Mahiette com um sorriso melancólico — é o nome do rio.

— Pobre Chantefleurie! — disse Oudarde com um arrepio. — Afogou-se!

— Afogou-se! — confirmou Mahiette. — E como o pai Guybertaut poderia imaginar, à época em que passava cantando em sua barca sob a ponte de Tinqueux, que atravessa o rio, que um dia sua querida e pequena Paquette também por baixo da mesma ponte passaria, mas sem canção nem barca?

— E o sapatinho? — perguntou Gervaise.

— Desapareceu com a mãe — respondeu Mahiette.

— Pobre sapatinho! — lamentou Oudarde.

Oudarde, mulher gorda e sensível, bem que estaria satisfeita de apenas suspirar na companhia de Mahiette. Mas Gervaise, mais curiosa, ainda tinha perguntas a fazer.

— E o monstro? — perguntou de repente a Mahiette.

— Que monstro?

— O monstrinho egípcio deixado pelas bruxas na casa de Chantefleurie, no lugar da filha! O que fizeram dele? Espero que o tenham afogado também.

— Não foi o caso — respondeu Mahiette.

— Como não? Queimaram, então? Melhor, seria mais justo. Era um filho de bruxa!

— Nem uma coisa nem outra, Gervaise. O sr. arcebispo se interessou pela criança do Egito e a exorcizou, abençoou, expulsou com todo cuidado o diabo do corpo e a enviou a Paris, para ser exposta no estrado de madeira da igreja de Notre Dame, como criança abandonada.

— Esses bispos! — resmungou Gervaise. — Só por serem cultos, nada fazem como todo mundo. Veja só, Oudarde, pôr o diabo como criança abandonada! Pois é óbvio que o monstrinho era o diabo.

— Pois bem, Mahiette, e o que fizeram do menino em Paris? Imagino que pessoa caridosa alguma tenha querido.

— Não sei — respondeu a provinciana. — Justamente a essa época meu marido comprou o tabelionato de Beru, a duas léguas da cidade, e não demos mais atenção àquela história. Além do que, entre Beru e Reims há as duas colinas de Cernay que nos impedem de ver os campanários da catedral.

Sempre conversando, as três dignas burguesas chegaram à praça da Grève. Ocupadas demais, tinham passado sem parar diante do breviário público da torre Roland e, automaticamente, se dirigiram ao pelourinho, em volta do qual a multidão crescia a cada minuto. É provável que o espetáculo que naquele momento atraía todos os olhares as tivesse feito esquecer completamente o Buraco dos Ratos e a missão que tinham em mente, se o gorducho de seis anos que Mahiette puxava pela mão não as lembrasse bruscamente do objetivo:

— Mãe! — disse, como se algum instinto lhe avisasse que o Buraco dos Ratos já tinha ficado para trás. — Posso comer o bolo?

Se Eustache fosse um pouco mais esperto, quer dizer, menos guloso, teria esperado um pouco e somente na volta, já na Universidade, na casa de mestre Andry Musnier, na rua Madame-la-Valence, tendo já os dois braços do Sena e as cinco pontes da Cité entre o Buraco dos Ratos e o bolo, teria arriscado a tímida interrogação: “Mãe, posso comer o bolo?”

A pergunta, porém, imprudente no momento em que foi feita, chamou a atenção de Mahiette.

— É verdade — ela exclamou —, esquecemos da reclusa! Mostrem onde fica o Buraco dos Ratos para que eu leve o bolo.

— Agora mesmo — disse Oudarde. — É uma caridade.

Grande decepção de Eustache.

— Leve então o bolo! — disse ele, erguendo alternadamente os ombros até as duas orelhas, o que, num caso assim, é sinal de supremo descontentamento.

As três mulheres deram meia-volta e, chegando perto da casa da torre Roland, Oudarde disse às duas outras:

— Não devemos olhar ao mesmo tempo, podemos assustar a sachette. Façam como se estivessem lendo o dominus no breviário, enquanto dou uma espiada pela abertura. A sachette me conhece um pouco. Aviso quando puderem se aproximar.

Dirigiu-se sozinha ao Buraco. No momento em que olhou o interior, uma profunda piedade tomou todo o seu rosto. A alegre e franca fisionomia de até então mudou tão bruscamente de expressão e de cor quanto se houvesse passado de um raio de sol para um raio de lua. O olho se umedeceu, a boca se contraiu como prestes a chorar. Logo depois, ela pôs o dedo nos lábios, pedindo recolhimento, e fez sinal a Mahiette para que viesse ver.

Mahiette se aproximou emocionada, em silêncio e na ponta dos pés, como quem se dirige ao leito de um moribundo.

Era, de fato, um triste espetáculo o que tinham diante dos olhos as duas mulheres, olhando sem se mover nem respirar pela abertura gradeada do Buraco dos Ratos.

A cela era estreita, mais larga do que comprida, abobadada em ogiva e, vista daquela maneira, parecia mais o alvéolo de uma mitra de bispo, em tamanho grande. Na laje nua que servia de chão, num ângulo, uma mulher estava sentada, ou melhor, agachada. Tinha o queixo fincado nos joelhos, que os dois braços cruzados apertavam forte contra o peito. Assim encolhida, vestida com um saco marrom que a cobria inteira com amplas dobras e os cabelos grisalhos caídos à frente do rosto ao longo das pernas, indo até os pés, a primeira impressão que dava era a de uma forma estranha, recortada no fundo tenebroso da cela, uma espécie de triângulo escuro, que o raio de luz que vinha da lucarna brutalmente dividia em duas metades, uma escura e outra clara. Era um daqueles espectros meio sombra e meio luz, como os que se veem em sonho ou na obra extraordinária de Goya: pálidos, imóveis, sinistros, agachados numa tumba ou encostados à grade de um calabouço. Não era mulher nem homem, não era um ser vivo nem tinha uma forma definida. Era uma figura, uma espécie de visão em que se sobrepunham o real e o fantástico, como sombra e luz. Mal se podia distinguir, por baixo dos cabelos soltos até o chão, um perfil magro e severo. O saco que a vestia deixava passar por uma extremidade um pé descalço, crispado na laje dura e gelada. A pouca forma humana que se pressupunha por baixo daquele invólucro de luto causava tremores.

A imagem, dando a impressão de estar incrustada no piso, parecia não ter movimento, nem pensamento, nem vida. Sob o fino saco de cânhamo, em pleno mês de janeiro, diretamente sobre o chão de granito, sem lume, no escuro de uma masmorra cujo respiro oblíquo só deixava entrar de fora o ar, nunca o sol, ela não parecia sofrer nem mesmo sentir o que fosse. Como se tivesse se tornado pedra, como a cela, e gelo, como o inverno. As mãos estavam juntas, os olhos fixos. À primeira vista, podia-se achar que era um espectro, à segunda, uma estátua.

No entanto, intermitentemente os lábios azulados se entreabriam num suspiro e tremiam, mas de maneira tão morta e maquinal quanto folhas balançadas ao vento.

Dos olhos apagados, no entanto, escapava um olhar, um olhar inaudito, um olhar profundo, lúgubre e imperturbável, implacavelmente fixado num ângulo da cela que não se via de fora. Um olhar que parecia transportar todos os pensamentos sombrios daquela alma em desespero para não sei qual objeto misterioso.

Era aquela a criatura que, pelo local em que morava, recebia o nome de reclusa e, pelo traje que usava, o de sachette.

As três mulheres — pois Gervaise tinha se juntado a Mahiette e Oudarde — olhavam pela abertura. Suas cabeças diminuíam ainda mais a pouca claridade que entrava no calabouço, sem que a miserável assim privada parecesse sequer percebê-las.

— Não vamos incomodá-la — disse Oudarde em voz baixa. — Está em êxtase, rezando.

Mahiette, porém, considerava com crescente aflição o rosto lívido, murcho, descabelado, com os olhos se enchendo de lágrimas.

— Seria algo bem estranho — murmurou e passou a cabeça entre as grades da janela, conseguindo ver o ângulo a que o olhar da infeliz se mantinha invariavelmente preso.

Ao retirar a cabeça, tinha o rosto inundado de lágrimas.

— Como dizem se chamar essa mulher? — perguntou a

Oudarde. Oudarde respondeu:

— Nós a chamamos irmã Gudule.

— Pois eu — afirmou Mahiette — digo que se chama Paquette Chantefleurie.

Pondo um dedo sobre os lábios, fez sinal a Oudarde, estupefata, para que passasse a cabeça pela lucarna e visse.

Oudarde olhou e reconheceu, no ângulo que a reclusa tanto fitava, um sapatinho de cetim cor-de-rosa, bordado com mil passamanes dourados e prateados. Gervaise olhou por sua vez e as três mulheres, considerando a infeliz mãe, começaram a chorar.

Mas nem seus olhares, nem suas lágrimas distraíam a reclusa. As mãos permaneciam juntas, os lábios mudos, os olhos fixos e, para quem conhecia a história, aquele sapatinho admirado partia o coração. As três mulheres não haviam ainda proferido uma palavra, não ousavam falar, nem mesmo em voz baixa. Aquele profundo silêncio, aquela enorme dor, aquele grande esquecimento em que tudo havia desaparecido, à exceção de um único objeto, causava o mesmo efeito que um altar-mor de Páscoa ou de Natal. Permaneceram caladas, em recolhimento, a ponto de quase se porem de joelhos. Tinham a impressão de entrar numa igreja, no dia de Ofício das Trevas.

Até que Gervaise, a mais curiosa das três e, por isso mesmo, a menos sensível, tentou fazer com que a reclusa falasse:

— Irmã! Irmã Gudule!

Repetiu três vezes o chamado, aumentando sempre um pouco o tom da voz. A reclusa não se movia. Palavra alguma, nenhum olhar, nem mesmo um suspiro, um sinal de vida.

Foi a vez de Oudarde, com voz mais suave e amical:

— Irmã! Irmã santa Gudule!

Mesmo silêncio, mesma imobilidade.

— Estranha mulher! — exclamou Gervaise. — Não se moveria com a explosão de uma bomba!

— Talvez esteja surda — sugeriu Oudarde com um suspiro.

— Talvez cega — acrescentou Gervaise.

— Ou morta — assustou-se Mahiette.

A alma podia até não ter ainda abandonado aquele corpo inerte, adormecido, letárgico, mas havia, muito visivelmente, batido em retirada, escondendo-se em profundidades que as percepções dos órgãos externos não alcançavam mais.

— Vamos ter que deixar o bolo na janela — disse Oudarde. — Algum menino pode acabar pegando. O que fazer para despertá-la?

Eustache, que até então estava distraído com uma carrocinha que passava puxada por um cachorro enorme, se deu conta de repente de que suas três acompanhantes olhavam alguma coisa dentro da cela e, tomado também por curiosidade, subiu num marco de pedra, pôs-se na ponta dos pés e juntou seu largo rosto vermelho na abertura, gritando:

— Mãe, quero ver também!

Ao som da voz infantil clara, buliçosa, vibrante, a reclusa estremeceu. Girou a cabeça com o movimento seco e brusco de uma mola de metal. As duas mãos compridas e descarnadas afastaram os cabelos e ela cravou no menino olhos espantados, amargos, desesperados. Um olhar que foi como um relâmpago.

— Ai, meu Deus! — ela exclamou de repente, escondendo o rosto entre os joelhos e com uma voz rouca que parecia dilacerar o peito. — Pelo menos não me mostre os dos outros!

— Bom dia, senhora — disse o menino com gravidade.

Mas tudo isso havia, de certa maneira, despertado a reclusa. Um longo tremor percorreu o seu corpo, da cabeça aos pés. Os dentes bateram, ela ergueu um pouco a cabeça e disse, apertando os cotovelos contra os quadris e segurando os pés como se quisesse aquecê-los.

— Ai, que frio!

— Pobre mulher — disse Oudarde com enorme pena. — Quer um pouco de fogo?

A mulher sacudiu a cabeça, recusando.

— Pois bem — insistiu Oudarde mostrando uma garrafinha. — Tem aqui hipocraz, que pode aquecê-la. Beba.

A reclusa de novo balançou a cabeça, olhou para Oudarde fixamente e respondeu:

— Água.

Oudarde insistiu.

— Não, irmã, não é o que se deve beber no inverno. Beba um pouco de hipocraz e coma esse bolo com fermento de milho que fizemos para a senhora.

Ela empurrou o bolo que Mahiette oferecia e disse:

— Pão preto.

— Por favor! — disse Gervaise, também comovida e tirando seu casaco de lã. — Fique com esse que é um pouco mais quente que o seu. Ponha por cima dos ombros.

A roupa foi recusada, assim como a garrafa e o bolo, com uma única resposta:

— Quero um saco.

— Precisa entender — insistiu ainda a boa Oudarde — que ontem foi dia de festa.

— Eu sei — disse a reclusa. — Há dois dias não tenho água no meu pote.

E acrescentou, após um silêncio:

— Quando é festa, esquecem-se de mim. E estão certos. Por que o mundo se lembraria de quem não se lembra do mundo? Para brasa apagada, cinza fria.

Ter falado tanto parecia tê-la extenuado e ela deixou a cabeça cair em cima dos joelhos. A simples e caridosa Oudarde acreditou, pelas últimas palavras que ouvira, que a irmã Gudule ainda se queixava do frio e respondeu ingenuamente:

— Aceita então algum fogo?

— Fogo! — disse a sachette com estranha entonação. — Pode oferecer também à pobre criança que se encontra debaixo da terra há quinze anos?

Todos os seus membros tremeram, as palavras vibravam, os olhos brilhavam. Ela se levantou. Estendeu bruscamente a mão branca e magra para o menino que olhava para ela assustado:

— Levem daqui essa criança! — exclamou. — A egípcia vai passar!

Caiu então de cara no chão e a testa bateu na laje com o barulho surdo de uma pedra noutra pedra. As três mulheres acharam que tinha morrido. Pouco depois, entretanto, ela se mexeu e se arrastou com os joelhos e os cotovelos até o canto em que estava o sapatinho. As três não se atreveram a olhar, não podiam vê-la, mas ouviram mil beijos e mil suspiros, junto a gritos dilacerantes e pancadas surdas como as de uma cabeça que se choca contra um muro. Em seguida, após uma pancada particularmente violenta, que deixou as três amigas paralisadas, não se ouviu mais nada.

— Será que se matou? — disse Gervaise, tentando passar a cabeça pela abertura. — Irmã! Irmã Gudule!

— Irmã Gudule! — repetiu Oudarde.

— Ai meu Deus! Não se mexe mais! — continuou Gervaise. — Será que está morta? Gudule! Gudule!

Mahiette, sem conseguir mais respirar, a ponto de não poder falar, fez um esforço.

— Esperem — disse.

Debruçou-se na abertura:

— Paquette! — disse. — Paquette Chantefleurie!

Um menino que ingenuamente soprasse no pavio mal apagado de um rojão, que então estourasse no seu nariz, não se assustaria mais do que Mahiette, pelo efeito que o nome, repentinamente lançado, causou na cela da irmã Gudule.

— Ô, ô! É a egípcia que me chama!

 

O corpo inteiro da penitente estremeceu, ela se ergueu sobre os pés nus e saltou à lucarna, com olhos tão flamejantes que Mahiette, Oudarde, Gervaise e a criança recuaram até o parapeito do cais.

A sinistra imagem da reclusa apareceu colada à grade da abertura.

— Ô, ô! — gritou com um riso assustador. — É a egípcia que me chama!

No mesmo instante, uma cena que se passava no pelourinho atraiu seu olhar feroz. A testa se enrugou de terror, ela estendeu para fora da cela os dois braços esqueléticos e gritou, com uma voz que parecia um estertor:

— É você ainda, filha do Egito! É você que me chama, ladra de crianças! Pois maldita seja! Maldita! Maldita! Maldita!

 

306. A gorgerette era um tipo de gola que escondia o colo, a tiretaine um tecido grosso em que se misturavam lã e algodão, os coins enfeites à altura dos tornozelos das meias.

307. A ostentação da riqueza era privilégio dos nobres.

308. “Com seus passos infantis” (Eneida, II, 724), em latim no original.

309. Na lenda grega, personagem cujo suplício, por haver roubado iguarias dos deuses em benefício dos mortais, era estar perto de uma fonte d’água que se afastava toda vez que ele tentava beber, e sob árvores que encolhiam a ramagem quando ele queria colher um fruto.

310. Um soberano lendário, às vezes asiático, outras vezes identificado como o imperador da Etiópia.

311. Divisa da Ordem do Chardon, escrita em letras douradas à entrada do palacete.

312. A Donzela de Orleans, Joana D’Arc.

313. Literalmente, “Cantaflorida”. O nome Paquette remete à Pâques, Páscoa, período primaveril na Europa, e o diminutivo, pâquerette, que veremos adiante, significa margarida.

314. É uma região bem fria, tendo Grenoble como capital.

315. Pologne, Catalogne e Valognes têm sonoridade parecida em francês.