O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 27 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

Livro cinco

1. Abbas beati Martini255

 

Afama de dom Claude se espalhava. Por causa disso, mais ou menos à

época em que ele se recusou a encontrar a sra. de Beaujeu, recebeu uma visita da qual por muito tempo guardou a lembrança.

Foi num início de noite. Ele acabava de se retirar, após o ofício, à cela canonical do claustro Notre Dame. O quartinho, à exceção de algumas provetas deixadas num canto e cheias de uma substância sólida bastante

equívoca, que muito se parecia com pó de projeção,256 nada oferecia de estranho ou misterioso. Havia, num ou noutro ponto, algumas inscrições nas paredes, mas eram puras sentenças de ciência ou de devoção, extraídas de bons autores. O arquidiácono acabava de se sentar à claridade de um lampião de três bicos em cobre, diante de um espaçoso móvel cheio de manuscritos. Apoiou o cotovelo no livro aberto de Honorius de Autun, De

praedestinatione et libero arbitrio,257 e folheou em profunda reflexão um infólio que ele acabava de trazer, o único texto impresso que se via em sua cela. Em pleno devaneio, ouviu baterem à porta.

— Quem é? — perguntou o sábio, com o mesmo tom gracioso de um dogue faminto quando incomodado diante de um osso.

Uma voz respondeu:

— Seu amigo, Jacques Coictier.

O padre foi abrir e, de fato, era o médico do rei, homem de cerca de cinquenta anos, em quem a dureza da fisionomia só era quebrada pelo olhar malicioso. Outro indivíduo o acompanhava. Ambos usavam veste comprida, de cor ardósia, com detalhes em pelo de esquilo e amarrada na cintura, cobertos por capuzes do mesmo pano e da mesma cor. As mãos desapareciam por dentro das mangas, os pés debaixo do comprimento da veste e os olhos sob o capuz.

— Que Deus me acuda, senhores! — disse o arquidiácono, fazendo-os entrar. — Não esperava tão honrosa visita a essa hora.

Com essas palavras de cordialidade, seu olhar preocupado e perscrutador ia e vinha, do médico ao outro homem.

— Nunca é tarde demais para visitar um sábio tão considerável quanto dom Claude Frollo de Tirechappe — respondeu o doutor Coictier, com seu sotaque franco-condês, que arrastava todas as frases com a pompa de uma roupagem real.

Começou então, entre o médico e o arquidiácono, um desses prólogos congratuladores que, pelos bons costumes da época, precedia qualquer conversa entre eruditos, o que não impedia que se detestassem da forma mais cordial do mundo. Aliás, o mesmo vale ainda hoje, e todo letrado que cumprimenta outro tem sempre na boca um acúmulo de fel adoçado com mel.

Os elogios de Claude Frollo a Jacques Coictier visaram então às inúmeras vantagens temporais que o digno médico soubera arrancar, no decorrer de carreira tão invejada, de cada doença do rei, em operação alquímica melhor e mais garantida do que a da busca da pedra filosofal.

— Aliás, sr. doutor Coictier, tive imensa alegria ao saber do bispado de seu sobrinho, meu reverendo sr. Pierre Versé. Não se tornou bispo de Amiens?

— É verdade, sr. arquidiácono. Foi pela graça e misericórdia de Deus.

— Sabe que estava com ótima aparência, no dia de Natal, à frente de sua companhia do Tribunal de Contas, sr. presidente?

— Vice-presidente, dom Claude. Infelizmente! Nada mais.

— E sua soberba casa da rua Saint-André-des-Arcs? É um Louvre! Gosto muito do abricoteiro esculpido à porta, com esse jogo de palavras tão

espirituoso: À L’ABRI-COTIER.258

— Hélas!, mestre Claude, toda essa alvenaria me custa uma fortuna. Na medida em que a casa se edifica, eu próprio me arruíno.

— Como assim!? Não tem suas rendas da prisão e do bailio do palácio? E as de todas aquelas casas, botequins, vendas e quitandas da Barreira? São boas tetas a ordenhar.

— Minha alcaidaria de Poissy nada rendeu esse ano.

— Mas os pedágios de Triel, de Saint-James e de Saint-Germain-en-Laye continuam bons.

— Rendem cento e vinte libras, que nem são parisis.

— Mas conta ainda com o ofício de conselheiro do rei. É um fixo, não?

— Decerto, confrade Claude, mas essa maldita senhoria de Poligny, de que tanto falam, não rende mais do que sessenta escudos de ouro anuais, no máximo.

Havia, nos cumprimentos que dom Claude fazia a Jacques Coictier, esse tom sarcástico, amargo e surdamente irônico, acompanhado do sorriso cruel de quem se sente superior — mas infeliz — e, para se distrair, brinca por um momento com a grosseira prosperidade de um homem vulgar. O outro não se dava conta.

— Por minha alma — disse finalmente Claude, apertando-lhe a mão —, aprecio muito vê-lo em tão boa saúde.

— Obrigado, mestre Claude.

— Aliás — exclamou dom Claude —, como vai seu real paciente?

— Não paga suficientemente o médico que tem — respondeu o doutor, lançando um olhar a seu acompanhante.

— Acha mesmo, amigo Coictier? — espantou-se o homem.

A pergunta, em tom de surpresa e censura, levou o arquidiácono a olhar diretamente para o personagem desconhecido, mas, na verdade, já o observava desde que entrara em sua cela. Precisara inclusive rememorar os mil motivos que tinha para não se indispor com o doutor Jacques Coictier, o todo-poderoso médico do rei Luís XI, para recebê-lo assim acompanhado. E a sua expressão não se mostrou mais cordial, ouvindo Jacques Coictier lhe dizer:

— A propósito, dom Claude, trouxe um confrade que quis conhecê-lo, dada a sua fama.

— O cavalheiro é da ciência? — perguntou o arquidiácono, fixando no acompanhante de Coictier o olhar penetrante.

Não encontrou, sob as sobrancelhas do desconhecido, olhar menos agudo e desafiador. Pelo que deixava entrever a fraca claridade da lamparina, era um velho de cerca de sessenta anos e estatura mediana, parecendo bastante doente e alquebrado. O perfil, apesar de apresentar linhas bem burguesas, tinha algo de poderoso e severo, com pupilas faiscantes sob a arcada do supercílio, profundas como uma luz no fundo de um antro. Sob o capuz caído até a altura do nariz, pareciam se agitar amplas ideias, numa cabeça inteligente.

O homem respondeu diretamente a pergunta.

— Reverendo mestre — disse, com voz grave —, seu renome chegou a mim e quis então consultá-lo. Sou apenas um fidalgo de província que se põe descalço para entrar na casa de um sábio. Digo-lhe meu nome. Chamo-me amigo Tourangeau.

“Curioso nome para um fidalgo!”, pensou o arquidiácono.

Mas sentia ter pela frente alguém forte e sério. Sua alta inteligência o fazia intuir outra de não menor importância debaixo do capuz forrado do amigo Tourangeau. Considerando a sua grave figura, a ironia que a presença de Jacques Coictier havia feito surgir no seu rosto triste pouco a pouco desapareceu, como o crepúsculo num horizonte noturno. Voltou a se sentar na mesma poltrona grande, na mesma atitude triste e silenciosa, com o cotovelo plantado à mesa e a testa apoiada à mão. Após alguns momentos, fez sinal para que os dois visitantes se acomodassem e se dirigiu ao amigo Tourangeau.

— Veio me consultar, mestre, e sobre qual ciência?

— Reverendo — respondeu o homem. — Estou doente, muito doente. Dizem-no grande Esculápio e vim pedir um conselho de medicina.

— Medicina! — repetiu o arquidiácono, balançando a cabeça.

Pareceu se recolher por um instante e retomou:

— Amigo Tourangeau, pois assim disse se chamar, vire o rosto. Verá minha resposta escrita na parede.

O visitante obedeceu e leu, acima da cabeça, essa inscrição gravada:

 

A medicina é filha dos sonhos. JÂMBLICO259

 

Ouvir o pedido de consulta do seu acompanhante já havia sido frustrante para o doutor Jacques Coictier, e a resposta de dom Claude só fez aumentar essa sensação. Ele se inclinou ao ouvido de Tourangeau e sussurrou de maneira a que o arquidiácono não escutasse:

— Eu bem que avisei, é um louco. E o senhor quis vê-lo!

— Mas pode ser que esse louco, doutor Jacques, tenha razão! — respondeu o outro, no mesmo tom e com um sorriso amargo.

— Como queira! — replicou Coictier de forma seca.

E depois, dirigindo-se ao arquidiácono:

— Tem respostas expeditivas, dom Claude. Parece se preocupar com Hipócrates tanto quanto um macaco com uma amêndoa. A medicina, um sonho! Posso imaginar que boticários e médicos juntos o lapidariam, se ouvissem. Nega então a influência dos humores no sangue, dos unguentos na carne! Nega essa eterna farmácia das flores e dos metais, chamada mundo, expressamente fabricada para esse eterno doente que se chama homem!

— Não nego a farmácia nem o doente — disse friamente dom Claude. — Nego o médico.

— Não acha então — retomou o médico com fervor — que a gota seja um dartro interior? Que se possa curar uma ferida de artilharia com a aplicação de um camundongo assado? Que um sangue jovem, convenientemente infundido, devolva a juventude a veias senis? Não acha que dois e dois somem quatro e que o emprostótono suceda ao opistótono?

Sem se perturbar, o arquidiácono respondeu:

— Há certas coisas que acho, mas à minha maneira pessoal.

Vire o rosto. Verá minha resposta escrita na parede.

 

Coictier ficou rubro de raiva.

— Vamos, vamos, meu bom Coictier, não se irrite — disse o amigo Tourangeau. — O sr. arquidiácono é nosso amigo.

Coictier se acalmou, resmungando a meia-voz:

— De fato, não passa de um louco!

— Pelos céus, mestre Claude — retomou o amigo Tourangeau, após um silêncio —, o senhor me deixa mal. Tinha duas consultas a fazer, uma referente à minha saúde, outra referente à minha estrela.

— Senhor — devolveu o arquidiácono —, se este é o seu pensamento, não deveria ter se dado ao trabalho de subir os degraus da minha escada. Não creio na medicina. Não creio na astrologia.

— Verdade? — exclamou o homem, surpreso.

Coictier ria de maneira forçada.

— Está vendo que é um louco — disse baixinho ao amigo Tourangeau. — Não crê em astrologia!

— Como imaginar — continuou dom Claude — que cada raio de estrela seja um fio se ligando à cabeça de um homem?

— E em que, então, acredita? — perguntou o amigo Tourangeau.

O arquidiácono permaneceu por um tempo indeciso, depois deixou escapar um sorriso triste, que parecia desmentir a resposta:

— Credo in Deum.

— Dominum nostrum — acrescentou o amigo Tourangeau, com um sinal da cruz.

— Amen — completou Coictier.260

— Reverendo mestre, fico com a alma grata, vendo-o em tão boa religião. Porém, de tão sábio que é, seria a ponto de não mais acreditar na ciência?

— Não — disse o arquidiácono, segurando o braço do amigo Tourangeau, que percebeu uma faísca de entusiasmo voltar a se acender naquela anuviada pupila. — De forma alguma nego a ciência. Não me arrastei por tanto tempo, com as unhas afundadas na terra, pelos inúmeros entroncamentos da caverna, sem perceber algo, sempre mais adiante, provavelmente o reflexo do fulgurante laboratório central em que os pacientes e os sábios podem surpreender Deus.

— Mas enfim — interrompeu Tourangeau —, alguma coisa lhe parece verdadeira e certa?

— A alquimia.

Coictier se assustou:

— Por Deus, dom Claude, a alquimia certamente tem suas razões próprias, mas por que blasfemar a medicina e a astrologia?

— Vazia é a sua ciência do homem! Vazia a sua ciência do céu! — disse o arquidiácono com autoridade.

— É desdenhar de Epidauro e da Caldeia — replicou o médico com

sarcasmo.261

— Ouça, sr. Jacques. O que digo é de boa-fé. Não sou médico do rei e não foi a mim que Sua Majestade deu o Jardim Dédalo para observar as constelações. Não se zangue e ouça. Quais verdades extraiu, não digo da medicina, que é coisa insana demais, mas da astrologia? Cite-me as virtudes do bustrofédon vertical, as descobertas a partir do número ziruph e do

número sephiroth.262

— Pode negar — perguntou Coictier — a força simpática da

clavícula,263 de que deriva a cabalística?

— Erro seu, sr. Jacques! Nenhuma das suas fórmulas se aproxima da realidade. Já a alquimia tem suas descobertas. Contestaria resultados como estes? O gelo preso sob a terra por mil anos se transforma em cristal de rocha. O chumbo é o antepassado de todos os metais (pois o ouro não é um metal, o ouro é a luz). O chumbo precisa de quatro períodos de duzentos anos cada para passar, sucessivamente, do estado plúmbeo ao estado de arsênico vermelho, de arsênico vermelho a estanho, de estanho a prata. Não são fatos? Mas acreditar em clavícula, em linha plena e em estrelas é tão ridículo quanto acreditar, como os habitantes da Grande Catay, que o verdilhão se transforma em toupeira e os grãos de trigo em peixes

ciprinoides!264

— Estudei hermética — exclamou Coictier — e afirmo…

O impetuoso arquidiácono não o deixou concluir:

— E estudei eu medicina, astrologia e hermética. Apenas aqui se encontra a verdade — ele havia pego no móvel uma proveta cheia do pó a que nos referimos mais acima. — Apenas aqui se encontra a luz! Hipócrates é sonho, Urania é sonho, Hermes é um pensamento. O ouro é o sol, fabricar ouro é ser Deus. É esta a única ciência. Sondei a medicina e a astrologia, já disse. Vazias, vazias. O corpo humano é igual às trevas; os astros são iguais às trevas!

Dom Claude se sentou pesadamente na poltrona, em atitude forte e inspirada. O amigo Tourangeau o observava em silêncio. Coictier, tentando se manter irônico, sacudia imperceptivelmente os ombros e repetia em voz baixa: “Um louco!”

— Aliás — disse de repente Tourangeau —, a meta mirífica foi alcançada? Fabricou ouro?

— Se o tivesse fabricado — respondeu o arquidiácono, articulando lentamente as palavras como alguém que pensa —, o rei da França se chamaria Claude e não Luís.

O visitante franziu o cenho.

— O que eu disse? — retomou dom Claude, com um sorriso de desdém. — Para que o trono da França, se poderia reerguer o Império do Oriente?

— Muito a propósito! — concordou o outro.

— Ah! O pobre doido! — murmurou Coictier.

O arquidiácono continuou, parecendo só responder aos próprios pensamentos:

— Não, ainda engatinho. Arranho o rosto e os joelhos na trilha subterrânea. Mal entrevejo, não contemplo! Mal soletro, não leio!

— E quando souber ler — perguntou o homem —, fará ouro?

— Quem duvida? — disse o arquidiácono.

— Nesse caso, Nossa Senhora sabe que tenho grande necessidade de dinheiro e gostaria de aprender a ler nos seus livros. Diga, reverendo mestre, sua ciência é inimiga de Nossa Senhora ou a ela desagrada?

Diante da pergunta do amigo, dom Claude se limitou a responder, com tranquila altivez:

— E de quem sou arquidiácono?

— Isso é verdade, mestre. Pois muito bem! Aceitaria me iniciar? Permita-me soletrar com o senhor.

Claude assumiu a atitude majestosa e pontifical de um Samuel.

— São necessários mais anos do que lhe restam, velho, para essa viagem através das coisas misteriosas. Tem a cabeça já grisalha! Quem sai da caverna tem os cabelos brancos, mas quem entra deve tê-los escuros. A ciência sabe sozinha escavar, emaciar e secar as faces humanas, não precisa da velhice para enrugar os rostos. No entanto, se o desejo lhe vier de se curvar à disciplina na sua idade, para decifrar o temível alfabeto dos sábios, venha comigo, podemos tentar. Não vou sugerir a um pobre velho que visite as câmaras sepulcrais das pirâmides de que fala Heródoto o Ancião, nem a torre de tijolos da Babilônia, nem o imenso santuário de mármore branco do templo indiano de Eklingji. Como o senhor, também não vi as alvenarias caldaicas, construídas segundo a forma sagrada de Sikra, nem o templo de Salomão, destruído, nem as portas de pedra do sepulcro dos reis de Israel, postas abaixo. Vamos nos limitar a fragmentos do livro de Hermes, que temos aqui. Explicarei a estátua de são Cristóvão, o símbolo do Semeador e o dos dois anjos que se encontram no pórtico da Sainte-Chapelle, tendo um deles a mão num vaso e o outro numa nuvem…

Nesse momento, Jacques Coictier, que tinha se retraído diante das réplicas enérgicas do arquidiácono, se recuperou e o interrompeu, com o tom triunfante de um especialista que corrige outro:

— Erras, amice Claudi. O símbolo não é o número. Está confundindo

Hermes com Orfeu.265

— O erro é seu — ripostou gravemente o arquidiácono. — Dédalo é o

envasamento, Orfeu é a muralha, Hermes é o edifício. Só isso.266

E, virando-se para Tourangeau:

— Venha quando quiser. Mostrarei as partículas de ouro que ficaram no fundo do cadinho de Nicolas Flamel, que poderá comparar com o ouro de Guillaume de Paris. Ensinarei as virtudes secretas da palavra grega

peristera.267 Antes de tudo, porém, farei com que sucessivamente leia as letras de mármore do alfabeto, as páginas de granito do livro. Iremos do pórtico do bispo Guillaume e de Saint-Jean-le-Rond à Sainte-Chapelle, depois à casa de Nicolas Flamel, na rua Marivault, ao seu túmulo no Saints-Innocents e aos seus dois hospitais, na rua de Montmorency. Farei com que leia os hieróglifos que cobrem os quatro apoios de ferro do pórtico do hospital Saint-Gervais e da rua de la Ferronnerie. Decifraremos juntos as fachadas de Saint-Côme, de Sainte-Genevièvedes-Ardents, de Saint-Martin, de Saint-Jacques-de-la-Boucherie…

Há um bom tempo Tourangeau, por mais inteligente que fosse o seu olhar, parecia não compreender mais o que dizia dom Claude. De repente, então, o interrompeu.

— Pelos céus! Que livros são esses?

— Aqui temos um deles — disse o arquidiácono.

Abrindo a janela da cela, ele apontou para a imensa igreja de Notre Dame que, recortada contra o céu estrelado com a silhueta das suas duas torres, as laterais de pedra e o dorso monstruoso, parecia uma enorme esfinge de duas cabeças, pousada no meio da cidade.

O arquidiácono considerou em silêncio por algum tempo o gigantesco edifício e depois, estendendo com um suspiro a mão direita até o livro impresso aberto sobre sua mesa e a mão esquerda para a Notre Dame, lançou um triste olhar que foi do livro à igreja:

— Hélas! — disse. — Isto matará aquilo.

Coictier tinha se aproximado rapidamente do livro e não pôde deixar de exclamar:

— Ora! O que pode haver de tão terrível nisso? GLOSSA IN EPISTOLAS D. PAULI.

Norimbergae, Antonius Koburger, 1474.268 Nada vejo demais. É um livro de Pierre Lombard, o Mestre das Sentenças. Só porque é impresso?

— Exatamente — respondeu Claude, que parecia absorto em profunda meditação e se mantinha de pé, apoiando o dedo indicador no in-fólio fabricado nas prensas famosas de Nuremberg.

Em seguida, acrescentou essas palavras misteriosas:

— Hélas! Hélas! As pequenas coisas acabam com as grandes. Um dente triunfa contra uma clava, o rato do Nilo mata o crocodilo, o peixe-espada mata a baleia, o livro matará o edifício!

O toque de recolher do claustro soou no momento em que o doutor Jacques repetia ao companheiro seu eterno refrão: É um doido. E o companheiro, dessa vez, respondeu:

— Também estou achando.

Nenhum estranho podia mais permanecer no claustro. Os dois visitantes se prepararam para se retirar.

— Mestre — disse o amigo Tourangeau, se despedindo do arquidiácono —, aprecio os eruditos e os grandes espíritos e pelo senhor tenho particular estima. Venha amanhã ao palácio de Tournelles e peça para falar com o abade de Saint-Martin de Tours.

O arquidiácono voltou para a cela estupefato, compreendendo enfim quem era o amigo Tourangeau e se lembrando dessa passagem do cartulário de Saint-Martin de Tours: Abbas beati Martini, scilicet rex franciae, est canonicus de consuetudine et habet parvam praebendam quam habet

sanctus Venantius et debet sedere in sede thesaurarii.269

Afirma-se que, desde então, o arquidiácono passara a ter frequentes encontros com Luís XI, quando Sua Majestade se encontrava em Paris, e que a influência de dom Claude rivalizava com as de Olivier le Daim e Jacques Coictier, o qual, à sua maneira, disso se queixava muito ao rei.

 

255. “O abade do bem-aventurado Martinho”, em latim no original.

256. Usado no preparo da pedra filosofal, que transformava metais em ouro.

257. Da predestinação ou do livre-arbítrio. Honorius de Autun, teólogo dos sécs.XI-XII, deixou uma obra marcada por todo um simbolismo, ligando o mundo sensível ao espiritual.

258. Em francês, abri significa “abrigo” e abricotier, “abricoteiro”. Donde o jogo de palavras com o nome do médico: “Ao Abri-Coteiro”/“Ao Abrigo-Coictier”.

259. Filósofo neoplatônico dos sécs.III-IV, interessou-se por ciências ocultas e era considerado um precursor pela tradição alquimista.

260. Sucessivamente: “Creio em Deus”, “Nosso Senhor”, “Amém”, em latim no original.

261. Epidauro era o santuário grego dedicado ao deus Asclépio, da medicina. A região da Caldeia, no sul da Mesopotâmia, foi o berço da astrologia.

262. O bustrofédon é o sistema de escrita em que as linhas se alternam em direções opostas, numa leitura “em zigue-zague”, como nas inscrições gregas mais antigas. Ziruph e sephiroth são termos da doutrina secreta da cabala.

263. As “clavículas de Salomão”, de inspiração cabalística, eram tratados de magia que circulavam na Idade Média para o controle de demônios.

264. A “linha plena” remete à simbologia do yin e do yang taoistas. Grande Catay é a China.

265. “Está errado, amigo Claude”, em latim no original. O número seria o da harmonia do mundo, e o arquidiácono, confundindo magia (Hermes) e orfismo, estaria vendo no número apenas a sua aparência, o símbolo.

266. Orfeu simboliza a música, entre a arquitetura (Dédalo) e a ciência hermética (Hermes), como se verá mais adiante, no capítulo “Isto matará aquilo”.

267. “Pomba”, em grego, símbolo do Espírito Santo mas também, seguindo o pensamento hermético, o próprio Cristo.

268. Glosa sobre as Epístolas de são Paulo, Nuremberg, Antoine Koburger [impressor], 1474.

269. “O abade do bem-aventurado Martinho, isto é, o rei da França, é cônego por tradição e possui a pequena prebenda de Saint-Venant, devendo ocupar a cátedra de tesoureiro”, em latim no original. O confrade Tourangeau era, simplesmente, o rei Luís XI.