O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 64 de 65

Páginas do PDF

O Corcunda de Notre Dame

4. Casamento de Quasímodo

 

Acabamos de dizer que Quasímodo havia desaparecido de Notre Dame no

dia da morte da egípcia e do arquidiácono. De fato, não foi mais visto nem se soube o que fez.

Na noite seguinte ao suplício de Esmeralda, os encarregados dessas tarefas mais árduas tiraram o seu corpo do patíbulo e o carregaram, como de costume, para o repositório de Montfaucon.

Segundo Sauval, Montfaucon era “o mais antigo e esplêndido patíbulo do reino”. Entre os faubourgs do Temple e de Saint-Martin, a cerca de cento e sessenta toesas das muralhas de Paris e ao alcance de um tiro de balestra da Courtille, via-se, no topo de uma elevação suave, quase imperceptível, mas alta o suficiente para ser vista a algumas léguas de distância, um edifício de forma estranha, bastante parecido com um cromlech céltico, em que também se executavam sacrifícios.

Que se imagine, no alto de uma colina de gipsita, um grande paralelepípedo de alvenaria, com quinze pés de altura, trinta de largura e quarenta de comprimento, com portal, rampa externa e plataforma. Nessa plataforma, erguiam-se dezesseis enormes pilastras de pedra bruta, retas, com altura de trinta pés, dispostas em colunata por três dos quatro lados do maciço bloco que as suportava, ligadas entre si no alto por fortes vigas, das quais pendiam correntes a intervalos regulares. Dependurados nessas correntes, viam-se esqueletos. Embaixo, na parte plana do terreno, acrescentem uma cruz de pedra e dois patíbulos acessórios, que pareciam ter crescido como excrescência do corpo principal. Acima de tudo isso, no céu, um perpétuo voo de corvos completava o quadro. Assim era Montfaucon.

Em fins do século XV, o formidável cadafalso, que datava de 1328, já se encontrava em mau estado. As vigas estavam carcomidas, as correntes enferrujadas, as pilastras esverdeadas de limo. As bases de pedra talhada apresentavam fendas nas junturas e o mato crescia nas áreas da plataforma que não eram pisadas. O monumento produzia uma horrível silhueta contra o céu, sobretudo à noite, com o luar batendo nos crânios brancos, ou quando a brisa noturna balançava as correntes e os esqueletos na penumbra. A presença do patíbulo era suficiente para tornar sinistros os arredores.

O maciço de pedra que servia de base ao infame edifício era oco por dentro. Reservava-se, com isso, um amplo espaço, fechado por uma velha grade de ferro estragada, em que eram jogados não só restos humanos que se despregavam das correntes de Montfaucon, mas também os corpos de todos os infelizes executados nos demais patíbulos permanentes de Paris. Alguns poderosos e muitos inocentes acrescentaram seus ossos a essa profunda carniçaria, em que tanta poeira humana e tantos crimes apodreceram juntos, desde Enguerrand de Marigni — que inaugurou Montfaucon e era um justo — até o almirante de Coligni — que o encerrou e era, igualmente, um homem íntegro.496

Com relação ao misterioso desaparecimento de Quasímodo, eis o que se pôde descobrir.

Cerca de dois anos, ou uns dezoito meses, depois daqueles acontecimentos finais da nossa história, quando foram procurar no espaço interno de Montfaucon o cadáver de Olivier le Daim, enforcado dois dias antes e a quem Carlos VIII concedeu postumamente a graça de ser enterrado em Saint-Laurent, em melhor companhia, encontraram, entre tantas carcaças horríveis, dois esqueletos que chamavam a atenção, pois um curiosamente abraçava o outro. Num dos esqueletos, o de mulher, restavam ainda alguns farrapos de um vestido que um dia foi branco e no pescoço havia um colar de grãos de falso-plátano com um saquinho de seda, enfeitado com miçangas verdes, aberto e vazio. Eram objetos de tão pouco valor que o carrasco provavelmente não os quis. O outro, que estreitava o primeiro nos braços, era um esqueleto de homem. Podia-se ver que tinha a coluna vertebral com forte desvio, a cabeça enfiada entre as omoplatas e uma perna mais curta do que a outra. Não apresentava, além disso, ruptura de vértebra na nuca, evidenciando que não fora enforcado. O homem a quem aqueles ossos haviam pertencido, então, viera até ali, e ali morrera. Quando quiseram separá-lo do esqueleto que ele enlaçava, ele se reduziu a pó.