O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 45 de 65

Páginas do PDF

O Corcunda de Notre Dame

4. Lasciate ogni speranza

4. Lasciate ogni speranza394

 

 

Na Idade Média, quando um edifício ficava pronto, havia no subsolo

quase a mesma massa que na superfície. A menos que construídos sobre

pilotis, como Notre Dame,395 palácios, fortalezas e igrejas tinham sempre um fundo falso. Nas catedrais, de certa forma era outra catedral que se estendia subterrânea, baixa, obscura, misteriosa, cega e muda, sob a nave superior, resplandecente de luz e onde ressoavam o órgão e os sinos, dia e noite. Podia, eventualmente, ser um sepulcro. Nos palácios, nas bastilhas, era uma prisão, ou às vezes também um sepulcro — ou os dois. Essas poderosas construções, das quais explicamos já o modo de formação e de

vegetação,396 não apresentavam simples fundações e sim, de certa forma, raízes a se ramificarem pelo subsolo com quartos, galerias e escadas, imitando a construção do alto. Assim sendo, igrejas, palácios e bastilhas tinham terra até a metade do corpo. As caves de um edifício formavam outro edifício, ao qual se descia, em vez de subir, com andares inferiores sob o amontoado de andares externos do monumento, como florestas e montanhas que margeiam um lago e têm suas imagens invertidas no espelho d’água abaixo delas.

Na bastilha Saint-Antoine, no Palácio da Justiça de Paris e no Louvre, tais edifícios subterrâneos eram prisões. Os andares dessas prisões, enfiando-se chão adentro, progressivamente se estreitavam e ensombreciam. Eram zonas em que se graduavam as nuances do horror. Dante nada encontrou de melhor para o seu inferno. Esses calabouços afunilados chegavam, em geral, a um fundo de fosso. Nele o poeta colocou Satã e a sociedade colocava o condenado à morte. Uma vez enterrada ali uma miserável existência, dava-se adeus à luz, ao ar, à vida, à ogni speranza. Dali só se saía para o cadafalso ou para a fogueira. Mas podia-se também lá apodrecer. A justiça humana chamava isso esquecer. Entre os homens e o condenado, este último sentia pesar sobre a sua cabeça um empilhamento de pedras e de carcereiros; tornando-se a prisão inteira, a maciça bastilha, apenas a enorme e complicada fechadura que o isolava do mundo vivo.

Foi num fundo assim, num daqueles esquecimentos escavados por são

Luís, no in-pace397 da Tournelle, que se deixou — provavelmente por temer que se evadisse — Esmeralda, condenada ao patíbulo, com o colossal Palácio da Justiça em cima da cabeça. Pobre mosca que não teria como mover a menor das suas pedras!

Tanto a providência quanto a sociedade foram igualmente injustas, pois semelhante luxo de misérias e torturas não era necessário para quebrar tão frágil criatura.

Ali estava ela, perdida nas trevas, enterrada, aterrorizada, amuralhada. Quem a visse nesse estado, tendo-a conhecido a rir e dançar ao sol, estremeceria. Fria como a noite, fria como a morte, sem mais sopro algum de ar nos cabelos nem ruído humano ao ouvido, claridade alguma do dia nos olhos, quebrada, esmagada por cadeias, agachada junto a uma bilha e um pão, em cima de um pouco de palha no piso em que a ressumação do calabouço formava uma poça d’água. Sem se mover, quase sem respirar, ela sequer sofria. Phoebus, o sol, o meio-dia, o ar livre, as ruas de Paris, os aplausos das danças, as doces palavras de amor do oficial, e depois o padre, a velha albergueira, o punhal, o sangue, a tortura, o patíbulo, tudo isso desfilava em seu espírito, ora como visão cantante e dourada, ora como pesadelo disforme. Mas tratava-se apenas de uma luta horrível e vaga, que se perdia nas trevas, ou de música distante, tocada lá no alto, na terra, e que não era ouvida nas profundezas em que a infeliz havia caído.

Desde que ali estava, não se imaginava desperta nem dormindo. No infortúnio do calabouço, não se distingue a vigília do sono, o sonho da realidade, como não se distingue o dia da noite. Tudo se mistura despedaçado, flutuante, confusamente espalhado no pensamento. Ela não sentia mais, não sabia mais, não pensava mais. No máximo devaneava. Nunca uma criatura viva se engajou tanto no vazio.

Assim entorpecida, gélida, petrificada, ela mal notou, duas ou três vezes, o barulho de uma portinhola que se abria em algum lugar mais acima, sem nem mesmo deixar passar alguma claridade, e pela qual haviam deixado um naco de pão preto. No entanto, era a única comunicação que restava com os seres humanos, essa visita periódica do carcereiro.

Uma única coisa maquinalmente ocupava ainda o seu ouvido: acima da cabeça, a umidade se infiltrava pelas pedras mofadas da abóbada e, intermitentemente, fazia cair uma gota d’água. Estupidificada, ela ouvia o barulho feito pela gota d’água na poça.

Essa gota d’água caindo na poça era o único movimento a ainda se produzir em volta, o único relógio a marcar o tempo, o único barulho que chegava até ela, de todo o barulho que se fazia na superfície da Terra.

Na verdade, de vez em quando ela sentia também algo frio que às vezes passava pelos seus pés ou braços, fazendo-a estremecer, naquela cloaca de lama e trevas.

Não sabia há quanto tempo estava ali. Lembrava-se de uma condenação à morte contra alguém, em algum momento, e de ter sido levada, acordando com frio, no escuro e no silêncio. Arrastou-se com as mãos e as argolas de ferro cortaram seu tornozelo, fazendo barulho com as correntes. Descobriu paredões ao redor e uma laje coberta d’água, em cima da qual ela se encontrava, numa braçada de palha. Nem lamparina nem respiradouro. Sentou-se então na palha e, de vez em quando, para mudar de posição, ia até o último degrau de uma escada de pedra que havia na cela.

Em determinado momento, tentou contar os negros minutos medidos pela gota d’água, mas rapidamente esse triste esforço de um cérebro doente se rompeu por conta própria, deixando-a no estupor.

Certo dia, finalmente, ou noite (naquele sepulcro, meio-dia e meia-noite tinham a mesma cor), ela ouviu acima um barulho mais forte do que o do carcereiro ao trazer pão e água. Ergueu a cabeça e viu um fulgor avermelhado passar pelas fendas da espécie de porta ou alçapão aberto na abóbada do in-pace. Ao mesmo tempo, uma pesada fechadura rangeu nos gonzos enferrujados e ela viu uma lamparina, uma mão e a parte inferior do corpo de dois homens, pois a porta que se abrira era baixa demais para que pudesse ver as cabeças. A luz feriu de maneira tão forte os olhos que ela os fechou.

Quando voltou a abri-los, a porta já se fechara, a lamparina estava num degrau da escada e um homem sozinho postava-se de pé à sua frente. Uma batina preta o cobria até os pés e um capuz da mesma cor lhe escondia o rosto. Nada se via de sua figura, nem o rosto nem as mãos. Era um longo sudário negro a se manter de pé e debaixo do qual se pressentia alguma coisa se mover. Ela fixamente olhou por alguns minutos aquela espécie de espectro. Nenhum dos dois falou. Eram como duas estátuas a se confrontar. Apenas duas coisas pareciam ter vida naquela cela: a mecha da lamparina que crepitava por causa da umidade do ar e a gota d’água da abóbada, que compassava esses estalidos irregulares com o pingar monótono, fazendo tremer a luz com ondulações concêntricas, sobre a água oleosa da poça.

A prisioneira, enfim, rompeu o silêncio:

— Quem é o senhor?

— Um padre.

A palavra, o tom e o som da voz fizeram-na estremecer.

O padre continuou, articulando surdamente:

— Sente-se preparada?

— Para quê?

— Para morrer.

— Ah! — ela exclamou. — Será agora?

— Amanhã.

A cabeça, que tinha se erguido satisfeita, voltou a cair no peito.

— Ainda está longe! — ela sussurrou. — Por que não fazem logo?

— Sente-se assim tão infeliz? — perguntou o padre, após um silêncio.

— Com muito frio — ela respondeu.

Pegou os pés com as mãos, gesto comum entre os infelizes que sentem frio e que já havíamos visto fazer a reclusa da torre Roland. Os dentes bateram.

Sob o capuz, o padre parecia examinar a cela.

— Sem luz, sem fogo, sem água! É horrível!

— Bem sei — ela concordou, com a entonação que a infelicidade lhe dera. — A luz do dia é para todos. Eu, no entanto, só tenho a noite.

— Sabe por que se encontra aqui?— perguntou o padre, após novo silêncio.

— Acho que soube — ela respondeu, passando os dedos magros pelas sobrancelhas, como se quisesse ajudar a memória. — Mas não me lembro mais.

Ela subitamente começou a chorar como criança:

— Quero sair daqui, padre. Estou com frio, tenho medo e bichos sobem pelo meu corpo.

— Pois venha comigo.

Dizendo isso, o padre pegou-a pelo braço. A infeliz estava gelada até as entranhas e, mesmo assim, aquela mão causou ainda maior impressão de frio.

— Ai! — ela murmurou. — É a mão gelada da morte. Quem é o senhor?

O padre ergueu o capuz. Ela olhou. Era o rosto sinistro que há tanto tempo a perseguia, a cabeça de demônio que aparecera na casa da Falourdel, acima da cabeça adorada do seu Phoebus, o olho que, na sua última lembrança, brilhava junto de um punhal.

A aparição, sempre tão fatal e que a tinha levado de desgraça em desgraça até o suplício, tirou-a do torpor, desfazendo a espécie de véu que cobria a sua memória. Todos os detalhes da lúgubre aventura, desde a cena noturna na Falourdel até a condenação na Tournelle, voltaram juntos ao espírito, não de forma vaga e confusa, como até então, mas distintos, crus, em minúcias palpitantes e terríveis. Essas recordações, quase apagadas e obliteradas pelos excessos do sofrimento, foram reavivadas pela sombria figura à sua frente, como a proximidade do fogo faz surgir, frescas, no papel branco, as letras invisíveis traçadas com tinta simpática. Todas as feridas do coração voltaram a se abrir e a sangrar.

— Ah! — ela exclamou, tapando os olhos e com um tremor convulsivo. — É o padre!

Seus braços caíram, num movimento de desânimo, e ela permaneceu sentada, de cabeça baixa, de olhos pregados no chão, muda, ainda a tremer.

O padre olhou-a como um falcão que por muito tempo plana nas alturas do céu, rondando uma pobre cotovia aninhada num trigal, estreitando em silêncio os círculos formidáveis do voo para, de repente, se abater sobre a presa como a flecha do raio, segurando-a inerme nas garras.

Ela murmurou:

— Termine! Termine! Dê o golpe fatal! — E encolheu a cabeça entre os ombros, como o bezerro na expectativa da marreta do açougueiro.

— Causo-lhe horror?

— Ah! — ela exclamou, tapando os olhos e com um tremor convulsivo. — É o padre!

 

Não houve resposta.

— É só horror o que lhe causo? — ele insistiu.

Os lábios se contraíram como se ela sorrisse.

— Sim — disse ela —, o carrasco zomba do condenado. Há meses me persegue, me ameaça, me apavora! Sem isso, por Deus, como eu era feliz! Foi quem me lançou nesse abismo! Céus! Foi quem matou… foi quem o matou, meu Phoebus!

Nesse momento, explodindo em pranto e erguendo os olhos para o padre:

— Ah, maldito! Quem é o senhor? Que mal lhe fiz?! Odeia-me a tal ponto? Miséria! O que tem contra mim?

— Amo-a! — exclamou o padre.

As lágrimas subitamente pararam. Ela pareceu aparvalhada. O homem se pôs de joelhos, com os olhos em chamas.

— Você ouviu, amo-a! — ele gritou.

— Que forma de amar! — disse a infeliz, com um tremor.

Ele insistiu:

— É o amor de quem cai em danação.

Ambos permaneceram em silêncio por alguns minutos, esmagados sob o peso das emoções, ele enlouquecido e ela imbecilizada.

— Ouça — disse o padre com estranha calma, subitamente recuperada. — Vai saber de tudo. Vou contar coisas que, até o momento, mal confessei a mim mesmo, interrogando furtivamente minha consciência, em horas profundas da noite e dentro de trevas nas quais nem Deus podia mais me iluminar. Ouça. Antes de encontrá-la, eu era feliz…

— E eu! — ela suspirou, sem forças.

— Não me interrompa. É verdade, eu era feliz. Pelo menos acreditava nisso. Era puro, tinha a alma repleta de límpida claridade. Cabeça alguma se erguia com maior orgulho ou mais radiante do que a minha. Sacerdotes me consultavam sobre a castidade e doutores sobre a doutrina. Sim, a ciência representava tudo para mim. Era uma irmã, e isso me bastava. E não que, com a idade, não viessem outras ideias. Algumas vezes a carne se inflamou, ao sentir a proximidade de uma forma feminina. A força do sexo e do sangue viril que o louco adolescente que fui achou poder sufocar para sempre mais de uma vez sacudiu, de maneira convulsiva, a cadeia dos férreos votos que me prendem, miserável, às frias pedras do altar. Mas o jejum, a reza, o estudo, as macerações do claustro sempre devolviam à alma o domínio do corpo. Além disso, eu evitava as mulheres. Bastava-me, aliás, abrir um livro para que todas as impuras névoas do cérebro se desfizessem, diante dos esplendores da ciência. Em poucos minutos, as coisas grosseiras da terra desapareciam, voltando eu a ficar calmo, deslumbrado e sereno, na presença do fulgor tranquilo da verdade eterna. Venci com facilidade as vagas sombras femininas com que o demônio me atacava: passavam avulsas sob meus olhos na igreja, nas ruas, no campo, voltando poucas vezes, também, em pensamento. Infelizmente, se a vitória não perdurou, foi por culpa de Deus, que não deu forças semelhantes ao homem e ao demônio. Ouça, um dia…

Nesse momento, o padre parou e a prisioneira ouviu escapar do seu peito suspiros, parecendo estertores que duramente se extraíam.

Ele retomou:

— Um dia, eu estava na janela da minha cela. Com qual livro nas mãos? Ah! Tudo me turbilhona na cabeça. Eu lia. A janela dava para uma praça. Ouvi o barulho de pandeiro e música. Irritado com o transtorno, olhei. O que vi, outros além de mim viam e, no entanto, não era um espetáculo feito para os olhos humanos. Ali, em plena praça (era meio-dia, com muito sol), uma criatura dançava. Uma tão bela criatura que Deus a teria preferido no lugar da Virgem, escolhendo-a como mãe e querendo dela nascer, caso essa criatura existisse quando ele se fez homem! Os olhos eram negros e esplêndidos. Em meio aos cabelos escuros, alguns fios banhados de sol brilhavam como se fossem de ouro. Os pés desapareciam em movimentos rápidos como os raios de uma roda que gira em velocidade. Em torno da cabeça, entre tranças negras, placas de metal crepitavam ao sol, como uma coroa de estrelas. Lantejoulas espalhadas no vestido brilhavam azuladas, com mil faíscas, lembrando uma noite de verão. Os braços ágeis e morenos se atavam e desatavam em torno da cintura, como duas echarpes. A forma do corpo tinha surpreendente beleza. Ah! A resplandecente figura se destacava como algo luminoso, mesmo à luz do sol! Desgraçadamente, menina, era você! Surpreso, embriagado, encantado, fui vê-la. Com tanto ardor que, de repente, estremeci de horror e percebi que o destino me atropelava.

Alvoroçado, o padre parou ainda e depois continuou:

— Quase totalmente preso ao fascínio, tentei me agarrar a alguma coisa que impedisse a queda. Recordei-me das armadilhas que Satã já havia armado antes. A criatura à minha frente tinha a beleza sobre-humana que só pode vir do céu ou do inferno. Não era uma simples pessoa, feita com um pouco da nossa terra e escassamente iluminada por dentro, com o vacilante raio de uma alma de mulher. Era um anjo! Mas das trevas, da chama, e não da luz. No momento em que tive esse pensamento, vi perto de você uma cabra, um animal do sabá, que me olhava rindo. O sol do meio-dia tornava os chifres de fogo. Percebi então a armadilha do demônio. Não tive mais dúvida quanto à sua origem infernal e que viera para a minha perdição. Foi no que acreditei.

O padre olhou de frente a prisioneira e acrescentou com frieza:

— Ainda acredito. Mas o encanto pouco a pouco surtiu efeito, sua dança girou em meu cérebro, senti o misterioso malefício se completar, adormecendo em minha alma tudo que devia estar vigilante. Como quem morre na neve, fui descobrindo prazer em deixar crescer esse sono. De repente, você começou a cantar. O que podia fazer este miserável? O canto era ainda mais sedutor do que a dança. Eu quis então fugir. Foi impossível. Estava pregado no chão, enraizado. Como se o mármore da laje houvesse subido até os meus joelhos. Fui obrigado a ficar até o fim. Meus pés viraram gelo, mas a cabeça fervia. Finalmente, você talvez tenha tido pena de mim, parou de cantar e desapareceu. O reflexo da deslumbrante visão e o eco da música encantadora se esvaeceram pouco a pouco dos meus olhos e ouvidos. Caí junto à janela, rijo e fraco como uma estátua que se desmonta. O toque de vésperas me despertou. Levantei-me, fugi, mas, hélas!, algo em mim decaíra e não mais se ergueria. Algo havia acontecido, algo de que eu não poderia fugir.

Fez mais uma pausa e continuou:

— Sim, a partir daquele dia, houve em mim um homem que eu desconhecia. Apelei para todo tipo de remédio à minha disposição: o claustro, o altar, o trabalho, os livros. Loucura! Como parece oca a ciência quando nela se choca com desespero uma cabeça prenhe de paixão! Pode imaginar, jovem, o que passei a sempre enxergar entre o livro e eu? Você, a sua sombra, a imagem da aparição luminosa que um dia atravessou o espaço à minha frente. Mas essa imagem não tinha mais a mesma cor; era escura, fúnebre, tenebrosa como o círculo escuro que por muito tempo se mantém na vista do imprudente que fixamente olha o sol.

“Sem poder me livrar de você, ouvindo ainda a sua canção zumbir na minha cabeça, vendo ainda os seus pés a dançar no meu breviário, sentindo ainda, à noite, em pensamento, a sua lembrança tocar na minha carne, quis voltar a vê-la, me aproximar, saber quem era, confirmar se a encontraria igual à imagem ideal que ficara em mim. Talvez, quem sabe, conseguisse quebrar o sonho com a realidade. Esperava, em todo caso, que alguma impressão nova apagasse a primeira, pois a primeira se tornara insuportável. Procurei-a e encontrei. Maldição! Tendo-a visto duas vezes, quis vê-la mil vezes, vê-la sempre. Como interromper essa descida ao inferno? Perdi todo controle. A outra ponta do fio que o demônio me prendeu nas asas, ele amarrou no seu pé. Tornei-me vago e errante como você. Esperei-a debaixo de marquises, espiei-a nas esquinas, vigiei-a do alto da minha torre. Toda noite voltava mais enfeitiçado, mais desesperado, mais encantado, mais perdido!

“Sabia perfeitamente quem era você, egípcia, boêmia, cigana, zingara; como estranhar a magia? Ouça. Esperei que um processo me livrasse do

feitiço. Uma bruxa encantou Bruno d’Ast;398 ele mandou queimá-la e isso o curou. Eu sabia. Quis provar o remédio. Tentei primeiro que a impedissem de vir ao adro de Notre Dame, esperando esquecê-la se não a visse mais. Você não levou isso em consideração. Voltou. Imaginei então um sequestro. Certa noite, passei à ação. Éramos dois. Já a havíamos dominado, quando aquele miserável oficial surgiu. Libertou-a. Foi como começou a sua desgraça, a minha e a dele. Finalmente, sem saber mais o que fazer, denunciei-a ao Santo Ofício.

“Achei que isso me curaria, como curou Bruno d’Ast. Ao mesmo tempo, achei também que, de alguma forma, o processo a traria a mim, que na prisão eu a teria, sem que pudesse escapar. Poderia possuí-la, já que há tanto tempo me possuía. Quando se faz o mal, deve-se ir a fundo. É demência parar no meio do caminho da monstruosidade! O crime extremo proporciona delírios de alegria. Um padre e uma bruxa podem se desmanchar em delícias, no feixe de palha de um calabouço!

“Então, denunciei-a. Foi quando a minha presença a assustou. O complô que tramava contra você, a tempestade armada sobre a sua cabeça escapava de mim com ameaças e relâmpagos. Mas eu hesitava ainda. Meu projeto tinha aspectos horríveis, que me faziam recuar.

“Talvez eu desistisse, talvez minha pavorosa intenção murchasse no cérebro, sem frutificar. Achei que só dependia de mim o prosseguimento ou a interrupção do processo. Mas todo mau pensamento é inexorável e procura se concretizar. Ali onde achei ser todo-poderoso, a fatalidade foi ainda mais. Hélas! Hélas! A fatalidade tomou a frente e entregou-a à terrível engrenagem da máquina que tão tenebrosamente construí! Ouça ainda. Estou quase acabando. Um dia, outro belo dia de sol, vi passar à minha frente um homem que pronunciava o seu nome entre risos e com os olhos carregados de luxúria. Danação! Segui-o. O resto, você conhece.”

Dom Claude se calou. A jovem apenas suspirou:

— Ah, meu Phoebus!

— Não, esse nome não! — disse o padre, segurando-a pelo braço com violência. — Nem em voz baixa pronuncie esse nome! Coitados de nós, foi esse nome que nos perdeu! Ou melhor, todos nos perdemos, uns aos outros, pelo inexplicável jogo da fatalidade! Você sofre, não é? Sente frio, a escuridão a cega, tem somente o calabouço em volta, mas talvez ainda reste alguma luz no fundo, nem que seja a desse amor infantil por um homem frívolo que brincava com o seu coração! Em contrapartida, tenho o calabouço em mim. No meu interior é sempre inverno, gelo, desespero. Tenho a noite na alma. Pode imaginar tudo que sofri? Assisti ao seu processo, sentado no banco do Santo Ofício. Isso mesmo, sob um dos capuzes de padre, contorcia-se alguém em danação. Quando foi levada, eu estava lá. Quando interrogada, eu estava lá. Na caverna dos lobos! Era o meu crime e foi o meu cadafalso que vi lentamente se erguer no seu rosto. A cada testemunho, a cada prova, a cada discurso, estive presente. Pude contar cada um dos seus passos na via dolorosa. Igualmente estava presente quando aquela besta feroz… Ah! Não havia previsto a tortura! Ouça. Segui-a na câmara da dor. Vi as mãos infames do atormentador despirem-na e tocarem-na seminua. Vi o seu pé, o pé pelo qual daria um império para beijar e depois morrer, o pé sob o qual eu me deliciaria se tivesse a cabeça esmagada. Vi-o encerrado no horrível borzeguim, que torna lama sangrenta os membros de um ser vivo. Ah! Miserável! Enquanto assistia a tudo isso, um punhal sob a batina me dilacerava o peito. Quando gritou, enfiei-o na carne; houvesse um segundo grito, perfuraria o coração! Veja, ainda sangro.

Ele abriu a batina. De fato, o peito estava riscado como se fosse por uma garra de tigre e apresentava na lateral uma ferida grande e mal fechada.

A prisioneira recuou, horrorizada.

— Ah, jovem, tenha piedade de mim! — suplicou o padre. — Acha-se infeliz, hélas! hélas!, não sabe o que é infelicidade. Amar uma mulher, sendo padre! Ser odiado! Amá-la com todo furor da alma, sentir que por um mínimo sorriso se daria o sangue, se sacrificaria a reputação, a salvação, a imortalidade e a eternidade; esta e a outra vida. Lamentar não ser rei nem gênio, imperador, arcanjo ou Deus para se entregar com ainda maior sentimento de escravidão a seus pés. Ter, noite e dia, sonhos e pensamentos assombrados por sua presença… Tudo isso para vê-la se deslumbrar por um uniforme de soldado! E só tendo a oferecer a suja batina de padre, que a amedronta e enoja! Presenciar, louco de ciúme e raiva, a entrega de tesouros de amor e beleza a um mísero imbecil fanfarrão! Ver o corpo cuja forma nos incendeia, o seio tão suave, a carne palpitante arder sob os beijos de um rival! Ah, céus! Amar o seu pé, o seu braço, o seu ombro, imaginar suas veias azuis, sua pele morena, a ponto de se revirar por noites inteiras no chão de uma cela, e perceber que todas as carícias sonhadas desaguam no martírio! Ter conseguido deitá-la apenas no leito da tortura! Ah! São tenazes avermelhadas no fogo do inferno. Feliz quem é imprensado entre duas tábuas e esquartejado por quatro cavalos! Pode imaginar o suplício que, por longas noites, causam as artérias que fervem, o coração que estoura, a cabeça que se rompe, os dentes que mordem as próprias mãos? São atormentadores encarniçados que nos reviram sem trégua, como numa grelha ardente, por um pensamento de amor, de ciúme, de desespero! Tenha piedade! Paz, por um instante! Jogue um pouco de cinza sobre tamanho braseiro! Enxugue, por favor, o suor que escorre com pesadas gotas da minha testa! Criança, torture com uma mão, mas faça um afago com a outra! Tenha piedade! Tenha piedade de mim!

O padre rolou pela água empoçada na laje e martelou a cabeça nas quinas dos degraus de pedra. A jovem ouvia, olhava.

Quando ele se calou, exausto e resfolegante, ela repetiu a meia-voz:

— Ah, meu Phoebus!

O padre se arrastou de joelhos.

— Suplico — gritou. — Por suas entranhas, não me rejeite! Amo-a tanto! Sou um miserável! Quando pronuncia esse nome, é como se triturasse com os dentes todas as fibras do meu coração! Tenha dó! Se for do inferno que você vem, eu a acompanho. Estou pronto. O inferno em que estiver será para mim o paraíso. Sua visão é mais encantadora que a de Deus! Por favor! Diga! Não me quer nem um pouco? No dia em que uma mulher rejeitar semelhante amor, as montanhas se moverão. Ah! Se soubesse!… Podemos ser felizes! Fugir. Posso fazê-la fugir. Fugiremos juntos, procurarei o ponto da Terra em que haja mais sol, mais árvores, mais céu azul. Vamos nos amar, derramar uma na outra as nossas almas, com recíproca e inextinguível sede, que satisfaremos juntos, sem que nada possa impedir, numa taça de imperecível amor!

Ela o interrompeu com um riso terrível e brusco.

— Olhe, padre! Tem sangue nas suas unhas!

Por um momento, ele pareceu petrificado, com os olhos fixos na própria mão.

— É verdade! — disse com estranha doçura. — Aceito o ultraje, zombe de mim, mas venha, venha. É preciso se apressar. Será amanhã, estou dizendo. O patíbulo da Grève, entende? Está sempre pronto. É horrível! Vê-la seguir naquela carroça! Por Deus, piedade! Não havia percebido até agora o quanto posso amá-la. Por favor, venha. Acabará me amando, depois que a tiver salvado. Pode me odiar por quanto tempo quiser, mas venha. Amanhã! Amanhã! O patíbulo! O suplício! Salve-se! Poupe-me!

Tomou-a pelo braço, perdido, quis arrastá-la.

Ela se soltou, com o olhar imóvel.

— O que aconteceu a meu Phoebus?

— Ah! — exclamou o padre, largando-a. — Não tem mesmo piedade!

— O que aconteceu a Phoebus? — ela repetiu com frieza.

— Morreu! — gritou o padre.

— Morreu! — ela repetiu ainda, glacial e sem se mover. — E como pode me falar em viver?

Ele não a ouvia.

— Exatamente — disse, como se falasse a si mesmo. — Deve estar bem morto. A lâmina penetrou profundamente. Creio que cheguei ao coração, com a ponta do punhal!

A jovem lançou-se em cima dele como uma tigresa em fúria, empurrando-o nos degraus com força sobrenatural.

— Vá embora, monstro! Assassino! Deixe-me morrer! Que o sangue de nós dois provoque no seu rosto uma eterna mancha! Ser sua, padre! Nunca! Nunca! Nunca estaremos juntos, nem o inferno! Vá, maldito! Nunca!

O padre havia tropeçado no degrau. Soltou em silêncio os pés enredados na batina, pegou de volta a lamparina e subiu lentamente os degraus até a porta. Abriu-a e saiu.

De repente, a jovem viu ressurgir a sua cabeça, com expressão assustadora, e ele gritou, como num estertor de raiva e desespero:

— Já disse, ele morreu!

A prisioneira caiu de rosto virado para o chão e nada mais se ouviu no calabouço, além do suspiro da gota d’água nas trevas, fazendo estremecer a poça.

394. “Abandone toda esperança”, em italiano no original. Inscrição à entrada do inferno, na Divina comédia de Dante.

395. Achava-se que a catedral fora construída sobre uma base de pilotis subterrâneos.

396. Cf. p.130-1, em que Victor Hugo se estende sobre a evolução da arquitetura.

397. Inicialmente, local de reclusão para eclesiásticos, mas passou a ser assim chamado todo tipo de cela de grande isolamento.

398. São Bruno, teólogo também conhecido como Bruno de Segni, cidade de onde era bispo, morto em 1123.