O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 24 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

4. O cão e seu dono

 

Havia, no entanto, uma criatura humana que Quasímodo excluía da

maldade e do ódio que tinha contra todos. Amava-a tanto ou talvez até mais do que à catedral. Era Claude Frollo.

A situação era simples. Claude Frollo o havia aceitado, adotado, alimentado e criado. Quando pequeno, foi junto a Claude Frollo que ele se acostumou a procurar abrigo todas as vezes que cachorros e crianças o perseguiam aos uivos. Claude Frollo lhe ensinara a falar, ler e escrever. E Claude Frollo fizera dele o carrilhador de Notre Dame. Dar a Quasímodo o sino principal foi como dar Julieta em casamento a Romeu.

De forma que a gratidão de Quasímodo era profunda, apaixonada, sem limites. E mesmo que o semblante do pai adotivo se mostrasse frequentemente fechado e severo, mesmo que suas palavras fossem em geral breves, duras e imperiosas, nunca tal gratidão se contradisse uma só vez. O arquidiácono tinha em Quasímodo o mais submisso escravo, o mais dócil criado, o mais vigilante cão. Quando o pobre sineiro ficou surdo, estabeleceu-se entre ele e Claude Frollo uma linguagem de sinais misteriosa e que somente os dois entendiam. De forma que o arquidiácono era o único ser humano com que Quasímodo mantinha comunicação. Suas relações neste mundo se limitavam a Notre Dame e a Claude Frollo.

Nada se comparava à autoridade do arquidiácono sobre o sineiro e à submissão do sineiro ao arquidiácono. Um simples gesto de Claude e a perspectiva de lhe agradar bastaria para que Quasímodo se precipitasse do alto das torres de Notre Dame. Era algo notável que tanta força física, concentrada no corcunda de forma tão extraordinária, fosse cegamente posta à disposição de outra pessoa. Havia nisso provavelmente devoção filial e dependência doméstica, mas também fascínio de um espírito por outro espírito. Tratava-se de uma pobre, desajeitada e inábil organização, cabisbaixa e súplice, diante de uma inteligência altiva e profunda, poderosa e superior. Para terminar, havia a gratidão, acima de tudo. Gratidão tão extremada que não há com que comparar. Tal virtude não está entre aquelas que tenham seus mais belos exemplos entre os homens. Diríamos então que Quasímodo amava o arquidiácono como jamais cachorro algum, cavalo algum, elefante algum amou seu amo.