O Corcunda de Notre Dame
2. La creatura bella bianco vestita
2. La creatura bella bianco vestita492
Quando Quasímodo viu a cela vazia e constatou que a egípcia não se
encontrava mais ali, tendo sido raptada enquanto ele a defendia, agarrou os cabelos com as duas mãos e bateu os pés no chão, com surpresa e dor. Depois correu por toda a igreja, procurando a boêmia, urrando sons estranhos por todos os cantos e largando tufos de cabelos ruivos no chão. Isso foi precisamente no momento em que os arqueiros do rei entraram vitoriosamente em Notre Dame, também procurando a egípcia. Quasímodo os ajudou sem se dar conta, o pobre surdo, das fatais intenções dos soldados. Achava serem os bandidos os inimigos da egípcia. Ele próprio conduziu Tristan l’Hermite a todos os esconderijos possíveis, abrindo as portas secretas, as falsas laterais do altar, os fundos das sacristias. Se a infeliz ali ainda se encontrasse, ele é que, sem querer, a teria entregue.
Quando a frustração da busca desanimou Tristan, que em geral não se desanimava tão facilmente, Quasímodo continuou sozinho. Correu vinte vezes, cem vezes a igreja, de um lado para outro, de cima a baixo, subindo e descendo, correndo, chamando, gritando, farejando, fuçando, rebuscando, enfiando a cabeça em cada buraco, clareando cada abóbada com uma tocha, desesperado e enlouquecido. Um macho tendo perdido a fêmea não rugiria tanto nem de forma tão feroz.
Quando afinal teve certeza de que ela não se encontrava mais ali, que esta era a realidade, que a haviam sequestrado, ele subiu lentamente a escada das torres, a mesma escada que havia escalado com tanta euforia e triunfo no dia em que a havia salvado. Cabisbaixo, passou pelos mesmos lugares. Sem voz, sem lágrimas, quase sem respiração. A igreja estava novamente deserta e em silêncio. Os arqueiros haviam ido embora para dar caça à feiticeira na Cité. Sozinho na vasta Notre Dame, tão violentada e tumultuosa no momento anterior, Quasímodo retomou o caminho da cela em que a egípcia havia dormido por tantas semanas, sob a sua guarda.
Aproximando-se, imaginou que talvez a encontrasse lá. Quando, desembocando da galeria que dá para o telhado das naves laterais, percebeu a estreita cela com sua pequena janela e pequena porta, ajeitada sob um arcobotante como um ninho de passarinho debaixo de um galho, o coração do pobre homem falseou e ele se apoiou contra um pilar para não cair. Imaginou que a cigana talvez estivesse de volta, quem sabe algum gênio do bem a houvesse trazido, pois a cela parecia tranquila, segura e bonita demais para que ela ali não se encontrasse. Não se atreveu a dar um passo a mais, temendo desmanchar a ilusão.
— Talvez esteja dormindo ou quem sabe rezando — disse para si mesmo. — É melhor não incomodá-la.
Mas afinal juntou toda coragem, avançou na ponta dos pés, olhou e entrou. Ninguém! A cela continuava vazia. O infeliz surdo percorreu-a com passos lentos, ergueu a cama e olhou embaixo, como se Esmeralda pudesse estar escondida entre a laje e o colchão. Depois, balançou a cabeça e permaneceu estupidamente a olhar. De repente, esmagou a tocha com o pé e, sem nada dizer, sem o menor suspiro, correu a toda velocidade e se lançou de cabeça contra a parede, tombando desacordado no chão.
Quando voltou a si, jogou-se na cama, estendeu-se, beijou impetuosamente o lugar ainda morno em que a jovem havia dormido. Ficou alguns minutos imóvel, como se fosse morrer, e depois se levantou, banhado de suor, ofegante, enlouquecido, pondo-se a bater nas paredes com a cabeça, na assustadora regularidade do badalo dos sinos e com a firme vontade de quem decide dar um fim ao sofrimento. Caiu pela segunda vez, finalmente esgotado. Arrastou-se para fora da cela e se encolheu em frente à porta, numa atitude de espanto. Assim ficou por mais de uma hora, sem o menor movimento, com o olho pregado na cela deserta, mais sombrio e pensativo do que uma mãe sentada entre um berço vazio e um caixão cheio. Não pronunciava palavra alguma, apenas, de vez em quando, um soluço sacudia violentamente o seu corpo inteiro, mas um soluço sem lágrimas, como esses relâmpagos do verão, que não fazem barulho.
Foi nesse momento que ele, procurando no fundo do seu devaneio desolado quem podia ter tão inesperadamente sequestrado a egípcia, pensou no arquidiácono. Ele sabia que dom Claude tinha a chave da escada que levava à cela e lembrou-se das tentativas noturnas do padre contra a jovem, tendo ele, Quasímodo, ajudado a primeira e impedido a segunda. Outros mil detalhes vieram à sua mente e ele não teve mais dúvida de que o arquidiácono houvesse raptado a egípcia. No entanto, tinha tanto respeito pelo padre, tão grande sentimento de gratidão, devoção e carinho, profundamente enraizado no coração que, mesmo nesse momento, ele resistiu às investidas do ciúme e do desespero.
Imaginava culpado o arquidiácono, e o ímpeto de sangue e morte que o teria dominado contra qualquer outra pessoa, em se tratando de Claude Frollo, se transformava, no pobre surdo, em ainda maior sensação de dor.
No momento em que o seu pensamento se fixou no padre, com a aurora clareando os arcobotantes, ele viu, no andar superior de Notre Dame, na quina da balaustrada que segue externamente ao redor da abside, um vulto caminhando. O vulto vinha em sua direção e Quasímodo o reconheceu. Era o arquidiácono.
Claude caminhava com passadas graves e lentas. Não olhava para onde ia, pois se dirigia à torre setentrional e o rosto estava de lado, voltado para a margem direita do Sena. Mantinha a cabeça bem levantada, como se tentasse enxergar por cima dos telhados. Frequentemente os mochos têm essa atitude oblíqua: voam num sentido e olham para outro. O padre, desse modo, passou pouco acima de Quasímodo, sem vê-lo.
O surdo, a quem a brusca aparição deixara petrificado, o viu desaparecer pela porta da escada da torre setentrional. O leitor sabe que essa torre é
aquela da qual se vê o Hôtel de Ville.493 Quasímodo se levantou e seguiu o arquidiácono.
Subiu a escada da torre sem saber muito bem por quê. Ou apenas para saber por que o padre havia subido. Aliás, o pobre sineiro não sabia o que faria exatamente, o que diria, o que queria. Estava cheio de fúria e receio. O arquidiácono e a egípcia se chocavam em seu coração. Chegando ao topo da torre, antes de sair do escuro da escada e entrar na plataforma, procurou com atenção descobrir onde se encontrava o padre. Viu-o de costas, junto à balaustrada vazada que cerca a plataforma do campanário. Com os olhos perdidos na cidade, apoiava-se no parapeito no ponto que dá para a ponte
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Caminhando com cuidado, Quasímodo foi por trás para ver o que o padre tanto olhava, tão atento alhures que não o ouviu se aproximar.
Paris é um magnífico e encantador espetáculo, e mais ainda a Paris de então, sobretudo vista do alto das torres de Notre Dame, sob a fresca claridade de um amanhecer de verão. Naquele dia, devíamos estar no mês de julho. O céu se apresentava perfeitamente sereno. Algumas estrelas mais atrasadas sumiam acima das diversas pontes e uma delas brilhava forte no levante, que era a parte mais clara do céu. O sol estava prestes a despontar. Paris começava a se mover. Uma luz muito clara e pura realçava todo o relevo que as suas mil edificações apresentavam a leste. A sombra gigantesca dos campanários ia de telhado em telhado, de um lado a outro da grande cidade. Em alguns bairros já se falava forte, com muito barulho. Ora ouvia-se um sino, ora um martelo, quando não o chacoalhar arrastado de alguma carroça em movimento. Rolos de fumaça já apareciam em alguns pontos de toda aquela superfície de telhados, como fendas de uma imensa
solfatare.495 O rio, que estreita suas águas sob os arcos de tantas pontes e na ponta de tantas ilhas, fulgurava com brilhos de prata. Ao redor da cidade, do lado de fora dos muros, a visão se perdia num grande círculo de vapores quase granulares, através dos quais confusamente se distinguiam a linha indefinida das planícies e a graciosa curvatura dos morros. Todo tipo de rumores oscilantes se propagava pela cidade ainda semiadormecida. Na direção leste, o vento da manhã empurrava no céu filamentos de algodão, arrancados da penugem de bruma das colinas.
Na praça du Parvis, mulheres tendo à mão o pote de leite comentavam espantadas o estrago feito na porta principal de Notre Dame e os dois rios de chumbo solidificado entre as fendas de arenito. Era tudo que havia restado do tumulto noturno. A fogueira acesa por Quasímodo entre as torres tinha se extinguido. Tristan já limpara a praça, mandando lançar os mortos no Sena. Reis como Luís XI têm o cuidado de rapidamente mandar lavar o chão depois de um massacre.
Por fora da balaustrada da torre, exatamente abaixo de onde se encontrava o padre, havia uma dessas gárgulas fantasmagoricamente talhadas que atormentam os edifícios góticos e, nela, dois belos alelis floresciam, balançados e vivificados pela brisa, como se alegremente se cumprimentassem. Acima das torres, no alto, bem longe no fundo do firmamento, ouviam-se os pios distantes dos pássaros.
Mas o padre não ouvia e nada via de tudo isso. Era um desses homens para os quais não existem manhãs nem pássaros nem flores. Apesar do imenso horizonte com aspectos tão variados ao redor, sua contemplação se concentrava num ponto único.
Quasímodo queria ardentemente perguntar o que ele havia feito da egípcia, mas o arquidiácono parecia, naquele momento, estar fora do mundo. Visivelmente se encontrava num desses minutos violentos da vida em que nem se sentiria a terra desabar. Com os olhos invariavelmente presos a determinado ponto, permanecia imóvel e silencioso, em imobilidade e silêncio que transmitiam algo tão intimidante que o selvagem sineiro ficou paralisado, sem ousar ir além. Apenas seguiu a direção do seu raio de visão — pois era como interrogar o arquidiácono — e, ao fazê-lo, o olhar do infeliz surdo encontrou a praça da Grève.
Viu, então, o que o padre via. A escada estava presa ao patíbulo permanente. Algumas pessoas e muitos soldados se encontravam na praça. Um homem arrastava pelo chão alguma coisa branca, com outra coisa, escura, agarrada nela. O homem parou ao pé do patíbulo.
Nesse momento algo se passou que Quasímodo não viu bem. Não que o seu olho único houvesse perdido o longo alcance, mas um soldado corpulento impedia a visão. Aliás, nesse instante também o sol apareceu e tamanho fulgor de luz inundou todo o horizonte, como se todas as pontas de Paris, as flechas, chaminés e empenas pegassem fogo ao mesmo tempo.
Mas o homem começou a subir a escada e Quasímodo pôde então distintamente vê-lo. Carregava uma mulher no ombro, uma jovem vestida de branco, com uma corda no pescoço. Quasímodo a reconheceu.
Era ela.
O homem chegou ao alto da escada. Arrumou a corda. Para ver melhor, o padre se pôs de joelhos em cima da balaustrada.
O homem bruscamente empurrou a escada com o calcanhar e Quasímodo, que há alguns instantes não respirava mais, viu balançar na ponta da corda, a duas toesas do chão, a pobre criança, com o homem agachado em cima dos ombros dela. A corda girou várias vezes, e Quasímodo viu horríveis convulsões percorrerem o corpo da egípcia. O padre, por sua vez, com o pescoço estendido e olhos esbugalhados, acompanhava o casal infame, formado pelo homem e a jovem, a aranha e a mosca.
Era ela.
No momento mais horrível, um riso de demônio, um riso que só quem deixa de ser humano pode dar, estourou no rosto lívido do padre. Quasímodo não escutou o riso, mas viu. O sineiro recuou alguns passos por trás do arquidiácono e, de súbito, partindo em fúria na sua direção, com as pesadas mãos o empurrou pelas costas no abismo em cuja beirada dom Claude estava debruçado.
— Danação! — gritou o padre. E caiu.
A calha acima da qual ele se encontrava interrompeu a queda. Dom Claude se agarrou desesperadamente e, no momento em que abriu a boca para dar um segundo grito, viu passar por cima da balaustrada, logo acima da sua cabeça, a figura formidável e vingadora de Quasímodo. Ele, então, se calou.
O abismo se abria abaixo. Uma queda de mais de duzentos pés e o chão duro. Mesmo nessa situação terrível, o arquidiácono não disse uma palavra, não deu um gemido. Apenas se contorceu em cima da calha, com esforços tremendos para subir. Mas as mãos nada conseguiam no granito e os pés riscavam a parede enegrecida, sem encontrar apoio. Quem já subiu nas torres de Notre Dame sabe que há uma saliência na pedra, imediatamente abaixo da balaustrada. Nessa angulação negativa é que se debatia o miserável arquidiácono. Não era um paredão reto que enfrentava, e sim um que lhe escapava ainda mais.
Quasímodo, para tirá-lo do abismo, tinha apenas que estender a mão, mas sequer o olhava. Olhava a Grève. Olhava o patíbulo. Olhava a egípcia. O surdo se acotovelara à balaustrada no lugar em que estava o arquidiácono no momento anterior e ali, sem desviar a atenção do único objeto a ter importância, naquele momento, permanecia imóvel e mudo como um homem fulminado. Um longo fluxo de lágrimas desceu em silêncio do olho que, até então, jamais conhecera o pranto.
Enquanto isso, o arquidiácono estava ali. O topo da cabeça, calvo, gotejava suor. As unhas sangravam contra a pedra e os joelhos se arranhavam na parede. Ele ouvia a batina se rasgar, presa à goteira, e descosturar a cada esforço que fazia. Para cúmulo da desgraça, a calha partia de um ducto de chumbo que cedia com o peso do seu corpo. O arquidiácono sentia a tubulação lentamente vergar. O miserável imaginava que quando suas mãos se arrebentassem de cansaço, quando a batina rompesse em definitivo, quando o chumbo acabasse lentamente de ceder, ele cairia. E o terror lhe tolhia as entranhas. Via com desespero uma espécie de estreita plataforma, formada por coincidências das esculturas, cerca de dez pés mais abaixo, e do fundo da sua alma aflita ele pedia ao céu a dádiva de acabar a vida naquele espaço de dois pés quadrados, mesmo que esse fim de vida durasse cem anos. Uma só vez ele olhou mais abaixo ainda, a praça, o abismo, e a cabeça que depois voltou a se erguer tinha os olhos fechados e os cabelos eriçados.
Partindo em fúria na sua direção, empurrou-o no abismo.
Era algo assustador o silêncio dos dois homens. Enquanto dom Claude, a poucos pés dele, agonizava, Quasímodo chorava e olhava a Grève.
O arquidiácono, vendo que todas as suas tentativas serviam apenas para fragilizar ainda mais o ponto de apoio que lhe restava, tomou a decisão de não mais se mover. Ali estava ele, agarrado à calha, no máximo respirando, sem mais se mexer, sem outra movimentação além dessa convulsão involuntária na barriga que se tem quando se sonha com quedas de grandes alturas. Os olhos também não se moviam, mas se mantinham bem abertos, com olhar doentio e espantado. Dom Claude, porém, perdia terreno: os dedos escorregavam pela calha, crescia a fraqueza dos seus braços e ele via que, com o peso do corpo, aumentava a curvatura do chumbo que o sustentava, inclinando-o cada vez mais na direção do abismo.
Mais abaixo, era horrível de se ver, o telhado de Saint-Jean-le-Rond parecia um pequeno cartão dobrado ao meio. O arquidiácono examinava também, uma após a outra, as impassíveis esculturas da torre, igualmente suspensas no precipício, mas sem parecerem assustadas nem demonstrarem qualquer solidariedade. Em volta, tudo era de pedra: os monstros de bocarras escancaradas, à frente; o chão duro da praça, abaixo; e Quasímodo que chorava, acima.
Na praça du Parvis, alguns bons curiosos tranquilamente procuravam adivinhar quem poderia ser o louco que brincava de maneira tão estranha. O padre os ouvia dizer, pois as vozes chegavam até ele, claras e finas:
— Vai acabar quebrando o pescoço!
Quasímodo chorava.
Espumando de raiva e de pavor, o arquidiácono enfim compreendeu que tudo era inútil. Juntou, mesmo assim, o que lhe restava de força para uma última tentativa. Endireitou-se em cima da calha, apoiou os dois joelhos contra a parede, colocou uma das mãos numa fenda entre as pedras e conseguiu subir uma altura de no máximo um pé, mas tudo isso fez ceder a base de chumbo sobre a qual ele se sustentava. Ao mesmo tempo, a batina acabou de se rasgar. Sentindo nada mais haver sob os pés, tendo apenas as mãos cansadas e dormentes ainda a segurá-lo, o infeliz fechou os olhos e largou a calha. Caiu.
Quasímodo o viu cair.
Uma queda de tal altura raramente é perpendicular. Lançado no espaço, o arquidiácono primeiro caiu de cabeça, com as duas mãos esticadas. Depois, deu várias voltas no próprio eixo. O vento o levou para o telhado de uma casa, contra o qual o infeliz se chocou. Mas não estava ainda morto. O sineiro o viu tentar se agarrar com as unhas. A inclinação era forte demais e ele não tinha mais força. Rapidamente escorregou como uma telha que se desprende, e se estatelou no calçamento da rua. Não se mexeu mais.
Quasímodo então voltou o seu olho para a egípcia, cujo corpo via pendurado no patíbulo, com os últimos tremores da agonia sob o vestido branco. Em seguida, voltou-se para o arquidiácono estendido sob a torre, já sem qualquer forma humana. Com um soluço que ergueu seu peito profundo, ele suspirou:
— Ah, tudo que amei!
492. “A bela criatura vestida de branco”, em italiano no original, citação da Divina comédia de Dante (Purgatório, XII, 88-89).
493. E portanto a praça da Grève, onde o Hôtel de Ville ficava.
494. Ou seja, ainda na direção da praça da Grève.
495. “Terra de enxofre”, em italiano. É o nome de um vulcão nas proximidades de Nápoles.