O Corcunda de Notre Dame
6. Três corações de homem diferentemente feitos
Phoebus, no entanto, não havia morrido. Homens desse tipo têm a vida
pertinaz. Quando mestre Philippe Lheulier, advogado extraordinário do rei, disse à pobre Esmeralda: Ele está morrendo, foi por engano ou brincadeira. Quando o arquidiácono repetiu para a condenada: Ele morreu, de nada sabia, mas acreditava, contava com isso, não tinha dúvida e era o que desejava. Teria sido, de fato, muito difícil para ele dar à mulher amada boas notícias do rival. Qualquer um, no seu lugar, faria o mesmo.
Não que o ferimento de Phoebus não tivesse sido grave, mas foi menos do que o arquidiácono, com certo orgulho, acreditou ter causado. O mestre esculápio a quem os soldados da vigilância o haviam levado no primeiro momento, por oito dias temeu por sua vida e inclusive chegou a confirmar isso, em latim. Mas o vigor juvenil conseguiu se impor e — como frequentemente acontece —, apesar dos prognósticos e diagnósticos, a natureza se deu ao luxo de salvar o doente, apesar do médico. Ele ainda jazia no leito da enfermidade quando foi obrigado a passar pelos primeiros interrogatórios de Philippe Lheulier e dos investigadores do Santo Ofício, para seu desagrado. Sentindo-se melhor, porém, certa bela manhã ele deixou as esporas de ouro como pagamento ao boticário e se foi. Sua ausência, aliás, não acarretou prejuízo algum à investigação do caso. A justiça de então muito pouco se preocupava com a clareza e lisura de um processo criminal; o importante era ter um acusado a enforcar, e isso bastava. Além do quê, os juízes tinham suficientes provas contra Esmeralda. Consideraram Phoebus morto e tudo correu da melhor maneira.
Phoebus, por sua vez, não foi obrigado a nenhuma grande fuga. Simplesmente voltou à sua companhia, aquartelada em Queue-en-Brie, na região mesmo de Île-de-France, não muito longe de Paris.
Verdade é que, de forma alguma, ele pretendia comparecer pessoalmente ao processo. Tinha a vaga impressão de ser ridículo o seu papel ali. No fundo, não sabia muito bem o que pensar de tudo aquilo. Ímpio e supersticioso, como todo soldado que não passa de soldado, quando se interrogava sobre a estranha aventura, não se sentia tranquilo a respeito da cabra nem da maneira esquisita como havia conhecido Esmeralda, sem falar da não menos estranha forma com que ela havia revelado o seu amor. Acrescente-se o fato de ela ser egípcia e, ainda por cima, a presença do monge-papão. Entrevia em toda aquela história muito mais magia do que amor, sendo a moça, provavelmente, uma feiticeira, quiçá o próprio diabo. Uma verdadeira comédia, para resumir; ou, falando a linguagem de então, um mistério bem incômodo, em que o seu papel não era dos melhores, era o papel de quem recebe as bordoadas e causa risadas. O capitão se sentia bem embaraçado, com a espécie de constrangimento que o nosso La Fontaine tão admiravelmente definiu:
Envergonhado como uma raposa caçada por uma galinha.
Esperava, aliás, que o caso não fosse muito comentado e que o seu nome, estando ele ausente, pouco fosse pronunciado ou, pelo menos, não fora do âmbito do tribunal da Tournelle. E, nesse ponto, não estava enganado, pois não havia então A Gazeta dos Tribunais e como nunca se passava uma semana sem que um moedeiro falso fosse escaldado, uma feiticeira enforcada, um herético queimado numa das numerosas justiças de Paris, estavam todos tão habituados a ver, nas encruzilhadas da cidade, a velha Themis feudal, de braços nus e mangas arregaçadas, cumprir seu trabalho com instrumentos de tortura, patíbulos e pelourinhos, que um processo como o seu quase nem chamava a atenção. A boa gente daquele tempo mal sabia o nome da vítima supliciada na esquina e o populacho se banqueteava com essa iguaria grosseira. Execuções eram acontecimentos habituais na via pública, como o forno do padeiro ou o matadouro do curtumeiro. O carrasco era apenas uma espécie de açougueiro, um pouco mais sinistro do que os colegas.
Phoebus, então, rapidamente deixou de lado a lembrança da feiticeira Esmeralda, ou Similar, como dizia ele, pouco se importando em saber se a punhalada viera da cigana ou do monge-papão, e sem se interessar também pela conclusão do processo. Assim que se viu liberado com relação a tudo isso, a imagem de Fleur-de-Lys voltou. O coração do capitão Phoebus, como a física de então, tinha horror ao vazio.
A temporada em Queue-en-Brie, além do mais, anunciava-se bem insípida, tratando-se de um vilarejo de ferreiros e de guardadoras de vacas com mãos grosseiras, beirando por meia légua os dois lados da estrada, com
uma longa fila de casebres e choças. Um fim de mundo, resumindo.400
Fleur-de-Lys era sua penúltima paixão, uma bela jovem, com um bom dote. De modo que, certa bela manhã, totalmente recuperado e achando que, passados dois meses, o caso da cigana devia ter terminado e caíra no esquecimento, o enamorado cavaleiro chegou indócil à porta da residência Gondelaurier.
Não prestou atenção ao tumulto de gente que se formava na praça, diante do pórtico de Notre Dame. Lembrou-se de que estavam no mês de maio e imaginou alguma procissão, algum Pentecostes, algum festejo. Amarrou o cavalo na argola do alpendre e subiu, feliz da vida, à casa da querida noiva.
Ela estava sozinha com a mãe.
Fleur-de-Lys tinha ainda no coração a cena da feiticeira com a cabra e o alfabeto maldito. Lembrava-se também das longas ausências de Phoebus. Mesmo assim, vendo entrar o capitão, achou que apresentava tão boa aparência, um gibão tão novo, um boldrié tão reluzente e ares tão apaixonados que ela enrubesceu de contentamento. A nobre senhorita mostrava-se também mais encantadora do que nunca. Os magníficos cabelos louros estavam maravilhosamente trançados e ela trajava esse tom de azul-céu que tão bem combina com a pele clara, astúcia que lhe havia ensinado a amiga Colombe. Os olhos pareciam mergulhados em languidez amorosa, o que, mais do que tudo, completava o quadro.
Phoebus, que beldade alguma havia visto nos últimos meses, além das caipiras de Queue-en-Brie, encantou-se com Fleur-de-Lys, o que emprestou a nosso oficial maneiras tão atenciosas e galantes que a paz imediatamente se instaurou. A própria sra. de Gondelaurier, sempre maternalmente sentada em sua grande poltrona, não se animou a reclamar. Já as censuras de Fleur-de-Lys, rapidamente se transformaram em doces arrulhos. A jovem estava junto à janela, ainda bordando a sua gruta de Netuno. O capitão se mantinha apoiado no espaldar da sua cadeira e ela fazia meigas reclamações a meia-voz.
— Por onde então andou por dois meses, seu malvado?
— Posso jurar — respondeu o capitão, atrapalhado com a pergunta — que está bonita a ponto de fazer um arcebispo sonhar.
Ela não pôde deixar de sorrir.
— Muito bem, muito bem. Deixemos de lado minha beleza e responda. Bela beleza, realmente!
— Ora, querida prima! Fui chamado ao regimento.
— E onde, por favor? E por que não veio se despedir?
— Em Queue-en-Brie.
Phoebus apreciou o fato de a primeira pergunta ajudar a se safar da segunda.
— Fica bem perto, meu amigo. Como não veio me ver uma vez sequer?
Nesse momento, Phoebus viu sua estratégia seriamente se complicar.
— O trabalho… e, adorável prima, estive doente.
— Doente? — ela repetiu, espantada.
— Exato… ferido.
— Ferido?
A pobre criança estava muito assustada.
— Ah, não se preocupe — disse displicentemente Phoebus. — Não foi nada. Uma briga, um ferimento de espada; nada grave.
— Como, nada grave? — exclamou Fleur-de-Lys, erguendo os belos olhos cheios de lágrimas. — Não está dizendo o que realmente pensa! Que ferimento de espada foi esse? Quero saber tudo.
— Ora, minha bela! Uma altercação com Mahé Fédy, sabe? O tenente de Saint-Germain-en-Laye, e perdemos cada um umas polegadas de pele, só isso.
O mentiroso capitão muito bem sabia que uma disputa de honra sempre realça um homem aos olhos de uma mulher. E, de fato, Fleur-de-Lys olhou para ele de frente, com um misto de medo, orgulho e admiração. Mas não se sentia ainda totalmente tranquila.
— Contanto que esteja bem recuperado, meu Phoebus! Não conheço esse seu Mahé Fédy, mas é um mau sujeito. E o que causou a discussão?
Nesse momento, Phoebus, em quem a criatividade da imaginação não era um ponto forte, começou a não saber mais como escapar da proeza.
— Ah, nem sei… nada, um cavalo, algo que foi dito! Bela prima — tentou ele mudar o assunto da conversa —, o que vem a ser todo esse barulho na praça?
Aproximou-se da janela.
— Por Deus, bela prima, temos boa multidão, ali em frente!
— Não sei o que é — disse Fleur-de-Lys. — Ouvi dizer que uma feiticeira fará confissão de honra diante da igreja, essa manhã, para depois ser enforcada.
Tão seguro se sentia o capitão da conclusão do caso Esmeralda, que pouco se interessou pelo que disse Fleur-de-Lys. Fez, mesmo assim, uma ou duas perguntas.
— Como se chama a feiticeira?
— Não sei.
— E o que dizem que fez?
Mais uma vez, a noiva balançou os brancos ombros.
— Não sei.
— Meu santo Jesus! — interveio a mãe. — Há tantos feiticeiros agora que eles são queimados, tenho a impressão, sem que nem se saibam os seus nomes. É o mesmo que procurar saber como se chama cada nuvem do céu. Mas fiquem tranquilos, Deus mantém o registro.
Nesse momento, a venerável dama se levantou e foi à janela.
— Por Deus, Phoebus! Tem toda razão! É verdadeira multidão popular. Tem gente, louvado seja Deus, até nos telhados! Sabe, Phoebus? Isso me lembra a minha boa época. À entrada do rei Carlos VII, tinha muita gente
também. Não sei mais em que ano foi.401 Quando me refiro a essas lembranças, não é?, isso lhe causa o efeito de velharias, mas, para mim, é o contrário. Ah! Era gente mais bonita do que essa de agora. Comprimiam-se até no alto das torres da porta Saint-Antoine. O rei levava a rainha na garupa e, após suas altezas, vinham todas as damas, também na garupa dos senhores. Lembro que rimos forte, porque ao lado de d’Amanyon de Garlande, que era de pequena estatura, estava o sr. Matefelon, um cavaleiro de estatura gigantesca, que havia matado ingleses aos montes. Foi muito bonito. Uma procissão de todos os fidalgos da França, com suas auriflamas que tremulavam vermelhas à nossa frente. Alguns com o estandarte da cavalaria, outros com o da chamada ao combate. Como vou saber? O sr. de Calan, com o de cavalaria; Jean de Châteaumorant, o de chamada; o sr. de Coucy, de cavalaria e mais flamejante do que qualquer outro, exceto o do duque de Bourbon… Como dói pensar que tudo isso existiu e não existe mais!
Os dois enamorados não ouviam a respeitável viúva. Phoebus tinha voltado a se apoiar no encosto da cadeira da noiva, lugar privilegiado, de onde seu olhar libertino mergulhava por todas as aberturas do decote de Fleur-de-Lys. O corpete se afrouxava tão a propósito, deixando que se vissem coisas tão maravilhosas e fazendo imaginar outras, que Phoebus, embevecido com a pele de reflexos acetinados, se perguntava em suas profundezas: “Como gostar de outra pele, que não seja tão branca?”
Ambos se mantinham em silêncio. A jovem de vez em quando erguia os olhos deslumbrados e meigos até ele, e os cabelos dos dois se misturavam num raio do sol primaveril.
— Phoebus — disse de repente Fleur-de-Lys em voz baixa. — Devemos nos casar dentro de três meses, jure que nunca amou outra mulher, além de mim.
— Juro, meu anjo! — respondeu Phoebus, e o olhar apaixonado se acrescentava para totalmente convencer Fleur-de-Lys da sinceridade do tom. Naquele momento, ele próprio talvez acreditasse.
A boa mãe, no entanto, encantada de ver os noivos em tão perfeito entendimento, acabava de se retirar da sala, para algum afazer doméstico. Phoebus percebeu e tal intimidade encorajou o aventureiro capitão, que deu livre curso a ideias estranhas que lhe vieram à cabeça. Fleur-de-Lys o amava, era ele o seu noivo, estavam a sós e a sua antiga atração por ela despertou, não com todo frescor, mas com todo ardor. Afinal de contas, não é tão grande crime comer ainda na espiga um pouco do trigo de que se dispõe. Não sei dizer se esses exatos pensamentos passaram por sua mente, mas certo é que Fleur-de-Lys bruscamente se assustou com a expressão do seu olhar. Olhou em volta e não viu a mãe.
— Meu Deus! — disse ela, vermelha e alarmada. — Estou com muito calor!
— É normal — respondeu Phoebus —, não estamos longe do meio-dia. O sol incomoda. Basta fechar as cortinas.
— Não, não! — gritou a pobre moça. — Pelo contrário, preciso de ar.
Como a gazela que sente o alvoroço da matilha, ela se levantou, correu à porta, abriu-a e passou ao balcão.
Contrariado, Phoebus foi atrás.
A praça de Notre Dame, para a qual dava o balcão, como se sabe, naquele momento apresentava um espetáculo sinistro e singular, que bruscamente mudou o tipo de medo da tímida Fleur-de-Lys.
Imensa multidão, que se espalhava por todas as ruas adjacentes, se concentrava na praça propriamente dita. A pequena mureta que cercava o adro de nada serviria para mantê-lo livre, não estivesse ela reforçada por sólida fileira de guardas da cidade e arcabuzeiros, de colubrina em punho. Graças a esse alinhamento de lanças e arcabuzes, o adro se mantinha vazio. A entrada estava sendo guardada por um corpulento alabardeiro com as insígnias do bispo. As amplas portas da igreja estavam fechadas, o que contrastava com as inúmeras janelas da praça que, completamente abertas, deixavam que se vissem milhares de cabeças amontoadas mais ou menos como as pilhas de bolas de canhão, num parque de artilharia.
A superfície dessa multidão era cinzenta, suja e terrosa. O espetáculo aguardado era evidentemente desses que têm o privilégio de remeter ao que de mais sórdido há na população. Nada é tão horrível quanto o barulho que escapa dessa efervescência de toucas amarelas e cabeleiras imundas. Naquela multidão, havia mais risos do que gritos, mais mulheres do que homens. De vez em quando, uma voz ácida e vibrante se impunha sobre o rumor generalizado.
— Ei! Mahiet Baliffre! É ali que vão enforcá-la?
— Imbecil! Aqui é a confissão de honra, já vestida com a túnica! Deus vai tossir latim bem no nariz dela! É sempre aqui, ao meio-dia. Se é a forca que está querendo, tem que ir à Grève.
— Vou depois.
— Diga uma coisa, Boucandry. É verdade que ela recusou um confessor?
— Parece que sim, Bechaigne.
— Está vendo? É pagã!
— Cavalheiro, é a tradição. O bailio do palácio deve entregar o malfeitor perfeitamente julgado, para a execução. Se for um leigo, é entregue ao preboste de Paris, se for religioso, à inquisição do bispado.
— Agradeço, cavalheiro.
— Ah! Meu Deus! — dizia Fleur-de-Lys. — A pobre criatura!
Tal pensamento enchia de dor o olhar com que ela observava o populacho. O capitão, muito mais interessado na noiva do que no povo, alisava amorosamente a sua cintura pelas costas. Ela se virou súplice e sorrindo:
— Por favor, Phoebus, não faça isso! Se minha mãe voltar verá a sua mão!
Meio-dia soou lentamente no relógio de Notre Dame. Um murmúrio de satisfação explodiu na multidão. A reverberação da última pancada mal se desfazia e todas as cabeças se encresparam como ondas sob uma borrasca. Um imenso clamor se ergueu pelas janelas e telhados:
— É ela!
Fleur-de-Lys colocou as mãos nos olhos, para não ver.
— Querida — disse Phoebus. — Prefere entrar?
— Não — ela respondeu; e os olhos que tinham sido fechados por medo se abriram por curiosidade.
Uma carroça puxada por um cavalo normando robusto coberto por uma manta violeta com cruzes brancas acabava de entrar na praça, pela rua Saint-Pierre-aux-Boeufs. Os guardas da vigilância abriam passagem a vergastadas. Ao lado da carroça, seguiam alguns oficiais da justiça e da polícia, que podiam ser reconhecidos pelas roupas pretas e pela maneira desajeitada de se manterem na sela. Mestre Jacques Charmolue se exibia à frente.
Na fatal viatura, uma jovem estava sentada, com os braços amarrados atrás das costas, sem um padre ao lado. Vestia apenas a túnica e seus longos cabelos negros (a moda da época era só cortá-los já ao pé do cadafalso) se espalhavam pelo pescoço e ombros seminus.
Através da ondulante cabeleira, que brilhava mais do que a plumagem do corvo, via-se balançar atada uma grosseira corda cinzenta e rugosa que arranhava as frágeis clavículas, ao redor do encantador pescoço da pobre moça, como uma minhoca numa flor. Sob essa corda brilhava um pequeno amuleto enfeitado com miçangas verdes, que haviam permitido que guardasse, provavelmente porque nada se deve recusar a quem vai morrer. Os espectadores às janelas podiam perceber, no fundo da carroça, as pernas nuas que ela tentava esconder, num derradeiro instinto de mulher. A seus pés, estava uma pequena cabra, também amarrada. A condenada prendia com os dentes a túnica solta. Mesmo em sua miséria, ela sofria por ser exposta quase nua ao olhar de todos. Não é com relação a tais expectativas, infelizmente, que se imagina o pudor.
— Jesus! — disse de repente Fleur-de-Lys ao capitão. — Olhe, primo! É aquela horrível cigana da cabra!
Dizendo isso, virou-se para Phoebus, que tinha os olhos pregados na carroça. Estava extremamente pálido.
— Qual cigana da cabra? — balbuciou ele.
— Como? Não se lembra?
Phoebus interrompeu-a:
— Não sei a que se refere.
Deu um passo para entrar, mas Fleur-de-Lys, em quem o ciúme tanto tinha se alvoroçado por causa daquela mesma egípcia, insistiu. Lançou ao noivo um olhar penetrante e desconfiado. Lembrou-se, então, de vagamente ter ouvido falar de um capitão envolvido no processo da feiticeira.
— O que está havendo? Tenho a impressão de que essa mulher o perturbou.
Phoebus tentou zombar.
— Eu? De forma alguma! Ora…
— Então fique! — disse ela com firmeza. — E vamos assistir até o fim.
Foi obrigado, o infeliz capitão, a aceitar. Tranquilizava-o um pouco o fato de a condenada não desviar os olhos do chão da carroça. Mas realmente era Esmeralda. Naquele último grau do opróbio e da desgraça, continuava bela, com os grandes olhos negros parecendo ainda maiores, dado o emagrecimento das faces. O perfil lívido era puro e sublime. Remetia-se ao que tinha sido como uma Virgem de Masaccio a uma Virgem de Rafael: mais frágil, mais delgada e mais magra.
Além disso, nada havia nela que, de certa maneira, não estivesse sacudido. À exceção do pudor, nada mais parecia ter importância, de tanto que fora profundamente abalada pelo estupor e desespero. O corpo acompanhava o sacolejo da carroça como coisa morta ou disforme. O olhar era triste e louco. Via-se ainda uma lágrima na pupila, mas imóvel, parecendo ter congelado.
Mas a lúgubre cavalgada atravessou a multidão, entre gritos de alegria e atitudes de curiosidade. Devemos todavia acrescentar, como fiéis historiadores, que ao vê-la tão bela e arrasada muitos se emocionaram apiedados, mesmo entre os mais duros. A carroça penetrou no adro.
Parou diante do pórtico central. A escolta se enfileirou dos dois lados. A multidão silenciou e, no meio desse silêncio cheio de solenidade e ansiedade, os dois batentes da porta principal se abriram como que por vontade própria nos gonzos, que rangeram com um barulho de pífaro. Viu-se então, em toda sua dimensão, a igreja sombria, enlutada, mal iluminada por uns poucos círios brilhando distantes no altar-mor, aberta como a bocarra de uma taberna, no meio da praça resplandecente de luz. Ao fundo, na sombra da abside, entrevia-se uma gigantesca cruz de prata, erguida sobre o fundo de um pano negro que descia da abóbada ao piso. A nave inteira estava deserta. Viam-se, no entanto, algumas cabeças de padres confusamente se movimentarem nas estalas distantes do coro e, no momento em que a grande porta foi aberta, escapou da igreja um canto grave, alto e monótono que lançou em rajadas, à cara da condenada, fragmentos de salmos lúgubres:
…Non timebo millia populi circumdantis me. Exsurge, Domine; salvum
me fac, Deus!
…Salvum me fac, Deus, quoniam intraverunt aquae usque ad animam
meam.
…Infixus sum in limo profundi; et non est substantia.402
Ao mesmo tempo, outra voz, isolada do coro, entoou ao pé do altar-mor esse melancólico ofertório:
Qui verbum meum audit, et credit ei qui misit me, habet vitam aeternam
et in judicium non venit; sed transit a morte in vitam.403
Esse cântico que aqueles velhos perdidos em suas próprias trevas cantavam de longe para a bela criatura, cheia de juventude e de vida, acariciada pela brisa morna, primaveril e inundada de sol, era a missa dos mortos.
O povo ouvia com recolhimento.
Desnorteada, a infeliz parecia perder o olhar e o pensamento nas obscuras entranhas da igreja. Seus lábios brancos se moviam como se rezasse, mas quando o ajudante do carrasco se aproximou para ajudá-la a descer da carroça, ouviu que ela repetia em voz baixa essa palavra: Phoebus.
Desamarraram-lhe as mãos e ela desceu, acompanhada pela cabra, que também foi desatada e balia de felicidade por se sentir livre. Fizeram-na andar de pés nus no chão duro, até o primeiro dos degraus do pórtico. A corda presa a seu pescoço se arrastava atrás, como uma serpente que a seguisse.
O cântico então foi interrompido na igreja. Uma grande cruz de ouro e uma fileira de círios se puseram em movimento no escuro. Ouviu-se bater a alabarda da colorida guarda suíça e, momentos depois, uma longa procissão de padres em casula e diáconos em dalmática gravemente se encaminhou em direção à condenada, salmodiando e surgindo pouco a pouco aos olhos de todos. Mas a atenção de Esmeralda se fixou em quem avançava à frente, imediatamente após o guarda que portava a cruz.
— Ah! — exclamou baixinho, com um tremor. — De novo ele, o padre!
De fato, era o arquidiácono. À esquerda vinha o chantre e, à direita, o regente, armado com o bastão do seu ofício. Dom Claude caminhava com a cabeça inclinada para trás, de olhos abertos e fixos, cantando com voz forte:
De ventre inferi clamavi, et exaudisti vocem meam,
Et projecisti me in profundum in corde maris, et flumen circumdedit
me.404
No momento em que ele apareceu à luz do dia, sob o alto pórtico em ogiva, envolto em ampla capa prateada ornamentada com uma cruz negra, estava tão pálido que muitos na multidão acharam ser um dos bispos de mármore, daqueles ajoelhados nas pedras sepulcrais do coro, que tinha se levantado e vinha receber à entrada da tumba quem ia morrer.
Não menos pálida e menos estática, a prisioneira nem percebeu que tinham posto em sua mão um pesado círio aceso, de cera amarela. Não ouviu a voz esganiçada do escrivão, lendo o fatal conteúdo da confissão de honra. Quando lhe disseram que respondesse Amen, ela respondeu Amen. Foi preciso, para que recuperasse alguma vida e força, que visse o padre fazer sinal aos guardas para que se afastassem, vindo sozinho em sua direção.
Somente nesse momento, ela sentiu o sangue ferver na cabeça e um resto de indignação voltou a se acender em sua alma entorpecida e fria.
O arquidiácono lentamente se aproximou. Mesmo naquela situação extrema, ela percebeu que em seus olhos brilhavam luxúria, ciúme e desejo, passando em revista a sua quase nudez. Ele disse em voz alta:
— Jovem, pediu perdão a Deus por seus pecados e erros?
Debruçou-se a seu ouvido e acrescentou (quem assistia achou que recebia a última confissão da condenada):
— Não me quer? Posso ainda salvá-la!
Ela o olhou fixamente:
— Vá embora, demônio; ou o denuncio!
Ele sorriu, um sorriso horrível.
— Não acreditarão, apenas acrescentará escândalo ao crime. Responda rápido: não me quer?
— O que fez do meu Phoebus?
— Ele morreu — disse o padre.
Nesse momento, o miserável arquidiácono ergueu instintivamente a cabeça e viu, do outro lado da praça, na varanda da residência dos Gondelaurier, o capitão, de pé, ao lado de Fleur-de-Lys. Ele vacilou, passou a mão pela testa, olhou mais uma vez, murmurou uma maldição e todos os seus traços se contraíram violentamente.
— Pois, então, morra! — disse entredentes. — Ninguém a terá.
Erguendo a mão sobre a egípcia, recitou com voz fúnebre:
— I nunc, anima anceps, et sit tibi Deus misericors!405
Era a terrível frase com que tradicionalmente se fechavam essas tristes cerimônias. E também o sinal combinado entre o padre e o carrasco.
O povo se ajoelhou.
— Jovem, pediu perdão a Deus por seus pecados e erros?
— Kyrie Eleïson406 — exclamaram os padres que estavam sob a ogiva do pórtico.
— Kyrie Eleïson — repetiu a multidão, com esse murmúrio que corre por cima das cabeças como o rumor de um mar agitado.
— Amen — disse o arquidiácono.
Virou as costas à condenada. Sua cabeça caiu sobre o peito, as mãos se cruzaram, ele se juntou ao cortejo de padres e, logo a seguir, desapareceu com a cruz, os círios e as capas sob os arcos brumosos da catedral, com sua voz se apagando gradativamente no coral, cantando um verseto de desespero:
Omnes gurgites tui et fluctus tui super me transierunt! 407
Ao mesmo tempo, a ressonância intermitente do cabo de ferro das alabardas dos suíços, morrendo pouco a pouco nos intercolúnios da nave, produzia o efeito de um martelo de relógio, batendo a última hora da condenada.
As portas de Notre Dame tinham, no entanto, ficado abertas, deixando que se visse a igreja vazia, desolada, enlutada, sem círios e sem vozes.
A pobre coitada continuava imóvel no mesmo lugar, esperando que se ocupassem dela. Foi preciso que um dos guardas de vergasta chamasse a atenção de mestre Charmolue, pois o estudioso, durante toda essa última cena, examinava o baixo-relevo do grande pórtico, representando, segundo alguns, o sacrifício de Abraão e, segundo outros, a operação filosofal, em que o sol é o anjo, o fogo o molho de lenha, e Abraão o artesão.
Foi difícil arrancá-lo da contemplação, mas finalmente ele se virou e fez sinal para que dois homens vestidos de amarelo, ajudantes do carrasco, se aproximassem da egípcia e novamente lhe amarrassem as mãos.
A infeliz, no momento de voltar à carroça fatal e se dirigir à sua última estação, talvez tenha sido tomada por algum dilacerante lamento da vida que se terminaria. Ergueu os olhos vermelhos e secos ao céu, ao sol, às nuvens prateadas e recortadas, aqui e ali, por trapézios e triângulos azuis, para em seguida abaixá-los ao entorno, à terra, à multidão e às casas. De repente, enquanto o homem amarelo prendia os seus cotovelos, ela deu um grito terrível, um grito de alegria. Numa varanda, logo ali, na esquina da praça, Esmeralda acabava de perceber o venerado Phoebus em pessoa, seu amo, a aparição da sua vida!
O juiz havia mentido! O padre havia mentido! Era ele mesmo, sem dúvida possível: bonito, vivo, no seu brilhante uniforme, de penacho na cabeça e espada na cinta!
— Phoebus! — gritou. — Meu Phoebus!
Quis estender para ele os braços trêmulos de amor e de deslumbre, mas estavam amarrados. Viu então o capitão fechar o semblante, uma bela jovem ao lado olhá-lo com lábios de desdém e olhos irritados. Em seguida Phoebus pronunciou algumas palavras que não chegaram até ela e os dois precipitadamente desapareceram atrás do vidro da porta do balcão, que foi fechada.
— Phoebus! — ela gritou, transtornada. — Como acreditar?
Um pensamento monstruoso acabava de se impor. Lembrou-se de ter sido condenada pela morte de Phoebus de Châteaupers.
Ela tudo havia suportado até então, mas esse último golpe era rude demais. Caiu desacordada no cão.
— Vamos — disse Charmolue. — Levem-na para a carroça e acabemos com isso!
Ninguém ainda havia notado, na galeria das estátuas dos reis, esculpidas imediatamente acima das ogivas do pórtico, um espectador estranho que a tudo havia assistido, até então, com tamanha impassibilidade, com o pescoço tão tenso, o rosto tão disforme que, sem a roupa que vestia, bipartida em vermelho e violeta, poderia ser confundido com um dos monstros de pedra, pela bocarra dos quais há seiscentos anos escorrem as águas das compridas gárgulas da catedral. Esse espectador nada havia perdido do que, desde meio-dia, se passava diante do pórtico de Notre Dame. E logo nos primeiros instantes, sem que ninguém sequer notasse, ele fortemente amarrara, numa das colunetas da galeria, uma sólida corda de nós, cuja ponta chegava ao alpendre. Depois disso, passara a olhar tranquilamente, assobiando de vez em quando, se um melro voava por perto. De repente, no momento em que os assistentes do carrasco se dispunham a executar a ordem fleumática de Charmolue, ele saltou a balaustrada da galeria, prendeu a corda com os pés, os joelhos e as mãos e desceu pela fachada, como uma gota de chuva escorre ao longo de um vidro. Correu até os carrascos com a velocidade de um gato que cai do telhado, derrubou-os com seus punhos enormes, ergueu a egípcia com uma mão, como uma criança ergue sua boneca, e com um só salto entrou na igreja, mantendo a jovem acima da cabeça e gritando com uma voz formidável:
— Asilo!
Tudo se passou com tal rapidez que, se fosse à noite, poderia ter sido visto à luz de um só relâmpago.
— Asilo! Asilo! — repetiu a multidão, e dez mil mãos batendo fizeram brilhar de alegria e orgulho o olho único de Quasímodo.
A confusão trouxe de volta a si a condenada. Ela ergueu a pálpebra, viu Quasímodo e voltou a fechá-la rápido, como se o salvador a assustasse ainda mais.
Charmolue estava estupefato, assim como os carrascos e toda a escolta. De fato, dentro do recinto de Notre Dame, a condenada não podia ser presa. A catedral era um lugar de refúgio. Toda justiça humana expirava à sua entrada.
Quasímodo tinha parado sob o grande pórtico. Seus amplos pés pareciam tão solidamente fixados no chão da igreja quanto os pesados pilares românicos. A cabeçorra cabeluda afundava nos ombros como a dos leões que, também eles, têm uma crina em vez de pescoço. Mantinha a jovem ainda palpitante suspensa em suas mãos calosas, como uma trouxa de panos brancos, mas fazia isso com tanto cuidado que parecia temer quebrá-la ou fazer-lhe mal. Era como se ele sentisse ser uma coisa delicada, extraordinária e preciosa, feita para outras mãos e não as suas. Às vezes, dava a impressão de não se atrever a tocá-la, nem com um sopro. Depois, subitamente apertou-a nos braços, no seu peito anguloso, como um bem pessoal, um tesouro, como faria a mãe daquela criança. O olho de gnomo, baixado para ela, a inundava de ternura, dor e piedade, mas bruscamente se alçava, relampejante. Mulheres riam e choravam, a multidão fervilhava de entusiasmo, pois, naquele momento, Quasímodo realmente mostrava uma beleza própria. Era belo o órfão, a criança abandonada, o rebotalho. Sentiu-se augusto e forte, olhando de frente aquela sociedade que o banira e junto a qual ele acabava de intervir de forma tão poderosa, aquela justiça humana da qual havia arrancado a presa, obrigando todos aqueles tigres a mastigar no vazio, aqueles esbirros, juízes, carrascos, toda a força do rei que ele acabava de quebrar, ele que era ínfimo, com a força de Deus.
Além disso, era comovente aquela proteção, vinda de um ser tão disforme, aplicada a um ser tão infeliz, uma condenada à morte salva por Quasímodo. Duas misérias extremas da natureza e da sociedade que se descobriam e se entreajudavam.
Quasímodo reapareceu, ainda com a egípcia nos braços e gritando:
— Asilo!
No entanto, após alguns minutos de triunfo, Quasímodo bruscamente entrou na igreja com seu fardo. O povo, que adora proezas, o procurava na escura nave, lamentando que tão rapidamente ele houvesse dado as costas às aclamações. De repente, porém, ele ressurgiu numa das extremidades da galeria dos reis da França, atravessou-a correndo como um demente, erguendo sua conquista nos braços e ainda gritando:
— Asilo!
A multidão explodiu em novos aplausos. Atravessada a galeria, ele voltou ao interior da igreja. Um momento depois, reapareceu na plataforma superior, ainda com a egípcia nos braços, ainda correndo loucamente e ainda gritando:
— Asilo!
E a multidão aplaudia. Uma terceira aparição ainda ocorreu, no alto da torre do sino maior. O corcunda parecia mostrar com orgulho a toda a cidade aquela que ele havia salvado, e sua voz trovejante, a voz que tão raramente se ouvia, e ele próprio nunca, repetiu por três vezes, freneticamente e alcançando as nuvens:
— Asilo! Asilo! Asilo!
— Aleluia! Aleluia! — acompanhava por sua vez o povo, aos gritos.
A imensa aclamação chegou a espantar, até na outra margem, a multidão da Grève e a reclusa, que continuava a esperar, com os olhos presos no patíbulo.
400. O nome mesmo da localidade (literalmente, “Rabo da [região de] Brie”), dá essa ideia de “fim de mundo”.
401. Foi em 1437 que o rei solenemente retomou dos ingleses a capital.
402. “…Não temerei as milhares de pessoas que me cercam. Apareça, ó Senhor; salve-me, ó Deus!/ …Salve-me, ó Deus, pois minha alma está imersa./ …Estou preso na espessa lama do fundo”, em latim no original.
403. “Aquele que ouve minha palavra e crê naquele que me enviou, tem vida eterna e não cai em condenação, mas já passou da morte à vida”, em latim no original.
404. “Gritei no fundo do túmulo e minha voz foi ouvida./ Fui jogado em pleno mar, até o fundo das águas, e encharquei-me todo”, em latim no original.
405. “Agora vá, alma dúbia, que Deus lhe seja misericordioso!”, em latim no original.
406. “Senhor, tende piedade de nós”, em grego.
407. “Todas as suas vagas e marés passaram por mim”, em latim no original.