O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 35 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

2. Não são o mesmo um padre e um filósofo

 

O padre que as moças haviam notado no alto da torre setentrional,

debruçado a olhar a praça e tão atento à dança da boêmia era, de fato, o arquidiácono Claude Frollo.

Nossos leitores não esqueceram a cela misteriosa que o arquidiácono havia reservado nessa torre. (Não sei, diga-se de passagem, se não é a mesma cujo interior ainda pode ser visto por uma pequena lucarna quadrada que se abre ao levante, à altura de uma pessoa, na plataforma de onde partem as torres: um antro, hoje em dia vazio e em mau estado, com paredes mal emboçadas mas ornamentadas com gravuras já amareladas, representando fachadas de catedrais. Imagino que tal covil seja habitado somente por morcegos e aranhas, em disputa por moscas, vítimas dessa reforçada guerra de extermínio.)

Diariamente, uma hora antes do pôr do sol, o arquidiácono subia a escada da torre e se trancava nessa cela, em que às vezes passava noites inteiras. No dia em questão, chegando diante da portinhola, no momento em que enfiou na fechadura a pequena chave complicada que sempre carregava na escarcela pendurada à cintura, um barulho de pandeiro e castanholas chegou a seus ouvidos. O som vinha da praça em frente. A cela, como foi dito, tinha apenas uma lucarna, e que dava para o corpo da igreja. Claude Frollo então precipitadamente pegou de volta a chave e subiu ao topo da torre, pondo-se na atitude sombria e recolhida em que foi visto pelas mocinhas.

Ali estava ele, grave, imóvel, absorto num só olhar e pensamento. Toda Paris estava a seus pés: as mil flechas dos seus edifícios, o horizonte circular de suaves colinas, o rio que serpenteia por baixo das pontes, o povo a andar em ondas pelas ruas, as nuvens de fumaça, a cadeia montuosa de telhados circundando Notre Dame com cerradas malhas. Mas, no meio de todo esse panorama, o arquidiácono se concentrava no chão e num ponto único: a praça em frente. E no meio de toda aquela multidão, numa figura apenas: a boêmia.

Seria difícil dizer de que natureza era esse olhar e onde se originava a chama que o alimentava. Era um olhar fixo e, no entanto, perturbado e tumultuado. Dada a imobilidade profunda do corpo (que mal estremecia, às vezes, por um arrepio maquinal, como uma árvore ao vento), dada a firmeza com que estavam plantados os cotovelos (mais marmóreos do que o parapeito em que se apoiavam) e atentando também ao sorriso petrificado que contraía o rosto, tinha-se a impressão de só restar de vivo, em Claude Frollo, justamente os olhos.

A boêmia dançava. Fazia girar o pandeiro na ponta dos dedos e lançava-o ao céu, dançando sarabandas provençais. Ágil, leve e alegre, não sentia o peso do olhar temível que se fixava nela.

A multidão fervilhava ao redor. De vez em quando um homem, vestindo uma casaca amarela e vermelha, reorganizava o círculo e voltava a se sentar a alguns passos da dançarina, com a cabeça da cabra descansando em seus joelhos. Parecia ser o companheiro da boêmia. Claude Frollo, do ponto muito alto em que estava, não podia distinguir os seus traços.

A partir do momento em que o arquidiácono percebeu o desconhecido, sua atenção ficou dividida entre ele e a dançarina, e seu rosto cada vez mais sombrio. De repente, dom Claude se endireitou e um tremor percorreu todo o seu corpo.

— Quem é esse homem? — disse entredentes. — Sempre a vi sozinha!

Voltou então à abóbada tortuosa da escada em espiral e desceu. Passando diante do local de onde os sinos eram acionados, viu pela porta entreaberta algo que lhe chamou a atenção. Debruçado na abertura de um daqueles guarda-ventos de ardósia que parecem enormes gelosias, Quasímodo também olhava a praça. Estava absorto em contemplação tão profunda que não reparou o pai adotivo que passava. Seu olho selvagem tinha uma expressão singular. Era um olhar encantado e terno.

— Isso é bem estranho! — murmurou Claude. — Será à egípcia que ele olha dessa maneira?

Continuou a descer. Minutos depois, o ensimesmado arquidiácono saiu à praça pela porta sob a torre.

— Onde está a boêmia? — perguntou, misturando-se ao grupo de espectadores que o som do pandeiro havia reunido.

— Não sei dizer — respondeu um deles. — Acaba de sumir. Acho que foi chamada na casa ali em frente, para um fandango.

No lugar da egípcia, no mesmo tapete em que os arabescos pouco antes se confundiam sob o traçado caprichoso da dança, o arquidiácono viu apenas o homem de vermelho e amarelo que, para ganhar por sua vez alguns cobres, se exibia ao círculo de pessoas, de cotovelos nos quadris, cabeça jogada para trás, o rosto vermelho e o pescoço esticado, com uma cadeira entre os dentes. Na cadeira, estava preso um gato que uma mulher havia emprestado e que miava forte, bem assustado.

 

Debruçado em um dos guarda-ventos, Quasímodo também olhava a praça.

— Nossa Senhora! — exclamou o arquidiácono, no momento em que o saltimbanco, molhado de suor, passou à sua frente, com aquela pirâmide armada de cadeira e gato. — O que faz aqui, mestre Pierre Gringoire?

A voz severa do arquidiácono atingiu em cheio o pobre-diabo, fazendo-o perder o equilíbrio com todo o seu edifício. Cadeira e gato desabaram estabanadamente em cima do público, gerando uma vaia inextinguível.

É provável que mestre Pierre Gringoire (pois era ele mesmo) tivesse que prestar contas à dona do gato, assim como a todos aqueles que se machucaram e arranharam em volta, se não aproveitasse o tumulto para se refugiar na igreja, seguindo os acenos de Claude Frollo.

A catedral já se encontrava deserta e na penumbra. Nas laterais da nave, as lamparinas das capelas começavam a brilhar, com as abóbadas mergulhadas em plena escuridão. Somente a grande rosácea da fachada, com seus mil coloridos banhados ainda por um raio horizontal de sol, reluzia na sombra como um punhado de diamantes, projetando no outro extremo da nave seu espectro deslumbrante.

Depois de darem alguns passos, dom Claude se encostou numa coluna e encarou fixamente Gringoire. Mas o olhar não era o que mais incomodava Gringoire, envergonhado por ser flagrado naqueles costumes de bufão por um personagem tão grave e culto. A expressão do padre nada tinha de zombaria nem era irônica. Pelo contrário, parecia séria, tranquila e perscrutadora. O arquidiácono foi o primeiro a romper o silêncio.

— Aproxime-se, mestre Pierre. Precisa explicar muitas coisas. Antes de tudo, como é isso que há quase dois meses desapareceu e agora é visto nas ruas? E de que maneira, realmente! Bipartido em amarelo e vermelho, como uma maçã normanda!

— Dom Claude — explicou-se miseravelmente Gringoire —, são de fato atributos incríveis e me sinto pior do que um gato com a cabeça presa num cesto. Seria péssimo, sei disso, expor os srs. guardas da vigilância à obrigação de vergastar, nessa casaca, o úmero de um filósofo pitagórico. Mas o que fazer, reverendo mestre? A culpa foi do meu anterior gibão, que covardemente me abandonou no início do inverno, a pretexto de se encontrar em frangalhos, querendo ir descansar no amontoado do trapeiro. O que fazer então? A civilização não se encontra no ponto de podermos andar nus, como queria o velho Diógenes. Acrescente-se que soprava um vento bem frio, e não é no mês de janeiro que se pode arriscar a experiência, tentando descobrir se a humanidade já cumpriu algum avanço nesse quesito. Essa casaca se apresentou. Aceitei-a, deixando no lugar a minha antiga, negra, que para um hermético como eu, fechava-se bem pouco hermeticamente. Ou seja, cá estou, vestido de bufão, como são Genésio. O que fazer? É um eclipse. O próprio Apolo teve que guardar o curral de Admeto.

— Que bela ocupação! — disse o arquidiácono.

— Concordo, mestre, mais vale filosofar e poetar, soprar a chama sob o cadinho ou recebê-la do céu, do que carregar gatos na ponta do nariz. Tanto que assim que me chamou me comportei de maneira tão estúpida quanto um asno diante de um bife. Mas o que fazer, querido mestre? É preciso viver cada dia e os mais belos alexandrinos nada valem para os dentes, comparados a um pedaço de queijo de Brie. Como sabe, fiz para a sra. Margarida de Flandres aquele famoso epitálamo que a cidade não me pagou, a pretexto de não ser excelente, como se fosse possível apresentar por quatro escudos uma tragédia de Sófocles. Estava fadado então a morrer de fome. Precisei explicar a meu próprio maxilar:

— Faça truques de força e de equilíbrio, trate de se alimentar. Ale te

ipsam.326 Um bando de malfeitores que vive à margem da sociedade e se tornou amigo me ensinou vinte tipos de truques hercúleos, e agora posso toda noite dar a meus dentes o pão que eles ganharam durante o dia, com o suor da minha testa. No final, concedo, é um mísero emprego para minhas faculdades intelectuais, não tendo, o homem, sido feito para passar a vida batucando e mordendo cadeiras. Entretanto, reverendo mestre, não basta passar pela vida, é preciso ganhá-la.

Dom Claude ouvia em silêncio. De repente, o seu olho profundo assumiu tal expressão sagaz e penetrante que Gringoire se sentiu, por assim dizer, revirado até o âmago da alma.

— Muito bem, mestre Pierre, mas o que tudo isso tem a ver com o fato de estar agora na companhia daquela dançarina do Egito?

— Com a breca! — disse Gringoire. — É a minha mulher e eu o seu marido.

O olho tenebroso do padre se incendiou.

— Atreveu-se a isso, miserável? — ele gritou, agarrando furiosamente o braço de Gringoire. — Foi a tal ponto abandonado por Deus que chegou a pôr as mãos nessa criatura?

— Por minha parte no paraíso, monsenhor! — respondeu Gringoire, com o corpo inteiro sendo sacudido. — Juro que nunca toquei nela, se for o que o preocupa.

— E por que fala então de marido e mulher? — quis saber o padre.

Gringoire se apressou a contar o mais sucintamente possível tudo que o leitor já conhece, desde as desventuras no Pátio dos Milagres até o casamento da moringa quebrada. Tudo indicava, aliás, que o matrimônio continuava sem resultado algum, com a boêmia sempre se furtando à noite de núpcias, como no primeiro dia.

— É um aborrecimento — disse ele, para concluir —, foi uma infelicidade ter me casado com uma virgem.

— O que está dizendo? — perguntou o arquidiácono, que se acalmava na medida em que ouvia.

— É difícil explicar — respondeu o poeta. — Trata-se de uma superstição. Minha mulher, segundo me disse um velho patife a quem entre nós chamamos duque do Egito, foi uma criança abandonada, ou encontrada, o que dá no mesmo. Tem no pescoço um amuleto que, acredita-se, a fará um dia reconhecer os pais, mas o talismã perderia suas virtudes caso ela perca a sua. Donde nos mantermos plenamente virtuosos.

— Quer dizer — insistiu Claude, cujo semblante se iluminava cada vez mais —, mestre Pierre, que homem nenhum, segundo o senhor, se aproximou dessa criatura?

— O que pode, dom Claude, fazer um homem contra uma superstição? Ela tem isso na cabeça. Estimo ser provavelmente uma raridade tal pudicícia de freira se conservar tão ferozmente entre moças boêmias, em geral facilmente conquistadas. Mas ela tem para se proteger três coisas: o duque do Egito, que a tomou sob sua proteção, pensando talvez vendê-la para algum ilustre abade; a sua tribo inteira, que tem por ela uma singular veneração, como se fosse uma Nossa Senhora; e certo punhalzinho que a danada guarda sempre com ela em algum lugar, apesar das ordens do preboste, e que aparece nas suas mãos assim que alguém se aproxima muito. É uma tremenda vespa, acredite!

O arquidiácono crivou Gringoire de perguntas.

Esmeralda era, na opinião de Gringoire, uma criatura inofensiva, encantadora e bonita, apesar de um trejeito particular que tinha. Moça ingênua e apaixonada, tudo ignorando e por tudo entusiasmada, não sabendo ainda o que diferencia uma mulher de um homem, mesmo em sonho. Era a sua natureza. Louca sobretudo por dança, por música, por ar livre. Uma espécie de mulher abelha, com asas invisíveis nos pés e vivendo num turbilhão. Devia tal índole à vida errante que sempre havia levado. Gringoire conseguira saber que, quando criança, tinha percorrido a Espanha e a Catalunha, até a Sicília. Ele inclusive acreditava que fora levada, pela caravana zingari de que fazia parte, até o reino da Argélia, país situado na Acaia, Acaia esta que faz fronteira com a pequena Albânia e a Grécia, margeada também pelo mar das Sicílias, que é o caminho de Constantinopla. Os boêmios, contou Gringoire, eram súditos do rei de Argel, enquanto chefe da nação dos Mouros Brancos. Certo era, todavia, que Esmeralda viera à França bem cedo, pela Hungria. De todos aqueles países, a jovem havia trazido fiapos de línguas bizarras, cantos e ideias estranhas, o que tornava seu linguajar algo tão confuso quanto seus trajes meio parisienses, meio africanos. Além disso, a gente que ela frequentava apreciava sua alegria e delicadeza, seus modos vivazes, danças e canções. Ela achava que, na cidade inteira, apenas duas pessoas a odiavam e frequentemente se referia a isso com horror: a sachette da torre Roland, uma terrível reclusa que tinha não se sabe qual rancor contra as egípcias e amaldiçoava a pobre dançarina toda vez que ela estava ao alcance da sua voz, e um padre que jamais passava por ela sem lançar olhares e palavras assustadores. Essa última informação perturbou muito o arquidiácono, sem que Gringoire prestasse atenção, de tanto que haviam bastado dois meses para que a incúria do poeta esquecesse os detalhes singulares daquela noite em que ele havia seguido a egípcia, com a presença do arquidiácono naquilo tudo. Mas em princípio a pequena dançarina nada tinha a temer, ela não lia a sorte nas mãos das pessoas, escapando assim dos processos por magia que frequentemente eram impetrados contra as ciganas. Além disso, Gringoire a acompanhava como um irmão, já que não podendo ser como marido. E o filósofo, afinal, suportava bem pacientemente aquela espécie de casamento platônico que, no mínimo, já lhe garantia o teto e o pão. Toda manhã, ele partia da terra dos bandidos, em geral com a egípcia, e a ajudava a fazer nas esquinas a colheita de moedas miúdas. Toda noite, voltava com ela ao mesmo abrigo, deixando-a se trancar no seu pequeno cômodo, dormindo em seguida o sono dos justos. Existência bem tranquila, afinal de contas, achava ele, e muito propícia aos devaneios. Além disso, no fundo da alma e em plena consciência, o filósofo não tinha certeza de estar tão apaixonado pela boêmia. Gostava quase que da mesma maneira da cabra. Era um lindo animalzinho: meigo, inteligente, espiritualizado, uma cabra muito instruída. Nada era mais comum, na Idade Média, do que animais amestrados que encantavam a todos, mas que, frequentemente, levavam seus donos à fogueira. Os feitiços da cabra de patas douradas, entretanto, eram marotices bem inocentes. Gringoire as explicou ao arquidiácono, a quem tais detalhes pareciam muito interessar. Bastava, na maioria dos casos, apresentar o pandeiro à cabra, nessa ou naquela posição, para que ela reagisse como lhe tinham ensinado. Fora assim amestrada pela boêmia, que era dotada de um talento tão raro, para tais sutilezas, que precisara de apenas dois meses para ensinar a cabra a escrever com letras soltas o nome Phoebus.

O arquidiácono crivou Gringoire de perguntas.

 

— Phoebus! — exclamou o padre. — Por que Phoebus?

— Não sei — respondeu Gringoire. — Talvez seja uma palavra que ela acredite ter algum poder mágico e secreto. Ela muitas vezes a repete, quando acha estar sozinha.

— Tem certeza — insistiu Claude, com seu olhar penetrante — de que é apenas uma palavra e não um nome?

— Nome de quem? — perguntou o poeta.

— Como vou saber? — respondeu o padre.

— Deixe-me dizer o que imagino, senhor. Esses boêmios são meio

guebros327 e adoram o sol. Por isso Phoebus.

— Isso a mim não parece tão claro assim, mestre Pierre.

— De qualquer forma, não me importo com isso. Que ela sussurre seu Phoebus à vontade. Do que tenho certeza é que Djali já gosta de mim quase tanto quanto dela.

— E quem é essa Djali?

— A cabra.

O arquidiácono descansou o queixo na mão e pareceu perdido em pensamentos, por um momento. De repente, virou-se bruscamente para Gringoire.

— Jura que nunca tocou nela?

— Em quem? — perguntou Gringoire. — Na cabra?

— Não! Nessa mulher.

— Na minha mulher! Juro que não.

— E frequentemente está a sós com ela?

— Toda noite, por pelo menos uma hora.

Dom Claude franziu o cenho.

— Oh! Oh! Solus cum sola non cogitabuntur orare Pater noster.328

— Por minha alma, posso rezar o Pater, a Ave-Maria e o Credo in Deum patrem omnipotentem, sem que, nem por isso, ela se interesse por mim mais do que uma galinha por uma igreja.

— Jure pelo ventre de sua mãe — repetiu o arquidiácono com violência — que não tocou nessa criatura nem com a pontinha do dedo.

— Posso jurar também pela cabeça do meu pai, pois as duas coisas têm mais do que uma relação. Porém, reverendo mestre, permita-me também fazer uma pergunta.

— Diga, meu caro.

— Por que isso o interessa tanto?

O pálido semblante do arquidiácono ficou vermelho como o rosto de uma donzela. Permaneceu mudo por um momento e em seguida disse, com visível embaraço:

— Ouça, mestre Pierre Gringoire. O senhor não caiu ainda em danação, que eu saiba. Interesso-me pelo senhor e quero o seu bem. O menor contato com essa egípcia do demônio o tornaria vassalo de Satanás. Como bem sabe, é sempre o corpo que perde a alma. Pobre do senhor, caso se aproxime dessa mulher! Somente isso.

— Eu tentei uma vez — confessou Gringoire, coçando uma orelha. — Foi no primeiro dia, mas fui rechaçado.

— Teve esse desplante, mestre Pierre?

As feições do padre se assombrearam.

— De outra feita — continuou o poeta, com um sorriso — olhei-a pelo buraco da fechadura antes que se deitasse e vi a pessoa vestindo camisola mais deliciosa que já fez ranger sob o seu pé descalço a mola de uma cama.

— Que o diabo o carregue! — gritou o padre com um olhar terrível, e empurrando pelos ombros Gringoire, que permanecia ainda encantado com a lembrança, enfiou-se, em seguida, com largas passadas, entre as mais sombrias arcadas da catedral.

 

326. “Alimente a si mesmo”, como o “conhece-te a ti mesmo” socrático (nosce te ipsam), em latim no original.

327. Descendentes dos antigos persas, que continuaram a praticar o zoroastrismo.

328. “Sozinhos, não vamos achar que rezem o Padre-Nosso”, em latim no original.