O Corcunda de Notre Dame
Apresentação, por Jorge Bastos
APRESENTAÇÃO
Os fatos narrados em O corcunda de Notre Dame têm início em Paris há
“trezentos e quarenta e oito anos, seis meses e dezenove dias”, diz Victor Hugo nas primeiras linhas do livro, assentando com isso uma espécie de pedra fundamental do romance. Em 6 de janeiro de 1482, uma manhã comum de inverno, nada de extraordinário se registrou. No entanto, vivia-se o fim de uma época e o início de outra.
A Idade Média estava na moda durante as primeiras décadas do século XIX. Era imenso, por exemplo, o sucesso dos romances de Walter Scott, traduzidos do inglês. Sobre um deles, Quentin Durward, Hugo inclusive escreveu um artigo elogioso em 1823, já traçando o esboço do que seria o seu romance medieval, que não se limitaria à narração de aventuras e sim buscaria compor “algo semelhante à vida, [esse] drama estranho em que o bonito e o feio, o bem e o mal se misturam”.
Em 1830, aos 28 anos, pressionado pelo editor a entregar esse grande romance prometido, Victor Hugo já se impunha como o poeta plenamente reconhecido de Odes e baladas e As orientais. Era também o dramaturgo de Cromwell e Marion de Lorme, cuja apresentação fora proibida pela censura um ano antes. No prefácio dessa peça, publicada então em livro, ele previa o surgimento de “um escritor que esteja para Shakespeare assim como Napoleão está para Carlos Magno”. O autor pensava em si mesmo, é claro, no menino que aos quatorze anos havia escrito em seu diário: “Quero ser Chateaubriand ou nada.”
Nesse mesmo ano de 1830, seu amigo Charles Nodier comentava em carta ao também amigo Lamartine: “Minha amizade por ele me faz lamentar a temerária coragem com que se entrega a qualquer oportunidade de publicidade … . Quem aos 27 anos já criou verdadeira seita a seu redor, dificilmente se rende à fria observação da razão.” De fato, o talento de Hugo para a autopromoção definitivamente se evidenciava com os preparativos para a estreia, no prestigioso palco da Comédie-Française, de sua peça Hernani, em evento que acabou passando à história literária como o marco fundador do romantismo na França (a “batalha de Hernani”), opondo de um lado os clássicos e, de outro, toda a nova geração dos românticos.
Ou seja, em 1830 o jovem autor estava em efervescente ascensão, reunindo à sua volta todo um grupo de seguidores. Mas as discussões literárias se estendiam noite adentro na sua casa, o que levou o contrato de locação a ser rescindido e a família Hugo — em franca expansão, com o nascimento próximo do quarto filho (uma menina, Adèle) — a ter que procurar nova moradia. Junto a isso, estourou em Paris a Revolução de 1830, que balançou profundamente a percepção social do futuro autor de Os miseráveis, até então um bem-comportado e ambicioso frequentador da corte, favorecido por uma pensão do Estado graças a odes escritas em homenagem à realeza. O abalo foi realmente grande e, nesse período, ele escreveu: “Minhas antigas convicções monarquista e católica de 1820 estão se desmanchando com a idade e a experiência. Resta algo delas, mas não passam de religiosa e poética ruína. Recolho-me ainda às vezes, considerando-as com respeito, mas não rezo mais por elas.”
Com tanta coisa acontecendo no seu dia a dia, foram duras as negociações com o editor, e o romance encomendado um ano antes foi escrito em pouquíssimos meses (a partir, é verdade, de volumosas anotações e leituras) para evitar pesadas multas por cada semana de atraso. A pressão gerou mágoas e não foi exatamente por falta de tempo que as sete primeiras edições de Notre Dame de Paris, 1482, título inicial do livro, foram a público com três capítulos a menos do que a oitava e “definitiva” edição de 1832, já comercializada por outro editor.
O imenso sucesso do romance garantiu a Victor Hugo uma glória literária — apesar de as críticas publicadas à época serem predominantemente negativas — que não pararia de crescer. Justiça seja feita, uma das suas mais perfeitas obras-primas foi a construção de si próprio como personagem. Ultrapassou amplamente a meta inicial de ser Chateaubriand, mas não de modo passivo e confortável, seguindo o fluxo da história ou apenas o talento literário. O monarquista ultraconservador e católico da juventude, espelhando-se ainda em Chateaubriand, evoluiu até se tornar, na idade madura e na velhice, o símbolo vivo de um republicanismo anticlerical.
Mesmo no isolamento do exílio, mais tarde, Victor Hugo nunca deixou de ser um ativo e inquieto “agitador”, sempre contrariando as formas conservadoras inicialmente assumidas. Isso ficou muito claro a partir de 1846, quando acentuou sua atuação política, marcada por um pensamento complexo e particular, distante do maniqueísmo partidário e recusando qualquer tipo de condenação individual. Ao ser proclamada a República, em 1848, apesar de oficialmente se posicionar ainda a favor da Monarquia, ele foi convidado a assumir — e recusou — o Ministério da Instrução Pública (Educação) do governo provisório. Elegeu-se deputado pelo partido conservador, mas já no ano seguinte suas posições o faziam frequentemente ser vaiado por sua própria bancada e aplaudido pelos socialistas, ao fazer campanha contra a miséria — “Não estou entre os que acreditam ser possível suprimir o sofrimento neste mundo, o sofrimento é uma lei divina, mas me incluo entre os que creem e afirmam poder destruir a miséria” — e ao defender a obrigatoriedade do ensino público e laico — “A obrigação da escola é um direito da criança”. Era ainda pública e notória, pelo menos desde que publicara a novela O último dia de um condenado, sua oposição à pena de morte.
Hugo apoiou a candidatura presidencial de Luís Napoleão Bonaparte, que se elegeu com ampla margem de votos, graças ao nome do tio famoso. Em dezembro de 1851, porém, o príncipe-presidente, como era chamado, deu um golpe de Estado que desembocou, menos de um ano depois, na instauração do Segundo Império na França, ocasião em que ele assumiu o título de Napoleão III (Napoleão II, filho do imperador destituído em 1815, não chegou a governar).
O escritor participou de forma ativa do Comitê de Resistência então criado e teve formalizada a sua expulsão do país. Admitindo enfim a impossibilidade de qualquer reação popular, depois de perambular como clandestino por vários dias pelas ruas da cidade, fugiu para Bruxelas com passaporte falso, começando uma longa vida de exílio e recusando — em 1859 e 1869 — a anistia concedida pelo imperador. Escreveu e publicou regularmente artigos numa série que intitulou Napoleão o Pequeno, numa ironia a Napoleão o Grande, como era chamado o tio. Em carta de 17 de novembro de 1852, o escritor Alexandre Dumas, outro grande nome do romantismo francês, anotou: “Fazemos entrar milhares de Napoleão o Pequeno; um amigo acaba de contrabandear duas dúzias dentro de um busto do próprio imperador…” (um imperador, aliás, sarcástico, pois teria reagido aos panfletos dizendo a seus cortesãos: “Vejam, senhores, Napoleão o Pequeno, de Victor Hugo o Grande!”). Tal militância fez o escritor ser expulso da Bélgica e em seguida da ilha de Jersey, mudando-se então para a ilha vizinha de Guernesey, ambas britânicas, no canal da Mancha e próximas o bastante para que se visse a olho nu o litoral francês. O período em Guernesey é considerado o mais rico, original e contundente de toda a produção literária de Victor Hugo.
Esposa, filhos e a amante Juliette Drouet acompanharam em todo esse périplo o “proscrito”, como se denominavam os republicanos foragidos. Uma sólida rotina se estabelece em torno da maciça e contínua atividade do escritor, isolado no alto de uma torre envidraçada, que ele mandou construir e de onde dizia ser um formidável espetáculo assistir às tempestades no mar. Para manter-se desperto física e intelectualmente, ele aderiu às práticas de jogar uma cuia de água gelada na nuca, três ou quatro vezes por dia, mesmo em pleno inverno, e de nadar no mar. Esposa e filhos se entediavam na ilha. Juliette Drouet, morando numa casa vizinha, aos poucos deixou de ser amante, mantendo-se sua interlocutora mais fiel, inspiradora dos mais célebres poemas de As contemplações, sendo também uma espécie de secretária que transcrevia todos os textos do escritor. Foi se tornando obsessiva a sexualidade de Hugo, que pagava prostitutas e criadas domésticas, mantendo um minucioso relatório codificado dessa atividade, até anos tardios da velhice.
Um dado insólito nesse período foi o entusiasmo pelo que, na época, chamavam-se “mesas giratórias”, experiências espíritas através das quais Hugo conversou com as almas não só de pessoas ilustres, como Voltaire, Rousseau, Napoleão I (que nessa ocasião chamou o sobrinho de “traidor”), Maquiavel, Chateaubriand, Jesus etc., mas também com alegorias como Sombra do Sepulcro, Drama, Morte, Poesia…
A produção literária do eLivros é prolífera: Os castigos, As contemplações, A legenda dos séculos, Os miseráveis e, homenageando os marinheiros de Guernesey, Os trabalhadores do mar. Mas deve-se acrescentar também seu talento de desenhista, cultivado como “diversão” por toda a vida. Durante a expatriação, claramente influenciados pelo convívio de Hugo com o mar, os desenhos foram ganhando uma dimensão mística e até fantástica, fazendo com que Baudelaire, no texto sobre o Salão de 1859, escrevesse: “Não vi entre os artistas que expõem nada que se compare à magnífica imaginação dos desenhos de Victor Hugo. Refiro-me àqueles em nanquim, pois é evidente que em poesia nosso poeta é o rei dos paisagistas.” Mas o proscrito se dedicava cada vez mais a problemas da atualidade, não só política, mas social, filosófica e até econômica. O mundo inteiro passou a consultá-lo sobre os assuntos mais diversos e o seu aval tinha o peso ético de quem se colocara acima do bem e do mal.
Desde os anos na Assembleia Legislativa, Hugo defendeu a ideia de uma União Europeia, pela qual militou até o fim da vida (plantou em Guernesey um “carvalho dos Estados Unidos da Europa”), centrada no eixo do rio Reno. Em 1870, porém, estourou a guerra franco-prussiana e ele, apesar de condená-la como “guerra de caprichos políticos e não de liberdade”, acorreu a Bruxelas (para estar “mais próximo”), onde soube da derrota e consequente prisão de Napoleão III na frente de batalha.
A República foi reproclamada na França, mas a guerra continuou. O eLivros enfim voltou a Paris, onde uma multidão foi recebê-lo à chegada do trem, na expectativa de um pronunciamento. Do alto da varanda da estação, ele discursou: “Duas grandes coisas me chamaram. A primeira, a República. A segunda, o perigo. Unamo-nos ao redor da República, é pela fraternidade que se salva a liberdade.” Mas o exército de Bismarck também já estava às portas da cidade, e teve início o cerco da capital, um dos períodos mais cruéis por que passou a população parisiense na modernidade.
O patriotismo tomou então a dianteira sobre o pacifismo e foi intensa a participação do velho agitador na resistência, sem aceitar, porém, qualquer cargo político no governo que se formara às pressas. Organizaram-se leituras de Os castigos, e os direitos autorais iam para a fabricação de canhões (um deles recebeu o nome de Victor Hugo). Nos muros da cidade liam-se cartazes com seu “Apelo aos alemães, aos franceses, aos parisienses”. Foi quando se começou a comer carne de cavalo em Paris (dos animais mortos nas batalhas) e um rato, segundo as anotações de Hugo, custava oito centavos, uma cebola, um centavo, assim como uma batata. “Anteontem comemos carne de urso, um presente do Jardim Zoológico”, ele escreveu.
No início de 1871, o governo provisório capitulou. Hugo se candidatou e foi o segundo deputado mais votado para a Assembleia Legislativa, passando a presidir o grupo de esquerda radical. Um mês depois, renunciou ao mandato, em protesto contra a paz assinada com a Alemanha, em que a França perdeu as regiões da Alsácia e da Lorena, só recuperadas quase meio século depois, com o fim da Primeira Guerra Mundial. O clima em Paris era de insurreição. Soldados se amotinaram e se juntaram à Guarda Nacional, que se recusara a entregar seus canhões. A Comuna de Paris foi decretada. Consultado, Victor Hugo rejeitou-a: “Tomem cuidado, estão saindo de um direito para ingressar num crime!” Com a ameaça de guerra civil, ele voltou para Bruxelas.
Ver os franceses se entrematarem diante do inimigo alemão, que ainda ocupava a França, era-lhe desesperador: “A Comuna é tão feroz quanto a Assembleia é idiota!” A insurreição em Paris terminou em massacre e Victor Hugo foi novamente expulso da Bélgica, por protesto em carta aberta ao governo, que se recusava a oferecer asilo aos vencidos foragidos da França. Refugiou-se no grão-ducado de Luxemburgo. Seu nome teve expressiva votação em novas eleições realizadas na França, mesmo sem ele estar inscrito como candidato. Ao ser informado, escreveu: “Fico muito comovido. Quem apenas cumpre seu dever em geral é abandonado.”
Mas ele voltou.
Na década de 1870, a França se recuperou das perdas da guerra e dos tumultos da Comuna. Voltou à satisfação burguesa e Victor Hugo também se acomodou na velhice, dedicado aos netos, cuja guarda ganhara após a morte do filho. Escreveu, depois de O ano terrível (1871), A arte de ser avô. Elegeu-se ainda senador da República, da qual se tornou figura tutelar, além de inconteste referência literária. Era um herói da humanidade. Todos queriam vê-lo, sendo constantes as homenagens (o imperador d. Pedro II foi visitá-lo em Paris, em 1877, e teria dito, ao ser chamado de “majestade”: “Há apenas uma majestade aqui: Victor Hugo!”).
Ao completar 79 anos, dezenas de milhares de pessoas desfilaram diante das suas janelas, muitas vindas em delegações enviadas de outras regiões da França. Celebrava-se o início do octogésimo ano do poeta! Flores se amontoaram diante da casa. Bandas de música tocavam A marselhesa e gritava-se “Viva Victor Hugo!”. Nem estava morto e o Conselho Municipal de Paris acabava de votar, dando “à parte principal da avenida Eylau o nome de avenida Victor Hugo”. Era onde ele morava.
Em 31 de agosto, o poeta escreveu seu testamento: “Deus, a alma e a responsabilidade; essa tripla noção basta ao homem, é a verdadeira religião …. Rejeito oração de qualquer igreja, mas aceito de todas as almas. Desejo ser levado ao cemitério no caixão dos pobres.” Doou 40 mil francos aos necessitados e todos os seus manuscritos e desenhos à Biblioteca Nacional de Paris. Garantiu à filha Adèle os 8 mil francos anuais necessários para o seu sustento no manicômio em que estava internada (era a única ainda viva, tendo os três outros filhos e a esposa morrido). À “corajosa mulher que, durante o golpe de Estado, me salvou a arca contendo meus manuscritos e a vida, pondo em perigo a sua” também foi deixada uma pensão, mas Juliette Drouet afinal morreria antes dele.
Quatro anos depois, em 1885, Victor Hugo morreu. Uma multidão acompanhou sua agonia. Foi decretado luto nacional e feriado. Decidiu-se que o corpo seria velado sob o Arco do Triunfo e em seguida encaminhado em cortejo ao Panteão. De diferentes cidades, de diversos países vieram 185 delegações. Desfilaram 107 “sociedades esportivas”, ao som de clarins e tambores. O carro mortuário dos indigentes (como quisera o poeta) destoava à frente do cortejo de ministros, embaixadores e acadêmicos. Calcula-se que um milhão de pessoas viram passar o “caixão dos pobres”, indo da Champs-Élysées à rua Soufflot, passando pelos bulevares Saint-Germain e Saint-Michel. Houve revoada de pombos e soldados apresentando armas…
Notre Dame de Paris, 1482 era então o título original da obra concebida por Victor Hugo e publicada no início de 1831. Na França, ao longo de sucessivas edições, a data foi perdendo a importância, passou a subtítulo e acabou desaparecendo por completo da capa. De fato, 1482 era um mero indicativo para o fim de uma era que assistiu à invenção da imprensa e logo acompanharia a descoberta da América e a Reforma.
O que importa no romance é a evocação visual do cenário urbano de uma Paris ainda gótica, em que os personagens, porém, já estão distantes do estado de espírito que havia construído tantos edifícios monumentais. É a caracterização de uma época em que, graças à invenção de Gutenberg, o pensamento humano deixava uma forma de expressão para assumir outra, como tão magistralmente é desenvolvido no capítulo “Isto matará aquilo”, que traça um panorama da arquitetura através dos séculos e das civilizações (não por acaso, este capítulo, que de forma sintomática começa desculpando-se com “as leitoras” pela interrupção da trama romanesca, é justamente um daqueles “extraviados” e só impresso após a mudança de editor).
Mas do ponto de vista do livro propriamente, como objeto físico, mais radical foi a troca do título, mudado para O corcunda de Notre Dame já na tradução inglesa de 1833. A mudança não desagradou tanto ao escritor, que, diga-se, tinha muito tino comercial, e essa escolha foi posteriormente adotada mundo afora, inclusive no Brasil.
Na composição do romance, Hugo utiliza com visível prazer nomes próprios e vocabulário diretamente extraídos das suas fontes históricas, mas sem abuso e sem querer criar um “estilo neogótico”, mantendo-se fiel à diretriz anunciada ao escrever sobre Walter Scott e buscando “algo semelhante à vida, em que o bonito e o feio, o bem e o mal se misturam”. Estamos longe do mero romance de aventuras. A ficção restaura a cidade e a catedral num momento — os seis primeiros meses do ano de 1482 — que nunca existiu propriamente, a não ser na trama de Hugo, para descrever o período social em que “a grande obra da humanidade não mais será construída, será impressa”. E Notre Dame, como edifício de transição de estilos, se apresenta “entre as velhas igrejas de Paris, uma espécie de quimera: tem a cabeça de uma, os membros de outra, o traseiro de uma terceira — e algo de todas”. É uma monstruosidade, mas exprime uma nuance da arte que, sem isso, se perderia.
Esse senso de monstruosidade, em que o feio e o sublime se misturam, está encarnado no sineiro da catedral, o corcunda Quasímodo. Entre os personagens, o arquidiácono Claude Frollo, a cigana Esmeralda, o poeta Pierre Gringoire e o capitão de Châteaupers simbolicamente têm tanta importância quanto Quasímodo, mas a monstruosidade faz dele um elemento tão medieval (como a cabra Djali) quanto a própria catedral, da qual ele “havia assumido a sua forma, como o caramujo toma a forma da concha”.
Victor Hugo, como foi dito, não “inventou” em 1831 a Idade Média, mas seu romance consolidou uma ideia e um estado de espírito que influenciaram o restauro da própria catedral, que teve início a partir de 1845. Foi uma grande vitória do escritor, que insistentemente reivindicava a proteção dos monumentos históricos, em artigos com títulos como “Guerra aos demolidores” (de fato, havia então o projeto de simplesmente se pôr abaixo a igreja, como se fez com o prédio do arcebispado, nos fundos de Notre Dame). Coube ao arquiteto Viollet-le-Duc comandar a restauração, estabelecendo normas duradouras para a reconstituição e valorização dos edifícios medievais. As gárgulas de escoamento das águas pluviais que ainda vemos hoje, por exemplo, parecem sair diretamente do imaginário romanesco de Hugo — têm um papel preponderante na trama e na ambientação de O corcunda —, harmonizando com perfeição fidelidade histórica e criatividade artística. Também a escultura “gótica” mais conhecida da catedral de Paris, A estrige, a quimera fantástica e diabólica, verdadeiro cartão-postal da cidade, que parece observar a capital e ameaçadoramente julgar seus habitantes, foi — assim como as gárgulas, demais estátuas e vitrais — realizada a partir de desenhos do arquiteto.
Dentre os aspectos de rigor científico e erudição do romance, chamam atenção as referências arquitetônicas e, mais ainda, as alquímicas, que vão além do simples colorido pitoresco e guiam toda a trama, marcada pela fatalidade. É visível o fascínio do escritor pela visão de mundo fisicista, com o “hermetismo” transparecendo em frequentes tiradas humorísticas resultantes dessa lógica organizadora do universo, mas também em detalhes de combinação de cores e até no nome mesmo da heroína, que pode remeter à tábua de esmeralda — resumo do Corpus hermeticum, conjunto de textos sagrados com ensinamentos sobre artes, ciência, religião e filosofia, datado do início da era cristã e atribuído ao deus greco-egípcio da escrita e da magia, Hermes Trismegisto. E são muitas as projeções do autor no personagem do arquidiácono Frollo — e, em menor escala, no do poeta Gringoire —, bem como várias outras intenções suas que se inscrevem nas linhas do romance, por influência da Revolução de 1830, que tornou a trama mais “revolucionária” e, sobretudo, anticlerical.
A tradução propriamente do romance não apresenta maiores problemas além do esforço que mesmo o leitor francês médio é obrigado a fazer lendo o original, se quiser seguir de perto os caprichos estilísticos e eruditos, mas principalmente os enxertos “de época” que Victor Hugo faz no romance, sem se preocupar muito em especificar a citação. Ou ainda nas frases longuíssimas em que vão se acrescentando, entre vírgulas, novas ideias, para somente vinte linhas depois voltar à proposição inicial (o que a tradução moderna às vezes pode vantajosamente remediar, preocupando-se com a respiração do leitor atual). Trata-se, enfim, de um grande romance da “idade heroica” dos grandes romances, entre o clássico e o folhetim, quando as regras da arte estavam sendo ainda estabelecidas. E Victor Hugo, junto com Balzac, Dumas e alguns outros, foi um dos seus mais importantes construtores.
Lembraríamos, para concluir, que há clássicos dos quais ouvimos falar a partir de adaptações infantis e que se revelam, no original “adulto”, bem diferentes do que se imaginava. Em Moby Dick, após centenas de páginas lidas, o leitor de repente para e se pergunta, com surpresa: “Mas cadê a baleia?” Da mesma maneira, Quasímodo e Esmeralda custam a surgir na narrativa de O corcunda de Notre Dame. A própria catedral demora ainda mais. A trama, descobre-se, vai muito além do amor impossível (e não correspondido) de uma fera por uma bela. No final das contas, se voltarmos ao título original — Notre Dame de Paris, 1482 — veremos que a sua parte mais precocemente abandonada, a data aparentemente insípida e desimportante, é o que mais maciçamente se impõe nas centenas de páginas de apaixonante leitura desse romance histórico.
JORGE BASTOS
JORGE BASTOS é tradutor, responsável por quase cinquenta traduções, dentre elas a biografia Victor Hugo (2 vols.), de Max Gallo, o ensaio Victor Hugo na arena política, de Michel Winock, e obras de autores como Voltaire, Raymond Aron, Michel Serres, Elie Wiesel e Amin Maalouf. Foi livreiro e editor, e é autor de Atrás dos cantos e O deserto e as tentações de santo Antão.