O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 54 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

Livro dez

1. Gringoire tem uma série de boas ideias, andando pela

rua des Bernardins

 

Tendo percebido que o andamento de todo aquele caso irremediavelmente

levaria à corda, à forca e a outros contratempos os personagens principais daquela comédia, Pierre Gringoire procurou não mais se envolver. Os bandidos, entre os quais preferira continuar — achou que, afinal, formavam a melhor vizinhança de Paris, por mais bandidos que fossem —, se interessavam ainda pela egípcia. O poeta considerou normal essa atitude, pois eram pessoas que, como ela própria, tinham apenas Charmolue e Torterue como perspectiva, e não cavalgavam, como ele, nas asas de Pégaso. Pelos companheiros, soubera que sua esposa da moringa quebrada se asilara em Notre Dame e isso o tranquilizava. Mas sequer ficara tentado a ir vê-la. Às vezes pensava na cabritinha, mas não mais do que isso. Além do quê, durante o dia ele fazia exibições de força para seu sustento e, à noite, lucubrava um texto contra o bispo de Paris, recordando-se, com rancor, de ter sido encharcado pelas rodas dos seus moinhos. Dedicava-se também ao comentário da bela obra de Baudry le Rouge, bispo de Noyon e

de Tournay, De cupa Petrarum,416 que lhe havia aberto um violento gosto pela arquitetura, inclinação que substituiu, no seu coração, a paixão pelo hermetismo, sendo uma, aliás, corolário natural da outra, pois há uma ligação íntima entre o hermetismo e a alvenaria. Gringoire havia passado do amor por uma ideia ao amor pela forma dessa mesma ideia.

Um dia, ele parou perto de Saint-Germain-l’Auxerrois, à esquina de um prédio conhecido como For-l’Évêque, que ficava de frente a outro,

conhecido como For-le-Roi.417 Havia, no primeiro, uma graciosa capela do século XIV, cujo altar dava para a rua. Gringoire devotamente examinava suas esculturas externas. Tratava-se de um desses momentos de prazer egoísta, exclusivo e supremo, em que o artista só vê, em todo o mundo, a arte, e vê na arte o mundo inteiro. De repente, sentiu uma mão gravemente descer sobre o seu ombro. Virou-se. Era o antigo amigo e antigo mestre, o sr. arquidiácono.

Ficou estupefato. Há muito tempo não via dom Claude e o arquidiácono era uma dessas pessoas solenes e intensas, cujo encontro sempre perturba o equilíbrio de um filósofo cético.

O religioso se manteve em silêncio por certo tempo, durante o qual Gringoire pôde, à vontade, observá-lo. Achou-o bem mudado, pálido como uma manhã de inverno, olhos cavos, cabelos quase brancos. Dom Claude foi o primeiro a finalmente romper o silêncio, dizendo com um tom tranquilo, mas glacial:

— Como tem passado, mestre Pierre?

— De saúde? — respondeu Gringoire. — Ora, ora! Pode-se dizer isso ou aquilo, mas, de modo geral, o conjunto vai bem. Sabe, mestre? Nada faço em exagero. O segredo para se estar bem, segundo Hipócrates, id est: cibi,

potus, somni, Venus, omnia moderata sint.418

— Não tem, então, preocupação alguma, mestre Pierre? — insistiu o arquidiácono, olhando fixamente Gringoire.

— Por Deus, acho que não.

— E o que faz agora?

— Como pode ver, mestre, examino o talhe dessas pedras e a maneira como foi incrustado o baixo-relevo.

O padre sorriu, um tipo de sorriso amargo que move apenas uma das extremidades da boca.

— E isso o satisfaz?

— É o paraíso! — exclamou Gringoire que, debruçando-se sobre as esculturas, com a expressão deslumbrada de um demonstrador de fenômenos vivos, acrescentou: — Não acha, por exemplo, que essa metamorfose de baixo-relevo foi executada com muita habilidade, delicadeza e paciência? Olhe só essa coluneta. Em torno de qual capitel já se viram folhas mais tenras e mais acarinhadas pelo cinzel? Veja essa três relevos de Jean Maillevin. Não chegam a ser as melhores obras desse grande gênio; mesmo assim, a ingenuidade, a suavidade dos rostos, a alegria das atitudes e dos drapeados, assim como o adorno inexplicável que se inclui nos defeitos, tornam as pequenas figuras alegres e delicadas, quem sabe até demais. Não acha formidável?

— Com certeza! — disse o padre.

— Principalmente se vir o interior da capela! — retomou o poeta, num falatório entusiasmado. — Esculturas por todo lugar. Como o miolo de um repolho, de tão denso! A abside tem uma maneira devota e particular, como nunca vi igual em outro lugar!

Dom Claude o interrompeu:

— Sente-se, então, feliz?

Gringoire respondeu com entusiasmo:

— Por Deus, sinto-me! Comecei amando mulheres, depois bichos. Agora amo pedras. É tão satisfatório quanto os bichos e as mulheres, e menos pérfido.

O padre levou a mão à testa. Era o seu gesto habitual:

— De fato!

— Venha ver! — disse Gringoire. — É algo que proporciona muito prazer!

Tomou o braço do padre que se dispunha a ir embora e o fez entrar na torrezinha da escada de For-l’Évêque.

— Isso sim é uma escada! Cada vez que a vejo, fico feliz. Tem os degraus mais simples e mais raros de Paris. Todos são obliquamente talhados por baixo. A beleza e a simplicidade estão nessas pontas, de cerca de mais ou menos um pé, entrelaçadas, incrustadas, encaixadas, encadeadas, engastadas, entrecortadas uma na outra, se entredevorando de maneira realmente clara e bonita!

— E não deseja mais nada?

— Nada.

— Nada lamenta?

— Nem lamento nem desejo. Dei um jeito na vida.

— O que os homens ajeitam — disse Claude — as coisas desajeitam.

— Sou um filósofo pirrônico — respondeu Gringoire — e mantenho tudo em equilíbrio.

— E como ganha a vida?

— Faço ainda, aqui e ali, epopeias e tragédias; mas o que melhor me sustenta é a indústria de que foi testemunho, meu mestre. Erguer pirâmides de cadeiras com os dentes.

— A profissão é bem grosseira, para um filósofo.

— Baseia-se ainda no equilíbrio — disse Gringoire. — Quando temos um pensamento, o encontramos em tudo.

— Bem sei — respondeu o arquidiácono.

Após um silêncio, o padre retomou:

— Mas continua ainda miserável?

— Miserável sim; infeliz não.

Nesse momento, ouviu-se um barulho de cavalos e nossos dois interlocutores viram desfilar, na ponta da rua, uma companhia de arqueiros da ordenança do rei, de lanças em riste e seu oficial à frente. A brilhante cavalgada ressoava na pavimentação.

— Como olha para aquele oficial! — disse Gringoire ao arquidiácono.

— Acho que o conheço.

— Como se chama?

— Creio que Phoebus de Châteaupers — disse Claude.

— Phoebus! Curioso, como nome! Há também um Phoebus, conde de Foix. Lembro-me de uma jovem para quem era um nome santificado.

— Venha comigo — disse o padre. — Tenho algo a lhe dizer.

Desde a passagem da tropa, certa agitação se revelava sob a aparência glacial do arquidiácono. Ele começou a andar. Gringoire o seguia, acostumado a obedecê-lo, como todos que alguma vez tivessem se aproximado daquela forte personalidade. Chegaram em silêncio à rua des Bernardins, que estava bastante deserta. Dom Claude parou.

— O que tem a me dizer, mestre? — perguntou Gringoire.

— Não acha — foi a vez do arquidiácono perguntar, parecendo em profunda reflexão — que os trajes daqueles cavaleiros que acabamos de ver são mais bonitos do que o seu e o meu?

Gringoire balançou a cabeça.

— Por Deus! Prefiro minha túnica amarela e vermelha a essas escamas de ferro e aço. Grande prazer, esse de fazer tanto barulho andando quanto

faria o cais das Ferragens419 durante um terremoto!

— Quer dizer, Gringoire, que nunca sentiu inveja desses belos rapazes com gibões de guerra?

— Inveja de quê, sr. arquidiácono? Da força, da armadura, da disciplina? Mais valem a filosofia e a independência esfarrapada. Melhor ser cabeça de mosca do que rabo de leão.

— Acho bem singular — disse o padre, pensativo. — Um belo uniforme, no entanto, impressiona.

Vendo-o divagar, Gringoire deixou-o para admirar o pórtico de uma casa ali perto. Voltou batendo palmas.

— Se deixar um pouco de lado os belos trajes dessa gente da guerra, sr. arquidiácono, pediria que visse essa porta. Eu sempre disse, a casa do sr. Aubry tem a entrada mais admirável do mundo.

— Pierre Gringoire — disse o arquidiácono. — O que fez daquela pequena dançarina egípcia?

— Esmeralda? Que mudança brusca de assunto.

— Não era sua mulher?

— Exato, graças a uma moringa quebrada. Devia durar quatro anos. Aliás — disse Gringoire, olhando para o arquidiácono com ares quase que de zombaria —, ainda se lembra disso?

— E o senhor, não se lembra?

— Pouco. Tenho tantas outras coisas… Mas como era bonita a cabritinha!

— A boêmia não lhe tinha salvado a vida?

— Isso é bem verdade.

— Muito bem! E que fim levou? O que fez dela?

— Não sei dizer. Acho que foi enforcada.

— Acha?

— Não tenho tanta certeza. Quando vi que tinham intenção de enforcar pessoas, me afastei.

— É só o que sabe?

— Espere um pouco. Disseram-me que se asilou em Notre Dame e que lá se encontra em segurança. Fiquei contente, mas não pude descobrir se a cabra também tinha sido salva. É tudo que sei.

— Pois posso lhe contar mais do que isso — gritou dom Claude, com uma voz, que até então era baixa, lenta e quase surda, bruscamente estrondeante. — Ela de fato se refugiou em Notre Dame. Mas dentro de três dias a justiça a terá de volta e vai enforcá-la na Grève. Há um decreto do Parlamento.

— É pena — disse Gringoire.

Num piscar de olhos, o padre voltara a estar frio e calmo.

— E quem, diabos — continuou o poeta —, resolveu solicitar a reintegração? Não podiam deixar o Parlamento em paz? Que diferença faz que uma pobre moça se abrigue sob os arcobotantes de Notre Dame, ao lado dos ninhos de andorinha?

— Há satãs no mundo — respondeu o arquidiácono.

— É coisa realmente horrível — observou Gringoire.

O arquidiácono voltou à carga, após um silêncio:

— Então, ela salvou a sua vida?

— Lá na terra dos meus bons amigos bandidos. Por um triz não fui enforcado. Hoje em dia, estão contentes.

— E não quer fazer alguma coisa por ela?

— Gostaria muito, dom Claude. Mas e se, com isso, eu me meter em algum negócio que traga consequências ruins?

— Que importância tem?

— Como, que importância? Muito simpático da sua parte, mestre! Tenho duas grandes obras começadas.

O padre bateu na testa. Apesar da calma que procurava demonstrar, de vez em quando algum gesto violento revelava seus tumultos interiores.

— Como salvá-la?

Gringoire sugeriu:

— Mestre, posso responder: Il padelt, o que significa, em turco: Deus é nossa esperança.

— Como salvá-la? — repetiu Claude, num devaneio.

Gringoire, por sua vez, bateu na testa.

— Ouça, mestre. Tenho muita imaginação. Vou encontrar soluções. Se pedíssemos ao rei uma graça?

— A Luís XI? Uma graça?

— Por que não?

— É como tirar um osso da boca de um tigre!

Gringoire se pôs a procurar novas soluções.

— Pois bem! Veja! Não quer que eu encaminhe às matronas um pedido,

declarando que a jovem está grávida?420

A proposta fez faiscar a cava pupila do padre.

— Grávida! Estranho! Está sabendo de alguma coisa?

Gringoire se assustou com a reação do prelado e se apressou a dizer:

— Ah! Não de mim! Nosso casamento foi um verdadeiro foris-

maritagium.421 Fiquei de fora. Mas ganharíamos uma prorrogação.

— Maluquice! Infâmia! Cale-se!

— Não devia se irritar — resmungou Gringoire. — Um adiamento não faria mal a ninguém e daria às matronas um ganho de quarenta deniers parisis; são mulheres pobres!

O padre não ouvia.

— Ela precisa, em todo caso, sair de lá — murmurou. — O decreto deve se executar em três dias. Mas Quasímodo continuaria por perto! As mulheres têm gostos bem depravados!

Aumentou o tom da voz:

— Mestre Pierre, pensei bem. Só tem um meio de salvação para ela.

— Qual? Pessoalmente, não vejo qual.

— Ouça, mestre Pierre, lembre-se de que lhe deve a vida. Vou contar com toda franqueza minha ideia. A igreja fica sob vigilância noite e dia. Só deixam sair quem foi visto entrar. Nada impede que o senhor venha e eu o levarei, então, até ela. Trocarão suas roupas. Sua esposa ficará com o seu gibão e o senhor com a saia dela.

— Até aí, tudo bem — observou o filósofo. — E depois?

— E depois? Depois ela sairá com as suas roupas e o senhor ficará com as dela. Pode ser que o enforquem, mas ela será salva.

Gringoire coçou uma orelha, parecendo muito sério.

— Realmente, é uma ideia que não me passaria pela cabeça sem a sua ajuda.

A inesperada proposta de dom Claude fez o semblante normalmente aberto e tranquilo do poeta bruscamente se fechar, como a sorridente paisagem da Itália quando sopra um vento indesejado, empurrando uma nuvem contra o sol.

— E então, Gringoire? O que acha do plano?

— Não acho, meu mestre, que pode ser que me enforquem, mas que indubitavelmente me enforcarão.

— Isso não importa.

— Como assim?! — espantou-se Gringoire.

— Ela salvou a sua vida. É uma dívida que estará pagando.

— Tenho muitas outras que nem por isso pago!

— Mestre Pierre, é absolutamente necessário.

O arquidiácono falava com toda segurança.

— Ouça, dom Claude — respondeu o poeta consternado. — O senhor gosta dessa ideia, mas ela não é boa. Não vejo por que aceitaria ser enforcado no lugar de outra pessoa.

— O que tem o senhor, para se sentir tão ligado à vida?

— Ah! Mil razões!

— Por favor, quais?

— Quais? O ar, o céu, a manhã, o fim de tarde, meus bons amigos bandidos, as farras com as mulheres fáceis, as belas arquiteturas de Paris a estudar, três livros volumosos a escrever, sendo um deles contra o bispo e seus moinhos; não faltam coisas. Anaxágoras dizia estar no mundo para admirar o sol. Além do mais, tenho a felicidade de passar meus dias, da manhã à noite, com alguém de gênio, que sou eu. E isso é bem agradável.

— Que bufão! — resmungou o arquidiácono. — E essa vida que você torna tão interessante, quem lhe proporcionou? A quem deve o fato de estar respirando esse ar, vendo esse céu e poder ainda distrair esse seu espírito de andorinha com risadas e loucuras? Sem ela, onde estaria? Quer deixar que morra aquela graças a quem está vivo? Que morra uma criatura bonita, doce, adorável, necessária para a luz do mundo, mais divina do que Deus! Enquanto você, meio sábio e meio idiota, esboço malfeito de não se sabe o quê, espécie de vegetal que acha ser capaz de andar e pensar, vai continuar a viver com a vida que roubou, tão inútil quanto uma vela à luz do meio-dia? Vamos, piedade, Gringoire! Seja por sua vez generoso, como ela foi.

O padre estava sendo veemente. Gringoire ouviu, primeiro com ares indeterminados, depois amoleceu e acabou esboçando um gesto trágico que fez sua pálida figura parecer a de um recém-nascido com dor de barriga.

— O senhor é patético — concluiu o padre, enxugando uma lágrima.

— Bom! Pensarei nisso. É uma ideia esquisita essa, mas, afinal — continuou ele, após um silêncio —, quem sabe? Talvez não me enforquem. Nem sempre acontece o esperado. Quando me encontrarem naquele cubículo, tão grotescamente vestido, de saia e touca na cabeça, talvez caiam na gargalhada. Além disso, se me enforcarem, ora! A corda é uma morte como outra qualquer. Na verdade, nem mesmo. É uma morte digna para o sábio que oscilou a vida inteira, uma morte mais ou menos, como o espírito do verdadeiro cético, uma morte impregnada de pirronismo e hesitação, a meio caminho entre o céu e a terra, que nos deixa em suspensão. Uma morte de filósofo, à qual eu talvez estivesse predestinado. É magnífico, para alguém, morrer como viveu.

O padre o interrompeu:

— Estamos combinados?

— O que, afinal, é a morte? — continuou Gringoire com exaltação. — Um mau momento, um pedágio, passagem do pouco para o nada.

Perguntaram a Cercidas de Megalópoles422 se ele morria com prazer. “Por que não?”, ele respondeu. “Morto encontrarei grandes homens: Pitágoras, entre os filósofos, Hecateu, entre os historiadores, Homero, entre os poetas, Olimpo, entre os músicos.”

O arquidiácono estendeu-lhe a mão.

— Temos um trato? Venha amanhã de manhã.

O gesto levou Gringoire de volta à realidade.

— Ah, por Deus, não! — exclamou ele, como alguém que desperta. — Ser enforcado! É absurdo. Não quero não.

— Então, adeus! — e o arquidiácono acrescentou entredentes: — Ainda volto a encontrá-lo!

“Não quero que esse diabo de homem me encontre”, pensou Gringoire, que correu atrás de dom Claude:

— Note bem, sr. arquidiácono, velhos amigos não devem guardar rancores entre si! O senhor se interessa por essa moça, minha mulher, quero dizer, e isso é ótimo. Imaginou um estratagema para que ela saia salva de Notre Dame, mas o meio que encontrou é extremamente desagradável para mim, Gringoire. Se eu achar outro… Avisarei assim que me vier alguma inspiração luminosa. Se tiver uma ideia expediente para tirá-la da má situação sem comprometer meu pescoço com qualquer nó de forca, o que me diz? Já se daria por satisfeito? Ou acha absolutamente necessário o meu enforcamento?

De impaciência, o padre arrancou os botões da batina.

— Avalanche de palavras! Qual outro meio vê?

— Perfeitamente — continuou Gringoire, falando a si mesmo e tocando o nariz com o dedo indicador, em sinal de meditação. — Achei! Os bandidos são boas pessoas. E a tribo do Egito gosta muito dela. Podem agir imediatamente. Nada mais fácil. Uma ação qualquer e, no tumulto, podem sequestrá-la. Amanhã à tarde… eles vão gostar.

— Por qual meio? — questionou o padre, sacudindo Gringoire, que altivamente se virou para ele:

— Solte-me, que coisa! Estou pensando — refletiu ainda por alguns instantes e começou a bater palmas para o pensamento que teve, gritando: — Admirável! Sucesso garantido!

— Por qual meio? — insistiu Claude, com raiva.

Gringoire estava radiante.

— Chegue perto, para que eu conte em segredo. Será uma contramina realmente boa e nos servirá a todos. Por Deus! Deve-se concordar que não sou nenhum imbecil.

Interrompeu-se:

— É verdade! A cabritinha está com ela?

— Está! E que o diabo a carregue!

— Eles a teriam também enforcado, não é?

— Que diferença faz?

— Isso mesmo, teria sido enforcada. Bem que enforcaram uma porca, mês passado. O carrasco gosta disso. Ele depois come o bicho. Enforcar minha linda Djali! Pobre cordeirinha!

— Maldição! — exclamou dom Claude. — O carrasco é você. Qual meio para salvá-la encontrou, idiota? Vou precisar arrancá-lo a fórceps?

— Muito simples, mestre! Ouça.

Gringoire se debruçou ao ouvido do arquidiácono e falou baixinho, lançando olhares preocupados para os dois lados da rua, na qual, entretanto, ninguém passava. Quando terminou, dom Claude pegou a mão dele e disse, com frieza:

— Está bem. Até amanhã.

— Até amanhã — repetiu Gringoire.

Enquanto o arquidiácono se afastava para um lado, ele foi para o outro, dizendo para si mesmo a meia-voz:

— Que belo negócio, sr. Pierre Gringoire. Pouco importa. Não é por sermos pequenos que vamos nos assustar com uma grande empreitada.

Bitão carregou um touro enorme nos ombros;423 as lavandiscas, as toutinegras e os cartaxos atravessam o oceano.

416. Literalmente: Do talhe das pedras. Não há registro dessa obra e, de autoria do bispo Balderic, ou Baudry le Rouge, morto em 1112, consta apenas Chronique de Cambray et d’Arras depuis Clovis jusqu’en 1070.

417. Ou seja, “Tribunal do bispo” e “Tribunal do rei”.

418. “Resumem-se a: alimentação, bebida, sono, Vênus, tudo de forma moderada”, em latim no original.

419. Atual cais de la Mégisserie (“dos curtidores de pelicas”), entre a ponte au Change e a praça du Chatêlet. Foi construído em 1369 e tinha esse nome por concentrar muitos vendedores de quinquilharias.

420. Na Idade Média, as matronas eram mulheres de mais de quarenta anos que recebiam uma formação de dois anos para trabalhar como parteira.

421. Em latim no original, “casamento feito com pessoa de fora do feudo”, segundo anotação do próprio Victor Hugo.

422. Político e poeta cínico grego, do séc.III a.C.

423. Bitão era filho de uma sacerdotisa (da deusa Hera) que devia, para cumprir um ritual, se dirigir ao altar num carro, mas os bois que deviam puxá-lo ainda estavam no pasto. Ele atrelou-se então ao carro e conduziu-o ao templo, sob o aplauso de todos. A história foi registrada por Heródoto, e o geógrafo grego Pausânias, do séc.II, conta, em sua Descrição da Grécia, haver ainda no templo de Corinto uma estátua de Bitão carregando nos ombros um touro.