O Corcunda de Notre Dame
7. O monge-papão
7. O monge-papão370
O ilustre cabaré La Pomme d’Ève se situava na Universidade, à esquina
da rua de la Rondelle com a rua du Bâtonnier. Era um salão no andar térreo, amplo e de teto baixo, com uma abóbada cuja base principal se apoiava num grosso pilar de madeira pintado de amarelo. Havia mesas espalhadas, reluzentes canecos de estanho pendurados na parede, sempre muitos beberrões, muitas mulheres, uma vidraça dando para a rua e, do lado de fora, um pé de vinha junto à porta. Acima dessa porta, uma berrante placa de lata, com a ilustração de uma maçã e uma mulher, enferrujada pela chuva, balançava presa num espeto de ferro. Para quem estava na rua, essa espécie de cata-vento era um chamariz.
Caía a noite. A esquina estava às escuras. O cabaré cheio de velas resplendia de longe como uma forja na escuridão. Ouvia-se o barulho de copos e comilança, com palavrões e rudes discussões que escapavam pelas janelas quebradas. Através da bruma que o calor da sala espalhava contra a vidraça da frente, viam-se misturadas cem figuras confusas e, de vez em quando, uma explosão de vibrantes gargalhadas se destacava. Os passantes que seguiam ocupados continuavam seu caminho sem nem olhar para a vitrine tumultuosa. Somente moleques esfarrapados de vez em quando se punham na ponta dos pés até a maçaneta da porta e lançavam ao cabaré o tradicional deboche que perseguia os bêbados em geral:
Aux Houls, saouls, saouls, saouls!371
Um homem, no entanto, andava imperturbavelmente diante da agitada taberna, olhando o tempo todo e só se afastando no máximo uns poucos passos da sua ronda. Usava uma capa que o cobria até o nariz. Acabava de comprá-la de um trapeiro não distante do La Pomme d’Ève, provavelmente para se proteger do frio das noites de março, mas talvez também para esconder as roupas que usava. De vez em quando, ele parava à frente da vidraça embaçada com divisórias de chumbo, ouvia, olhava e batia o pé no chão.
A porta do cabaré finalmente se abriu. Era o que ele aparentemente esperava. Dois beberrões saíram. Um facho de luz os acompanhou pela abertura purpureando por um momento as joviais silhuetas. O homem de capa ficou à espreita sob um alpendre, do outro lado da rua.
— Pelos chifres e pelos raios! — disse um dos beberrões. — Vão soar as sete horas. É a hora do meu encontro.
— Estou dizendo — acompanhou o outro, com a língua arrastada. — Não moro na rua des Mauvaises-Paroles, indignus qui inter mala verba
habitat.372 Tenho morada na rua Pain-Mollet, in vico Johannis-Pain-
Mollet.373 E tem um chifre maior do que o do unicórnio quem afirmar o contrário. Todo mundo sabe que quem cavalga uma vez um urso nunca mais tem medo, mas o amigo tem o nariz voltado à gulodice, como são Tiago do Hospital…
— Jehan, meu caro, o senhor está bêbado — dizia o outro.
E o primeiro respondeu, cambaleando:
— Pode falar à vontade, Phoebus, mas ficou provado que Platão tinha um perfil de cão de caça.
O leitor sem dúvida já havia reconhecido nossos dois bons amigos, o capitão e o estudante. Tudo indica que o indivíduo que os vigiava à sombra também os reconheceu, pois seguiu a passos lentos todos os zigue-zagues a que o rapaz obrigava o capitão que, mais experiente em bebedeiras, se mantinha em melhor estado. Ouvindo com toda atenção, o homem da capa pôde captar por inteiro a interessante conversa a seguir:
— Chifre de Baco! Trate de andar reto, sr. bacharel. Sabe que preciso ir. Já são sete horas. Tenho encontro com uma mulher.
— Pois pode ir! Vejo estrelas e lanças de fogo. O senhor é como o
castelo de Dampmartin, que estoura de risadas.374
— Pelas verrugas da minha avó, Jehan! Está insistindo demais em maluquices. Aliás, Jehan, será que ainda lhe resta algum dinheiro?
— Sr. reitor! Não tem erro, o pequeno açougue, parva boucheria.
— Jehan, meu amigo Jehan! Bem sabe que marquei encontro com a pequena no final da ponte Saint-Michel. Só posso mesmo levá-la ao covil da Falourdel, e vou precisar pagar o quarto. A velha libertina de bigodes brancos não vai querer me dar crédito. Jehan! Por favor! Será que bebemos toda a bolsa do padre? Não resta nenhum parisis?
— A consciência de ter gastado proveitosamente todas as demais horas é
um justo e saboroso condimento à mesa.375
— Barrigas e tripas! Chega de doidices! Diga, Jehan dos diabos, resta algum trocado? Empreste-me algum, benzadeus! Ou vou revirá-lo pelo avesso, mesmo que leproso como Jó e sarnento como César!
— Cavalheiro, a rua Galiache é uma rua que tem uma ponta na rua de la Verrerie e a outra na rua de la Tixeranderie.
— Concordo, bom amigo Jehan, meu pobre camarada. Muito bem com a rua Galiache, ótimo, muito bem mesmo. Mas, em nome dos céus, volte a si. Preciso apenas de um soldo parisis, e para as sete horas.
— Silêncio à ronda e atenção para o refrão:
Quand les rats mangeront les cas.
Le loi sera seigneur d’Arras;
Quand la mer, qui est grande et lée.
Sera à la Saint-Jean gelée.
On verra, par-dessus la glace.
Sortir ceux d’Arras de leur place.376
— Pois bem, estudante do Anticristo, que as tripas da sua mãe o estrangulem! — exclamou Phoebus, empurrando brutalmente o amigo bêbado contra uma parede, junto à qual ele escorregou e frouxamente se estendeu na pavimentação de Filipe Augusto.
Mas a fraterna solidariedade jamais totalmente abandona o coração de um bêbado e Phoebus, então, rolou o companheiro com o pé até um desses travesseiros de pobre que a providência mantém sempre à disposição, junto das pedras de demarcação de Paris, esses mesmos que os mais abastados desdenham, chamando amontoado de porcarias.
O capitão ajeitou a cabeça de Jehan sobre uma pequena encosta de restos de repolho e o estudante imediatamente começou a roncar com magnífica sonoridade de baixo-cantante. Mas nem todo rancor se apagara do coração do oficial:
— Azar o seu se a carroça do diabo o apanhar quando passar! — disse ao pobre adormecido, já se afastando.
O homem da capa, que não havia deixado de segui-los, parou um momento junto do estudante, parecendo indeciso. Em seguida, com um profundo suspiro, partiu no encalço do capitão.
Como eles, deixemos Jehan dormindo aos cuidados das benfazejas estrelas e continuemos também a segui-los, se o leitor assim permitir.
Chegando à rua Saint-André-des-Arcs, o capitão Phoebus percebeu que alguém o seguia. Olhando por acaso, viu uma espécie de sombra se arrastando atrás dele, junto às paredes. Parou e a sombra também parou. Voltou a andar e a sombra fez o mesmo. Ele não se preocupou.
— Para quê? — disse a si mesmo. — Não tenho um tostão.
À frente do colégio de Autun, o capitão parou. Era onde havia cursado seus vagos estudos iniciais e, por hábito antigo de aluno bagunceiro, nunca passava diante da fachada sem impor à estátua do cardeal Pierre Bertrand, esculpida à direita do pórtico, a afronta de que Príapo tão amarguradamente
se queixa, na sátira de Horácio, Olim truncus eram ficulnus.377 E agiu com
tanto zelo que a inscrição Eduensis episcopus378 quase desapareceu. Parou, pois, diante da estátua, como sempre. A rua estava totalmente deserta. No momento em que displicentemente já amarrava de novo os calções, olhando o céu, viu a sombra se aproximar a passos lentos, tão lentos que ele pôde notar que a sombra usava capa e chapéu. Chegando bem perto, o espectro parou, mais imóvel do que a estátua do cardeal Bertrand, mas pregando em Phoebus um olhar fixo e cheio dessa luz estranha que faísca à noite nas pupilas dos gatos.
O capitão era corajoso e muito pouco se preocuparia com um bandido de espada em punho. Mas a estátua ambulante, aquele homem pétreo deixou-o congelado. Corriam pela cidade histórias do monge-papão, que rondava à noite pelas ruas de Paris, e essas fábulas confusamente assaltaram a sua imaginação.
Manteve-se alguns minutos em estado de estupefação, mas afinal foi ele que rompeu o silêncio, fazendo um esforço para rir.
— Cavalheiro, se for um ladrão, como espero, me faz lembrar uma garça que ataca uma casca de noz. Sou filho de família arruinada, meu amigo. Na capela desse colégio há lenho da verdadeira cruz, guardado junto à prataria.
A mão da sombra escapuliu da capa e se abateu sobre o braço de Phoebus, com o peso das garras de uma águia. Ao mesmo tempo, a sombra disse:
— Capitão Phoebus de Châteaupers.
— Diabos! — exclamou Phoebus. — Como sabe meu nome?
— Não é somente o seu nome que sei — continuou o homem de capa e voz sepulcral. — Sei que tem um encontro esta noite.
— Tenho — respondeu Phoebus, cada vez mais surpreso. — Às sete horas.
— Dentro de quinze minutos.
— Na Falourdel.
— Exatamente.
— Um covil na ponte Saint-Michel.
— Do arcanjo são Miguel, como diz a reza.
— Ímpio! — resmungou o espectro. — Com uma mulher?
— Confiteor.379
— Que se chama…
— Smeralda — disse Phoebus satisfeito, com toda a sua jovialidade pouco a pouco retornada.
Ouvindo o nome, as garras da sombra furiosamente sacudiram o braço de Phoebus.
— Capitão Phoebus de Châteaupers, está mentindo!
Quem pudesse ver naquele momento o rosto inflamado do capitão, o salto que ele deu para trás, tão violento que se livrou do torno que o prendia, a expressão orgulhosa com que levou a mão ao punho de sua espada, e, diante dessa cólera, a impávida imobilidade do homem da capa, quem pudesse ver tudo isso se apavoraria. Tinha algo do combate de dom Juan com a estátua.
— Cristo e Satã! — exclamou o capitão. — Eis uma palavra com que raramente se afronta o ouvido de um Châteaupers! Não se atreva a repeti-la!
— Está mentindo! — repetiu a sombra com toda frieza.
O capitão rangeu os dentes. Monge-papão, fantasma, superstições, tudo foi esquecido naquele momento. Apenas um homem e uma ofensa estavam à sua frente.
— Ah! Prefiro assim! — balbuciou, com a voz abafada pela raiva. Empunhou a espada e disse, gaguejando, pois a ira faz tremer, como o medo: — Já! Agora mesmo! Vamos! Às espadas! Às espadas! Que corra sangue nesse chão!
O outro, no entanto, não se moveu e, vendo o adversário em guarda e prestes a atacar, disse, com uma voz em que vibrava o amargor:
— Capitão Phoebus! Está se esquecendo do seu encontro.
Os impulsos de homens como Phoebus são como o leite que ferve, bastando uma gota de água fria para arrefecer a fervura. Aquele simples lembrete fez baixar a espada que brilhava à mão do capitão.
— Capitão — continuou o homem. — Amanhã, depois de amanhã, dentro de um mês ou de dez anos, o senhor haverá de me reencontrar, disposto a lhe cortar a garganta, mas agora vá ao seu encontro.
— Pode ser — disse Phoebus, como se negociasse consigo mesmo. — A espada e uma jovem são duas boas expectativas para um encontro marcado, mas não vejo por que perder um deles, quando podemos ter os dois.
Meteu a espada novamente na bainha.
— Vá ao encontro — insistiu o desconhecido.
— Cavalheiro — respondeu Phoebus com certo embaraço —, muito agradeço a sua cortesia. Teremos todo o tempo do mundo, amanhã, para nos retalharmos à vontade. Fico muito reconhecido por me permitir ainda quinze agradáveis minutos. Esperava deixá-lo estendido na sarjeta e chegar a tempo para a donzela. De qualquer forma, é de bom-tom fazer as mulheres esperarem um pouco. Mas o senhor me parece em boa forma e é melhor então deixar o duelo para amanhã. Corro ao meu encontro. É às sete horas, como sabe.
Phoebus coçou a orelha:
— Ah! Chifre de Deus! Já ia esquecendo! Não tenho um tostão para pagar o pedágio à porta do paraíso e a velha cafetina vai querer pagamento adiantado. Não confia em mim.
— Isso deve bastar.
Phoebus sentiu a mão fria do desconhecido passar para a sua uma moeda graúda. Não pôde evitar pegar o dinheiro e apertar a mão generosa.
— Verdadeiro Deus! — exclamou. — Realmente é bom sujeito!
— Sob uma condição — disse o homem. — Prove que estava eu errado e o senhor, certo. Esconda-me em algum canto de onde eu possa ver que a mulher é realmente aquela de quem disse o nome.
— Ah! — respondeu Phoebus. — Isso não é um problema. Vou reservar
o quarto santa Marta.380 Vai poder ver à vontade, de um canil que tem ao lado.
— Então vamos — concluiu a sombra.
— A seu dispor — respondeu o capitão. — Não sei se não é o sr. Diabolus em pessoa. Mas sejamos bons amigos pela noite de hoje. Amanhã lhe pago todas as minhas dívidas, da bolsa e da espada.
Puseram-se a andar rapidamente. Ao fim de alguns minutos, o barulho do rio os fez perceber que já estavam na ponte Saint-Michel, então coberta de casas.
— Primeiro vou levá-lo até o lugar — disse Phoebus ao companheiro. — Em seguida busco a jovem, que me espera junto ao Pequeno Châtelet.
O homem não respondeu. Desde que andavam lado a lado, ele nada mais dissera. Phoebus parou diante de uma porta baixa e bateu com força. Uma luz apareceu pelas frestas da porta.
— Quem é? — perguntou uma voz parecendo vir de uma boca desdentada.
— Corpo de Deus! Cabeça de Deus! Barriga de Deus! — respondeu o capitão.
— O quarto santa Marta — disse ele.
A porta imediatamente se abriu, deixando que os recém-chegados vissem uma mulher velha, segurando uma lamparina velha, ambas igualmente trêmulas. A velha era encurvada, vestindo farrapos e balançava a cabeça enrolada num pano, com olhinhos miúdos e toda enrugada: mãos, rosto e pescoço. Os beiços eram chupados para dentro das gengivas e ao redor da boca brotavam fiapos de pelos brancos, que faziam pensar no focinho de um gato. O interior da casa era tão deteriorado quanto ela. Tinha paredes de taipa, vigas escuras no teto, uma lareira desmantelada e teias de aranha em todos os cantos. No centro, viam-se algumas mesas e bancos mambembes, com uma criança toda suja de cinzas brincando por ali. Uma escada capenga, nos fundos, levava a um alçapão aberto. Penetrando no antro, o misterioso companheiro de Phoebus levantou a capa até os olhos. O capitão, ao mesmo tempo em que praguejava como um sarraceno, foi logo
fazendo num escudo reluzir o sol, como disse nosso admirável Régnier.381
— O quarto santa Marta — disse ele.
A velha tratou-o de senhor e fechou o escudo numa gaveta. Era a moeda que o homem da capa havia dado a Phoebus. Enquanto ela virava as costas, o menino desgrenhado e maltrapilho que brincava nas cinzas se aproximou muito habilmente da gaveta, pegou o escudo e colocou no lugar uma folha seca que ele tinha arrancado da lenha.
A velha fez sinal aos dois cavalheiros, como passara a chamá-los, para que a seguissem e subiu a escada. Chegando no andar de cima, deixou a lamparina em cima de um baú e Phoebus, como frequentador da casa, abriu uma porta que dava para um antro escuro.
— Entre aqui, meu caro — disse ao companheiro.
O homem da capa obedeceu sem nada dizer. A porta foi fechada. Ele ouviu Phoebus trancá-la e, logo depois, descer novamente a escada com a velha. Toda claridade desapareceu.
370. No original Le moine bourru (“o monge rude, desabrido”). Segundo o Dictionnaire infernal, era uma espécie de fantasma que percorria as ruas de Paris à noite e torcia o pescoço de quem ficava à janela. Em seguida, passou a ser usado para assustar crianças que se comportassem mal, como nosso bicho-papão.
371. Houls como corruptela (e rima) para ours (urso): “Aos Ursos, bêbados, bêbados, bêbados!”
372. “Indigno quem mora entre más palavras”, em latim no original. O nome da rua, traduzido, seria Más-Palavras.
373. “Na Via Jean Pain Mollet”, em latim no original.
374. Segundo as fontes de Victor Hugo, a resistência do castelo, por ocasião de um assédio, deu origem ao “provérbio” “C’est le château de Dammartin, il crève de rire”.
375. Montaigne, Ensaios, III, 13.
376. Canção popular da cidade de Arras, tomada em 1477 por Luís XI (era vinculada à Borgonha), mas que se mantinha hostil ao rei. Cantada com alguns escorregões bêbados: “Quando os ratos comerem os casos [gatos],/ O lei [rei] será senhor de Arras;/ Quando o mar, que é grande e lée [?]./ Ficar gelado no dia de são João./ Veremos, por cima do gelo./ Sair a gente de Arras do seu lugar.”
377. “Outrora fui um tronco de figueira”, em latim no original, Sátiras, I, VIII, I.
378. “Bispo de Autum”, em latim no original, inscrição na base da estátua do fundador do colégio.
379. “Confesso”, em latim no original.
380. Santa Marta é a padroeira dos hoteleiros.
381. O verso vem da sátira Le mauvais gîte. O crítico Boileau dizia que Régnier levou as musas ao bordel. Em todo caso, foi um dos poetas menos clássicos do séc.XVII.