O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 5 de 65

Páginas do PDF

O Corcunda de Notre Dame

Nota de Victor Hugo à 8ª edição, de 1832

 

Foi um erro anunciar esta edição acrescida de capítulos novos.3 O correto

seria dizer inéditos, pois se entendermos “novos” como “recentemente feitos”, os capítulos acrescentados não são novos. Foram escritos ao mesmo tempo que o restante da obra, datam da mesma época e se originaram no mesmo pensamento, ou seja, sempre fizeram parte do manuscrito de O corcunda de Notre Dame. Mas não se trata somente disso, e o autor não aceitaria que se acrescentassem a posteriori novos desenvolvimentos a uma obra desse tipo. Não é assim que se faz. Para o autor, um romance nasce por necessidade, de certa maneira, com todos os seus capítulos, como um drama nasce com todos os seus atos. Não creiam ser arbitrário o número de partes que compõe o todo, nesse misterioso microcosmo que chamamos drama ou romance. O enxerto ou o acréscimo não vinga em obras dessa natureza, que devem brotar de uma só vez e permanecer tais quais. Feita a coisa, não se volta atrás nem se remenda. Uma vez publicado o livro, uma vez reconhecido e proclamado o sexo da obra — viril ou não — e tendo a criança dado o seu primeiro grito, tendo nascido, a sorte está lançada, sem que o pai nem a mãe possam fazer mais nada. Deixem que viva ou morra como puder; ela pertence ao ar e ao sol. O livro se apresenta malogrado? Que seja. Não tente acrescentar capítulos a um livro que não deu certo. Parece incompleto? Durante a gestação é que deveria ter se completado. Não se endireitam árvores que crescem tortas. O romance é tísico? Inviável? Não se conseguirá dar a ele o oxigênio de que precisa. O drama nasceu capenga? Por favor, não lhe aplique uma perna de pau.

Assim sendo, é importante para o autor que o público saiba que os capítulos acrescentados não foram expressamente feitos para a presente edição. Só não apareceram nas precedentes tiragens do livro por um motivo bem simples: na época em que O corcunda de Notre Dame estava sendo impresso pela primeira vez, a pasta em que se encontravam esses três capítulos extraviou-se. Era preciso reescrevê-los ou desistir deles. O autor considerou que os dois capítulos que tinham importância por seu alcance eram capítulos de arte e história, cuja ausência não comprometeria a essência do drama e do romance. O público não perceberia o desaparecimento daquelas páginas e ele, o autor, seria o único a ter conhecimento do segredo dessa lacuna. Decidiu, então, seguir adiante. Além disso, deve-se dizer, a preguiça o afastou da empreitada de reescrever três capítulos perdidos. Seria mais fácil compor um novo romance.

Agora, porém, os capítulos perdidos foram encontrados e aproveitou-se a primeira ocasião para que retomassem seu devido lugar.

Temos então a obra na íntegra, tal como sonhada pelo autor, tal como foi executada — boa ou má, perene ou frágil, mas como ele a imaginou.

Provavelmente esses capítulos recuperados apresentarão pouco interesse para as pessoas que, judiciosamente, só buscaram em O corcunda de Notre Dame o drama, o romance. Mas outros leitores talvez não achem inútil estudar o raciocínio estético e filosófico escondido no livro e apreciem, lendo-o, descobrir sob o romance algo além do romance, seguindo, que nos perdoem a expressão um tanto ambiciosa, a concepção histórica e a intenção do artista dentro da criação, como se faz com o poeta.

Para esses últimos leitores, principalmente, os capítulos acrescentados à presente edição haverão de completar O corcunda de Notre Dame, admitindo-se que valha a pena ser completado.

O autor exprime e desenvolve num desses capítulos — sobre a decadência atual da arquitetura e sobre a morte, segundo ele praticamente inevitável, dessa arte soberana — uma opinião infelizmente bem arraigada nele e bem meditada. Mas gostaria também de exprimir o quanto deseja que o futuro o desminta. Ele tem consciência de que a arte, sob todas as suas formas, pode confiar nas novas gerações, das quais se ouve pulsar, em nossos ateliês, o gênio ainda embrionário. A semente está em terra arada e a colheita com certeza será boa. Seu único receio, cujo motivo se explicita no

segundo tomo desta edição,4 é que a seiva tenha já se retirado do velho solo da arquitetura que, por tantos séculos, foi o melhor chão para a arte.

No entanto, há hoje na juventude artística tanta vivacidade, força e, por assim dizer, predestinação que, nesse momento, mesmo em nossas escolas de arquitetura, detestáveis professores formam, contra a própria vontade, alunos excelentes. Ao contrário do ceramista de que fala Horácio, que

pensava ânforas e produzia moringas. Currit rota, urceus exit.5

Em todo caso, qualquer que seja o futuro da arquitetura e a maneira como nossos jovens arquitetos, na expectativa dos novos monumentos, venham a resolver a questão dessa arte, conservemos os monumentos antigos. Inspiremos, se for possível, à nação o amor pela arquitetura nacional. É esta, declara o autor, uma das metas principais deste livro, uma das metas principais da sua vida.

O corcunda de Notre Dame talvez tenha aberto algumas perspectivas verdadeiras com relação à arte da Idade Média, essa arte maravilhosa até agora desconhecida por muitos ou, o que é ainda pior, equivocadamente conhecida por outros. Mas o autor está longe de considerar terminada a tarefa que voluntariamente se impôs. Em várias ocasiões ele já defendeu a causa da nossa velha arquitetura, já denunciou em voz alta profanações,

demolições, impiedades.6 Não desanimará. Afirmou que muitas vezes voltaria a esse tema e assim haverá de fazer. Será tão incansável em defender nossos edifícios históricos quanto teimam em atacá-los os iconoclastas das escolas e academias. Pois é desolador ver em que mãos caiu a arquitetura da Idade Média e a maneira como os estucadores hoje tratam a ruína dessa grande arte. É inclusive vergonhoso para nós, homens inteligentes que os vemos agir e nos limitamos a vaiar. E não nos referimos apenas ao que acontece no interior do país, mas também ao que se faz em Paris, à nossa porta, debaixo das nossas janelas, na cidade grande, na cidade letrada, na cidade da imprensa, da palavra, do pensamento. Não podemos resistir à necessidade de apontar, para terminar essa nota, alguns atos de vandalismo diariamente projetados, debatidos, começados, continuados e tranquilamente levados adiante sob nossas vistas, sob as vistas do público culto de Paris, desafiando a crítica com desconcertante audácia. Acabam de demolir o arcebispado; o mal não é enorme, pois o edifício era de gosto duvidoso. Porém, junto com o arcebispado, demoliu-se o bispado, raro vestígio do século XIV que o arquiteto demolidor não soube distinguir do

restante.7 Arrancou-se a espiga de trigo junto com o joio, sem distinção. Fala-se em derrubar a admirável capela de Vincennes, para utilizar as pedras em não sei qual fortificação, que não pareceu indispensável a

Daumesnil.8 Enquanto se restaura a custos altíssimos o palácio Bourbon, de pouca valia, deixam que desabem sob o vento do equinócio os magníficos

vitrais da Sainte-Chapelle.9 Há alguns dias veem-se andaimes na torre de

Saint-Jacques-de-la-Boucherie,10 e numa manhã dessas a picareta vai entrar em ação. Algum pedreiro construiu uma casinhola branca entre as

veneráveis torres do Palácio da Justiça.11 Outro castrou Saint-Germain-des-

Prés, a feudal abadia dos três campanários.12 Certamente outro haverá de

derrubar Saint-Germain-l’Auxerrois,13 não tenham dúvida. São todos pedreiros que se dizem arquitetos, pagos pela prefeitura ou por outras fontes

e que usam fardões verdes.14 Fazem todo mal de que é capaz o falso bom gosto contra o verdadeiro bom gosto. No momento em que escrevemos — espetáculo deplorável! —, um deles se apossou das Tuileries e golpeia a bela face de Philibert Delorme. Não é pequeno o escândalo da desfaçatez com que a pesada arquitetura desse referido senhor se intromete numa das

mais delicadas fachadas do Renascimento!15

 

PARIS, 20 DE OUTUBRO DE 1832

 

3. Os capítulos “Impopularidade” (Livro Quatro, cap.6), “Abbas beati Martini” e “Isto matará aquilo” (Livro Cinco, caps.1 e 2).

4. No capítulo “Isto matará aquilo” (Livro Cinco, cap.2).

5. Em Arte poética 21-22.

6. Victor Hugo publicou na imprensa diversos artigos agrupados sob o título Guerre aux démolisseurs! (Guerra aos demolidores!).

7. O palácio do Arcebispado foi construído no séc.XVII, atrás da igreja de Notre Dame, a partir de resquícios do prédio medieval do bispado. Foi saqueado durante a revolta de julho de 1830 e novamente invadido e destruído em fevereiro de 1831.

8. O general bonapartista Pierre Daumesnil foi comandante do castelo de Vincennes. Em 1814-15 defendeu-o contra as tropas da coalizão que derrubaram Napoleão, e em 1830 contra os revoltosos. A capela a que Victor Hugo se refere foi deixada em abandono a partir de 1830.

9. O palácio Bourbon foi reformado diversas vezes e abriga a Assembleia Nacional. A Sainte-Chapelle servia, na época em que foi escrito o romance, como depósito de arquivos do Palácio da Justiça, e os vitrais tinham sido cortados e substituídos por paredes de alvenaria.

10. É a torre Saint-Jacques, ainda de pé na praça do Châtelet, último resquício da igreja.

11. O palácio estava passando por obras de ampliação.

12. Em 1822 a igreja perdeu suas duas torres laterais, por falta de manutenção e por uma reforma não concluída.

13. Era a igreja oficial dos reis da França. Em 1831 foi invadida e saqueada.

14. Fardão dos membros do Institut de France, que engloba as Academias de Letras, Belas-Letras, Ciências, Belas-Artes e Ciências Morais e Políticas.

15. O rei Luís Filipe resolvera se estabelecer no palácio de Tuileries e chamou para a reforma o arquiteto Fontaine, que acabou derrubando o terraço renascentista projetado pelo arquiteto Philibert Delorme para construir nova escadaria.