O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 26 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

6. Impopularidade

 

O arquidiácono e o sineiro, como já foi dito, eram muito mediocremente

apreciados pelo povo, tanto graúdo quanto miúdo, nas vizinhanças da catedral. Quando Claude e Quasímodo saíam juntos, o que frequentemente acontecia, e eram vistos a atravessar, criado atrás do amo, as ruas frescas, estreitas e sombrias da área da Notre Dame, não raros eram os acintes, não poucos os assobios irônicos, e muitas as brincadeiras insultuosas que os acompanhavam no trajeto, a menos que Claude Frollo — o que era raro — andasse de cabeça reta e erguida, mostrando a fronte severa e quase augusta aos trocistas assustados.

Os dois circulavam pelo bairro como os “poetas” de que fala Régnier:

 

Toutes sortes de gens vont après les poètes.

Comme après les hiboux vont criant les fauvettes.252

 

Às vezes, podia ser um moleque sonso que arriscava a pele e os ossos pelo prazer inaudito de enfiar um alfinete na corcunda de Quasímodo. Quando não, alguma bela mocinha serelepe e mais atrevida do que devia, que passava rente à batina do padre, sussurrando a canção sarcástica: niche,

niche, le diable est pris.253 Ou ainda um grupo sórdido de velhas, espalhadas e acocoradas à sombra nos degraus de algum alpendre, e que ruidosamente resmungavam à passagem do arquidiácono e do carrilhoneiro, lançando entre os dentes essas encorajantes boas-vindas:

— Hum! Lá vão os dois, tendo um a alma como o outro tem o corpo!

Ou podia ser também algum bando de estudantes e soldados jogando amarelinha e que se levantava em peso para cumprimentá-los classicamente

com algumas vaias em latim: Eia! Eia! Claudius cum claudo!254

No mais das vezes, porém, a injúria passava despercebida do padre e do sineiro. Quasímodo era surdo demais para ouvir as chacotas e Claude, demasiado macambúzio.

Eia! Eia! Claude e o claudicante!

 

252. “Todo tipo de gente segue atrás dos poetas,/ Como atrás dos mochos vão gritando as toutinegras.”

253. Tradução aproximada: “Festa, festa, o diabo foi pego.”

254. “Eia! Eia! Claude e o claudicante”, em latim no original.