O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 15 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

4. Os inconvenientes de seguir uma mulher bonita à noite pelas ruas

4. Os inconvenientes de seguir uma mulher bonita à noite

pelas ruas

 

Sem saber o que fazer, Gringoire seguiu a cigana. Viu-a tomar com a cabra

a rua de la Coutellerie e tomou, então, a rua de la Coutellerie.

— Por que não? — perguntou-se.

Gringoire, filósofo prático das ruas de Paris, já havia observado que nada é mais propício ao devaneio do que seguir uma bonita mulher sem saber aonde ela vai. Há, nessa abdicação voluntária do livre-arbítrio, nessa fantasia que se submete a outra fantasia, que a desconhece, uma mistura de independência extravagante e obediência cega, algo entre a escravidão e a liberdade, que muito agradava a Gringoire, espírito essencialmente misto, indeciso e complexo, adaptado a todos os extremos, incessantemente suspenso entre todas as propensões humanas e usando uma para neutralizar outra. Ele gostava de se comparar ao túmulo de Maomé, atraído em sentidos inversos por dois ímãs e eternamente oscilante entre o alto e o baixo, entre a abóbada e o chão, entre a queda e a ascensão, entre o zênite e o nadir.

Se Gringoire vivesse nos nossos dias, como se manteria bem entre o clássico e o romântico!

Mas não era primitivo o suficiente para viver por trezentos anos, o que é

pena.117 Sua ausência é um vazio que se faz muito sentir nos dias de hoje.

Aliás, para seguir de tal forma os transeuntes (sobretudo as transeuntes), algo que Gringoire fazia de bom grado, nada melhor do que não saber onde dormir.

Ele caminhava, então, pensativo, atrás da mocinha que apertava o passo, fazendo trotar a cabra, vendo irem embora os burgueses e se fecharem as tabernas, único comércio a se manter aberto em dias como aquele.

— Afinal de contas — era o que ele mais ou menos pensava — ela tem que morar em algum lugar. As ciganas têm bom coração. Quem sabe?…

E havia, nas reticências com que ele fazia acompanhar essas hesitações do seu espírito, não sei quais ideias bastante graciosas.

De vez em quando, porém, passando pelos últimos grupos de burgueses que fechavam suas portas, ele pegava aqui e ali restos de conversas que rompiam o encanto das suas otimistas hipóteses.

Podiam ser dois velhos que se cumprimentavam:

— Mestre Thibaut Fernicle, sabe que está fazendo frio?

(Pessoalmente, Gringoire sabia disso desde o início do inverno.)

— Como não, mestre Boniface Disome? Será que vamos ter um inverno como o de três anos atrás, em 80, quando a lenha chegou a quatro soldos o estéreo?

— Isso não é nada, mestre Thibaut!, em comparação com o inverno de 1407, que foi gelado da são Martinho à festa da Candelária! Com tanta fúria que a pena do escrivão do Parlamento congelava, na sala principal, a cada três palavras! E isso acabou interrompendo o registro da justiça.

Mais adiante, viam-se vizinhas à janela, com velas que a bruma fazia crepitar.

— Seu marido lhe contou a desgraça, sra. La Boudraque?

— Não. O que foi, sra. Turquant?

— O cavalo do sr. Gilles Godin, o notário do Châtelet, que se assustou com os flamengos e a procissão deles, derrubando mestre Philippot Avrillot, oblato dos celestinos.

— Verdade?

— Plena.

— Um cavalo burguês! Que coisa! Se fosse ainda um cavalo de cavalaria, até se poderia entender.

E as janelas se fechavam. Gringoire, entretanto, perdera o fio dos seus pensamentos.

Felizmente, logo voltou a encontrá-los e os reorganizou sem dificuldade, graças à cigana e graças a Djali, pois continuavam ambas andando à sua frente. Duas finas, delicadas e encantadoras criaturas das quais ele admirava os pezinhos, as bonitas formas, as graciosas maneiras, quase confundindo as duas na contemplação. Pela inteligência e boa amizade, eram duas mocinhas; pela leveza, agilidade, destreza no andar, duas cabritas.

As ruas, no entanto, foram ficando cada vez mais escuras e desertas. O toque de recolher já havia soado há muito e começavam a só encontrar um transeunte ou outro pelo caminho, poucas luzes às janelas, com Gringoire tendo penetrado, atrás da egípcia, no inextricável dédalo de ruelas, cruzamentos e becos sem saída que formam o ambiente do antigo sepulcro de Saints-Innocents e que mais parecem um novelo de lã embaraçado por um gato.

— São ruas com muito pouca lógica! — dizia Gringoire, perdido naqueles mil circuitos que o tempo todo pareciam voltar ao mesmo, mas no qual a moça seguia um caminho que ela parecia conhecer bem, sem hesitação e com um passo cada vez mais rápido. Já ele, ignoraria perfeitamente onde se encontrava se não houvesse de passagem percebido, cruzando uma rua, a massa octogonal do pelourinho do Halles, cujo topo descoberto realçava vivamente seu recorte escuro, sobre o fundo de uma janela ainda iluminada da rua Verdelet.

Já há alguns instantes, a moça notara a sua presença e várias vezes havia olhado para trás, preocupada. Uma vez inclusive parou, aproveitando-se de um raio de luz que escapava de uma padaria entreaberta para olhá-lo fixamente, de cima a baixo. Nesse momento, Gringoire viu-a repetir o tique que já havia notado antes e depois ela seguiu em frente.

Aquele pequeno trejeito fez Gringoire pensar. Havia certamente desdém e zombaria no gracioso gesto. De forma que começou a andar de cabeça baixa, como se contasse as pedras da pavimentação, e a seguir mais de longe a moça até que, antes de chegar a uma esquina que o fazia perdê-la de vista, ouviu um grito estridente.

Apertou o passo.

A rua estava em plena escuridão. Mas uma estopa embebida em óleo e que queimava num recipiente de ferro aos pés da Santa Virgem, no canto da rua, permitiu que Gringoire percebesse a cigana se debatendo nos braços de dois homens que tentavam abafar seus gritos. A pobre cabritinha, assustada, baixava os chifres e balia.

— Cuidem-se, srs. assaltantes! — gritou Gringoire, que avançou com bravura.

Um dos homens que seguravam a moça se virou para ele. Era a formidável figura de Quasímodo. Gringoire não fugiu, mas também não avançou.

Quasímodo se aproximou, lançou-o a quatro passos de distância com uma pancada das costas da mão e rapidamente se enfiou na penumbra, levando a jovem, dobrada num dos braços como uma echarpe de seda. Seu companheiro o seguia e a assustada cabrita corria atrás deles todos, com um balir desesperado.

— Assassinos! Assassinos! — gritava a infeliz cigana.

— Parem, miseráveis, e larguem a mulher! — ouviu-se a voz de trovão de um cavaleiro que surgiu inopinadamente de uma esquina.

Era um capitão dos arqueiros da ordenança do rei, armado dos pés à cabeça e de espada em punho.

Arrancou a cigana dos braços do estupefato Quasímodo, colocou-a atravessada sobre a sela e, no momento em que o temível corcunda, refeito da surpresa, se lançou sobre ele para retomar a presa, quinze ou dezesseis arqueiros, que seguiam de perto o capitão, apareceram de gládio em riste. Era uma esquadra da ordenança real de apoio à vigilância, às ordens do sr. Robert d’Estouteville, oficial do prebostado de Paris.

Quasímodo foi cercado, preso e amarrado.

 

Quasímodo foi cercado, preso e amarrado. Rugia, espumava, mordia e, houvesse a luz do dia, provavelmente o rosto dele, ainda mais deformado pela raiva, já bastaria para fazer fugir toda a esquadra. Sendo noite, porém, não contava com a mais temível arma de que dispunha, a feiura.

Seu companheiro havia desaparecido durante a luta.

A cigana se endireitou graciosamente na sela do oficial, apoiou as duas mãos nos dois ombros dele, olhou-o fixamente por alguns segundos, encantada com sua boa aparência e com o socorro que ele acabava de prestar. Depois, rompendo o silêncio, perguntou, tornando ainda mais suave a sua voz suave:

— Como se chama, sr. gendarme?

— Capitão Phoebus de Châteaupers, para servi-la, minha bela!

— Obrigada — disse ela.

E enquanto o capitão Phoebus retorcia seu bigode borguinhão, ela escorregou do cavalo como uma flecha que cai no chão e fugiu.

Um relâmpago levaria mais tempo para desaparecer.

— Pelo umbigo do papa! — exclamou o capitão, controlando as correias que prendiam Quasímodo. — Melhor seria ter guardado a mulher.

— O que vai querer, capitão? — brincou um gendarme. — A toutinegra escapou, ficou o morcego.

 

— Capitão Phoebus de Châteaupers, para servi-la, minha bela!

117. Isto é, não era tão primitivo como no Antigo Testamento, em que os personagens vivem várias centenas de anos.