O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 60 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

7. Châteaupers em socorro!

 

Oleitor deve se lembrar da situação crítica em que deixamos Quasímodo.

O bravo surdo, atacado por todos os lados, de forma alguma perdera a coragem, mas já não tinha a menor esperança de poder salvar a egípcia. Corria então erraticamente pela galeria. Notre Dame ia ser tomada pelos bandidos. De repente, porém, uma correria de cavalos invadiu as ruas vizinhas, com uma comprida fileira de tochas e ostentosa coluna de cavaleiros de lanças em riste e rédeas soltas. Brados inflamados se espalharam pela praça como um furacão: “França! França! Rechaçando os vadios! Châteaupers em socorro! Pelo prebostado! Pelo prebostado!”

Assustados, os bandidos recuaram.

Quasímodo, que nada ouvia, viu as espadas desembainhadas, as tochas, os ferros das lanças, a cavalaria em peso, à frente da qual reconheceu o capitão Phoebus. Viu também a confusão que tomou conta dos bandidos, com alguns aterrorizados e, mesmo os mais corajosos, caindo em total desordem. Com o socorro inesperado, recuperou tanta força que lançou para fora da igreja os primeiros assediantes, que já transpunham a balaustrada da galeria.

De fato, eram as tropas do rei que chegavam. Os bandidos foram bravos. Defenderam-se de forma desesperada. Atacados lateralmente pela rua Saint-Pierre-aux-Boeufs, e à retaguarda pela rua du Parvis, estavam encurralados em Notre Dame, que pretendiam assaltar, defendida por Quasímodo. Ou seja, ao mesmo tempo, eram assaltantes e assaltados, uma singular situação, a mesma em que posteriormente, em 1640, se encontrou o conde Henri

d’Harcourt, Taurinum obsessor idem et obsessus,477 como reza o seu epitáfio, no famoso cerco de Turim, preso entre o príncipe Thomas de Savoie, a quem ele sitiava, e o marquês de Leganez, que o bloqueava.

Notre Dame ia ser tomada pelos bandidos.

 

 

A batalha foi terrível. “Para carne de lobo, dente de cão”, como diz P.

Mathieu.478 Os cavaleiros do rei, entre os quais Phoebus de Châteaupers se comportava com brio, não deram trégua e a espada se abatia sobre os que escapavam da lança. Os bandidos, mal armados, espumavam de raiva e mordiam. Homens, mulheres e crianças se jogavam nas garupas ou nos pescoços dos cavalos, se agarrando como gatos, com os dentes e as unhas dos quatro membros. Outros carimbavam com as tochas os rostos dos arqueiros. Ou enfiavam ganchos de ferro no pescoço dos cavaleiros e puxavam, dilacerando os que tombavam.

Chamou a atenção um deles, que empunhava uma foice grande e reluzente, tendo ceifado as patas de muitos cavalos. Tinha aparência terrível e cantava com voz anasalada uma canção. A cada golpe, ia traçando a seu redor um grande círculo de membros decepados. Avançava desse modo contra o miolo da cavalaria, com tranquila lentidão, balançando a cabeça e mantendo respiração regular, como um ceifador que trabalhasse num campo de trigo. Era Clopin Trouillefou. Um tiro de arcabuz acabou com ele.

As janelas tinham voltado a se abrir. A vizinhança, ouvindo os gritos de guerra dos homens do rei, aderiu à batalha e de todos os andares choviam balaços contra os bandidos. A praça du Parvis estava cheia de espessa fumaceira, riscada de fogo pelos mosquetões. Confusamente se distinguiam as fachadas de Notre Dame e do Hôtel-Dieu; maltratada esta última, e com alguns macilentos doentes a olhar das lucarnas, do alto do telhado.

Os bandidos, finalmente, cederam. O cansaço, a falta de boas armas, o susto com o fator surpresa, a fuzilaria das janelas, o bravo choque da gente do rei, tudo contribuiu para que desanimassem. Forçaram então o cerco e fugiram em todas as direções, deixando no adro um amontoado de mortos.

Quando Quasímodo, que em momento algum havia parado de lutar, se deu conta da debandada, caiu de joelhos e ergueu as mãos ao céu. Depois, louco de alegria, correu, subiu com a rapidez de um pássaro à cela da qual tão intrepidamente havia impedido qualquer aproximação. Naquele instante, um único pensamento se impunha: se colocar aos pés daquela a quem acabava, pela segunda vez, de salvar.

Quando entrou na cela, encontrou-a vazia.

 

477. “De Turim sitiante e sitiado”, em latim no original.

478. Pierre Mathieu foi advogado, escritor, poeta, dramaturgo e historiador. Gozou da confiança dos reis Henrique IV e Luís XIII e seu livro Histoire de Louis XI foi uma das fontes de Victor Hugo.