O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 51 de 65

Páginas do PDF

O Corcunda de Notre Dame

4. Arenito e cristal

 

Passaram-se os dias.

A calma pouco a pouco voltou à alma de Esmeralda. A dor excessiva, como a alegria excessiva, é algo violento, que dura pouco. O coração humano não permanece por muito tempo nos extremos. A boêmia tanto havia sofrido que só lhe restava o assombro.

Sentindo-se segura, voltou-lhe também a esperança. Estava apartada da sociedade, da vida, mas vagamente sentia não ser impossível retornar. Era como uma morta que guardasse a chave do próprio túmulo.

Sentia se afastarem pouco a pouco as imagens terríveis que tanto a haviam obcecado. Todos aqueles fantasmas horrendos, como Pierrat Torterue e Jacques Charmolue, se apagavam do seu espírito. Todos, inclusive o padre.

Além disso, Phoebus estava vivo, tinha certeza, tinha-o visto. A vida de Phoebus era o mais importante. Depois da série de abalos fatais que fez tudo desabar a seu redor, a única coisa a se manter de pé em sua alma era um sentimento, o do amor que tinha pelo capitão. Isso porque o amor é como uma árvore, cresce por si só, lança profundas raízes por todo o nosso ser e muitas vezes continua a verdejar, mesmo num coração em ruínas.

E o inexplicável é que quanto mais cega a paixão, mais tenaz. É sem se apoiar em razão alguma que ela é mais firme.

Decerto algum amargor brotava em Esmeralda ao pensar no capitão. Era igualmente horrível que também ele se enganasse e acreditasse na versão impossível, imaginando uma punhalada por parte de quem mil vezes se disporia a se sacrificar por ele. De qualquer forma, não devia querer-lhe mal por isso, pois não havia ela confessado o crime? Não tinha cedido, como fraca mulher, diante da tortura? A culpa era toda sua. Deveria ter deixado que lhe arrancassem as unhas, sem aceitar dizer aquilo. Caso voltasse a ver Phoebus uma só vez, um único minuto, precisaria de apenas uma palavra, um olhar para certificá-lo e trazê-lo de volta. Não tinha a menor dúvida quanto a isso. Confundia-se também com relação a muitas coisas singulares, como sobre o acaso da presença de Phoebus no dia da confissão de honra e a jovem com quem ele estava. Eram provavelmente irmãos. Explicação pouco razoável, mas suficiente, pois precisava acreditar que Phoebus a amava ainda e apenas a ela. Não havia jurado? Mais não precisava, ingênua e crédula que era. Além disso, em todo aquele caso, as aparências não se concentravam mais contra ela do que contra ele? Então, aguardaria. E esperaria.

Acrescente-se que a igreja, aquela vasta igreja que a envolvia por todos os lados, que a guardava e salvava, era um soberano calmante. As linhas solenes da arquitetura, a atitude religiosa de todos os objetos ao redor, os pensamentos piedosos e serenos que dali ressudavam, por assim dizer, por todos os poros, agiam espontaneamente. O edifício tinha, ao mesmo tempo, ruídos tão sacrossantos e majestosos que tranquilizavam aquela alma doente. O canto monótono dos ofícios, a resposta dos fiéis aos sacerdotes, às vezes inarticulada, outras vezes trovejante, o harmonioso brilho dos vitrais, o órgão explodindo como cem trompas, os três campanários zumbindo como colmeias de imensas abelhas, toda essa orquestração sobre a qual corria uma escala gigantesca, subindo e descendo sem parar, da multidão à torre, ensurdeciam-lhe a memória, a imaginação, a dor. Os sinos, sobretudo, a embalavam. Era como um poderoso magnetismo que aqueles vastos instrumentos copiosamente espalhassem por todo seu ser.

De modo que cada sol nascente a encontrava mais calma, respirando melhor, menos pálida. À medida que as feridas se fechavam, a graça e a beleza voltavam a seu rosto, mas de forma mais recolhida e tranquila. Também as antigas características retornaram, algo inclusive da antiga alegria, como o encantador trejeito da boca, o amor pela cabra, o gosto pelo canto, o pudor. Tinha o cuidado de se vestir, pela manhã, no ângulo morto do seu quarto, com medo que alguém dos sótãos vizinhos a espiasse pela lucarna.

Se a recordação de Phoebus deixasse algum tempo livre, a egípcia pensava às vezes em Quasímodo. Era o único laço, a única relação, a única comunicação que lhe restava com os seres humanos, com os seres vivos. A infeliz estava mais fora do mundo do que o corcunda! Nada entendia do estranho amigo que o acaso lhe havia concedido. Muitas vezes se censurava por não ser grata a ponto de fechar os olhos, mas, definitivamente, não conseguia se acostumar com o pobre tocador de sinos. Era feio demais.

Tinha deixado no chão o apito que lhe fora dado, mas isso não impedia que Quasímodo aparecesse de vez em quando, nos primeiros dias. Ela fazia então o possível para não se desviar com demasiada repugnância, quando seu salvador trazia o cesto de provisões ou a bilha d’água, mas ele imediatamente percebia qualquer reação desse tipo e ia embora com tristeza.

Uma vez, veio num momento em que ela brincava com Djali. Permaneceu pensativo por alguns instantes, diante do quadro gracioso da cabra com a egípcia. Sacudindo afinal a cabeçorra pesada e malfeita, ele disse:

— A desgraça é que pareço ainda demais um homem. Gostaria de ser totalmente animal, como essa cabra.

A cigana ergueu um olhar de espanto, ao qual ele respondeu:

— Ah, sei muito bem por quê! — e se foi.

Em outra ocasião, surgiu à porta da cela (em que nunca entrava) no momento em que Esmeralda cantava uma antiga balada espanhola da qual não entendia a letra, mas que ficara na lembrança por ter sido com ela ninada pelas ciganas, quando era criança. Vendo a feia figura que bruscamente aparecia no meio da canção, a moça se interrompeu, com um gesto involuntário de horror. O infeliz sineiro caiu de joelhos à porta e juntou, suplicante, as mãos desmedidas:

— Por favor, imploro, continue, não me mande embora — disse, cheio de dor.

Trêmula, mas sem querer afligi-lo, ela continuou a canção. Gradativamente, porém, o susto se dissipou, com a jovem se entregando inteira à sensação que a melancólica melodia lhe causava. Enquanto isso, Quasímodo permanecia de joelhos, atento e de mãos juntas como se rezasse, quase sem respirar e com o olhar fixo nas pupilas brilhantes da boêmia. Podia-se achar que ouvia a canção com os olhos.

Outra vez ainda, ele apareceu sem graça e tímido:

— Ouça — disse com algum esforço —, tenho algo a dizer.

Ela fez sinal, mostrando que ouvia. O amigo suspirou, entreabriu os lábios, pareceu prestes a falar, mas apenas olhou-a, fez um movimento negativo com a cabeça e se retirou devagar, com a testa apoiada na mão, deixando a egípcia sem saber o que pensar.

Dentre os personagens grotescos esculpidos na parede, havia um de que ele gostava em particular e com o qual parecia trocar olhares fraternos. Uma vez Esmeralda o ouviu dizer à figura:

— Mas eu não sou de pedra, como você!

Em outra ocasião, enfim, a cigana foi até a beirada da plataforma e olhou a praça, por cima do telheiro agudo de Saint-Jean-le-Rond. Quasímodo estava atrás dela. Por conta própria tomava a iniciativa de assim se colocar, querendo poupá-la ao máximo do desprazer de vê-lo. De repente, ela estremeceu. Uma lágrima e um brilho de alegria brotaram ao mesmo tempo dos seus olhos. Ela se ajoelhou à beira do telhado e estendeu aflitivamente os braços na direção da praça, gritando:

— Phoebus! Estou aqui! Diga alguma coisa, pelo amor do céu! Phoebus! Phoebus!

Sua voz, o rosto, o gesto, o corpo inteiro tinha a expressão dilacerante de um náufrago que acena em desespero à feliz embarcação que passa distante, num raio de sol do horizonte.

Quasímodo se debruçou sobre a praça e viu que o objeto daquele terno e delirante chamado era um moço, um capitão, um belo cavaleiro com reluzentes armas e adereços, que passava vaidoso na outra ponta da praça e cumprimentava com o barrete de penacho uma bela senhora que sorria num balcão. De qualquer forma, o oficial não ouvia a infeliz que chamava. Estava muito longe.

Mas o pobre surdo, sim. Um suspiro profundo se ergueu em seu peito. Ele se virou. O coração transbordava de tantas lágrimas engolidas. Os dois punhos convulsivos foram à cabeça e, ao descerem, havia em cada mão um punhado de cabelos ruivos.

A egípcia sequer o olhara e ele então reclamou baixinho, rangendo os dentes:

— Miséria! É só o que conta, ser bonito por fora!

Ela, no entanto, continuava de joelhos e gritava, extremamente agitada:

— Está descendo do cavalo! Vai entrar naquela casa! Phoebus! Não me ouve! Phoebus! Por causa daquela mulher horrível, que fala ao mesmo tempo que eu! Phoebus! Phoebus!

O surdo olhava. Compreendia toda aquela mímica. Seu olho se encheu de lágrimas, sem que nenhuma escorresse. De repente, puxou-a com delicadeza pela ponta da manga. Ela se virou. O pobre sineiro já recuperara o ar tranquilo e disse:

— Quer que eu vá chamá-lo?

Ela soltou um grito de alegria.

— Sim, por favor! Rápido! Aquele capitão, traga-o aqui. Gosto muito de você! — e beijou os joelhos dele, que não pôde deixar de balançar a cabeça dolorosamente.

— Vou trazê-lo — disse com uma voz fraca.

Virou-se e correu quase aos saltos pela escada, abafando o pranto.

Chegando à praça, viu apenas o belo cavalo preso à porta da residência Gondelaurier. O capitão acabava de entrar.

Ergueu então o olhar para o alto da igreja. Esmeralda estava ainda no mesmo lugar, na mesma posição. Ele fez um sinal com a cabeça, cheio de tristeza. Encostou-se a uma das pedras de demarcação da entrada dos Gondelaurier, decidido a esperar que o capitão saísse.

Lá dentro, era um desses dias de comemoração que antecedem as núpcias. Quasímodo viu muita gente entrar e ninguém sair. De vez em quando olhava para o alto das torres. A egípcia se movia tão pouco quanto ele. Um cavalariço veio desatar o cavalo, levando-o para a cocheira da residência.

O dia inteiro se passou assim, com Quasímodo na pedra, Esmeralda no telhado e Phoebus, provavelmente, aos pés de Fleur-de-Lys.

Finalmente veio a noite. Uma noite sem lua, noite escura. Por mais que Quasímodo fixasse o olhar na direção de Esmeralda, logo pôde distinguir apenas uma mancha branca no crepúsculo e, pouco depois, mais nada. Tudo se apagou, tudo estava escuro.

Quasímodo viu se iluminar, de cima para baixo, a fachada de janelas da residência Gondelaurier. Viu sucessivamente se acenderem as demais casas da praça. Viu também mais tarde se apagarem, até a última. Pois passou todo esse tempo a seu posto. O capitão não saía. Quando os últimos passantes se foram da praça, quando todas as salas das demais casas se apagaram, Quasímodo ficou totalmente só, totalmente no escuro. Não havia ainda lampiões no adro de Notre Dame.

Mas as janelas da residência Gondelaurier continuavam iluminadas, mesmo depois de meia-noite. Imóvel e atento, Quasímodo via passar pelos vitrais de mil coloridos uma multidão de sombras vivas e dançantes. Não fosse surdo, à medida que o rumor de Paris adormecida diminuía, teria ouvido, cada vez mais distintamente, o barulho de festa, de risos e de música, no interior da residência.

Por volta de uma hora da manhã, os convidados começaram a ir embora. Envolto em trevas, Quasímodo os olhava sob o alpendre iluminado por tochas. Nenhum deles era o capitão.

Estava tomado por pensamentos tristes. Às vezes, olhava para o alto, como quem se entedia. Nuvens grandes e escuras, pesadas, dilaceradas e arrebentadas se dependuravam como redes de dormir, enganchadas nas estrelas da noite. Eram como teias de aranha na abóbada celeste.

Num desses momentos, viu se abrir misteriosamente a porta do balcão, cuja balaustrada de pedra se recortava acima da sua cabeça. A frágil porta de vidro deixou que passassem duas pessoas, fechando-se em seguida sem fazer barulho. Um homem e uma mulher. Com certa dificuldade, Quasímodo conseguiu reconhecer o homem, que era o belo capitão, e a mulher, a jovem que, naquela manhã, do alto da mesma varanda, ele havia visto dar as boas-vindas ao oficial. A praça estava perfeitamente às escuras e uma cortina vermelha com forro fora puxada por trás da porta, no momento em que ela se fechou, sem deixar passar à varanda claridade nenhuma da sala.

O rapaz e a moça, pelo que podia deduzir nosso surdo que nada ouvia do que diziam, pareciam entregues a um caloroso tête-à-tête. A jovem visivelmente tinha permitido que o oficial a abraçasse pela cintura e resistia frouxamente a um beijo.

Quasímodo assistia de baixo à cena, ainda mais graciosa de ser vista por não imaginarem que estivesse sendo vista. Contemplava tanta felicidade e beleza com amargor. Afinal de contas, a natureza não era muda no pobre coitado e sua coluna vertebral, por mais horrivelmente torta que fosse, não se agitava menos do que qualquer outra. Pensou na miserável cota que a providência dispusera para ele e que a mulher, o amor e a volúpia eternamente passariam sob o seu nariz, sem que ele próprio algum dia pudesse ser mais do que mero espectador da felicidade alheia. Mas o que mais o dilacerava no espetáculo, trazendo indignação à tristeza, era pensar o quanto sofreria a egípcia, se visse aquilo. É verdade que a noite era das mais escuras e Esmeralda, caso houvesse permanecido no mesmo lugar (não tinha dúvida quanto a isso), estava longe demais. Ele próprio mal conseguia distinguir os enamorados na varanda. Isso o consolava.

Mas a conversa apaixonada se tornava cada vez mais animada. A jovem parecia suplicar que o oficial nada mais lhe pedisse. Quasímodo, de tudo isso, distinguia apenas as belas mãos juntas, os sorrisos molhados de lágrimas, os olhares da jovem indo às estrelas e os do capitão ardentemente fixos nela.

Felizmente, pois a moça começava a resistir muito debilmente, a porta da varanda foi aberta, uma velha senhora apareceu, a jovem ficou toda confusa, o oficial acabrunhado, e os três entraram.

Pouco depois, um cavalo pateava sob o alpendre e o brilhante oficial, abrigado numa capa noturna, passou rapidamente à frente de Quasímodo.

O sineiro deixou que ele chegasse à esquina e correu atrás, com a agilidade de um macaco, gritando:

— Ei, capitão!

O capitão parou.

— O que quer comigo esse vadio? — perguntou-se, percebendo na sombra a espécie de figura capenga que corria aos saltos na sua direção.

Mas Quasímodo já estava bem ao seu lado e afoitamente segurou as rédeas do cavalo.

— Venha comigo, capitão, alguém quer lhe falar.

— Chifres de Maomé! — exclamou Phoebus. — Um pássaro bem desgrenhado, que tenho a impressão de já ter visto em algum lugar! Ei, você! Faça o favor de largar as rédeas do meu cavalo!

— Capitão — respondeu o surdo. — Não vai perguntar quem?

— Estou dizendo que solte meu cavalo — insistiu Phoebus, já impaciente. — O que está querendo, imbecil, agarrado ao freio do cavalo? Confunde o meu corcel com a forca?

Em vez de soltar a rédea do animal, Quasímodo queria fazê-lo voltar atrás. Sem entender a hesitação do capitão, achou melhor dizer:

— Venha, capitão, é uma mulher que o espera. — E acrescentou, fazendo enorme esforço: — Uma mulher que o ama.

— Patife! — exclamou o capitão. — Acha que sou obrigado a ir ver toda fêmea que diz me amar? E se for parecida com você, cara de coruja? Diga a quem o enviou que vou me casar, e que ela pode ir aos diabos!

— Ouça — continuou Quasímodo, achando com isso acabar com tanta demora. — Venha, capitão! É a egípcia, o senhor sabe qual!

A explicação, de fato, causou grande efeito em Phoebus, mas não o que o surdo esperava. Lembremos que nosso galante oficial tinha se retirado com Fleur-de-Lys momentos antes de Quasímodo salvar a condenada das mãos de Charmolue. Desde então, sempre que visitara a residência Gondelaurier, evitava falar daquela mulher cuja lembrança, afinal, era desagradável. Fleur-de-Lys, por sua vez, achara não ser boa política contar que a egípcia estava viva. Phoebus acreditava, então, que a pobre Similar tinha morrido, há um ou dois meses. Acrescente-se que, naqueles últimos minutos, o capitão se dera conta da escuridão profunda da noite, da feiura sobrenatural e voz sepulcral do estranho mensageiro. Já era mais de meia-noite e, aliás, a rua estava deserta como quando o monge-papão o havia abordado. Além disso, seu cavalo parecia se assustar com Quasímodo.

— A egípcia? — disse ele, quase apavorado. — Vem, então, do outro mundo?

E colocou a mão no cabo da adaga.

— Rápido, rápido — disse o surdo, tentando puxar o cavalo. — Por aqui!

Phoebus deu-lhe um violento chute com a bota, em pleno peito.

O olho de Quasímodo faiscou. Esboçou um movimento para se jogar sobre o capitão. Em vez disso, se endireitou:

— Feliz que é por ter alguém que o ama! — Frisou bem a palavra alguém e, soltando a rédea do cavalo: — Vá embora!

Phoebus saiu em disparada, praguejando. Quasímodo olhou-o desaparecer na bruma da rua.

— Como pode — perguntava-se baixinho o pobre surdo — recusar tudo isso?

Voltou a Notre Dame. Pegou sua lâmpada e subiu à torre. Como havia imaginado, a boêmia continuava no mesmo lugar.

Assim que o percebeu, ela se aproximou correndo.

— Veio sozinho! — exclamou cheia de sofrimento, juntando as belas mãos.

— Não o encontrei — explicou Quasímodo com frieza.

— Devia esperar a noite inteira!

Pelos gestos, ficava clara a censura.

— Da próxima vez, vigiarei melhor — disse, baixando a cabeça.

— Vá embora!

Ele se foi. Havia decepcionado-a. Mas era melhor ser maltratado do que ter causado aquela aflição. A dor seria sua, somente.

A partir daquele dia, a egípcia não o viu mais, pois o sineiro não voltou à sua cela. No máximo entrevia, às vezes, no alto da torre, seu vulto a olhar melancolicamente na sua direção. Mas assim que o percebia, ele desaparecia.

Diga-se que ela pouco se afligiu com a ausência voluntária do pobre corcunda. No fundo do coração, preferia assim. E Quasímodo, na verdade, não tinha muitas ilusões quanto a isso.

Não o via mais, porém sentia a presença de um gênio benigno nas proximidades. Enquanto dormia, suas provisões eram renovadas por uma mão invisível. Certa manhã, encontrou na janela uma gaiola de passarinho. Havia, logo acima da cela, uma escultura que Quasímodo tinha percebido que lhe causava medo. Um dia, ao acordar (todas essas coisas se passavam sempre à noite), não a viu mais. Fora arrancada, com risco de vida para quem se atrevera a ir até lá.

Às vezes, na hora de dormir, podia ouvir uma voz oculta pelos contraventos do campanário cantar como se a quisesse ninar, uma canção triste e estranha. Eram versos sem rima, como pode um surdo compor.

 

Ne regarde pas la figure,

Jeune fille, regarde le cœur.

Le cœur d’un beau jeune homme est souvent difforme.

Il y a des cœurs où l’amour ne se conserve pas.

 

Jeune fille, le sapin n’est pas beau,

N’est pas beau comme le peuplier,

Mais il garde son feuillage l’hiver.

 

Hélas! à quoi bon dire cela?

Ce qui n’est pas beau a tort d’être;

La beauté n’aime que la beauté,

Avril tourne le dos à janvier.

 

La beauté est parfaite,

La beauté peut tout,

La beauté est la seule chose qui n’existe pas à demi.

Le corbeau ne vole que le jour,

Le hibou ne vole que la nuit,

Le cygne vole la nuit et le jour.415

 

Certa manhã, ao acordar, havia na janela dois vasos com flores. Um era de cristal, muito bonito e brilhante, mas com uma rachadura. Deixara escapar a água com que tinha sido enchido, e suas flores murcharam. O outro era um vaso grosseiro e comum de arenito, mas que conservara a água, tendo suas flores continuado viçosas e coloridas.

Não sei se intencionalmente, Esmeralda pegou o buquê murcho e, o dia inteiro, carregou-o no peito.

Não ouviu, naquele dia, a voz da torre cantar.

Mas isso pouco a preocupou. Passava os dias a fazer carinhos em Djali, a espiar a porta da residência Gondelaurier, a falar baixinho o nome de Phoebus e a preparar migalhas, com o pão, para as andorinhas.

Aliás, deixou completamente de ver e ouvir Quasímodo. O pobre sineiro parecia ter desaparecido da igreja. Certa noite, entretanto, sem dormir e pensando no belo capitão, ela ouviu alguém suspirar, perto da sua cela. Assustada, levantou-se e viu, à luz do luar, uma massa informe deitada de través diante da sua porta. Era Quasímodo que dormia em cima da pedra.

 

415. Literalmente: “Não olhe a imagem,/ Moça, veja o coração./ O coração de uma bela pessoa é muitas vezes disforme./ Há corações em que o amor não se conserva.// Moça, o abeto não é bonito,/ Não é bonito como o salgueiro,/ Mas guarda sua folhagem no inverno.// Pena! Para que dizer tudo isso?/ O que não é belo erra em querer ser;/ A beleza só aprecia a beleza,/ Abril vira as costas a janeiro.// A beleza é perfeita,/ A beleza tudo pode/ A beleza é a única coisa a não existir pela metade.// O corvo só voa à noite,/ O mocho só voa à noite,/ O cisne pode voar de noite e de dia.”