O Corcunda de Notre Dame

Victor Hugo · Capítulo 50 de 65

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O Corcunda de Notre Dame

3. Surdo

 

Na manhã do dia seguinte, ao acordar, percebeu que havia dormido. Esse

fato singular a espantou. Há tanto tempo tinha perdido o hábito do sono. Um alegre raio de sol nascente entrava pela lucarna, batendo no seu rosto. Junto com o sol, a cigana viu pela mesma lucarna algo assustador, a infeliz figura de Quasímodo. Instintivamente, fechou de novo os olhos, mas em vão; continuava vendo, através da pálpebra rosada, a máscara de gnomo, zarolha e desdentada. Ainda com os olhos fechados, ouviu a voz rude dizer com suavidade:

— Não tenha medo. Sou seu amigo. Vim vê-la dormir. Não a incomoda, não é, que a veja dormir? Não faço mal nenhum estando aqui, enquanto tem os olhos fechados. Já vou embora. Pronto, pode abrir os olhos, não me verá.

Mais doloroso do que as palavras propriamente, era o tom com que foram pronunciadas. Comovida, a egípcia abriu os olhos. De fato, Quasímodo não estava mais à vista. Ela foi até a lucarna e viu o pobre corcunda encolhido junto à parede, numa atitude lastimosa e resignada. Fez um esforço para superar a repugnância:

— Pode vir — disse a egípcia com brandura.

Vendo o movimento dos lábios, o sineiro achou estar sendo expulso. Ergueu-se então e se afastou devagar, capengando de cabeça baixa, sem nem se atrever a deixar que se visse seu olhar carregado de desespero.

— Volte! — ela gritou, mas o infeliz continuou seu caminho.

Ela se lançou fora do cubículo e correu até ele, segurando-lhe o braço. Ao sentir o contato, Quasímodo tremeu da cabeça aos pés. Ergueu o olho suplicante e, vendo que não era afastado, todo seu rosto brilhou de alegria e ternura. A jovem puxou-o de volta à cela, mas ele fincou o pé, sem entrar:

— Não, não — explicou. — O mocho não entra no ninho da cotovia.

A cigana então sentou-se com graça sobre o colchão, ao lado da cabra, que ainda dormia. Permaneceram ambos alguns instantes parados, admirando em silêncio, ele tanta graça e ela tanta feiura. A cada instante, a jovem descobria em Quasímodo uma deformidade nova. Seu olhar percorria dos joelhos tortos às costas encalombadas, das costas encalombadas ao olho único. Não conseguia entender como podia existir um ser tão desastrosamente constituído. Mas sobrepunham-se nele tanta tristeza e doçura, que ela começava a se acostumar.

Foi ele o primeiro a romper o silêncio:

— Então o que dizia era que eu voltasse?

Ela confirmou, com um gesto da cabeça:

— Foi.

Ele entendeu.

— Que pena… — explicou, hesitante. — Sou surdo.

— Pobre homem! — exclamou a boêmia, com uma expressão de afetuosa piedade.

A cigana sentou-se sobre o colchão, ao lado da cabra, que ainda dormia.

 

Quasímodo sorriu dolorosamente.

— Só faltava isso, não é? Mas sou surdo. Faz parte de mim. Horrível, não acha? E você, tão bonita!

Havia, no tom do miserável, tal consciência da própria miséria que ela não teve coragem de acrescentar uma palavra. Quasímodo, aliás, não teria ouvido.

— Nunca me dei conta, como agora, da minha feiura. Quando me comparo a você, tenho realmente pena de mim, pobre infeliz monstro que sou! Devo lhe parecer um bicho. Enquanto você é um raio de sol, uma gota de orvalho, um canto de passarinho, sou uma coisa horrível, nem homem nem animal, um não-sei-o-quê mais duro, mais chutado e mais disforme do que uma pedra!

E começou a rir, o riso mais aflito que se pode conceber no mundo. Mas continuou:

— Pois é, sou surdo. No entanto, pode vir a me dizer coisas por gestos, por sinais. Tenho um amo que assim conversa comigo. Além disso, logo saberei o que quer pelo movimento dos seus lábios, pelo olhar.

— Então, diga por que me salvou — falou ela, com um sorriso.

Enquanto ela falava, ele observava atentamente.

— Entendi — respondeu. — Pergunta por que a salvei. Esqueceu-se de um miserável que tentou raptá-la uma noite, um miserável a quem, no dia seguinte, você socorreu, no infame pelourinho. Uma gota d’água e alguma piedade é algo pelo que eu pagaria com a vida. Esqueceu-se desse miserável, mas ele não.

Ela o ouvia com profunda ternura. Uma lágrima brilhou no olho do sineiro, mas sem escorrer. Pareceu ser ponto de honra, para ele, engoli-la.

— Ouça — continuou, ao se sentir seguro de que a lágrima não escaparia —, temos duas torres altas o suficiente e alguém que caia lá de cima morre antes de chegar ao chão; se quiser que eu me jogue, não precisa nem dizer, um simples olhar basta.

Dito isso, se levantou. Aquele ser estranho, por mais infeliz que se sentisse a boêmia, despertava compaixão. Fez sinal para que ficasse.

— Não — disse ele. — Não posso ficar muito tempo. Não me sinto bem quando me olha. Só por piedade não desvia o rosto. Vou a um lugar de onde posso vê-la sem que me veja. É melhor.

Tirou do bolso um pequeno apito de metal.

— Fique com isso — disse. — Quando precisar de mim, quando quiser que eu venha, quando não sentir horror demais com a minha presença, apite. É um som que posso ouvir.

Deixou o apito no chão e saiu.